quarta-feira, 22 de maio de 2019

Que nos tornemos ativamente imprescindíveis!


Há homens que lutam um dia e são bons, há outros que lutam um ano e são melhores, há os que lutam muitos anos e são muito bons. Mas há os que lutam toda a vida e estes são imprescindíveis.
Bertolt Brecht
Por muito que o diretor do «Público» porfie em encontrar, por estes dias, matérias noticiosas passíveis de serem agarradas como chavões por Rio ou Cristas para suprirem a falta de ideias para o país verdadeiramente substantivas e convincentes para um melhor futuro para o país, não consegue evitar os sinais dados pela dinâmica da campanha eleitoral, reiterada pelo que nos dizem as sondagens publicadas no seu próprio jornal. De facto as sondagens da Universidade Católica para o jornal da Sonae e para a RTP demonstram várias evidências:
 - que o PS está confortavelmente à frente do PSD, quer nas europeias (dez pontos), quer nas legislativas (onze pontos);
 - que uma vitória no domingo servirá de alavancagem para outubro, não sendo tão despicienda a possibilidade de uma maioria absoluta quanto os analistas desta previsão no-lo querem fazer crer. É que o intervalo inerente aos 39% anunciados, está em 42% no seu patamar superior;
 - que a distância entre os partidos de esquerda (57%) e os da direita se ampliam (36%);
 - que os novos partidos da direita, recentemente eclodidos quais cogumelos, não conseguem deixar de ser grupúsculos sem dimensão significativa nos favores do eleitorado;
 - que as opções de Rio pela demagogia primária e de Cristas pela gritaria histérica não conseguem a atração pretendida;
Podemos considerar que é incompreensível ver o eleitorado de direita estabilizado nos mesmos 37%, que dera ao PàF há quatro anos. Isso demonstra a necessidade de continuar a trabalhar persistentemente junto dos cidadãos para os convencer quanto à sua paradoxal filiação em siglas contrárias aos seus interesses específicos. É que não se compreende como pensionistas ainda votem nos partidos, que lhes queriam cortar os rendimentos, por muito que saibamos quanto padres e bispos lhes azucrinam as cabeças nesse sentido. Ou que quem trabalha em empregos precários e mal pagos apoie quem entende ser essa, na consolidação desse modelo económico e social, a chave para a prosperidade do país. Ou ainda esses jovens que, no escalão entre os 18 e os 24 anos, se mostram mais favoráveis ao PSD do que ao PS, como se fosse a direita a poder garantir-lhes propinas, passes sociais ou residências universitárias mais baratas.
As sondagens da Universidade Católica são muito animadoras, mas não são de molde a permitir descontraída redução dos esforços de todos nós, os militantes e simpatizantes dos partidos de esquerda, para que o país mude no sentido de maior justiça social. Como referia Bertolt Brecht na sua célebre máxima, temos de ser imprescindíveis!

segunda-feira, 20 de maio de 2019

O anunciado crepúsculo da extrema-direita austríaca


O escândalo, que abalou a Áustria a partir do momento em que se descobriu a intenção do líder do partido de extrema-direita FPÖ em garantir o financiamento de um oligarca russo, situação denunciada pelo «Der Spiegel» e que precipitou a queda do governo de Viena a que pertencia, vem demonstrar três conclusões: que o limite de crescimento dos partidos dessa natureza acaba por evidenciar-se, quando se desmascara a venalidade dos seus líderes. Não olhando a meios para cumprirem os objetivos, será fácil armadilha-los - como agora sucedeu - para que revelem a sua verdadeira natureza.
Em segundo lugar há a considerar que Steve Bannon poderá ser, sobretudo, um produto de marketing, sem dinheiro bastante para subsidiar os seus cúmplices europeus porque, à falta de quem os financie, os fascistas europeus viram prioritariamente as suas antenas para a Rússia.
E, enfim, o oportunismo do primeiro-ministro Sebastian Kurz, que viu no caso a possibilidade de fazer crescer o próprio partido - teoricamente da direita tradicional, mas muito encostado ao até agora parceiro de coligação -, para virar a seu favor um caso, que o deveria também comprometer. Ou não foi por sua vontade, que Heinz-Christian Strache chegou a segunda figura na hierarquia do demissionário governo?

