segunda-feira, 22 de julho de 2019

A xenofobia como subproduto do esclavagismo


Embora o antissemitismo tenha conhecido dimensão particularmente assassina, quando a cristandade se arvorou de um fanatismo inquisitorial adotado pelos islamitas muitos anos depois, pode-se considerar que a distinção entre os brancos e os negros ficou definida a partir do momento em que as plantações de cana-de-açúcar das Antilhas se encheram de escravos trazidos da África subsariana a partir do início do século XVIII.
Embora as roças do Brasil já estivessem pejadas de gente trazida à força dessa mesma proveniência, o tráfico ainda não ganhara a escala de uma fileira comercial, que alavancaria o desenvolvimento do sistema capitalista e contribuiria para tornar obsoletas as derradeiras manifestações do feudalismo. A transformação da exploração cruel do trabalho dos cativos num negócio, que faria enriquecer banqueiros e companhias seguradoras de navios negreiros, também transformaria a ordem social, ainda empírica, numa outra bem estruturada. O racismo como vertente específica da xenofobia dos brancos teve aí um momento fundador.
Depressa, porém, a sociedade branca passou a intimidar-se com as sucessivas revoltas dos escravos, a mais bem sucedida das quais aconteceu em São Domingo, liderada de início por  Toussaint Louverture, depois por Dessalines, sob inspiração da Revolução Francesa. Aumentou a brutalidade sobre os cativos, procurando intimidá-los pelo medo. No século XIX a acumulação de capital na Europa nunca fora tão rápida por conta da exploração dos chamados «territórios ultramarinos».
Paradoxalmente a abolição da escravatura marcou o arranque em força da expansão colonial em África. Privados das mais valias até então auferidas pela diferença ente os custos de produção das mercadorias e recursos mineiros trazidos das Américas e os preços por que eram vendidos nos mercados europeus, as várias nações imperialistas viraram-se para os territórios africanos em que haviam estabelecido entrepostos e feitorias, tornando-os bases de apoio para reivindicarem os vastos territórios do interior do continente, convencidos - com razão! - de aí se encontrarem prodigiosas riquezas naturais capazes de compensarem a perda dos anteriores fluxos de transferência de capitais.
A escravatura prosseguiria nos Estados Unidos, apesar da vitória nortista sobre os confederados, porque as leis segregacionistas decretadas até aos anos sessenta, cuidaram de manter uma desproporcionada distribuição das riquezas. E, hoje em dia, multiplicam-se os exemplos de manter-se a exploração do trabalho escravo como o comprovam as imagens recolhidas na Líbia sobre leilões de infelizes apostados em saírem dos seus países para demandarem paraísos europeus e sujeitos a violências semelhantes às dos seus antepassados que, acorrentados, morreram aos milhares, para satisfazerem a ganância criminosa das cortes europeias.

