quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

A propaganda que as notícias da Síria destilam


As notícias sobre a Síria andam diariamente nos telejornais que, invariavelmente, condenam Bashar al Assad como o algoz dos habitantes de Ghouta Oriental, inocentes vítimas, sujeitas a ataques com armas químicas ou  bombardeamentos convencionais de uma ferocidade sem igual. Houve até quem proclamasse a situação como aquele que ficará como o genocídio  do século XXI. Gente aparentemente insuspeita de simpatias com as direitas, como sucedeu com a historiadora Irene Pimentel, «comprou» esta tese e dispôs-se a servir-lhe de útil altifalante.
Este blogue não tem acreditado nesta versão muito parcial do que se passa na Síria e, pelo contrário, entre o laico Bashar al Assad e os seus opositores islamitas a preferência para a ocupação do poder naquela região pende inequivocamente para o primeiro, porque qualquer identificação de um regime com uma religião redunda invariavelmente numa forma de fascismo, que indigna quem defende uma clara separação entre os assuntos do Estado e as crenças de alguns em formas de transcendência, que acabam por pretender impor aos demais.  Ao contrário da Síria de Assad onde muçulmanos, cristãos, judeus e crentes de outras religiões são estimulados para uma convivência pacífica entre as suas diferentes mundividências, o que qualquer dos grupos oposicionistas imporia em nada diferiria do praticado pelos talibãs no Afeganistão.
Mas para os mais iludidos com a versão dominante dos acontecimentos na Síria aqui ficam algumas questões para as quais nos escusamos de dar as respostas tão evidentes elas são: tratando-se de uma guerra com partes em conflito, porque é que só se veem imagens de vítimas de um dos lados? Será que não há velhos, mulheres e crianças dos territórios controlados pelo regime legítimo a terem as vidas em perigo por quem contra os bombardeia? E, depois, dos depósitos com armas nucleares e armas químicas, que ninguém encontrou no Iraque de Saddam Hussein, ainda haverá muitos inocentes a continuarem a ser embalados pela mesma burla?
Seria, por outro lado, muito interessante que as mesmas televisões mostrassem como está a ser reconstruída a cidade de Alepo depois de conquistada pelo regime e que, meses atrás,  foi tão falada com os mesmos argumentos falaciosos agora utilizados a respeito de Ghouta Oriental. Daí a questão final: porque será que Alepo era tão mencionada, quando a propaganda pró-Nato a achava ideal para a sua estratégia e agora esquecida, quando tanto de positivo ali se está agora a passar?

Entrevista a Diana Andringa - "O que queremos da RTP?"

terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

A resposta necessária ao atual refluxo das esquerdas europeias


Proposta jornalística alternativa, o jornal O Tornado merece ser lido pelo esforço de conferir à nossa quotidianidade uma perspetiva oposta à da continuamente mistificada que nos é «oferecida» pelos suspeitos do costume.

Ontem o João Vasconcelos Costa assinava ali um texto, que importa conhecer, sobre «O Refluxo da esquerda». Nele considerava que, nunca como nos nossos dias, o capitalismo usufrui de tão exclusiva hegemonia nas mensagens emitidas pelos diversos canais de (des)informação e destinados a convencer os recetores do valor axiomático de um conjunto não negligenciável de deturpações, falsificações e mistificações cujo objetivo é o óbvio: favorecer os interesses de quem é deles proprietário e contra os que se pretende explorar com a máxima eficiência sem lhes suscitar exagerada indignação.

Que esse esforço tem sido bem sucedido confirma-o o tal refluxo das esquerdas um pouco por toda a Europa, figurando o governo português como honrosa exceção. Daí a importância de, senão unir, pelo menos manter a inteligente convergência dessas esquerdas, tendo por mínimo denominador comum a defesa e desenvolvimento do Estado Social. Por isso mesmo empolar o que constitui uma barreira, por agora, intransponível - o problema da dívida e um défice maior para favorecer o investimento - só dificulta o que é essencial preservar nesta fase. Diz o autor do texto: Esta contradição é a maior ameaça à manutenção da convergência de esquerda.”

Nesta fase importa desenvolver um incessante combate ideológico pelo esclarecimento e luta contra a desinformação, a manipulação e a alienação, para o que se devem explorar todas as potencialidades dos novos meios sociais de comunicação pela “net”. Importa recuperar o eleitorado, que deveria ser inequivocamente de esquerda e se deixa tentar pelos discursos falaciosos da direita, se não mesmo da extrema-direita, como sucede em Itália, onde se espera que o operariado vá votar maciçamente nos partidos nela enquadráveis no próximo fim-de-semana. Importa que a esquerda atualize o seu discurso e o adeque aos desafios sociais, políticos e económicos dos tempos que correm.

