terça-feira, 17 de setembro de 2019

O pensamento mágico do Zé Gomes


Há muito tempo que não dispensava minutos de atenção ao José Gomes Ferreira da SIC (triste sina para o excelente poeta a quem espoliou o nome!) mas hoje fiquei curioso quanto ao que diria sobre o debate entre António Costa e Rui Rio. Durante uma hora e pouco víramos este último atacar o opositor para depois lhe ouvir o contra-ataque e acabar quase sempre por com ele concordar. Algo tão evidente que Marina Costa Lobo identificou a atitude como algo de incompreensível para quem pretendia afirmar-se com argumentário alternativo. A insuspeitíssima Graça Franco corroborou a ideia de uma clara derrota de Rio num debate em que António Costa limitara-se a aparar-lhe os golpes e a logo o pôr à distância sem lhe querer dar o decisivo KO. Por cansaço como aventa um dos meus amigos? - e de facto enquanto Rio fechou-se três dias na sede do PSD a preparar-se para o debate, Costa passou-os em sucessivas ações de pré-campanha com comícios diários! - ou encheu-se de caridade cristã e decidiu adotar a postura do «não quero bater mais no ceguinho»?
David Dinis, noutro comentário acima de qualquer equívoco, reiterou o que as duas parceiras de painel tinham dito e deu Costa como claro vencedor. Chegou então a vez de José Gomes Ferreira e veio a altura de gargalharmos porque, como estava à espera, ele considerou Rio um indiscutível vencedor. Depois, com aquela jactância do economista, que nunca estudou economia, ei-lo a justificar o injustificável, saltando-lhe amiúde a boca para a verdade ao reconhecer quanto Costa estivera bem.
Assassino, Dinis daria uma ferroada forte: se o Ferreira chegara a tão douta conclusão fora porque a expetativa ser tão rasteirinha quanto à capacidade de Rio resistir aos argumentos de Costa, que a aparência de algum equilíbrio entre um e outro, dera-lhe a ilusória sensação.
É claro que o debate nada de substancial terá alterado, mas as direitas andam tão desesperadas com o desastre anunciado, que agarram-se à mínima prancha para que se julguem capazes de flutuar até ao próximo dia 6 de outubro. Hoje, por exemplo, surgiu a sondagem da Pitagórica, que se limita a confirmar as do fim-de-semana. Mas como indicia uma descida do PS e uma subida diminuta do PSD já os títulos de alguns jornais refletem esse pensamento mágico.
Nem que para tal procurem casos de mínima importância sobre escolas onde ainda faltem assistentes ou hospitais onde algum anestesista falte para que proclamem a existência de um caos, que sabem completamente falso. Mas é com essa gente que temos de nos confrontar até ao dia em que depositados os votos em urna, elas se sintam finalmente afundar...