domingo, 21 de julho de 2019

Trumpices, tavarices e direitos laborais


Os artigos de Miguel Sousa Tavares suscitam-me reações ambivalentes: quase sempre discordo do que defende mas, de quando em quando, acontece subscrever-lhe os conteúdos. É o caso desta semana em que verbera Marcelo por pretender-se dono da casa comum em que moramos e, sem levar em conta o sentimento maioritariamente coletivo da nação, decidiu convidar Donald Trump para cá vir exibir a sua ridícula pesporrência.
Vistas bem as coisas, que temos nós a ver com a vaidade de Marcelo em se querer selfizar com os que considera «grandes deste mundo»? Que vantagens obterá o país da visita de quem costuma delicodoçar-se com os supostos inimigos e tratar os ditos aliados como meros vassalos a quem nada custa humilhar?
A exemplo de Miguel Sousa Tavares não aceito que um cêntimo dos meus impostos seja gasto nos jantares, presentes e outras mordomias com que seja prendado o ignóbil pato bravo de Nova Iorque.
Outro Tavares, mas esse confesso amigo de Marcelo, e cujos textos justificam permanente aversão, decidiu dar conta dos seus pesadelos ao escrever no «Público» que, a acreditar nas sondagens, há fortes possibilidades de as esquerdas contarem no próximo hemiciclo com os 2/3 necessários para reverem a Constituição e conseguirem uma maioria mais do que absoluta no Tribunal Constitucional. As insónias andam-lhe garantidas, porque Rio com o seu proposto Ministério de Promoção da Saúde ou Cristas graças ao plebiscito sobre o seu mais adequado penteado, tudo fazem - sempre de acordo com o carpideiro! - os possíveis para darem plena satisfação a António Costa. Que, na tarde deste mesmo sábado, o alfinetou com a efetiva possibilidade de colocar na agenda a revisão constitucional para, entre outros problemas pertinentes, arranjar melhor solução para resolver as situações de violência de género. O João Miguel deverá ter ouvido aquelas palavras com o sobressalto de ver confirmadas as suas piores suspeitas.
No mesmo discurso, durante a Convenção organizada no Pavilhão Carlos Lopes, António Costa valorizou a recente aprovação das Lei de Bases da Saúde e da nova legislação laboral. No caso desta última o meu entusiasmo é menos vibrante, embora lhe reconheça algumas virtualidades. Mas acompanho Manuel Carvalho da Silva quando interroga a legitimidade de a ver previamente sufragada pela Concertação Social, que “está (...) longe de ser, um espelho fidedigno das relações laborais em Portugal.”
E acrescenta o antigo líder da CGTP: “submeter todas as reformas laborais à Concertação Social é assegurar que só há dois caminhos possíveis: ou a estabilização dos desequilíbrios, como agora fez, ou o aprofundamento desses desequilíbrios. As duas opções, em conjunturas diferentes, agradam a Bruxelas, à Direita e a todos os que objetivamente apostam nos baixos salários, na precariedade, na descaracterização da negociação coletiva, na colocação de toda a instabilidade no lado dos trabalhadores como caminhos para o sucesso do "mercado de trabalho".

sexta-feira, 19 de julho de 2019

Os governos húngaro e polaco que se cuidem


Não gostei propriamente que Úrsula von der Leyen fosse eleita, quando havia a hipótese de Franz Timmermans vir a ser um bem mais interessante presidente da Comissão Europeia. Mas é bom sinal que de Bruxelas se reafirme a intenção de penalizar os governos polaco e húngaro pelos desvios aos valores exigíveis para pertencer à União Europeia. Confirmam-se assim os resultados decorrentes das negociações de bastidores, que possibilitaram a eleição da antiga ministra da Defesa de Angela Merkel: mesmo sem ter existido a desejada «Geringonça» europeia ela pode vir a expressar-se por outros caminhos, que não pelos almejados atalhos.
Conquanto a meta se mantenha inalterada, pouco importa a forma como será alcançada. Porque, como dizia um antigo dirigente chinês, seja branco ou preto, de um gato só se espera que apanhe os ratos...

As previsões sempre falhadas de um suposto vate


Não sei se Centeno será ou não novo líder do Fundo Monetário Internacional. E não vejo que venha mal ao mundo que isso possa acontecer: não tivesse acontecido o inexplicável episódio num quarto de hotel de Nova Iorque e o socialista Dominique Strauss-Kahn poderia ser dado como o autor de uma viragem da organização, que pressupusesse a alteração do seu habitual carácter predatório. Nunca se esclarecerá se esse assunto de alcova terá mesmo acontecido como as autoridades federais norte-americanas descreveram se, pelo contrário, envolveu uma armadilha destinada a remover do caminho quem pretenderia garantir a continuidade da vertente mais selvagem do capitalismo.
Não vejo, por outro lado, que Centeno seja insubstituível. Como diria Clemenceau é nos cemitérios, que se encontram os que são dados como tendo tal condição. Seria confiarmos pouco em António Costa se o não soubéssemos capaz de garantir alternativa de igual competência.
Do que deveremos desconfiar é do sempre frustrado zandinga de Fafe: a confirmar-se a indigitação do ministro português para patrão de Vítor Gaspar, é mais uma das patéticas previsões de Marques Mendes que se arrisca a esboroar com fragor. Na volta nem Centeno será candidato a deputado, nem repetirá o lugar de ministro. Após tantos tiros fora do alvo como tem cara para continuar a aparecer, domingo após domingo, a atirar os seus bitaites a quem ainda tem paciência para o ouvir?

