terça-feira, 31 de julho de 2018

A bola passou para Marcelo: será escorpião ou quem aparenta não ser?


Agora que já não conseguem fazer pontaria à lei, que Marcelo tem para promulgar, dado que a sua vítima colateral (Ricardo Robles) os privou do alvo com que se banquetearam nos últimos dias, os especuladores imobiliários apostados no prolongamento da tripa-forra de que têm beneficiado optaram por outra estratégia soprando para os jornais do costume a tese sobre o provável veto presidencial. Recorde-se que o diploma parlamentar, aprovado pela esquerda, dá direitos a inquilinos, que a lei de Cristas havia negado, dificultando os despejos até agora verificados com uma intensidade revoltante.
Será Marcelo o escorpião da fábula, incapaz de negar a sua natureza, facilitando a vida ao negócio imoral, que a seguradora Fidelidade prepara e outros especuladores pretendem imitar na sua senda? Ou, pelo contrário, revelará um pingo de decência, que respeite a vontade maioritária da Assembleia da República e dê algum oxigénio às muitas famílias ameaçadas de se verem postas na rua por quem apenas tem como fito o mais obsceno lucro?
Cá estaremos para, nos próximos dias, voltar a denunciar Marcelo pelo que é, ou elogiá-lo por quanto aparenta não ser. Quanto a Robles é merecido o reconhecimento por, no momento adequado, ter deixado a falar sozinhos os que tanto costumam pregar contra a imoralidade alheia, quando os sabemos cúmplices, ou ativos cultores, de comportamentos bem mais pecaminosos.

segunda-feira, 30 de julho de 2018

Rui Rio ensandeceu?

Eu sei que a Madeira tem tido grande influência no estado de sanidade mental dos líderes do PSD que, contaminados pela presença de Alberto João Jardim, ora se apagam, ora lhe pretendem imitar o estilo. O resultado é sempre deplorável.
Desde que quis padronizar os conceitos de cultura no Porto em torno dos espetáculos de La Féria e das exposições de carros antigos, Rui Rio sempre me tem parecido um saloio, que detesta certas elites cultas por ser um assumido asno. Mas convenhamos que poderia ganhar alguma esperteza no convívio com gente mais letrada, tanto mais que esteve alguns anos apartado dos sítios onde predominavam sumidades do tipo Abreu Amorim, Duarte Marques ou Hugo Soares. Ficam agora justificadas dúvidas quanto à hipótese de a distância relativamente ao partido não lhe ter melhorado a qualidade dos convívios.
Exemplo disso foi o discurso no comício da Madeira em que furtando-se à figura de palhaço, não se contentou em apagar-se perante o ajardinamento geral e disse duas boutades, que nos levam a pensar se acabou por ensandecer de vez. Numa delas lamentou que o país não tivesse contado com mais uns três ou quatro Albertos Joões para que fosse muito diferente do que hoje é. É certo que suportámos mal Cavaco e Passos Coelho, mas três ou quatro figurões daquela estirpe só podemos imaginar num assustador filme de terror.
Noutro passo do discurso Rio proclamou outra pérola, ao fazer depender de uma ida ao Chão da Lagoa, quem pretender o cargo de primeiro-ministro de Portugal. Ora António Costa não só nunca lá foi como, provavelmente, é a prova viva em como condição sine qua non para se ser primeiro ministro competente, respeitado e maioritariamente apoiado pelos cidadãos é precisamente nunca ter comparecido a tal farra.

