terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

As diferenças de perspetiva consoante se é mais ou menos otimista


Nos últimos dias o nosso leitor Jaime Santos distinguiu-nos com mais dois comentários a textos aqui publicados e que confirmam não estarmos tão distanciados quanto às vezes possa parecer até porque ambos nos assumimos como simpatizantes da atual maioria parlamentar. A maior diferença é ele parecer dar razão a Gramsci naquela questão de se ser otimista na vontade, mas pessimista na razão, enquanto eu me digo otimista nesta última e ultraotimista na primeira, porque continuo a confiar no sentido da História, tal qual a interpretava um senhor, que se fosse vivo, faria em maio 200 anos de idade, mesmo que um outro, um século depois, reconhecesse a inevitabilidade de se dar, às vezes, um passo atrás, para que lá mais adiante, se deem dois à frente. Mas isso é, porventura, uma questão de feitio e não é já dobrado o cabo dos sessenta, que irei mudar. Talvez por isso seja inevitável ir-me enganando nalguns exercícios de Zandinga, muito embora a experiência me vá dando, amiúde, compensações que nem sonhava imaginar possíveis. E que me vão dando razão à expetativa de tudo vir a correr pelo melhor, encarando os acontecimentos negativos com a convicção de não haver mal que sempre dure, que depois de uma frustração haverá sempre une fenêtre ouverte, une fenêtre éclairée.
Fiquemos então com o texto de Jaime Santos ao comentar o que intitulei «O mesmo querer por caminhos diferentes:
A CRP não proíbe, contrariamente ao que diz, as nacionalizações. O meu caro interpreta-me mal. O que ela exige é que os proprietários sejam indemnizados em tal caso. Ou seja proíbe, e bem, o confisco. E no dia em que o PS alinhasse numa alteração constitucional dessa natureza (pôr em causa o direito á propriedade) eu ia votar na Direita, mal por mal...
Convença-se, Jorge Rocha, duma coisa. Uma boa parte dos votantes do PS, nos quais eu me incluo, são originários do chamado centro político. Não queremos nacionalizações em massa (mas eu renacionalizaria, se pudesse, a REN, os CTT e a ANA, mas não há dinheiro para isso). E sem essas pessoas, a Esquerda nunca mais ganhará uma eleição que seja…
Os partidos de Poder, como o PS, dependem de coligações de votantes, que não querem todos a mesma coisa. Por isso, o programa de Governo é sempre um mínimo denominador comum. O que a Geringonça demonstra é que todos são suficientemente pragmáticos e inteligentes para alinhar nesse programa e deixar a Direita fora do Poder.
Por isso, Mortágua não tem razão quando diz que antes o PS escolheu sempre governar com a Direita. Não, a Esquerda antes é que quis sempre impor um programa que o PS só podia rejeitar, porque se o aceitasse não alienaria só os investidores e a Europa, mas também uma boa parte da sua base eleitoral.
Sabe o que dizia Helmut Schmidt? Quem tem uma visão, faria melhor em ir ao médico... Sem ofensa. E calho de lhe lembrar que no último ano, o meu caro previu uma série de benesses para a Esquerda e a mais das vezes falhou as suas previsões. Não é nada de admirar, eu também falhei muitas, incluindo a de que a eleição britânica representaria o enterro político de Corbyn...
O programa político que Mortágua propõe foi tentado recentemente, por via democrática, e falhou. E o resultado é a Venezuela à beira do despotismo e da miséria absoluta. Para soberania e melhoria das condições de vida dos mais desfavorecidos, estamos conversados...
E aqui se transcreve o comentário do mesmo leitor ao texto: “ As diferenças insanáveis entre o Ser e o Parecer”
Como bom tático que é, António Costa sabe que nada alimenta mais a paixão do que a insegurança e um pouco de ciúme, pelo que iremos voltar a vê-lo piscar o olho ao PSD, ma non troppo. E sabe, não se altera a CRP e não se conseguem acordos na Europa, sem o PSD…
Também não me parece que Rio deseje acordos substanciais com o PS, deseja apenas que Costa se defina a favor de um acordo com a Esquerda, que lhe permita parecer que recentra o PSD (como é que alguém que quer ultrapassar Maria Luís Albuquerque pela direita pode querer fazê-lo é algo que me deixa estupefacto, mas em política o que parece é) por um lado, e que corresponda ao reconhecimento de que o PS não conseguirá muito provavelmente uma maioria absoluta em 2019 por outro (eu espero que não a consiga, porque acho muito bem que a Esquerda mantenha um 'droit de regard' sobre a governação socialista, olhe-se para o que foi a de Sócrates de 2005 a 2009). Costa, fino como é, irá manter a ambiguidade quanto baste tanto quanto puder, até pela razão indicada acima…
Mas não faça previsões, nem despreze o adversário. Como o irmão de Costa bem lembrou, Rio comeu um peso pesado como Pinto da Costa de cebolada, como se diz aqui no Norte, e Costa é dado às trapalhadas. Basta outro Verão como o de 2017 e Costa irá pelo mesmo caminho de Sócrates (eleitoralmente falando, claro). Já não há margem para erros…
Não faria mal à Esquerda o pessimismo ontológico da Direita, em relação à natureza humana e ao resto, em particular à tirania das boas intenções e à tendência que pessoas muito decentes e até virtuosas têm para a asneira absoluta (o 'absolut f***-up'). Se calhar é por causa dele que no geral, é a Direita que ganha eleições...

1 comentário:

  1. Obrigado pela relevância que dá à minha crítica às suas posições. Remato com a explicação que Schmidt (um dos meus heróis políticos, está-se mesmo a ver) deu para esse chiste. Replicou que não se opunha a que as pessoas tivessem sonhos, meramente que quando se designam objetivos, é preciso indicar os caminhos para lá se chegar. E é justamente isso que me irrita nas soluções esquerdistas. Na falta de uma bússola moral e económica e de políticas realistas e bem desenhadas, recorre-se á Ideologia. Não chega. No fim falha, como se tem visto.

    Por isso é que eu digo que o muito liberal Centeno é o mais radical de todos os Economistas. A sua competência (ou talvez a nossa boa sorte) tem permitido uma melhoria real da nossa vida, muito longe de todas as promessas de um Maduro...

    A Esquerda faz mal em ser anti-Liberal. O Liberalismo Político coloca a autonomia individual no centro do seu projeto político. A Esquerda Marxista entende que para democratizar a Economia é necessário sacrificar esse Ideal. Mas, no momento em que desaparecem esses mecanismos de controle da ação política que são o pluralismo (que é um bem em si mesmo) e a democracia multipartidária, está aberta a porta a todos os despotismos. Como se verifica em lugares tão díspares como a Rússia, os EUA ou a Venezuela...

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