terça-feira, 16 de julho de 2019

O estertor final das Ordens e os pseudossindicatos do setor da Saúde

Ao ouvirem-se os bastonários das Ordens dos Médicos e dos Enfermeiros. ou os dirigentes dos seus novos pseudossindicatos (ou dos que sendo velhos, como é o caso do SMI se comporta como eles). os ingénuos ou ignorantes julgariam que estaríamos confrontados com um governo, que ignora os sentimentos dos portugueses e tudo faz para destruir o Serviço Nacional de Saúde, aparentemente tão amado por essas personalidades. E, no entanto, quem os ouviu perorar entre 2011 e 2015 quando, quem com eles tem afinidades ideológicas, reduzia o orçamento do setor e tudo fazia para destruir aquela tão grata conquista dos portugueses consagrada na Constituição? Quem os ouviu defender o alargamento significativo do numerus clausus  de admissão às Universidades de Medicina, havendo comprovadas intervenções corporativas quanto à imperiosidade de dificultar o aumento do número de licenciados, que seriam agora tão necessários?
Marta Temido tem plena razão, quando se dispõe a não perder tempo nem energias com quem, há muitos anos, se tem constituído como exército aliado dos que pretendem privatizar a saúde dos portugueses, fazendo-os pagar por um direito universal e tendencialmente gratuito. Porque o governo já incrementou bastante o investimento no setor e compromete-se em continuar a fazê-lo na próxima legislatura. Porque já contratou milhares de profissionais para dar satisfação ao aumento significativo do número de portugueses carecidos dos seus cuidados. Porque reduziu tempos de espera para consultas e intervenções cirúrgicas, que multiplicou o número das efetivamente concretizadas, se comparadas com os desses anos por que os bastonários e os pseudossindicalistas parecem tanto suspirar.
É precisamente por temerem ver-se derrotados no esforço para transferirem dinheiros do Estado para os grupos privados do setor da Saúde que as ordens e os pseudossindicatos porfiam nas greves e «denúncias» sucessivas. Os seus titereiros sabem que, a curto-médio prazo, podem conhecer a mesma derrota, que os grupos dos colégios privados tiveram, quando tudo fizeram para prevalecerem os seus interesses sobre os da enormíssima maioria dos portugueses, que exigem uma escola pública de qualidade e com a capacidade para abrir as oportunidades de sucesso para os seus filhos.
Acontece sempre com os rios prestes a secarem: o derradeiro fôlego antes do fim. Assim será com os que estão na trincheira pela destruição do SNS, que não conseguirão impedir que a brilhante construção gizada por António Arnaut e seus parceiros (entre os quais João Semedo) conheça dias bem mais luminosos.

segunda-feira, 15 de julho de 2019

A linha divisória entre a decência e a indignidade


A Lei de Newton sobre a equivalência entre as ações e as reações faz sentido na Física, mas também revela singular correspondência nos fenómenos políticos. Por isso podemos evocar muitos exemplos de revoluções, que se radicalizaram até à dimensão cruel dos regimes por elas derrubados, e vice-versa, reações exageradas para contrapor aquilo que os seus promotores consideraram como ruturas inaceitáveis com os seus valores e interesses.
Trump serviria de contraponto ao facto de o antecessor ter beliscado os interesses do setor da saúde com o Obamacare e, sobretudo, pela azia dos seus eleitores por terem suportado um não caucasiano na Casa Branca durante oito anos. Bolsonaro corresponderia à reversão das políticas de Lula em prol dos mais desfavorecidos. E, porque puxaram as respetivas sociedades para extremismos tão excessivos, não me admiraria que viessem a ser sucedidos nos próximos atos eleitorais por Bernie Sanders ou Elizabeth Warren no primeiro caso e pelo regressado Lula no segundo (trocando as grades da prisão com o cada vez mais desmascarado Moro).
Vem isto a propósito do tristemente célebre artigo racista de Fátima Bonifácio, que começou por merecer pronta rejeição por quem o considerou justamente execrável, mas agora vai sendo recuperado por alguns paladinos da direita, que lamentam intimamente uma sacudidela tão para a esquerda de valores, que gostariam ver normalizados e até avalizados pela comunidade académica, e se aprestam a querer convencer-nos de que o argumentário da criatura não seria assim tão detestável. Em poucos dias João Miguel Tavares (o dileto amigo de Marcelo), Henrique Monteiro e José Adelino Maltez vieram à liça defender o indefensável.
Registemos tais adesões cientes de existir uma linha de fronteira entre a decência e a indignidade e ela estabelece-se entre quem verbera ou quem apoia a autora do texto. E Tavares, Monteiro e Maltez colocaram-se no lado dos que, sem surpresa, se confirmaram no campo da desonra.