domingo, 29 de julho de 2018

O mundo pula e avança


Vemos, ouvimos e lemos as notícias sobre a realidade internacional e espanta-nos o caráter «seletivo» do que anunciam, sonegando algumas informações relevantes quanto às mudanças em curso, capazes de virem a provocar inusitadas surpresas em quem só com aquelas se tem contentado.
Por exemplo os Estados Unidos não são apenas Trump. Pelo contrário! As eleições de novembro poderão inverter o equilíbrio de forças no Capitólio, dando aos Democratas a capacidade de bloquearem tão eficazmente as políticas ditadas da Casa Branca quanto os Republicanos conseguiram enquanto era Obama o inquilino. Mas o que mais pode excitar a nossa expetativa é pelo menos 1/6 dos eleitos democratas provirem das hostes de Bernie Sanders, sem rebuços em utilizarem a palavra socialismo como objetivo a alcançar com o trabalho político, demarcando-se convictamente daquele centralismo nem carne, nem peixe, que norteia o partido há várias décadas.
Há também a Inglaterra donde só emergem referências ao Brexit, sem nenhuma referir as sondagens que dão o Partido Trabalhista de Corbyn claramente à frente dos Conservadores nas próximas eleições. A imprensa portuguesa tem tanto medo numa eventual vitória do experiente líder socialista, que ignorou-o ostensivamente, quando ele esteve dias atrás entre nós.
E que dizer do crescente repúdio do apartheid israelita aprovado no Knesset em 19 de julho? Perdendo a solidariedade de todos quantos se comoveram com o martírio judeu durante a Segunda Guerra Mundial, o regime de Telavive tem por diante a degenerescência inevitável de quem arrisca o mais indigno para manter uma situação, que sabe condenada.
Por muito que os jornais e as televisões nos queiram convencer do contrário («as coisas continuarão a ser como são») a dinâmica de mudança acelera-se e não respeita os desejos dos que dos fazem tudo por a travar.

Um Perdigão que arrisca perder as penas ao demasiado alto querer voar


O Ministério da Cultura decidiu atribuir maior autonomia aos museus, possibilitando-lhes maior liberdade nos conteúdos e programação alargada das atividades com menores constrangimentos da tutela. Em principio essa descentralização deveria ser acalentada pelos responsáveis das instituições como um salto qualitativo fundamental na respetiva gestão.
Só que há que contar com o inflamado ego de António Filipe Pimentel, diretor do Museu Nacional de Arte Antiga, que já veio rebater a lei com um vasto relambório destinado a fundamentar aquilo em que se tem especializado: aproveitar todas as oportunidades para dizer mal deste governo.
Parece sina do museu das Janelas Verdes contar sempre com diretores demasiado convencidos da sua importância. Que a não têm obviamente. Há uns anos foi uma Dalila de má memória, que até Cavaco se esforçou por a acarinhar quando, com inteira justiça, o governo de Sócrates, a despediu. Agora anda Pimentel a sujeitar-se a idêntico desiderato, até tendo em conta a predileção pelas Escolas de Quadros do CDS para emitir ataques imponderados contra quem tem o dever de lealdade.
Já tarda a sua substituição por quem tenha do seu cargo o sentido de responsabilidade, que o atual titular não demonstra.

sábado, 28 de julho de 2018

Onde quase dou razão à morgada, mas com uma enormíssima diferença


Houve aí um tempo em que uns quantos manipuladores andaram a querer-nos convencer em como já não se justificavam divisões entre esquerda e direita. Há quem ainda porfie nessa intenção como se viu na recente entrevista da morgada, que quer substituir a joana na procuradoria, acaso o governo imponha a Marcelo a substituição de quem possui tão graves responsabilidades no estado a que o setor da Justiça chegou entre nós.
Que a divisão em causa se justifica temos exemplos quotidianos, e basta comparar os títulos dos pasquins, sobretudo os da Cofina, com o que sabemos ser a realidade factual, que os desmentem, mas mal conseguem vencer o âmbito das redes sociais.
Peguemos no caso do vereador Robles da Câmara de Lisboa. Com dinheiro seu, da irmã, dos pais e de um empréstimo legitimamente contraído num Banco, adquiriu uma casa num bairro histórico de Lisboa. Depois pô-la à venda através de uma imobiliária, que não lhe concretizou o negócio nos seis meses de duração do contrato.  Vai daí retirou a casa do mercado, decidiu dividir a propriedade entre ele e a irmã para cada qual decidir o melhor fim para esse negócio, e decidiu arrendar todas as frações da parte que lhe cabe.
Onde há aqui algo de ilegal? E que contradição se pode encontrar em relação ao seu discurso permanente contra a especulação imobiliária na cidade e a expulsão do centro histórico de quem nele sempre habitou? Pelo contrário o casal de idosos que ali morava viu o contrato renovado por mais oito anos e a uma renda muito abaixo do que essa especulação ditaria (170 euros).
O que há aqui de esquerda ou de direita?
No caso de Robles houve o cumprimento da lei e uma postura ética inatacável! Pelo contrário os pasquins da Cofina e o PSD, que se apressou a pedir-lhe a demissão, lembram o ladrão que anda a fugir às responsabilidades dos seus atos e aponta para quem lhe está ao alcance para ver se distrai a atenção dos incautos.
A direita desespera por manter a lei, que Cristas criou quando foi ministra e deu azo à especulação de que Robles tem sido um dos mais insistentes críticos. A direita desespera - e os especuladores imobiliários como seus titereiros! - porque cresce a vontade política de acabar com os vistos gold criados e promovidos por Paulo Portas e a cuja pala tanta corrupção a alimentou. A direita desespera, porque sobra sempre quem se lembre dos negócios do Dias Loureiro, do Duarte Lima, do Cavaco Silva e de todos quantos cirandavam à volta deste último numa corte promíscua, que faz de Sócrates e dos seus alegados cúmplices uns meninos de coro.
A direita desespera, porque os seus crimes contra o Estado medem-se por muitos milhões e o melhor, que consegue forjar como casos atribuíveis às esquerdas na coligação ainda por desmantelar entre pasquins, procuradores e juízes são os que têm a ver com robalos e com suspeitas de valores incomparavelmente menores do que os que sabemos serem da sua lavra.
O que este caso demonstra é que nas direitas não basta ser corrupto para se ser desmascarado enquanto tal, mas nas esquerdas, além de se ser irrepreensivelmente sério, ainda tem de se enfrentar as traiçoeiras armadilhas, que o campo contrário não cessa de engendrar para iludir o que é a distinção entre a honestidade e a desonestidade. Nisso a morgada tem uma pontinha de razão, com uma diferença: os desonestos estão quase por inteiro situados nas direitas, enquanto nas esquerdas são exceção.