O nervosismo que os indefetíveis detetam em Marcelo


Os habituais protagonistas do “his master’s voice” - sendo aqui Marcelo o “patrão” em causa - vão dando sucessivos testemunhos do nervosismo que reina em Belém com o caos do PSD e a previsível incapacidade de Rui Rio para constituir-se numa alternativa suficientemente credível para que, em seu torno, os jornais e televisões metralhem as consciências dos eleitores e os inibam de dar a maioria absoluta ao Partido Socialista.
As direitas têm todos os meios de manipulação da realidade, mas falta-lhes a substância com que o possam fazer. Daí que Marcelo trema perante a possibilidade de se tornar completamente irrelevante perante um governo com maioria absoluta no Parlamento, que torne os seus vetos meros percalços sem consequências. Não nos admiremos se se multiplicarem os almoços entre ele e Rio para que tente vincar o seu papel de guru na cabeça de um teimoso, que sempre deu provas da sua autossuficiência.
Façamos votos para que, se conseguiu dobrar as circunstâncias à conta das preleções dominicais nas televisões durante vários anos e dos abraços e selfies  tiradas com os tontos, que a tão lamentável espetáculo se deram, Marcelo sinta no momento mais determinante da sua passagem pela política ativa, que os seus desejos embaterão desastrosamente contra outras mais fortes vontades.

As diferenças de perspetiva consoante se é mais ou menos otimista


Nos últimos dias o nosso leitor Jaime Santos distinguiu-nos com mais dois comentários a textos aqui publicados e que confirmam não estarmos tão distanciados quanto às vezes possa parecer até porque ambos nos assumimos como simpatizantes da atual maioria parlamentar. A maior diferença é ele parecer dar razão a Gramsci naquela questão de se ser otimista na vontade, mas pessimista na razão, enquanto eu me digo otimista nesta última e ultraotimista na primeira, porque continuo a confiar no sentido da História, tal qual a interpretava um senhor, que se fosse vivo, faria em maio 200 anos de idade, mesmo que um outro, um século depois, reconhecesse a inevitabilidade de se dar, às vezes, um passo atrás, para que lá mais adiante, se deem dois à frente. Mas isso é, porventura, uma questão de feitio e não é já dobrado o cabo dos sessenta, que irei mudar. Talvez por isso seja inevitável ir-me enganando nalguns exercícios de Zandinga, muito embora a experiência me vá dando, amiúde, compensações que nem sonhava imaginar possíveis. E que me vão dando razão à expetativa de tudo vir a correr pelo melhor, encarando os acontecimentos negativos com a convicção de não haver mal que sempre dure, que depois de uma frustração haverá sempre une fenêtre ouverte, une fenêtre éclairée.
Fiquemos então com o texto de Jaime Santos ao comentar o que intitulei «O mesmo querer por caminhos diferentes:
A CRP não proíbe, contrariamente ao que diz, as nacionalizações. O meu caro interpreta-me mal. O que ela exige é que os proprietários sejam indemnizados em tal caso. Ou seja proíbe, e bem, o confisco. E no dia em que o PS alinhasse numa alteração constitucional dessa natureza (pôr em causa o direito á propriedade) eu ia votar na Direita, mal por mal...