As multidões socialistas e os desprezados passeios dos partidos das direitas


Não serão necessárias muitas linhas para definir a forma como decorreu a campanha eleitoral neste fim-de-semana. As deslocações de António Costa e Pedro Marques aos Açores e à Madeira foram entusiasmantes prenunciando a forte hipótese de sucesso nas regionais de setembro na segunda dessas Regiões Autónomas. As televisões bem quiseram explorar a presença de menos participantes do que os esperados no comício de Guimarães, mas, mesmo apesar de benfiquistas e portistas faltarem à chamada para aferirem quais celebrariam a vitória no campeonato de futebol, tomara qualquer dos demais partidos concorrentes alcançarem metade, ou mesmo um quarto, dos efetivamente presentes nessa ação.
Paulo Rangel continua a proferir discursos ignóbeis, cujo verdadeiro significado revelou involuntariamente  durante a passagem da sua campanha por algumas terras minhotas. Convidado a dançar o vira com o grupo folclórico contratado para lhe animar a festa, cedo se escusou a pretexto de não ser grande dançarino. Já o adivinhávamos, mas um homem  pequeno não ser talentoso enquanto bailarino, só denuncia a velhacaria, que lhe vai na mente.
Jerónimo de Sousa disse uma evidência, que dificilmente conseguirá sobrepor-se ao injusto maniqueísmo dos media, quando verberam a simpatia do PCP pelo regime da Coreia do Norte. É que esses mesmos meios de comunicação nada parecem ter a dizer a propósito da cumplicidade dos partidos das direitas com os odiosos regimes parafascistas da Polónia ou da Hungria.
Será caso para questionar o que será mais escandaloso: a empatia com o regime de Kim Jong-un ou a ativa parceria com Viktor Orban e com o sobrevivente dos gémeos Kaczyński?
No Bloco as salas dos comícios continuam restritas em participantes, mas a Marisa Matias veio colocar uma questão a ter em conta: a possível imposição da Comissão Europeia da privatização da Segurança Social para possibilitar a exploração financeira das pensões de reforma dos cidadãos europeus. Não tenhamos dúvidas que, sempre procurando novas formas de satisfazer a ganância os grandes bancos tudo farão para abocanharem esse imenso maná.
Quanto a Nuno Melo e Assunção Cristas, que mais poderemos dizer sobre tão odiosas criaturas?  Vão passeando por feiras e por jantares com poucas dezenas de convivas e proferindo mentiras, que pretendem fazer passar por axiomas incontestáveis. No discurso do cabeça-de-lista há uma óbvia proximidade com o existente nas extremas-direitas europeias, cujo efémero, mas inquietante, sucesso, gostaria de replicar. Mas não terá sorte alguma: a haver alguma justiça continuará a ser o único representante do seu partido em Bruxelas, ficando aquém da votação do Bloco e do PCP, ficando exposta a merecida dimensão de integrar o mais ínfimo de entre os grandes partidos, aquele que o futuro reservará a uma grupusculização, prenunciadora da  definitiva extinção.

domingo, 19 de maio de 2019

A oportunidade para acabar de uma vez por todas com as comendas


Nos últimos anos da atividade profissional assisti ao colapso de um dos grandes mitos das décadas anteriores: o de sermos bafejados pela «sorte» de contarmos com gestores geniais, que conseguiam transformar em ouro tudo quanto tocavam. Os subsídios europeus eram fartos e os mais espertos cuidavam de lhes abocanharem a maior parte, apresentando-se aos compatriotas como eivados de poderes superiores, quase mágicos.
Veja-se o exemplo de João Rendeiro, que viu o seu Banco Privado Português falir na semana de apresentação de uma hagiografia, ironicamente, intitulada «Um Toque de Midas». E já tinham empalidecido as auréolas por cima das augustas cabeças de Jardim Gonçalves ou de Paulo Teixeira Pinto ao envolverem-se na guerra pela liderança do BCP. Ou começavam a estranhar-se as opções de Zeinal Bava ou Henrique Granadeiro nessa joia da coroa, que era a PT. Só faltava a família Espírito Santo revelar-se no seu engenho, que era também o de Horácio Roque, poupado pela oportuna morte para se livrar da anunciada bancarrota.
Vivia-se o tempo em que Joe Berardo era admirado pela sua inverosímil história: enriquecera nas minas da África do Sul e aterrara em Lisboa para dar a conhecer a prodigiosa coleção de arte moderna iniciada com a colaboração de Francisco Capelo nos anos noventa. Sabíamo-lo pouco dado à etiqueta, mas aceitávamo-lo no lote dos fazedores de dinheiro, que as capas da «Exame», e de outras publicações económicas, convertiam em ícones, depois replicados como tal nas revistas cor-de-rosa.
Bastava pertencer a essa elite endinheirada para que os presidentes da República lhes multiplicassem as comendas. Como lembrava Manuel Carvalho no «Público» de ontem, regressávamos aos tempos de Almeida Garrett, quando se caricaturava o gosto dos governantes pelas condecorações e atribuições de títulos com a célebre frase “Foge cão que te fazem barão. Para onde, se me fazem visconde?”
Nos 45 anos de Democracia cinco presidentes atribuíram quase dez mil comendas. E isso é algo que importa mudar, porque em nada dão proveito ao povo, apenas servindo para dar satisfação ao narcisismo dos contemplados. Que, como se tem visto, depressa tendem a revelar a venalidade dos comportamentos privados, na antítese das suas muito propaladas virtudes públicas.
A exemplo de outras instituições obsoletas - as touradas, as peregrinações a Fátima, as claques de futebol, os cultos evangélicos - a atribuição de comendas deveria ser abolida. O Tempo, que Yourcenar definiu como grande arquiteto, é também o melhor filtro para definir quem é, ou não, merecedor do duradouro respeito das gerações vindouras. É que, de facto, quase todos os comendadores usufruem da fátua vaidade de se julgarem acima daqueles que lhes são iguais, se não mesmo muito superiores em merecimento.