sexta-feira, 27 de julho de 2018

Ai desconfio, desconfio...


Vai por aí grande gritaria a propósito dos novos programas escolares, surgindo vozes desatinadas a emitirem prognósticos apocalíticos. Não bastando os maledicentes do costume, também Manuel Alegre se junta ao festim confirmando a propensão para, em alturas inconvenientes, dar força a quem faz da guerrilha ao governo uma profissão de fé constante.
Já se disse e redisse que nunca «Os Maias» foi obra de leitura obrigatória, antes constituindo um cânone que, dentro da regra de se dar a conhecer a obra de Eça de Queirós, era tradicionalmente escolhida. Mas, mesmo que assim fosse, iria algum mal ao mundo por transitar para o leque das obras facultativas, que os alunos do secundário poderiam ou não ler de acordo com a sua liberdade de escolha? Eu pertenci a uma geração que não foi obrigada a ler essa obra, optando por outras que então me motivassem, e não foi por isso que julgo ter ficado mais burro. Até posso considerar, tantos anos passados, que tive maior prazer com «A Cidade e as Serras» do que com tal romance.
Ora o propósito do ensino do português não deveria ser balizado pela possibilidade de os alunos terem efetivo prazer na leitura das obras que pudessem escolher de acordo com as orientações dos professores e com as suas próprias apetências?
Manuel Alegre também diz cobras e lagartos de quem possa secundarizar Camões, considerando crime de lesa majestade o poupar-se aos petizes a obra do nosso consagrado poeta. Mais uma vez tenho de desacordar do vate de Águeda, causando decerto um coro de indignados com o que irei dizer com todas as letras: mesmo apreciando os sonetos, mesmo admirando o engenho de decassilabar a história da viagem à Índia e tudo quanto com ela se encadeia, nunca mais tive paciência para pegar n’«Os Lusíadas» desde que, nos bancos da escola, fui obrigado a dividir silabicamente os seus versos. A forma como a escola nos obrigava a «analisar» a obra, que os poderes políticos insistem em considerar a mais representativa da nossa Literatura, serviu-me de vacina para a colocar no meu índex pessoal. Decora-me a biblioteca, é certo, mas dificilmente, lhe voltarei a folhear as páginas.
Há, de facto, um debate por fazer sobre como se criarão hábitos de leitura desde o parque infantil, sobretudo em concorrência com a bulimia visual dada pelas televisões e pelos computadores. Por isso mesmo tenho grandes dúvidas sobre se se justifica a inoculação de novas imunizações à força de impor cânones desatualizados a quem tem mundividências totalmente diferentes da dos que hoje se exasperam com os novos programas escolares.
Nem sequer me disponho a defender estes últimos com grandes certezas quanto à sua bondade, mas quando servem de arma de arremesso contra o Governo, ai desconfio, desconfio... 

quarta-feira, 25 de julho de 2018

Há quem queira confundir Manuel Germano com género humano!