Convença-se, Jorge Rocha, duma coisa. Uma boa parte dos votantes do PS, nos quais eu me incluo, são originários do chamado centro político. Não queremos nacionalizações em massa (mas eu renacionalizaria, se pudesse, a REN, os CTT e a ANA, mas não há dinheiro para isso). E sem essas pessoas, a Esquerda nunca mais ganhará uma eleição que seja…
Os partidos de Poder, como o PS, dependem de coligações de votantes, que não querem todos a mesma coisa. Por isso, o programa de Governo é sempre um mínimo denominador comum. O que a Geringonça demonstra é que todos são suficientemente pragmáticos e inteligentes para alinhar nesse programa e deixar a Direita fora do Poder.
Por isso, Mortágua não tem razão quando diz que antes o PS escolheu sempre governar com a Direita. Não, a Esquerda antes é que quis sempre impor um programa que o PS só podia rejeitar, porque se o aceitasse não alienaria só os investidores e a Europa, mas também uma boa parte da sua base eleitoral.
Sabe o que dizia Helmut Schmidt? Quem tem uma visão, faria melhor em ir ao médico... Sem ofensa. E calho de lhe lembrar que no último ano, o meu caro previu uma série de benesses para a Esquerda e a mais das vezes falhou as suas previsões. Não é nada de admirar, eu também falhei muitas, incluindo a de que a eleição britânica representaria o enterro político de Corbyn...
O programa político que Mortágua propõe foi tentado recentemente, por via democrática, e falhou. E o resultado é a Venezuela à beira do despotismo e da miséria absoluta. Para soberania e melhoria das condições de vida dos mais desfavorecidos, estamos conversados...
E aqui se transcreve o comentário do mesmo leitor ao texto: “ As diferenças insanáveis entre o Ser e o Parecer”
Como bom tático que é, António Costa sabe que nada alimenta mais a paixão do que a insegurança e um pouco de ciúme, pelo que iremos voltar a vê-lo piscar o olho ao PSD, ma non troppo. E sabe, não se altera a CRP e não se conseguem acordos na Europa, sem o PSD…
Também não me parece que Rio deseje acordos substanciais com o PS, deseja apenas que Costa se defina a favor de um acordo com a Esquerda, que lhe permita parecer que recentra o PSD (como é que alguém que quer ultrapassar Maria Luís Albuquerque pela direita pode querer fazê-lo é algo que me deixa estupefacto, mas em política o que parece é) por um lado, e que corresponda ao reconhecimento de que o PS não conseguirá muito provavelmente uma maioria absoluta em 2019 por outro (eu espero que não a consiga, porque acho muito bem que a Esquerda mantenha um 'droit de regard' sobre a governação socialista, olhe-se para o que foi a de Sócrates de 2005 a 2009). Costa, fino como é, irá manter a ambiguidade quanto baste tanto quanto puder, até pela razão indicada acima…
Mas não faça previsões, nem despreze o adversário. Como o irmão de Costa bem lembrou, Rio comeu um peso pesado como Pinto da Costa de cebolada, como se diz aqui no Norte, e Costa é dado às trapalhadas. Basta outro Verão como o de 2017 e Costa irá pelo mesmo caminho de Sócrates (eleitoralmente falando, claro). Já não há margem para erros…
Não faria mal à Esquerda o pessimismo ontológico da Direita, em relação à natureza humana e ao resto, em particular à tirania das boas intenções e à tendência que pessoas muito decentes e até virtuosas têm para a asneira absoluta (o 'absolut f***-up'). Se calhar é por causa dele que no geral, é a Direita que ganha eleições...