domingo, 14 de julho de 2019

Como o recurso ao medo tolhe o advento do futuro por que ansiamos


Nesta terça-feira cumprir-se-ão cinquenta anos sobre a chegada do primeiro representante da Humanidade à Lua. Na época tinha treze anos e vivi o acontecimento com a grande emoção de imaginar quão diferente seria o futuro em relação à cinzentude em que se vivia.

É verdade que a realidade excedeu - em muito! - os sonhos de então. Veio a Revolução, terminou a guerra colonial e os avanços da ciência e da tecnologia garantiram uma qualidade de vida que não podíamos imaginar porque pouco sabíamos doa ainda incipientes computadores.
Olhando para tudo quanto nos rodeia dificilmente encontramos focos de atenção, que já pudéssemos encontrar meio século atrás. Tudo mudou e o tempo foge em velocidade acelerada. De repente tudo se tornou possível, até por exemplo deixarmos de ter empregos, porque os robôs no-los sonegarão. Pelo menos é o que antevemos através de muitos artigos da imprensa escrita ou em documentários e reportagens da audiovisual.
Incutem-nos o medo. É essa uma das estratégias deste capitalismo selvagem que sabe quão perigosa é a esperança a florir nas mentes coletivas e tudo faz para as acossar com bichos-papões sempre em atualização: no tempo da guerra fria era o apocalipse nuclear, que assumiria outra forma - a de usarmos essa tecnologia para produzir eletricidade! - quando ocorreram os desastres Three Miles Island ou de Chernobyl. Caiu o muro de Berlim, apareceu um ingénuo (não tanto como isso!) a propor o fim da História, mas logo vieram os terroristas islâmicos (criados pela CIA na guerra do Afeganistão) para sentirmo-nos vítimas potencialmente aleatórias. E é agora o tempo das grandes migrações de refugiados e emigrantes económicos, que levam os mais timoratos a sentirem em risco a sociedade de bem estar, que querem fazer só sua.
Ufanos com a bem sucedida estratégia os que pretendem eternizar o capitalismo, veem aquela multidão de explorados, que deveriam ter na fraternidade e igualdade a meta para todas as suas ações, a abraçarem as extremas-direitas racistas e xenófobas.
O medo da robótica insere-se nessa estratégia: ameacem-se os que trabalham por conta de outrem com a possibilidade de serem atirados para a valeta dos sem préstimo na sociedade do futuro e eles contentar-se-ão mais facilmente com os empregos precários e mal remunerados em que gastam os dias e as energias.
Será possível ver os robôs a substituírem as pessoas na maior parte das tarefas, que hoje lhes garantem retribuição? Que imagem de sonho para os patrões, que os teriam a trabalhar vinte e quatro horas por dia e sem ameaças de greves. Mas acontecerá a uma dimensão tão vasta quanto no-lo prometem?  Esses prognósticos lembram os dos que ouvi em 1969 apontarem como prováveis as viagens interplanetárias nesta altura. Os filmes de ficção científica dos anos 60  e 70 - a começar pela Odisseia de Kubrick, acolitado no respeitável Arthur C. Clarke (e não me venham com as razões venais para ele se ter autoexilado no Sri Lanka!) - aí estão para nos recordar como o futuro vem rapidamente ao nosso encontro, mas não tão depressa quanto o pressupõem uns publicitários exagerados e até desviando-se para alternativas, que nem nos passavam pela cabeça.
Nas mais avançadas competições internacionais de robôs - que nada tenham a ver com os industriais, que só fazem repetitivamente a mesma tarefa - eles não dispensam a presença constante de um operador, que os maneja. Até os seus maiores entusiastas reconhecem a impossibilidade de reproduzir numa máquina os milhões de sensores com que a Natureza dotou o ser humano nos muitos milhões de anos, que o trouxeram ao atual homo sapiens capaz de refletir-se e melhorar-se. Por isso não se anteveem futuros em que as máquinas nos substituam. Porque nenhuma inteligência artificial conseguirá reproduzir a mistura de emoções e de análise em cada circunstância particular que garantam reações inventivas, imprevisíveis, inexcedivelmente eficazes.
Para as grandes corporações, que investem mundos e fundos na robótica na expetativa de virem a auferir de lucros ainda mais obscenos, os tais bichos-papões tenderão a desmistificar-se, mesmo quando assumem cabeleiras alaranjadas e ameaçam tudo e todos com os seus limitados recursos intelectuais.
Aos que acreditam num mundo novo a sério importa que combatam essa instituição permanente do medo como sendo mais forte do que o desejo de Utopia, essa esperança em que ela reemergirá da requalificação das do passado, tragicamente derrotadas por não estarem ainda conjugadas as condições históricas, económicas e tecnológicas para se concretizarem. Porque, ao contrário do que julgava Lenine, o Socialismo não resultaria da soma aritmética entre o capitalismo e a eletricidade.