Decididamente Sá Carneiro não chega sequer aos calcanhares de Mário Soares. Deixei implícito esse juízo comparativo em texto anterior, mas agora obrigo-me a enfatizá-lo, porque Marcelo Rebelo de Sousa veio secundar a ideia de uns estarolas laranjas, que fazem depender o reconhecimento de tal honra ao ex-Presidente da República apenas se a mesma for estendida ao seu antigo colega de partido.
A História foi relativamente benévola para com o político que se despenhou esturricado em Camarate, porque poupou-lhe o desmascaramento de que seria objeto acaso não visse abreviado os seus dias.
Quem viveu os últimos dias da campanha eleitoral para as presidenciais de 1980 nunca mais esquece o clima de quase insuportável opressão imposto pelo governo da AD, que pressupunha a imposição de um tipo de regime do género do atualmente verificado na Hungria de Viktor Orban, baseado numa maioria absoluta apostada em negar qualquer capacidade de intervenção a quem não se lhe sujeitasse.
Mesmo anteriormente Sá Carneiro mostrara essa tendência autocrática dentro do próprio PSD, fazendo birras e autoexilando-se em Inglaterra ou em Espanha, enquanto as direções a ele desafetas não se vissem corridas pelos prosélitos, que por cá deixava a sabotá-las.
Não! Sá Carneiro não se pode de modo algum igualar a Mário Soares, porque nunca foi um democrata, por muito que tivesse querido aparentá-lo ao pressentir a derrocada iminente do marcelismo. O país nada tem a agradecer-lhe por quanto possa ter feito em benefício dos seus cidadãos. Lembremo-nos, por exemplo, do Serviço Nacional de Saúde, que foi aprovado em 1979 com os votos contra, não só do CDS, mas também do PSD de Sá Carneiro e  de... Marcelo Rebelo de Sousa.
Querer equiparar o medíocre político de direita ao fundador do Partido Socialista e corresponsável por muito do que de bom foi conseguido desde 1974 é um insulto para a Democracia, que esta não merece. Porque se daqui a um século a História continuará a sublinhar a importância de Mário Soares em tudo quanto sucedeu na segunda metade do século XX português, quem se lembrará então de um frustrado golpista, que levou os seis anos subsequentes à Revolução de Abril a congeminar as formas mais tenebrosas de a destruir?

Propostas esdrúxulas enquanto sobem os salários


1. Ontem à noite Rui Rio deu uma entrevista à TVI e o que teve de novidade a propor roça o anedótico: que não conseguindo a aprovação do Orçamento, António Costa deveria demitir-se e permitir a formação de um governo PSD/CDS.
Desconheço quem possa estar a servir de spin doctor ao líder do PSD, ou se ele sequer conta com algum tão convencido está da sua autossuficiência, mas há uma unanimidade nos comentários jornalísticos ou das redes sociais: ele nada terá acrescentado de substancial ao cinzentismo que vem descolorindo a sua ainda breve liderança. E quanto ao que de mais esdrúxulo disse, não fosse o verão estar como está, poderíamos conjeturar se, durante a tarde, antes de comparecer à entrevista, não ele teria sido afetado por alguma insolação.
2. Não tenho pejo nenhum em dizê-lo: relativamente a Francisco Sá Carneiro acredito cumprir-se o ditado popular segundo o qual homem pequeno, ou velhaco ou bailarino. Como não consta, que ele deslumbrasse nos salões de baile...
Em todo o caso, o trazê-lo a lume (sei que a expressão pode insinuar piada fácil, mas escasseia-me o talento para o humor negro - ufa, lá saiu outra pilhéria!) tem a ver com o facto da concelhia de Lisboa do PSD ter exigido que, se Mário Soares tem direito ao Panteão, também se justifica o mesmo tratamento a ele.
Cabe questionar o porquê? De Mário Soares podemos enunciar o combate de décadas contra o fascismo, o ter tido papel determinante na integração de Portugal no espaço europeu, de continuar a ser o melhor presidente da República da nossa Democracia e, em fim de vida, ter esgotado as derradeiras forças na condenação do passismo-portismo.