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

Ainda nos está a saber a pouco… e queremos que nos saiba a tanto!


Há analistas da realidade política, cujos textos nos dão um enorme prazer na sua leitura pela inteligência e consistência do pensamento, que refletem. É o caso do que Boaventura Sousa Santos costuma publicar e de que hoje nos foi disponibilizado «A unidade das esquerdas: Como? Porquê? Para quê?» na edição do «Público».
Começando por reconhecer que a atual solução governativa portuguesa é pouco divulgada fora de portas - onde valeria a pena ser replicada (vide o queixume de Rui Tavares no mesmo jornal ao lamentar a anunciada vitória da extrema-direita italiana devido á escusa das esquerdas em se associarem apesar da lei favorecer as grandes coligações!) - existe uma explicação óbvia para esse manto de nevoeiro, que a esconde para lá dos nossos limites geográficos: ela “representa uma solução política que vai contra os interesses dos dois grandes inimigos globais do aprofundamento da democracia que hoje dominam os media — o neoliberalismo e o capital financeiro global.”
E, no entanto, quase sempre na História portuguesa pós-25 de abril as esquerdas somaram mais votos do que as direitas, embora estas tivessem ocupado por demasiado tempo as funções governativas ou com elas se tivesse concertado o Partido Socialista para descontentamento de muitos, que nele militavam como tem sido o meu caso nos últimos trinta e dois anos.
Há que não esquecer - e o Professor da Universidade de Coimbra lembra-o! - que Mário Soares passou os seus anos derradeiros a advogar as vantagens desta convergência das esquerdas. E os factos deram-lhe razão: “realizando políticas opostas às receitas neoliberais obtêm-se os resultados que tais receitas sempre anunciam e nunca conseguem e isso é possível sem aumentar o sofrimento e o empobrecimento dos portugueses. Antes, pelo contrário, reduzindo-os. De uma maneira mais direta, o significado desta inovação política é mostrar que o neoliberalismo é uma mentira, e que o seu único e verdadeiro objetivo é acelerar a todo o custo a concentração da riqueza sob a égide do capital financeiro global.”
Num dos seus mais relevantes alertas Boaventura Sousa Santos refere o grande perigo de ver enfatizado a ideia de centro político como espaço de virtude. E aqui não o explicita, mas é notório para muitos de nós, que o principal defensor dessa ideia, e que tudo fará para a fortalecer no imaginário coletivo do eleitorado nacional, é Marcelo Rebelo de Sousa, que ocupa o atual cargo político para sabotar os benefícios colhidos pelas faixas mais desfavorecidas da população com os frutos dessa convergência à esquerda. Na sua prática e discurso o atual inquilino do Palácio de Belém tudo fará para erradicar as esquerdas da definição substantiva das políticas implementadas em favor da maioria dos portugueses.
É por isso que, após dividir por onze itens a sua análise a essa concertação dos mínimos denominadores comuns, ele confessa o pouco que ainda sabe esta solução, exigindo-lhe mais: “visou criar um espaço de manobra mínimo num contexto que prefigurava uma janela de oportunidade. Recorrendo a uma metáfora, a solução portuguesa permitiu à sociedade portuguesa respirar. Ora respirar não é o mesmo que florescer; é tão-só o mesmo que sobreviver.”
Se a muitos esta solução ainda sabe a pouco, o seu maior desejo é que venha a saber a tanto!