quarta-feira, 10 de julho de 2019

Debates e pensamentos mágicos


O último debate sobre o Estado da Nação foi morno apesar das surpreendentes intervenções dos deputados do PSD, que revelaram um desespero próximo do patético, sobretudo quando Fernando Negrão prognosticou um resultado eleitoral nem sequer justificável pelo seu wishful thinking. Mais juízo revelou Assunção Cristas a quem a derrota nas eleições europeias conferiu humilde sensatez. Não fosse a brilhante intervenção de Rocha Andrade e as várias bancadas arriscavam a deixar-se levar por irreversível torpor.
Pouco fica por dizer perante a repetição por António Costa da conhecida fórmula de César (não o Carlos, mas o outro, o imperador romano!) - veni, vidi, vici. Melhor vale olhar para a próxima legislatura e o quanto ela parece prometedora para o governo, tenha ele apoio parlamentar mais alargado ou não: com a receção dos encomendados barcos para as carreiras entre Lisboa e a Margem Sul e dos comboios para a CP, para além dos novos hospitais e de todas as demais medidas tomadas para a melhoria da ampla maioria dos portugueses, que restará aos partidos da direita para minimizarem as feridas, que se vejam obrigados a lamber? Poderão apostar nos meios de comunicação social favoráveis e com os falsos sindicalistas, que multipliquem greves sem razão, mas estes quatro anos bastaram para concluir que, mesmo perante uma imprensa ferozmente desafeta, o governo superou todas as mentiras e manigâncias contra ele arquitetadas e soube esperar pelo cansaço de muitos desses «defensores» das respetivas classes que, dificilmente, conseguirão mantê-las mobilizadas perante o insucesso das suas sucessivas «lutas».
Se não gosto de dar razão a Marcelo no que quer que seja, abro a exceção para a sua previsão quanto a uma longa travessia no deserto pelos que são os seus parceiros de trincheira...
E ainda bem que assim será! Sem pensamentos mágicos à mistura!!!

História? Não! Antes pequenas estórias do nosso quotidiano!