O que fez Sá Carneiro, que mereça a injustificada pretensão laranja? Constituiu a AD para desfazer a Revolução de Abril mais aceleradamente? Convenhamos que não se trata de um currículo respeitável. Diria mesmo que constitui em si uma crestada nódoa!
3. Conhecido o teor do 9º Relatório de Acompanhamento do Acordo sobre a Remuneração Mínima Mensal Garantida (RMMG) conclui-se que o emprego não só aumenta como os salários estão a subir: apesar de mais de setecentos mil portugueses ainda auferirem o valor mínimo, os novos empregos têm sido maioritariamente remunerados acima desse valor. O que dá razão aos que defendem a necessidade de se mostrar mais ambição na evolução dessa definição legal por muito que os patrões da (des)concertação social se mostrem renitentes. É que não só a economia justifica uma melhoria efetiva na qualidade de vida dos cidadãos, como já se viu o impacto positivo que o aumento dos salários comporta na dinâmica de crescimento do país.

terça-feira, 24 de julho de 2018

Demasiado grande para falir?


Se fosse um Estado o banco HSBC seria o quinto mais rico do mundo. Mas, como não é, constitui uma daquelas instituições demasiado grandes para falirem, porque isso causaria uma perturbação sistémica em todo o sistema financeiro à escala global. Sendo tido como o banco chinês mais ocidentalizado conta com 300 mil funcionários no conjunto das suas sucursais, comandadas pela sede em Londres, mas com a parte mais significativa dos negócios a serem concretizados em Hong-Kong.
Antes da entrega da ex-colónia à China, o HSBC era uma instituição britânica. Hoje constitui a ponte entre a City de Londres e o mercado asiático cuja relevância não para de crescer. Mas os anos mais recentes têm-lhe sido turbulentos, ora porque ora se viu ameaçado de fecho nos Estados Unidos em 2012 pelo comprovado envolvimento no branqueamento de capitais oriundos do tráfico de droga ou de ditadores pouco recomendáveis do Terceiro Mundo - 180 mil milhões de dólares anuais, ou seja mais do que o Orçamento da União Europeia! -, ora pelo seu papel ativo nas fugas fiscais denunciadas pelo relatório Swiss Leaks.
Contra a determinação da senadora Elizabeth Warren, que ambicionava punição exemplar para um banco pouco criterioso na escolha dos seus clientes, o Tesouro limitou-se a passar uma coima insignificante, comprovando o sucesso das pressões políticas exercidas por George Osborne, o ministro das finanças de David Cameron, que agiu como insistente lobista na sua defesa. Hoje torna-se óbvia a impunidade com que o HSBC contorna leis e corrompe homens políticos, dispondo-se a servir de esforçado batedor do regime chinês para aumentar a sua influência na economia global, tratando nomeadamente de substituir o dólar pelo ainda tímido yuan como moeda de referência nas transações comerciais.

Os fogos na Grécia e na Suécia como reflexos de crimes contra a Humanidade


A tragédia causada pelos incêndios na Grécia e, em escala menor, na Suécia, vêm confirmar o que sempre se soube, mas as direitas e Marcelo Rebelo de Sousa quiseram ignorar relativamente ao sucedido no ano passado entre nós, quando, implícita ou explicitamente, quiseram responsabilizar o governo de António Costa pela dimensão do sucedido: em determinadas condições atmosféricas o deflagrar de um fogo implica a impossibilidade quase imediata de o controlar com forte possibilidade de perda de vidas humanas. Por isso resta procurar resgatá-las tão rapidamente quanto possível das áreas para onde os fortes ventos tendem a empurrar as chamas, enquanto se adotam medidas de contenção, que só com a conjugação de muitos esforços se conseguem tornar eficientes.
No caso da Grécia também surgem fortes suspeitas de fogos postos por quem aproveita as elevadas temperaturas, os ventos intensos e os baixos teores de humidade para provocar a ignição dos materiais combustíveis e, a seguir, reclamar contra a incapacidade do Estado em defender os cidadãos. Não será por acaso que, quer em Portugal, quer na Grécia, estão no poder governos de esquerda, que as direitas logo zurzem como se, elas próprias, nas mesmas circunstâncias, pudessem fazer melhor. Mas não se livram da suspeita de estarem na origem de tragédias de que logo se aproveitam oportunisticamente sem qualquer pudor.
Associando estes casos às elevadas temperaturas no Japão, causadoras igualmente de muitos mortos, vão-se repetindo os avisos do planeta quanto à degradação dos fatores de sustentabilidade da existência humana, que justificariam estratégias políticas mais consequentes do que as definidas no Acordo de Paris firmado em 2015. Daí que o comportamento de Trump e de quem insiste em negar as alterações climáticas, assuma a condição de crime contra a Humanidade merecedor de severa punição. 