sábado, 18 de maio de 2019

As direitas nos seus labirintos


Durante uma semanas o script  das direitas e dos médias, com elas cumpliciados para desqualificarem o Partido Socialista, parecia insuperável: as televisões e os jornais escondiam grande parte das ações quotidianas de Pedro Marques, alegavam o quanto estava frouxa a pré-campanha do candidato, e serviam de altifalante a Rio e a Cristas, que glosavam ininterruptamente o tema para que a falsidade muitas vezes repetida conseguisse soar como verdadeira.
Não estando ainda contentes, essas mesmas direitas associaram-se ao BE e à CDU na questão dos professores, crendo assim ajuntar outro argumento forte à sua estratégia: o partido do governo estaria tão desacreditado, tão desprezado pelos eleitores que, além de frouxa, a campanha mostrava o quanto ele se isolara até dos parceiros parlamentares com que assentara a governação dos últimos três anos e meio.
A esperteza saiu-lhes cara: não só a pressa em arranjarem argumentos, que escamoteassem o verdadeiramente importante - terem ou não uma Visão para a Europa, associada à que propusessem ou não para o país! - que sentiram o tapete sair-lhes subitamente debaixo dos pés.
Doravante não era possível retomarem a farsa anterior, porque as televisões não poderiam evitar uma demonstração eloquente de como as arruadas, os almoços e jantares-comícios com Pedro Marques têm a participação de muitos milhares de militantes e simpatizantes socialistas, em contraponto com as ações envergonhadas, que Paulo Rangel e Nuno Melo vão tendo aqui e acolá, sendo difícil aos operadores de câmaras, destacados para elas iludirem, o quanto se restringem a poucas dezenas de participantes.
Não se estranha que, em desespero de causa, o PSD convoque Pedro Passos Coelho e Manuela Ferreira Leite para arrastarem atrás de si mais alguns prosélitos. Ou que o Paulinho das feiras, dispa momentaneamente a farda de lobista, para puxar por mais alguns votos em prol do afilhado do mal afamado cónego bracarense.
As sondagens confirmam a imparável dinâmica de vitória do Partido Socialista. Por seu lado a maioria parlamentar de esquerda distancia-se dos que se acoitam nas direitas. E, como candeia que vai à frente alumia sempre duas vezes, torna-se provável o efeito de alavancagem da previsível vitória de 26 de maio nas eleições subsequentes: as regionais da Madeira e as legislativas de outubro.
Há, porém, que não travar no esforço de concretizar esses objetivos. Como cantava uma notável chilena, temos de ser imprescindíveis, lutando todos os dias. Mesmo que, pessoalmente, uma breve cirurgia me obrigue a meter baixa por dois ou três dias. Mas em 22 de maio lá estaremos em Setúbal para fazer do jantar-comício no Edifício do Cais 3 da APPS uma grande demonstração de como a suposta frouxidão, de que acusavam a campanha, se transformou numa pujante afirmação daqueles que, como lembrou António Costa esta semana, são os que fazem, enquanto nas direitas apenas se fala, se fala, se fala sem nada concretizarem.

