sábado, 10 de fevereiro de 2018

Os efeitos da globalização na Austrália


Em 1948 o governo australiano promoveu a criação de uma marca automóvel, a Holden, que se tornaria num dos símbolos identitários do país. Desde então famílias inteiras, de avós a netos, trabalharam na fábrica de Adelaide e alimentaram um enorme orgulho por constituírem uma espécie de aristocracia operária na região.
Setenta anos depois, a General Motors, que comprara entretanto a marca, decidiu fechar a fábrica, no âmbito de uma decisão economicista tomada à boleia da campanha de Trump para dar preferência à produção nos Estados Unidos.  De um dia para o outro houve, para os que se viram subitamente no desemprego, a sensação de se verem despojados de algo de fundamental em si.
O fecho da fábrica Holden aconteceu ao mesmo tempo do que a da Toyota, o que significou o fim da produção de automóveis na Austrália. Algo que não incomoda o governo de direita, que aceita sem qualquer reação o efeito perverso da globalização: se no Vietname, na Tailândia ou na China, se produzem carros mais baratos para quê produzi-los na Austrália?  Mesmo que a indústria em si não se limitasse nos efeitos do que se produzia nas suas fábricas, porque muitos outros empregos se tinham criado a montante, com o fornecimento de componentes, ou a jusante, com todos os comércios viabilizados pelo consumo de tantas famílias.
Não admira que, virando costas aos dois partidos principais, o eleitorado tenda a deixar-se seduzir por réplicas locais do atual inquilino da Casa Branca, que adaptam o discurso para algo do género «A Austrália em primeiro lugar». E para isso invocam a circunstância de se reduzir cada vez mais o peso dos produtos manufacturados nas exportações de um país, que passou a se limitar à venda de recursos minerais ao exterior.
Por ora há quem se surpreenda com a passividade dos operários da Holden ao terem-se deixado cair no desemprego sem sequer contestarem. Mas, num país onde o desemprego ainda não chega aos 6%, a revolta relativa à falta de oportunidades ainda não é significativa. Ademais, tendo sempre adotado uma pose arrogante em relação aos operários de outras atividades, os da Holden eram por eles invejados, vistos com rancor. Como contar então com eles para reivindicarem do governo a preservação de direitos e regalias, que durante décadas tinham sido exclusivamente seus?

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