segunda-feira, 23 de julho de 2018

A sensatez, competência e convicção de Mário Centeno

Não sou um incondicional de Mário Centeno que, a acreditar nos seus trabalhos académicos anteriores à condição ministerial, perfilha valores ideológicos que dificilmente se conjugarão com os previsíveis trilhos por onde as esquerdas deverão seguir futuramente se quiserem contrariar ao mesmo tempo as direitas e os populismos de extrema-direita. Mas tenho de reconhecer-lhe uma inegável competência técnica aliada à prudência com que conseguiu contornar sucessivamente as minas postas no seu percurso por Schäuble e seus subservientes cúmplices no Eurogrupo, pela Comissão Europeia com alguns dos seus comissários em guerra aberta contra a solução governativa portuguesa e, que nunca o esqueçamos, por Marcelo Rebelo de Sousa, que chegou a soprar, para os altifalantes com que conta nos jornais e televisões, a vontade de o despedir.
É preciso ter nervos de aço, convicção profunda quanto à bondade da estratégia a implementar e o suporte incondicional do primeiro-ministro para Mário Centeno contar com sucessivos êxitos nestes dois anos e tal de governo. Bem podem as direitas arengar quanto à situação internacional (algo de que sempre se esqueceram quando trataram de derrubar e denegrir o governo de José Sócrates!), que com ele se cumpre a regra de se ser merecedor para que a sorte influa em seu favor.
A entrevista de hoje ao «Público» exasperou os professores, mas eles fazem figura dos tais cães que ladram enquanto a caravana passa. Porque constatando como as sondagens dão conta de um país que valoriza a sustentabilidade das contas públicas, ele assume a continuidade de decisões que não ponham em causa tudo quanto até agora se conquistou. Até porque a reivindicada recuperação do tempo de serviço dos professores nem sequer fazia parte do programa do Governo, nem do quadro orçamental definido para a legislatura. Na realidade se o Orçamento para 2019 já acomoda 107 milhões de euros a mais para fazer face às progressões dessa classe profissional, torna-se obscena a teimosia em exigir mais, quando sai claramente beneficiada relativamente a outras camadas sociais, que estão longe de  conhecer tão significativa evolução nos seus vencimentos.
Será que Mário Nogueira, o oportunista do Stop ou qualquer outro sindicalista, que mantêm a luta contra o Ministério da Educação, confiam que um novo governo, previsivelmente de direita, lhes daria guarida ás desmedidas ambições?  Será que creem na possibilidade de se manter este discurso político do governo, que acabou com a estigmatização dos funcionários públicos? Será que a lógica do sempre menos Estado iria ao encontro dos interesses dos seus associados?
O que sobressai nas palavras de Mário Centeno é a sensatez com que aborda o futuro do país, colocando a melhoria da qualidade de vida da grande maioria dos portugueses como seu objetivo e transmitindo a confiança em como, sob a sua condução nas Finanças, ele será alcançado.

