quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

Quod erat demonstrandum!

1. Ferreira Fernandes aborda a campanha ignóbil que a imprensa tabloide inglesa anda a alimentar contra Jeremy Corbyn com a ajuda de obscuro (mas decerto bem remunerado) crápula, que procurará servir de muleta para impedir o que se torna incontornável no futuro próximo: a vitória trabalhista em eleições, que arredem definitivamente os conservadores e os fascistas do UKIP. Eis o que de substantivo se relata em tal texto: “A esquerda trabalhista britânica volta a ser alternativa para governar. Talvez isso possa explicar o surto de notícias sobre alegadas ligações dos serviços secretos da então comunista Checoslováquia, na década de 1980, com o atual líder do Partido Trabalhista, Jeremy Corbyn. Um antigo espião checo - Ján Sarkocy, expulso da Grã-Bretanha, em 1989 - diz que Corbyn foi pago por si para dar informações.”
2. No “i” Joana Mortágua responde a Pedro Nuno Santos a respeito do texto da semana transata sobre os desafios colocados à decadente social-democracia. Porque, no essencial, concordo com o texto da dirigente bloquista aqui ficam os três parágrafos mais esclarecedores:
“Num mundo globalizado de offshores e patrões internacionalizados, as ameaças de deslocalização da produção e de fuga de capitais são sempre quem ganha o braço-de-ferro entre privado e público. A política de redistribuição da social-democracia assenta na capacidade do Estado de recolher impostos suficientes para financiar serviços públicos universais. Mas como praticar uma política redistributiva eficaz quando as grandes empresas fogem para a Holanda em busca de borlas fiscais? (…)
Estes desafios agora lançados ao PS para resgatar a social-democracia não respondem à pergunta principal: como se protege o Estado social do saque permanente dos mercados financeiros numa economia de casino global. A resposta está na robustez do setor público, e o contraste pode ser feito com Jeremy Corbyn, que não tem saudades das regras europeias e dá sinais de querer um setor público significativo. Talvez por isso o Partido Trabalhista esteja em contramão também no apoio eleitoral.
Só o controlo público dos bens e setores estratégicos permite ao Estado intervir na economia e garantir serviços públicos fortes. Porque territorializa uma boa parte do investimento e do capital que as privatizações ofereceram aos mercados. Porque garante que empresas importantes não são desmanteladas, como aconteceu com a PT, nem saqueadas, como está a acontecer com os CTT. Porque dá ao Estado poder para impor outros fatores de competitividade que não a desvalorização salarial e a competição fiscal. E porque o setor público não foge para a Holanda para não pagar impostos.”
Apesar de vir de um partido diferente do meu, limito-me a assinar por baixo.
Quod erat demonstrandum!

1 comentário:

  1. Há um pequeno problema, levantado pelo insuspeito Larry Elliot no Guardian, na última campanha eleitoral. Elliot, que apoia Corbyn, chamou-lhe 'a sleight of hand' (um truque de prestidigitação), eu chamo-lhe outra coisa, demagogia pura e simples. É que Corbyn não consignou um penny para as privatizações, que só no caso das utilities (águas e eletricidade) custariam, estimava Elliot, 50 mil milhões de libras.

    Quero lá saber que isto seja popular, se a demagogia não fosse popular, os demagogos não recorreriam a ela. Quero é saber como Mariana Mortágua tenciona pagar as nacionalizações que defende, se não alinha, como eu espero que não alinhe, na demagogia de Corbyn. Não será com certeza recorrendo aos lucros das empresas, como defendeu Catarina Martins no debate com Costa em 2015, porque levaria muitos anos até conseguir-se isso.

    Eu gostaria de lembrar às pessoas de Esquerda que a CRP, que tanto gostam de invocar, proíbe o confisco, pelo que não haverá expropriações como em 1975... A não ser que, claro, defendam a subversão da ordem constitucional... Portanto, ou mostram o jogo, ou tenho que concluir que isto não passa de mais um fogacho retórico para o BE se demarcar do Governo e parecer que não votou a favor, sem exceção, de todos os orçamentos de um Governo com um programa absolutamente centrista (nem sequer é social-democrata, como Mortágua bem frisa).

    A diferença entre Costa e Centeno por um lado e Corbyn pelo outro é que os primeiros sabem bem que não podem recorrer a esta espécie de argumentos. Corbyn pode fazê-lo porque provavelmente nunca será eleito para implementar o seu programa e se o for, não o fará...

    Já agora, quanto à crise do SPD que abordou noutro sítio, a Esquerda está em minoria na Alemanha pelo que não se coloca a questão do SPD governar com os Verdes e o Linke. E depois, as baixas intenções de voto refletem mais o caos interno que a coligação com a CDU... Uma casa dividida cai...

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