segunda-feira, 16 de setembro de 2019

Voltando aos critérios editoriais nos telejornais


Segundo post do dia sobre os critérios editoriais dos nossos telejornais, embora o anterior tenha levado alguns a olharem para o dedo em vez de seguiram o olhar para a direção para que apontava: a injustificada abertura de um telejornal com a notícia da morte de um cantor pimba.
Neste segundo caso mudamos de canal e, em vez da SIC, mudamo-nos para a RTP onde à mesma hora exibia-se José Rodrigues dos Santos com a sua habitual desfaçatez. O tema escolhido era o das sondagens com a possibilidade de maioria absoluta para o Partido Socialista e os comentadores por ele questionados eram Pedro Norton e Pedro Adão e Silva, qualquer deles atarantados com o que o interlocutor os queria forçar a dizer. Mais intimidado Pedro Norton lá ia anuindo com a possibilidade de as direitas não estarem a conseguir um discurso eleitoralmente atrativo perante as «contas certas» do Partido Socialista, o outro Pedro a conseguir libertar-se um pouco mais das peias, que o entrevistador lhe colocava e a desenvolver uma hipótese, que não conseguiria desenvolver: a de que, para além dessa evidência das «contas certas» ou da inabilidade de Rio ou Cristas, a probabilidade em causa poderia explicar-se pelo sucedido perante as lutas dos professores e dos motoristas de matérias perigosas.
Já que o pivot do telejornal não queria ouvir senão as suas obnóxias teses deveria alguém na régie dar-lhe a ordem para que permitisse ao professor do ISCTE um desenvolvimento mais prolongado da sua pertinente tese. Mas se isso sucedeu ele fez orelhas moucas, porque interessava-lhe concluir a peça com a sua própria conclusão: se o Partido Socialista conquistar a maioria absoluta não a deverá à excelência das suas políticas e ao agrado por elas suscitado junto da maioria dos eleitores, mas porque terá implementado políticas de direita, espoliando o CDS, o PSD e os nados mortos de Santana Lopes ou do Arroja, do seu discurso natural.
De José Rodrigues dos Santos já ouvimos muitos disparates. Do que escreveu não posso dizer o mesmo, porque escusei-me a perder um cêntimo ou um segundo que fosse com as suas efabulações escrevinhadoras. Mas partir do princípio de que a boa gestão económico-financeira só incumbe às direitas, porque as esquerdas são, por natureza, despesistas, só lembra ao tal Godot por que Passos Coelho suspirou no início da legislatura e nunca aos seus prosélitos compareceu. Para o pisca-pisca da RTP não passa pela ideia de que os grandes ensaístas da Economia e das Finanças sempre foram e continuam a ser homens de esquerda. O que não admira: ele ainda deve ter ficado na fase de babar-se com as teses tolas de Milton Friedman e dos seus monetaristas de Chicago.

A morte de um cantor pimba


Início do jornal da noite da SIC neste domingo com a «grande» notícia da morte de um cantor pimba luso-brasileiro. Do pouco que lhe conheci (mas demasiado para quanto os meus ouvidos suportaram anos a fio!) e para além do atroz reacionarismo político do que defendia, sobrava um inacreditável mau gosto naquilo que cantava. Tratava-se do popularucho mais tosco no seu esplendor capaz de dar razões aos brasileiros - quando as igrejas batistas ainda os não tinham convertido na maioria de mentecaptos, que elegeu o atual presidente - para olharem os portugueses segundo o estereotipo depreciativo alimentado décadas a fio pelos nossos compatriotas para ali emigrados em busca do el dorado e exagerados na ávida ganância e analfabeta soma de habilidades.
Essa «música» tinha sucesso comercial? Claro que tinha ou não contássemos ainda com tantos néscios carecidos de uma Educação com letra grande para não serem tão broncos. Não quer dizer que, em prol da higiene mental da Nação, não merecesse ser ignorada. Mas sabe-se o que pretendem as televisões e os seus donos: os pimbas de serviço são o seu seguro de vida para que as direitas a que estão enfeudadas não se grupusculizem tanto quanto merecem. É precisamente essa consciência da utilidade de tal gente, que leva Marcelo a prontamente  reagir com os convenientes pêsames. Compreende-se...