«Podemos? Não, não podemos.» foi o nome da crónica com que Fátima Bonifácio pretendeu dar uma caução académica ao discurso xenófobo e racista, que vemos exposto sem eufemismos pelo Basta ou pelo PNR. Confiante em que a levavam a sério apenas pelo facto de Ricardo Costa e os diretores de informação dos demais canais televisivos lhe darem tempo de antena nalguns debates, a autora do texto viu caírem-lhe em cima milhares de indignados opositores, que a forçaram ao silêncio quando dela quiseram obter algum comentário sobre tal reação pública.
O próprio diretor do «Público», que acedera a inserir tão nefandas opiniões nas colunas do seu jornal, teve de dar a mão à palmatória reconhecendo que a liberdade de expressão tem limites manifestamente ultrapassados pelo discurso de ódio da sua putativa colaboradora.
Nos próximos tempos poderemos ver-nos poupados a que ela ou Rui Ramos, que se filia na mesma linha ideológica, venham prosseguir o esforço pela banalização do mal inerente às suas conhecidas posições extremistas. É que, nas últimas décadas, as faculdades dedicadas aos saberes humanísticos viram-se atulhadas de gente decidida a ocupar-se da História já não tanto na perspetiva dos vencedores - porque a Revolução do 25 de abril os derrotou! - mas nela buscando uma persistente desforra. Conciliando essa promoção de ultradireitistas, a quem por exemplo o «Expresso» confiou a responsabilidade por alguns livros de História seccionados em várias semanas,  com a repetida emissão pela RTP (agora no canal Memória) dos repulsivos programas de José Hermano Saraiva, quem tem estado por trás desse esforço procura dar aos portugueses uma leitura pervertida de quem foram, quem são e, sobretudo, serão, manipulando-lhes a identidade coletiva de forma a desviá-los das tentações esquerdistas de há quarenta e cinco anos e que se vêm mantendo, eleição após eleição, através da quase contínua constatação de votarem em mais de 50% pelos partidos dessa área.
Enquanto as esquerdas se dividiram, permitindo o facilitado acesso das direitas ao poder, esses setores andaram mais descansados. O problema foi o do acordo histórico de há quase quatro anos, que possibilitou a pacificada governação desta legislatura quase terminada. Daí o recurso a todos os argumentos populistas, que julgam recetíveis pelas camadas mais correiodamanhãzadas camadas do eleitorado. Até ver o tiro de Fátima Bonifácio saiu-lhe pela culatra e deve-a ter deixado merecidamente combalida.
A ela ou a Rui Ramos, como sucedeu com José Hermano Saraiva torna-se absurda a sua designação como «historiadores». Não é a História com h grande o que eles praticam ou praticaram. Na realidade eles são meras personagens de episódicas estórias da nossa vida coletiva.

segunda-feira, 8 de julho de 2019

Os bons augúrios para médio prazo


A entrevista de Mariana Vieira da Silva ao «Público» é-me particularmente grata porque diz aquilo que eu mesmo penso relativamente ao próximo governo saído das eleições de 6 de outubro: tenha ou não maioria absoluta, o PS deve manter as alianças atuais, que garantiram a concretização do que de melhor foi conseguido nestes quatro anos.  Sem perderem a sua identidade programática, política e ideológica, os quatro partidos da maioria parlamentar souberam convergir no essencial para melhorarem muito significativamente a qualidade de vida dos portugueses.

É certo que existe um Mário Nogueira a fazer figura de exceção a uma regra comprovada em quase todas as ocasiões, mas convenhamos que alguns socialistas também tudo têm feito para torpedear uma convergência em que se sentem visivelmente incomodados. E existe a Lei de Bases da Saúde em que, quero crer, a absurda preservação das PPP’s se deverá mais à prometida guerra de Marcelo ao novo diploma do que à efetiva força do lobby interno dos hospitais e clínicas privadas para as manterem como exequíveis no futuro.
Daí que, a exemplo de Mariana Vieira da Silva, sinta orgulho em pertencer a um partido que derrubou um muro histórico e fez o acordo com os partidos que estão à sua esquerda no Parlamento.
Quanto ao conteúdo complementar da peça jornalística fica a decisão de contratação de mais mil técnicos qualificados para a Função Pública como resposta à necessidade de corresponder ao envelhecimento dos recursos humanos com a contratação de quem lhe virá trazer imprescindíveis saberes. E há o gráfico abaixo, que dispensa grandes comentários: enquanto nos quatro anos de desgoverno de Passos Coelho e Paulo Portas o emprego público decresceu a pique a recuperação tem vindo a ser continuamente assegurada desde que os vimos pelas costas.
Serão esses os bons augúrios da próxima legislatura!

domingo, 7 de julho de 2019

Património da Humanidade?!