quinta-feira, 16 de maio de 2019

As diferenças entre a realidade e o que no-la querem vender


Os media voltaram ao que nos acostumaram: se durante uns dias não puderam escamotear a tremenda barraca dada pelos seus partidos de estimação no tocante aos professores, ei-los a mentirem, a enviesarem as notícias, para prejudicarem tanto quanto possível o Partido Socialista.
Ontem estiveram em questão as aeronaves ainda em falta no dispositivo preparado para o combate a incêndios. Nos telejornais as notícias de abertura tinham a ver com essa questão, embora não se dissesse que, comparativamente com o período homólogo do ano transato, as autoridades incumbidas da proteção civil já disponham de mais de 50% das então existentes. Eram treze em 2018, são 20 nesta data de 2019. Ademais, as que faltam, só dependem de quem nada tem a ver com o governo: o Tribunal de Contas, sempre muito lento a validar os contratos públicos submetidos à sua apreciação, e as empresas derrotadas nos concursos já concretizados, e decididas a impugná-los.
Em suma: responsabilidade do governo nesse propalado atraso no calendário é quase nula. Mas não houve quem desse relevância a existirem nesta altura mais 7500 operacionais no terreno do que há um ano, que serão mais 11500 quando chegarmos a 1 de julho. Ou quem reconhecesse nunca terem havido tantos meios preparados para contrariarem os incendiários como sucede este ano.
Conclui-se, pois, que o universo em que as direitas julgam viver, é muito diferente do existente.  Na psiquiatria essa ilusão de uma outra realidade, que não a assente nos factos e na percecionada pela maioria dos mortais, tem um nome, a bem ver até vários nomes. E é para eles que remetem os fácies de Rangel ou de Rio, de Cristas ou de Melo, quando aparecem nos écrãs televisivos.

quarta-feira, 15 de maio de 2019

Os manuéis germanos desta vida


Há muitos anos, que as direitas perderam qualquer réstia da qualidade intelectual demonstrada em tempos idos, quando contava a seu favor, alguns mestres de pensamento - Raymond Aron, Albert Camus - de dimensão quase tão significativa quanto a dos oponentes do polo contrário. Se perguntarmos a alguém da direita em que fundamenta a pertinência do seu pensamento, vê-lo-emos atrapalhar-se com umas quantas razões contraditórias, em que importam, sobretudo, os ataques pessoais a quem tenha tomado como alvos dos ódios de estimação, porque outros argumentos não consegue elencar.
Essa constatação está bem evidenciada nestas eleições europeias em que Paulo Rangel voou por cima das áreas destruídas há dois anos, acompanhado de um manifesto incendiário de então - Xavier Viegas -, procurando cavalgar uma tragédia, que tem de ser assacada à incúria de décadas, não a quem teve de minimizar-lhe os efeitos e pagar-lhe os prejuízos. Por seu lado Nuno Melo julga colher ainda algum retorno do caso Sócrates, como se não fosse assunto mais do que requentado e do qual ainda poderá advir judicialmente uma dolorosa surpresa para quem insiste em apontar-lhe crimes, cuja prova continua por fazer.
Pedro Marques, pelo contrário, tem um património de concretizações do governo a que pertenceu, e um pensamento muito estruturado sobre que tipo de Europa nos poderá satisfazer. Pegando na célebre máxima de Mário de Carvalho, comparar o candidato socialista com os cabeças de fila das direitas, equivaleria a confundir o género humano, a que pertence, com os ineptos Manuéis Germanos, que só em aparência se lhe assemelham.
No dia 26 de maio não há margem para enganos: entre as direitas, sem qualquer visão para o futuro dos portugueses, e Pedro Marques, a escolha só pode incidir no candidato socialista.