domingo, 25 de fevereiro de 2018

Contra os cancros mediáticos, refundar a RTP poderá ser a vacina eficaz


Se o país contasse com um setor da Justiça com alguma decência, o «Correio da Manhã», em vez de servir de cúmplice aos crimes de quem, dentro do Ministério Público, tem violado incessantemente o segredo sobre os processos em fase de investigação, tornar-se-ia no objeto de uma criteriosa observância dos seus métodos e objetivos. Octávio Ribeiro, Eduardo Dâmaso, acompanhados do respetivo patrão que os comanda e define os inimigos de estimação, já estariam pejados de julgamentos e, quiçá, de condenações com direito a prisão maior. Trata-se de um cancro, que importa extirpar, erradicar liminarmente do quotidiano dos portugueses. Para que os ares sejam mais respiráveis, menos infectos pela poluição lodosa causada pelos vómitos dessa coisa imunda, que se diz ser um jornal.
Poluição é também o que o dono do mesmo jornal causa no Tejo através da empresa que todos reconhecem ter sido causadora da descarga pela qual o rio se transformou num cemitério líquido entre Vila Velha do Ródão e Abrantes. A passividade do Ministério Público perante verdadeiros crimes como os de impedir a recolha de análises nos dias subsequentes a esse dolo ambiental e o roubo do computador de um inspetor, que teria as provas indiciadoras da provável condenação da empresa do grupo Cofina, indigna e dá razão a quem considera que a barrela no setor da Justiça tem de começar pela procuradora-geral, que a tudo isto dá cobertura.
A entrevista a Nuno Artur Silva, publicada no caderno de Economia do «Expresso» é, igualmente, elucidativa sobre os danos colaterais de tal cancro. A campanha movida pelo tabloide contra ele, e que encontrou apoio no atual presidente da RTP (não esqueçamos que ativo militante do PSD!) bem como no suposto Conselho Independente, mostra bem que, para Paulo Fernandes, não está apenas fazer o mal pelo mal, qual pérfido vilão de uma série da Marvel. Aquilo que pode ser bem feito, correspondendo a uma estratégia com todo o sentido para desenvolver e divulgar a cultura portuguesa, não só em Portugal, mas por todo o mundo onde emigrantes pretendem manter o vínculo com a terra, de que foram forçados a zarpar, fica em causa pelo terrorismo mediático, que incidiu sobre o seu principal obreiro.
Faz, pois, todo o sentido a proposta de refundar a RTP agora proposta no espaço público e que a pretende tornar num canal caracterizado pela decência e pela preocupação com a qualidade em detrimento das audiências, que só favorecem a mediocridade tonta de quem é burro e quer fazer dos outros burros. As esquerdas, atualmente maioritárias, devem unir-se nesse objetivo por muito que o vómito matinal da Cofina avance com uma campanha histérica sobre a violação da liberdade de imprensa e de informação.
Contra a abjeção a que diariamente somos sujeitos pelos canal de Balsemão e do prometido à Altice, estamos mesmo precisados de uma alternativa, que se revele atrativa pela diferença qualitativa. Por muito que isso signifique varrer também com cabeças de cartaz como o Orelhas dos Santos, que Nuno Artur Silva não aponta, mas deixa implícito poder constituir um dos que muito se oporá a alterar significativamente o atual estado das coisas.