Vai por aí grande foguetório por causa da aceitação da Unesco em integrar o Palácio Nacional de Mafra e o Bom Jesus de Braga nos monumentos reconhecidos como Património Mundial da Humanidade, mas será bom lembrar a importância do desempenho do embaixador António Sampaio da Nóvoa nesse sucesso ao mesmo tempo que se devem evocar algumas reservas quanto ao mérito de um e outro monumento.
Mafra continuará a ser o símbolo do despesismo de um poder autocrático, que esbanjou as riquezas do Brasil para satisfazer o capricho de quem demorara a cumprir uma das tarefas que lhe estavam incumbidas, a de garantir sucessão. O «Memorial do Convento» bem denuncia o sofrimento de quem teve de acartar com as pedras, os sinos e demais materiais para cumprir a vontade real enquanto em Lisboa se queimavam cristãos-novos por conta da vontade dos inquisidores.
Na realidade o Palácio de Mafra nada tem de arquitetonicamente admirável para além da dimensão de quem o quis equivalente à prosápia do seu encomendador, valendo sobretudo por ter suscitado no melhor dos nossos escritores uma notável obra literária justamente premiada com o Nobel. Mas nem isso o presidente da câmara de então o quis reconhecer por mais que hordas ininterruptsa de turistas ali se têm deslocado desde então só para verem o cenário do romance. Quando alguns professores quiseram dar o nome do escritor à escola secundária da vila o autarca logo a ideia vetou.
Por todas esses motivos convenhamos que só vejo razão para o Palácio de Mafra ser Património da Humanidade por ter estimulado Saramago a escrever uma das grandes obras da língua portuguesa e não tanto pelo que, mais carrilhão, menos carrilhão, o edifício e a sua tapada verdadeiramente mereçam.
Quanto ao Bom Jesus, valha-me o tal Deus em que não acredito. Para além da escadaria a incitar os crentes a fiarem-se de ser árduo o caminho até à salvação, e umas capelas sem nada de interessante a justificar que nelas estaquemos, que mérito possui o monumento? A vista lá de cima até pode ser aprazível, mas o verdejante Minho não é propriamente o tipo de paisagem, que me suscite entusiasmos.
Deixe-se, pois, acabar o foguetório para reconhecer que, acabados os injustificados brios nacionalistas nem Mafra, nem o Bom Jesus, passam a valer mais do que já valiam.

sexta-feira, 5 de julho de 2019

A dinamização do mercado de arrendamento da habitação


Nunca nenhum governo até hoje tomara tal iniciativa e por isso ela é merecedora de justificados aplausos: a mobilização de 29 imóveis públicos para o arrendamento habitacional acessível, através do Fundo Nacional de Reabilitação do Edificado (FNRE). Para além de rentabilizar edifícios atualmente a só implicarem despesas, o governo procura dar sequência às medidas legislativas já implementadas para dinamizar o mercado da habitação e sustentadas na primeira Lei de Bases da Habitação, que as esquerdas agora cuidarão de aprovar na Assembleia da República.
É claro que há quem diga que lhe sabe a pouco tendo em conta que o programa agora aprovado só envolverá uma percentagem pouco significativa dos imóveis devolutos detidos pelo Estado, mas quem vem emitir críticas em vez dos merecidos elogios nunca teve a  ousadia de levar por diante uma tão louvável decisão.

