segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

TEATRO: «Cavalo manco não trota» no Teatro Municipal Joaquim Benite


Os dinheiros estão curtos para a cultura em geral e para o teatro em particular. A tal ponto que uma verdadeira instituição como a Cornucópia está em riscos de fechar. Daí que estejam a multiplicar-se peças com um só intérprete e em cenários minimalistas, muito embora bastante mais interessantes do que as inócuas produções do la féria.
Só no espaço de uma semana são quatro os monólogos, que surgem na agenda como espetáculos já vistos ou a ver e rever. O indispensável Senhor Ibrahim, que voltará a maravilhar-nos no Meridional a partir de quarta-feira, a peça do Bogosian interpretada pelo Diogo Infante ou o Adalberto Silva Silva do Jacinto Lucas Pires no próximo fim de semana no Teatro Municipal Joaquim Benite. E este Cavalo Manco não Trota apresentado neste último sábado e domingo no mesmo Teatro. E é sobre este que se justificará aqui falar. Porque é a oportunidade para ver Luís Vicente protagonizar uma nova e excelente interpretação durante os quase oitenta minutos em que personifica Miguel Torres.
A história é exemplar: um homem  confessa-se-nos enquanto está colocado perante a pergunta de um juiz sobre se se sente inocente ou culpado. Nessa altura ainda não se sabe qual foi a natureza do seu crime, mas iremos compreendê-lo à luz de todo o percurso de vida iniciado numa pequena aldeia aonde se via sempre comparado com o primo José Maria, um miúdo já com mentalidade e comportamento de contabilista, mesmo ainda de calções.
Não tardaremos a sentir empatia com esse discurso confessional em que rimos, interessamo-nos (como o ator disse em preâmbulo à peça, é esse desde sempre a essência do espetáculo teatral: o interesse), afligimo-nos até.
Porque Miguel foge de casa à segunda tentativa, quando uma Laura, filha de gente abonada, lhe recusa o convite para o baile, e vai procurando caminhos, primeiro no mar (como azeitador) e depois num progressivo caminho de ascensão económica e social em terra. Pelo meio vê friamente abatido por um patrão de ocasião um cavalo, que parte uma perna , e já não pode trotar.
O regresso ao espaço de infância será o de um vencedor, que não olha a meios para conseguir sobrepor-se a todas as humilhações passadas. O Miguel, em  cujo valor nem sequer os pais acreditavam, torna-se no homem mais poderoso da terra, capaz até de humilhar o perdulário marido da Laura dos tempos idos.
Até que a queda abrupta a partir do topo se faz num instante. Num breve momento em que ele próprio dispara sobre um outro cavalo de perna partida: o próprio filho. E é sobre esse mesmo instante que fica a pergunta: culpado ou inocente?

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