sábado, 14 de setembro de 2019

A propósito de ratings e de artigos encomiásticos na imprensa internacional


Não é por a Standard & Poor’s e outras agências de notação financeira andarem agora a melhorar o rating português, que me tomei de amores por elas. Na substância continuo a  pensar o mesmo, que aqui escrevi há cerca de dez anos, quando elas iam baixando essa mesma classificação e criavam as condições para que José Sócrates viesse a ver obrigado a pedir a intervenção da troika, com o exuberante aplauso das direitas lusas, que muito lhe sabotaram o trabalho até o encostarem à parede.
Ainda assim o reconhecimento dessas agências significa ao mesmo tempo duas coisas: por um lado não têm como negar a evolução muito positiva dos diversos indicadores financeiros nos últimos quatro anos. Se mantivessem esse rating numa classificação mais baixa só dariam razão ao descrédito com que as sabemos feridas de morte na sua duvidosa origem.
Há, por outro lado, a consonância com outros ícones do capitalismo financeiro como o são «The Economist» ou o «Financial Times», cujos encomiásticos artigos sobre o governo português tanto têm incomodado Rui Rio ou Assunção Cristas.
Se os porta-vozes do capitalismo fazem esses elogios é por estarem com as ideias à deriva a verem se apanham alguma solução para o seu idolatrado sistema económico-financeiro, que dá crescentes sinais de obsolescência.  A globalização andava a correr tão bem, que os fundos de investimento e outros atores dos mercados financeiros já salivavam por antecipação perante a possibilidade de, levando os serviços e as mercadorias standardizadas, cada vez mais baratas perante os benefícios das economias de escala e multiplicando exponencialmente o número de consumidores, darem definitiva razão ao delírio de Fukuyama sobre o fim da História.
A chatice para esses porta-vozes do capitalismo resultou da consciência de se manter bem atual a primeira frase do primeiro capítulo que Marx afixou no seu intemporal Manifesto: «a história do mundo tem sido a história das lutas de classes». E elas vêm-se revelando de formas que esses prosélitos não esperavam, porque o seu próprio monstro abriu caixas, que não esperavam sob a forma de populistas dispostos a sabotarem o lucro de cujos interesses são provedores.
É por isso que as agências de notação financeira ou as quotidianas bíblias do capitalismo olham para a experiência governativa portuguesa com a hipocrisia do príncipe de Salina em «O Leopardo»: mesmo que algo tenha de mudar vestindo-se até de cores aparentemente adversas, importa, sobretudo, que tudo deixem na mesma.
Fiquemos, pois, satisfeitos com os elogios e classificações de rating de quem nada de bom esperamos, mas não nos iludamos quanto á sua efetiva intenção...

Humano sou!


Confesso que não era particularmente apetecível a expetativa de ver o debate entre António Costa e Assunção Cristas. No regresso a casa o corpo queixava-se dos muitos quilómetros de carro, quer ao volante, quer no lugar do morto, e pedia horizontalizado descanso em desfavor da habitual irritação, que a fulaninha do CDS normalmente suscita. Porque se a razão procura conferir alguma objetividade nos juízos lá se intromete aquela súbita emotividade de a começar a insultar com as merecidas injúrias que a nefanda pose e as ainda mais execráveis palavras me suscitam. Sei que lhes deveria conferir alguma complacência, mas sou como o mercador de Veneza de Shakespeare: tenho olhos, mãos, órgãos, dimensões, sentidos, afetos, paixões. Comporto-me, pois, como o humano que sou!
Fazendo das fraquezas forças, que os anos já vão pesando, lá me posicionei como ativista de sofá (piscadela de olho ao melhor jeito do Orelhas da RTP ao Sandro Figueiredo Pires agora assombrado por essa mixórdia de temáticas, que dá pelo nome de PAN!), disposto a empatizar  com António Costa na irritação nada otimista para com a dita senhora.
Aconteceu o esperado: irritei-me com a dita! Mas, sobretudo, voltou a impressionar-me a contenção do oponente, que, logo de início, soube habilmente encosta-la às cordas e dando-lhe sucessivos jabs, diretos, cruzados, ganchos, concluídos em vistoso uppercurt, a levou quase ao knock out. A contundida sujeita foi cacarejando alguns desatinos, mas a expressão ia-se fechando, ciente de não ter conseguido arrebanhar mais um voto que fosse aos poucos que as sondagens lhe atribuem como expressão do seu trambolhão a 6 de outubro.
Para resolver de vez as irritadas meninges, abri uma garrafa de Murganheira, bebi dois copos e fui dormir o sono dos justos.  Como diria o Zeca já lá vem outro carreiro...