Uma pergunta muito inocente


A notícia do financiamento clandestino da campanha presidencial de Cavaco Silva pelo grupo Espírito Santo confirmou as suspeitas sobre o afã com que ele defendera a «solidez» do banco em causa quando, nos meios económicos, a bancarrota já se anunciava.
Olhando para tal exemplo, e tendo em conta que Marcelo Rebelo de Sousa também era frequentador assíduo desses convívios promíscuos entre os grandes grupos económicos e alguns atores políticos, pode-se perguntar inocentemente, que misteriosas razões o levam a defender os interesses privados na Saúde com tão persistente afã.
Será caso para perguntar o que encontraria o Ministério Público se se dedicasse a vasculhar quem eram os clientes do atual Presidente da República quando, além dos recebidos como professor na Faculdade de Direito e entertainer televisivo, aumentava os rendimentos por conta dos pareceres encomendados por quem dele pretendia ver fundamentados os seus interesses com parciais juízos de emérito constitucionalista. O que iriam encontrar os procuradores? Será que essa reiterada intenção em fazer-se provedor dos lucros dos grandes grupos privados encontraria elucidativa explicação?

Guantanamo: onde caiu o véu da hipocrisia


Em setembro de 1991, quando nem oito meses haviam decorrido desde a sua investidura como presidente do Haiti, Jean-Bertrand Aristide, foi derrubado por um golpe de Estado, que se traduziu numa sangrenta repressão sobre a população, confrontando-a com o regresso das piores práticas dos tontons macoutes do tenebroso Papa Doc.
Desesperados, muitos milhares de haitianos meteram-se em barcos e procuraram chegar aos Estados Unidos, que tinham na Casa Branca o pai Bush. Nas águas do Caribe multiplicaram-se as mortes dos que viram as frágeis embarcações afundarem a pique sem que houvesse quem as socorresse. Tratassem-se de cubanos escapados da ilha de Fidel de Castro e outra seria a atitude da Coast Guard. Como não o eram foi precisamente para a ponta sul de Cuba, que se viram direcionados enquanto prisioneiros sem quaisquer direitos, nomeadamente o de recorrerem a advogados.
O estatuto da Base de Guantánamo como prisão fora da jurisdição das leis norte-americanas viria a replicar-se com os prisioneiros para ali transferidos sob a acusação de serem membros da Al-Qaeda. Para quem é tão pródigo em condenar os métodos ditatoriais de regimes ditos comunistas este reverso guantanamiano bastaria para denunciar-lhes a hipocrisia. Porque nenhum tribunal validou suspeições em muitos casos esclarecidas como falsas ou exageradas. À luz da legislação internacional, que tem em Haia as instituições representativas, o comportamento norte-americano em relação aos presos em causa constitui manifesto crime, que só o poderio imperialista impede ser sancionado.
Uma reportagem liderada pelo prestigiado jornalista norte-americano Arun Rath ilustra a prepotência da Casa Branca e do seu Departamento da Justiça ao focalizar-se na triste sina do iemenita Mansur al-Dayfi, que Obama entregou ao governo sérvio em julho de 2016 para que o mantivesse em  semiliberdade muito vigiada, e que não vê condições para retomar a normalidade da sua existência após um longo cativeiro de dezasseis anos.

quarta-feira, 3 de julho de 2019

Como a estratégia imperialista está a enfraquecer a Europa


A impossibilidade de se chegar a algum consenso quanto às lideranças europeias tem de se imputar à herança de Durão Barroso enquanto esteve à frente da Comissão para cumprir as ordens de quem o promoveu àquele cargo para cumprir a etapa final da fase Guerra Fria do Ocidente contra a Rússia pós-soviética. A pressa com que os países anteriormente vinculados ao Pacto de Varsóvia foram puxados para o lado da NATO, decerto com a ajuda de muito dinheiro fluído através dos agentes da CIA ali colocados, traduziu-se na sua trágica viragem para as direitas mais extremas. E são elas quem estão a servir de idiotas úteis a quem, no outro lado do Atlântico, afina as miras contra a China na convicção de ter, entretanto, neutralizado a concorrência comercial e política da Rússia e da Velha Europa, tal qual a designava Donald Rumfeld.
E ainda há quem por estas bandas continue a perorar sobre as vantagens das relações transatlânticas! «Amigos» daqueles é pô-los a muitas léguas de distância...