Porque defendo o pleno direito à eutanásia


Embora esteja quase sempre em discordância com Clara Ferreira Alves, que costuma irritar-me com os seus trejeitos de pespeneta, tenho de concordar com grande parte do diagnóstico por ela feito a respeito da incapacidade de dotar o Sistema Nacional de Saúde dos meios necessários para corresponder ao envelhecimento acelerado da população. Ela escreve, e dou-lhe razão, que “ ninguém sabe o que fazer com os velhos com a longa esperança de vida. Uns têm doenças terminais, outros doenças de circunstância, quase todos têm uma forma ou outra de demência”. Por isso o Sistema - título da sua crónica no «Expresso» - não aguenta o enorme esforço para que é solicitado. Daí a importância de tanta gente que, mal paga - mormente os auxiliares de enfermagem! - têm nalguma humanização dessa sórdida realidade.
Não compreendo, pois, que haja oposição a uma lei que garanta uma morte sem dor a quem o requeira. Pessoalmente quero ter o DIREITO de, antes de constituir incómodo psicológico para a minha esposa, filha e netas, e de constituir encargo gravoso para o orçamento público sem esperança de qualquer irreversibilidade na minha condição mental ou estritamente física, solicitar de motu próprio, essa opção.
Não sei quando ela se revelará inevitável - espero que só daqui a muitos anos! - mas quero viver numa sociedade que respeite o meu direito a dizer BASTA!
É claro que posso sempre recorrer a uma das múltiplas formas de suicídio, de cujas notícias os jornais têm o princípio ético de não divulgar, mas se a medicina dá condições para que essa passagem para o Nada possa ser feito sem sofrimento, porque deverá o preconceito fascista de quem se arroga de decidir sobre a vontade alheia colocar-me entrave à derradeira vontade?

sábado, 24 de fevereiro de 2018

As diferenças insanáveis entre o Ser e o Parecer


Nos últimos dias as boas notícias sobre o desempenho da economia portuguesa continuaram, invariavelmente, a suceder-se: um relatório demonstrou que as receitas turísticas em 2017 cresceram 19,5% em relação ao ano anterior; a colocação de 800 milhões de euros em Bilhetes do Tesouro no mercado foi conseguida com a taxa média negativa de 0,417%, confirmando a atração dos investidores por este produto financeiro, que até pagam para ter nos seus portfolios; o FMI voltou a fazer um balanço positivo do que encontrou no âmbito da sexta avaliação da troika; e Mário Centeno, homem prudente, que não costuma fazer anúncios destes, sem estar bem convicto do que diz, considerou não se surpreender se Bruxelas rever em alta a estimativa de crescimento da economia portuguesa deste ano para 2,2%.
Tudo isto vai sucedendo enquanto o principal partido da oposição vai alimentando animados jogos florais entre os seus deputados, com vaticínios substantivos em como a corda tenderá a partir para o lado dos refratários da atual liderança, que parecem não ter aprendido nada com as sucessivas vitórias alcançadas por Rio na cidade do Porto contra forças bem mais fortes, que se lhe opunham (muitas delas com plena justiça!). No «Expresso», Ricardo Costa comenta: “com todo o respeito pelo grupo parlamentar, não vejo naquelas cadeiras nada que se assemelhe ao poder de fogo de Pinto da Costa”.
À esquerda discutem-se as vantagens e os perigos de uma improvável aproximação entre o PSD e o PS. Além de Francisco Assis, que parece não compreender o quão desajustado está da realidade social do país e dos militantes do (ainda) seu partido, há quem olhe para essa hipótese como uma forma de recentramento do PS no espaço político português como se esse não tivesse sido conquistado com o atual acordo parlamentar e com as direitas teimosamente remetidas à radicalidade extremista, que tem sido a sua. Não admira que, internamente, quase todas as vozes ouvidas tenham subscrito as palavras de Pedro Nuno Santos quando considerou que “a esmagadora maioria do PS quer pontes à esquerda e não à direita.” Tanto mais que os dois anos de governação já foram prenhes em resultados indubitáveis quanto à sua bondade.
E que essa aproximação será intensivamente contrariada por Marcelo Rebelo de Sousa, assim o confirma a sua oficiosa porta-voz no «Expresso» (Ângela Silva), que explica o interesse de Belém em ver o PPD a afrontar seriamente o governo, sob pena de se criarem condições ainda mais propícias para a maioria absoluta dos socialistas nas próximas legislativas. O que equivaleria a privar Marcelo do seu principal talento - o de intriguista - devolvendo-o àquilo a que merece ficar reduzido: à condição de «corta-fitas».
Mas se a aproximação entre o PS e o PSD de Rio se revela inexequível é por este último continuar igual a si mesmo no que defende e acredita. E foi isso que Pedro Filipe Soares resumiu, de forma muito sintética e incisiva, no Parlamento num dos debates desta semana: “Continuou a narrativa sobre a insustentabilidade da Segurança Social, na Educação mostrou saudades das reformas de Crato e atacou os avanços conseguidos por esta maioria na Saúde defendendo que não se deve diabolizar o lucro, quando ele é conseguido à custa do Serviço Nacional de Saúde. Temos aqui três exemplos de como Rio, no fundo, quer consensos novos com políticas velhas.”
E, de facto, alguém no seu juízo acreditará que António Costa aceitaria cortar nas pensões, chamar Crato de volta ou prosseguir o esforço de destruição do Serviço Nacional de Saúde em que tanto porfiaram Passos, Portas & Cª? Há um enorme abismo a separar as ideias de um e de outro em questões fundamentais, que fazem parecer divergências comezinhas às que, à esquerda, se mantém sobre a União Europeia ou a Nato.
Perspetiva-se longa vida a esta maioria parlamentar, mesmo depois do escrutínio de 2019!