quinta-feira, 12 de setembro de 2019

Quando a imaturidade do PAN fica bem desmascarada


O PAN começou por me ser simpático em relação a duas causas que há muito defendo: a proibição dos espetáculos taurinos e a utilização de quaisquer animais em números circenses.
Quando enveredou pelas causas ecologistas - e mesmo tendo em conta o N de Natureza - pareceu-me atitude chico esperta de quem a sabe com potencial para garantir votos naquela camada da população juvenil com pouca ou nenhuma formação política, mas desejosa de abraçar causas que lhes garantam uma identidade e capacidade de afirmação numa sociedade marcada por grandes contradições. Daí a razão para exponenciar esse tipo de apoios ao pretender que o direito ao voto se antecipe para os 16 anos. Afinal a ecologia até vinha já sendo defendida por organizações e movimentos que, mal (Quercus) ou mais ou menos bem (Os Verdes), até vinham cumprindo esse papel.
Aí surgiram motivos para desconfiar da razão de ser de um partido já denunciado por Daniel Oliveira como coisa inorgânica e oportunista, que as circunstâncias viriam clarificar quanto aos seus propósitos. Porque, exposto ao teatro mediático, André Silva vai-se desmascarando na verdadeira natureza (aqui com minúscula) da força política que lidera. Mormente quando a diz não ser de esquerda nem de direita. Ora os muitos anos que já me trazem nesta vida deram sobejas provas de que, quando alguém diz não ser de um nem de outro lado, acaba sempre (mas mesmo sempre!) por ir parar ao lado de que quer apressar-se a dizer que não é - a direita!
A verdade é que, hoje em dia, um discurso ecologista consequente só pode ser anticapitalista, porque é à luz da predação dos recursos naturais, que o sistema económico vigente tem assegurado o persistente adiamento do seu óbito. É em função do lucro, sem olhar a como nem a quem, que as grandes sociedades financeiras andam de mãos dadas com as poderosas indústrias do petróleo e agroalimentar, e a deixar um rasto poluidor e de destruição das florestas tropicais passíveis de apressarem um autêntico apocalipse climático.
Quando André Silva diz não ser de esquerda ou de direita só está a negar o discurso pró ambiental que lhe fundamentam os argumentos para que se vote no PAN. No fundo nada distingue este partido de qualquer outra força populista, que tem andado na moda em muitos países europeus.
Foi com essa perspetiva que assisti ao debate entre André Silva e António Costa e os pressupostos anteriores só se consolidaram. Porque o que sobressaiu foi o confronto entre um «menino» inseguro e gaguejante, com dificuldade para demonstrar a substância do que diz, perante um político experiente e com argumentos consistentes difíceis de contrariar. Entre a atitude birrenta do «quero tudo e já» e a do «queremos tudo isso, mas à medida que for sendo possível», acentuou-se a diferença entre a imaturidade pueril e a sageza de quem sabe o que está a fazer.
Peguemos, por exemplo, na questão do encerramento programado das centrais do Pego e de Sines, as mais poluentes do país, por ainda recorrerem ao carvão. Quando André Silva faz finca pé de as encerrar até 2023 aventa hipóteses, que resultam do trabalho efetivo do governo nesse sentido, aproveitando-se de algo que não fez nem para o qual nada contribuiu. E claro que acreditamos em António Costa, quando diz ser possível antecipar esse encerramento conquanto o trabalho preparatório dê os esperados frutos, mas só querer arriscar-se com objetivos de cujo sucesso tem a certeza. Pela experiência destes quatro anos só temos razões para crer que assim voltará a demonstrar-se.
O outro momento em que André Silva caiu no ridículo foi a propósito do olival intensivo no Alentejo como se não tivesse sido fundamental que o país se tornasse autossuficiente em azeite e até o começasse a exportar. Quando António Costa denunciou o facto desse olival intensivo apenas ocupar menos de 5% da área do Alentejo a estrelinha que ainda vai brilhando alguma coisa para o PAN (mormente nas sondagens!) deu claros sinais de empalidecer.