terça-feira, 14 de maio de 2019

O Tranglomango que afetou Marcelo


Tenho amigos, que costumam-me dar razão em quase tudo quanto escrevo sobre os acontecimentos políticos nacionais, mas que se escandalizam quando é Marcelo o alvo das minhas críticas. Eu que nunca senti qualquer simpatia pelo personagem, fico atónito com a devoção acrítica, que ele lhes merece. Daí que a recente crise me tenha suscitado um conjunto alargado de conclusões sobre o presidente, que nos calhou em desdita nesta fase da nossa vida.
Sobrelevam, porém, um conjunto de questões para as quais gostaria de ter resposta: será que, a exemplo dos comentadores mediáticos, sintonizados com a agenda política do presidente, também esses amigos terão ficado desconcertados com o silêncio a que ele se remeteu? Encontrarão alguma coerência entre aquele que vinha sendo um autêntico «picareta falante», desde que ganhou habilidosamente a eleição para a qual estava muito longe de ser o candidato mais qualificado, e o recato a que se remeteu durante mais de uma semana? Não terão ficado perturbados pela manifesto desconforto de Marcelo, quando falou de si na terceira pessoa, como se entre ele e o presidente houvesse alguma distância?
Se a crise foi nefasta para Rio e Cristas (bem menos para Catarina e Jerónimo, que nunca tinham saído das suas posições!), também não se revelou menos benigna para com Marcelo que, em dois momentos-chave, fez o que Mário Nogueira lhe pediu: recebê-lo em Belém como gesto acintoso para com o Ministro, que lhe negara as pretensões, e vetar um diploma do governo em que a decisão estava a ficar definitivamente resolvida.
Maquiavélico por natureza, Marcelo terá apostado que a guerra com os professores conseguiria dobrar António Costa, que julgara comprometedoramente curvado com as estórias dos incêndios e de Tancos, e potencialmente quebrável com um novo impulso. «Às três é de vez!», ter-se-á previsto no gabinete presidencial, quando se viram todas as forças parlamentares, à exceção do Partido Socialista, a unirem forças contra o governo.
Marcelo terá esquecido que, se anda na política desde que acompanhava o pai e o padrinho nas cerimónias mais importantes do regime salazarista-marcelista, também António Costa possui vasto tirocínio desde que, aos 14 anos, solicitou a adesão ao seu partido de sempre.
Para Marcelo ver-se sem tapete debaixo dos pés terá sido tão desconfortável, quanto o sentiram na pele os dois líderes das direitas, ademais confrontados com as suas evidentes cambalhotas. De repente a possibilidade de inviabilizar uma maioria das esquerdas na próxima legislatura esboroou-se ruidosamente.
O que terá pensado Marcelo no seu demorado silêncio só o poderemos especular. Mas o atabalhoamento perante os jornalistas na primeira ocasião em que estes o apanharam, finalmente, a jeito, não pressagia coisa boa. Nunca conseguindo dissociar-se da condição de Beto caprichoso da Linha, ele não terá apreciado, que lhe estragassem a brincadeira. Para ele o problema é que António Costa já deu mais do que provas de não ser para subestimar. E quem o disse foi outro figurão, Paulo Portas, que nunca esquecerá o enxovalho a que se viu sujeito na história da vichyssoise.

segunda-feira, 13 de maio de 2019

O QUE A CRISE CONFIRMOU SOBRE A PERSONALIDADE DOS LÍDERES PARTIDÁRIOS (V)


5 - A execrável Assunção Cristas
E eis-nos chegados ao comportamento da líder do CDS no período compreendido entre a célebre reunião da Comissão Parlamentar, que suscitou a imagem, por alguém comparada às dos quadros do barroco flamengo, de umas quantas deputadas aos papéis, e o dia em que o conjunto da Assembleia dobrou finados pelas inaceitáveis exigências de Mário Nogueira.
Numa entrevista Assunção Cristas reconheceu que essa semana lhe havia corrido mal.
Pudera! Julgou-se na iminência de ver conjugados os esforços de quantos seriam necessários, à esquerda e à direita, para defenestrar António Costa, e acabou por ser ela uma das mais ameaçadas de tal destino.
É caso para perguntar o que terá sentido quando, ao longo dos dias, foi ouvindo os comentários dos que lhe costumavam ser simpáticos, e a acusavam de cumplicidade num imperdoável pecado? Subitamente aquela contínua estratégia de dizer as maiores barbaridades com a firme convicção de nelas se sentir plena de razão deixava de ser eficiente.
Até agora seria capaz de afiançar ser a Terra plana com tanta segurança, estando errados todos quantos pensassem o contrário, que  lhe foi doloroso o banho de realidade quanto a dela desacreditarem. Por este andar, poderá usar a réstia de honestidade intelectual contida nos neurónios, mostrando razoabilidade em vez de tacticismo, que se arrisca a ver definitivamente dissolvida a cortina de fumo inibidora de ser constantemente lembrada como a entusiasta de um país coberto de eucaliptos, a irresponsável capaz de assinar de cruz fulcrais decretos-leis à saída da praia ou, sobretudo, a determinada comparsa de todas as malfeitorias feitas aos cidadãos portugueses entre 2011 e 2015.
Durante anos pareceu competente seguidora de Portas, o mestre das mensagens assassinas, mesmo que inócuas no verdadeiro sentido. Aluna esforçada dessa “escola” de aparentar substância no superficial para esconder a vacuidade concreta do que defende, Assunção Cristas está a aproximar-se do fim da data de validade. Os indícios nesse sentido vão-se acumulando com a contestação silenciosa a crescer internamente num partido, cujos militantes adivinham não terem hipóteses de, através dele, singrarem nos próximos anos.
Durante algum tempo os cêdê-ésses até poderão ter acreditado que Cristas seria primeira-ministra. Tratava-se tão-só de esperar pelo fracasso brutal de Rui Rio e pelas circunstâncias externas adversas, que prejudicassem os planos de António Costa a médio prazo. Não é preciso olhar para a realidade das seitas religiosas para constatar a credulidade dos prosélitos nas mais estapafúrdias possibilidades. Só que os tempos passam e veem-na dar tantos tiros nos pés quanto o rival do próprio campo político. Ademais veem e ouvem o que as ruas lhes transmitem e sentem-nas esvaziadas dos tolos, que se mostrassem assertivos para com os bolos por si servidos.
Aproxima-se o momento em que Cristas regressará à universidade para aí prosseguir o nefasto esforço de influenciar jovens para rumos que, manifestamente, não serão os que mais lhes convirão. Lamentavelmente, a sua venalidade exercer-se-á ainda por muito tempo, mesmo que em diferente dimensão...