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

À espera de um Godot, que não lhes virá garantir a salvação

A votação para líder parlamentar do PSD, que correspondeu a uma verdadeira humilhação para o eleito e para o novo presidente do partido, vem ao encontro da tese relativa a uma expetável quebra nas legislativas de 2019, que tornem transitória a atual liderança. Mas a crise no PSD promete ser duradoura e prolongar-se pela próxima década adentro, se é que não implicará o seu fracionamento, já que Santana Lopes poderá sempre resgatar do sótão a velha ideia de um Partido dito Liberal apenas feito para satisfação do seu ego.
Compare-se a situação atual com a de há dez anos atrás, quando a crise financeira começava a dar sinais de vir a ocorrer , embora sem se julgar possível a dimensão verificada a partir de 15 de setembro desse ano, quando a Lehman Brothers abriu falência.
Na altura os grandes empresários já se tinham desafeiçoado de José Sócrates, que haviam louvaminhado como sendo o governante ideal para o país, quando lhes parecera permeável às suas pretensões. Bastou que muitos deles vissem frustrados os seus projetos de avultados negócios (e ainda mais lautos lucros) para que o transformassem no inimigo de estimação pronto a abater, como ocorreu com Belmiro de Azevedo, frustrado na ambição de monopolizar as telecomunicações e desde logo com o «Público» a servir-lhe de veículo de denegrimento constante do então primeiro-ministro.
 Por essa altura essa classe social já estava a promover Passos Coelho como sua almejada marioneta. Sabiam-no cábula enquanto estudou, mas tinha boa figura (o que poderia adoçar o eleitorado feminino, que o rival socialista houvera seduzido!) e tinha umas megalómanas ideias, que eram como o melhoral, não faziam bem, nem mal. O frustrado barítono pretendia mudar a Constituição como se ela fosse problemática para as negociatas do universo BPN & Associados e manifestava uma admiração beatífica pela Singapura do ditador Lee Kuan Yew. Replicar o «sucesso» desse tigre asiático nesta cantinho à beira Atlântico plantado figurava nas intenções do títere, como se as circunstâncias fossem replicáveis.
A conquista do poder por essas direitas políticas e dos negócios também andava bastante bem lançada com a campanha de marketing trapaceiro, que visava meter no imaginário coletivo as ideias, que bem caras viriam as revelar-se aos tontos, que nelas acreditaram como se fossem dogmas papais: que a gestão privada é sempre melhor do que a pública, que desnacionalizando serviços eles ficariam bastante mais baratos e com uma qualidade irrepreensível. E, porque havia que dar cabeças-de-cartaz para a excelência dos gestores privados essa foi a época de ouro de Zeinal Bava, de Paulo Teixeira Pinto, de António Mexia e outros que tais, cujos obscenos salários faziam corar de vergonha os mais talentosos craques do nosso futebol.
Houve até o caso caricato de João Rendeiro, presidente da Administração do BPP que, na semana de lançamento do seu livro encomiástico em que se dava como possuidor de um toque de Midas, foi preso e dado como fraudulento com direito a prisão. Esse exemplo não bastou para que os inocentes abrissem os olhos e evitassem oferecer o pescoço à degola, prosseguindo nesse crescente fervor por Passos Coelho.
Quando chegou o seu momento de glória o mais que tudo dos restaurantes finos de Lisboa não encontrou problema em disfarçar o vazio ideológico, que lhe varria a mente, porque a troika trazia um programa político-económico pronto a aplicar. O entusiasmo foi tanto, que ao grito de mata, logo ele gritou esfola, condenando o pobre do contribuinte a enormes aumentos de impostos, a cortes em ordenados e pensões e ao desaparecimento súbito de milhares de empregos. Convencido de que os portugueses mereciam a punição por serem os madraços do sul da Europa, que os alemães e holandeses zurziam a bel-prazer, Passos Coelho sentiu-se na pele de um pregador a quem o Deus todo poderoso da finança internacional entregava a tarefa de convencer os que teimavam em não lhe serem devotos.
Vem toda esta evocação para lembrar que há dez anos as direitas políticas e dos negócios tinham tudo pelo seu lado: uma crise económico-financeira em que poderiam surfar para defenestrar os socialistas, um político visualmente jeitoso, que ficasse bem nos cartazes eleitorais e nas televisões e todo um programa assente em desregulamentações e privatizações devidamente almofadado numa série de ideias feitas, que se pretendiam irrefutáveis, mas se viriam a revelar trágicas no seu logro.
Dez anos depois o que lhes resta? Onde estão os grandes empresários capazes de causarem admiração aos tolos que os não viam na sua essência de se interessarem exclusivamente pelos seus lucros? Onde andam os gurus, que levavam as revistas do tipo «Exame» a dar-lhes capas e a proclamar-lhes a genialidade? Onde anda a Igreja Católica na época ainda capaz de arregimentar votos de acordo com as instruções dos padres curas? Onde andam os líderes políticos capazes de enunciar uma ideiazinha, mesmo que pequenina, para o melhoramento da vida dos portugueses?
Dirão os mais avisados, que as televisões e os jornais andam a pelar-se por que chegue o Godot, que tire essas direitas das angústias existenciais em que vai vegetando. Mas espera-os o vazio, esse terrível nada, que tanto horror suscita a quem o pressente...