domingo, 12 de maio de 2019

O QUE A CRISE CONFIRMOU SOBRE A PERSONALIDADE DOS LÍDERES PARTIDÁRIOS (IV)


4 - O antipático Rui Rio

A recente crise política corroborou-nos a ideia que fazíamos do atual presidente do PSD: nem é sério, como alguns insistem em considera-lo, nem se revela leal para com quem o deveria indubitavelmente ser.
Rio procura cavalgar em dois ídolos com pés de barro da História portuguesa do último século: Oliveira Salazar e Sá Carneiro. Do primeiro replica a atitude sovina, que explica ter mergulhado o Porto no marasmo entre 2002 e 2013. Ao contrário de António Costa, cuja apologia das contas certas tem obrigatoriamente de se conciliar com desenvolvimento do país e a redução das desigualdades, Rio mostrou que, da Economia, só reteve a lógica contabilística de equivaler os custos com as receitas sem preocupação em criar uma estratégia política e financeira, que deixasse a cidade melhor do que estava, quando tomou posse da sua gestão autárquica.
Tacanhamente inculto, travou a dinâmica cultural da cidade, preferindo as laferiazices e as corridas de calhambeques aos grupos de teatro e às demais áreas de expressão artística. Não chegou a tanto, mas manifestou-se na filiação daquele general franquista, que ameaçava puxar da pistola se ouvisse falar de cultura.
Do mito em torno do pequeno líder de desconhecidas qualidades de bailarino, que a morte impediu de se revelar quanto à nulidade da sua competência como político e da essência de ditadorzinho de cartola - que fora evidente no trato (e sobretudo destrato) dos companheiros de partido - Rui Rio limita-se a verbalizar-lhe o nome, e mais nada, porque pega pelo que julga representar e sabe ter uma mão cheia de nada.
Rio é, portanto, tudo isso: somítico, inculto e mal-educado. Por si só é uma péssima cabeça de cartaz para o Colégio Alemão, onde supostamente deveria ter saído instruído.
A crise mostrou-nos, porém, o que de pior nele se ia disfarçando: tendo Negrão e Margarida Mano confirmado que sempre com ele tinham estado em ligação durante a célebre sessão da Comissão Parlamentar, de que retivemos a famosa fotografia, é feio - mesmo muito feio! - ouvi-lo dizer que nada tivera a ver com o aí decidido por não lhe pertencer de facto, nem sequer ser deputado. O que se pode pensar de quem se sabe responsável por algo que corre mal, e logo se põe a milhas, atirando as culpas para cima dos que lhe haviam servido de meros intermediários? Quem pode confiar num mentiroso e num traidor?
As revelações não se ficaram, porém, por aí, já que o «Diário de Notícias» deste sábado trouxe a cereja em cima do bolo a propósito do seu comportamento ignóbil: um dos seus principais lugares-tenentes viu-se denunciado como o principal organizador de uma central de fake news com que pretende enganar os portugueses com um corrupio de mentiras relativas a políticos socialistas.
Regressado à ribalta com a promessa de trazer práticas menos ignominiosas do que as do seu antecessor, Rui Rio vem-se revelando como estando no patamar mais rasteiro a que o PSD tem descido.