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

O mesmo querer por caminhos diferentes


O post intitulado «Quod erat demonstrandum!» suscitou um comentário do nosso leitor Jaime Santos que, há há alguns meses que não nos privilegiava com a sua opinião crítica. É claro que, embora sejamos ambos apoiantes da atual solução governativa, há um enorme abismo entre a sua posição social-democrata e o meu reiterado pendor socialista. Por isso mesmo a questão que aqui se coloca é entre a impossibilidade constitucional de renacionalizar empresas, que nunca deveriam ter sido privatizadas ou a exequibilidade de o vir a fazer num novo quadro político, que torne exequível tal mudança. Imaginemos, por exemplo, que os indicadores continuamente positivos da economia e a crise das direitas reduzem-nas a menos de 1/3 dos deputados. Quem impediria essa Assembleia da República de alterar o articulado constitucional?
Claro que o Jaime Santos andará nesta altura a dizer algo do género «in your dreams, buddy!». Certo! Mas como diria o outro, eu sei que sou um “dreamer, but I’m not the only one!”. A História dos homens está recheada de muitos exemplos de sonhos, que vieram a converter-se em realidades. E, ao contrário do nosso estimado leitor, não me admiro nada com a forte probabilidade de ver Corbyn como próximo ocupante do 10 da Downing Street.
Aqui fica, pois, o comentário discordante do Jaime Santos, com um abraço sincero:
Há um pequeno problema, levantado pelo insuspeito Larry Elliot no Guardian, na última campanha eleitoral. Elliot, que apoia Corbyn, chamou-lhe 'a sleight of hand' (um truque de prestidigitação), eu chamo-lhe outra coisa, demagogia pura e simples. É que Corbyn não consignou um penny para as privatizações, que só no caso das utilities (águas e eletricidade) custariam, estimava Elliot, 50 mil milhões de libras.
Quero lá saber que isto seja popular, se a demagogia não fosse popular, os demagogos não recorreriam a ela. Quero é saber como Mariana Mortágua tenciona pagar as nacionalizações que defende, se não alinha, como eu espero que não alinhe, na demagogia de Corbyn. Não será com certeza recorrendo aos lucros das empresas, como defendeu Catarina Martins no debate com Costa em 2015, porque levaria muitos anos até conseguir-se isso.
Eu gostaria de lembrar às pessoas de Esquerda que a CRP, que tanto gostam de invocar, proíbe o confisco, pelo que não haverá expropriações como em 1975... A não ser que, claro, defendam a subversão da ordem constitucional... Portanto, ou mostram o jogo, ou tenho que concluir que isto não passa de mais um fogacho retórico para o BE se demarcar do Governo e parecer que não votou a favor, sem exceção, de todos os orçamentos de um Governo com um programa absolutamente centrista (nem sequer é social-democrata, como Mortágua bem frisa).
A diferença entre Costa e Centeno por um lado e Corbyn pelo outro é que os primeiros sabem bem que não podem recorrer a esta espécie de argumentos. Corbyn pode fazê-lo porque provavelmente nunca será eleito para implementar o seu programa e se o for, não o fará…
Já agora, quanto à crise do SPD que abordou noutro sítio, a Esquerda está em minoria na Alemanha pelo que não se coloca a questão do SPD governar com os Verdes e o Linke. E depois, as baixas intenções de voto refletem mais o caos interno que a coligação com a CDU... Uma casa dividida cai…!

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

Quod erat demonstrandum!

1. Ferreira Fernandes aborda a campanha ignóbil que a imprensa tabloide inglesa anda a alimentar contra Jeremy Corbyn com a ajuda de obscuro (mas decerto bem remunerado) crápula, que procurará servir de muleta para impedir o que se torna incontornável no futuro próximo: a vitória trabalhista em eleições, que arredem definitivamente os conservadores e os fascistas do UKIP. Eis o que de substantivo se relata em tal texto: “A esquerda trabalhista britânica volta a ser alternativa para governar. Talvez isso possa explicar o surto de notícias sobre alegadas ligações dos serviços secretos da então comunista Checoslováquia, na década de 1980, com o atual líder do Partido Trabalhista, Jeremy Corbyn. Um antigo espião checo - Ján Sarkocy, expulso da Grã-Bretanha, em 1989 - diz que Corbyn foi pago por si para dar informações.”
2. No “i” Joana Mortágua responde a Pedro Nuno Santos a respeito do texto da semana transata sobre os desafios colocados à decadente social-democracia. Porque, no essencial, concordo com o texto da dirigente bloquista aqui ficam os três parágrafos mais esclarecedores:
“Num mundo globalizado de offshores e patrões internacionalizados, as ameaças de deslocalização da produção e de fuga de capitais são sempre quem ganha o braço-de-ferro entre privado e público. A política de redistribuição da social-democracia assenta na capacidade do Estado de recolher impostos suficientes para financiar serviços públicos universais. Mas como praticar uma política redistributiva eficaz quando as grandes empresas fogem para a Holanda em busca de borlas fiscais? (…)
Estes desafios agora lançados ao PS para resgatar a social-democracia não respondem à pergunta principal: como se protege o Estado social do saque permanente dos mercados financeiros numa economia de casino global. A resposta está na robustez do setor público, e o contraste pode ser feito com Jeremy Corbyn, que não tem saudades das regras europeias e dá sinais de querer um setor público significativo. Talvez por isso o Partido Trabalhista esteja em contramão também no apoio eleitoral.
Só o controlo público dos bens e setores estratégicos permite ao Estado intervir na economia e garantir serviços públicos fortes. Porque territorializa uma boa parte do investimento e do capital que as privatizações ofereceram aos mercados. Porque garante que empresas importantes não são desmanteladas, como aconteceu com a PT, nem saqueadas, como está a acontecer com os CTT. Porque dá ao Estado poder para impor outros fatores de competitividade que não a desvalorização salarial e a competição fiscal. E porque o setor público não foge para a Holanda para não pagar impostos.”
Apesar de vir de um partido diferente do meu, limito-me a assinar por baixo.
Quod erat demonstrandum!