domingo, 22 de julho de 2018

Onde se justifica dizer mal do Novo banco e de um dito sindicato dos professores


1. A notícia de que o Novo Banco prepara-se para comprar um novo espaço na Rua da Artilharia 1 para aí mandar construir a nova sede não pode ser mais uma daquelas que passam pelos telejornais sem causar o sobressalto público, que justificam. Então o meu dinheiro, além de garantir aos compradores privados do antigo BES, os lucros por eles exigidos para concretizarem o negócio, ainda servirá para luxos complementares como os de lhes darem um desnecessário novo espaço para passearem a vaidade dos seus lugares-tenentes? A equipa designada para aquele banco por Carlos Costa com o assentimento do fundo abutre, de que ele se constituiu representante, está a gozar com a nossa cara e, sobretudo, com os nossos bolsos.  Quem lhe travará as sucessivas malfeitorias?
2. Já aqui me insurgi contra essa coisa dita sindical, que foi criada por um oportunista saído do Bloco de Esquerda, decidido a conseguir nessa súbita vocação a frustrada glória jamais conseguida na política. E, no entanto, eis as televisões a darem publicidade a esse Stop, que vem dando da classe dos professores a pior das imagens.
Não há profissão em que o brio dispense o sentido de responsabilidade para com um trabalho final devidamente bem feito. Que artesão olharia para o relógio ou para o calendário interrompendo para férias a conclusão da sua obra? Que burocrata ou cientista apagaria as luzes do escritório ou do laboratório antes de dar por concluído o relatório com que se comprometera?
Não é isso que pensa o arrivista desse dito sindicato, que acha ilegal a diretriz dada pelo ministério da Educação sobre o não deixar ir para férias quem não tiver concluído o processo das avaliações dos alunos. Para além de desrespeitar esses jovens relativamente aos quais deveriam ter a preocupação de servirem de exemplo e de estarem-se nas tintas para as famílias, que veem a sua vida virada do avesso pelas suas irresponsáveis reivindicações, esse dito sindicato dá mais uma machadada na imagem social de uma classe à qual a maioria dos jovens intenciona não pertencer.
No passado os professores davam-se ao respeito, munindo-se de valores e de comportamentos, que justificavam a admiração pelo que representavam - formadores das novas gerações. Agora vão sendo vistos como gente sem outras preocupações que não as exclusivamente suas, totalmente alheios às circunstâncias em que exigem histericamente o que o país não está em condições de lhes facultar. Porque coloca-se a questão de fundo mais importante: porque hão-de ver os seus rendimentos substancialmente aumentados, quando muitas outras classes profissionais ou os reformados ainda nem sequer recuperaram dos níveis anteriores à tenebrosa passagem do governo da troika pela governação?

O que as sondagens permitem antever


As sondagens valem o que valem, mas vão coincidindo na tendências em manter o Partido Socialista relativamente próximo da maioria absoluta, mas sem a alcançar, o que dá fundamentadas esperanças aos apoiantes da atual maioria parlamentar em vê-la duradouramente repetida.
Ao mesmo tempo o PSD de Rui Rio mantém-se próximo dos mínimos históricos perspetivando-se um merecido minguamento do respetivo grupo parlamentar. Apesar da conduta populista o PP pouco ganha com a cinzentude do putativo parceiro de coligação, interpretando o Jornal de Negócios a relativa subida como devida à campanha falaciosa em torno da questão do preço dos combustíveis.
Há quem não leia como absurda essa tentativa de Cristas em, ao mesmo tempo privar o Estado de receitas, e ao mesmo tempo exigir mais dinheiro para investir na saúde, mas há sempre estarolas para achar possível ter sol na eira e chuva no nabal.
Constata-se ainda a relação da ordem de 57% de previsíveis votos nos partidos das esquerdas para apenas 35% nos das direitas. É evidente o pendor sociológico do eleitor nacional ao optar maioritariamente pelas esquerdas em detrimento das direitas.
Na sondagem da Aximage avulta ainda a quebra de simpatia de Marcelo junto dos portugueses. Embora ainda não seja significativa, desde março que esse indicador está sempre a descer. Sinal de que, sem incêndios, em cuja retaguarda possa tirar selfies  e distribuir abraços, ele é tido como irrelevante.
Se assim fosse ainda era o menos. O pior é que ele nunca deixa de ser o escorpião pronto a morder quem - neste caso - o carrega no dorso.

sábado, 21 de julho de 2018

Quando a direita temeu as mudanças prometidas pelo Serviço Cívico Obrigatório


Nos últimos anos Sofia Leite tem realizado algumas das melhores reportagens a que temos assistido na RTP. Embora apresentadas quase sigilosamente no segundo canal, elas dão do país um retrato rigoroso e objetivo, quer no passado que volta a revisitar, quer no presente aonde continuam vivos os efeitos dos acontecimentos em causa.
Em vésperas da comemoração do 25 de abril foi-nos disponibilizado o documentário «Dos Livros para a Enxada», sobre o Serviço Cívico cumprido por muitos dos jovens, que tinham acabado de concluir o ensino secundário e não encontravam vaga nas universidades. Os governos provisórios viram-se, então, confrontados com o dobro das candidaturas ao ensino superior em relação às verificadas anteriormente não estando as universidades preparadas para tão grande afluxo. A alternativa era propiciar-lhes o contacto com o país real, integrando brigadas  destinadas a construírem escolas, montarem bibliotecas, darem informações ou fazerem inquéritos sobre a saúde das populações, ou apoiarem os esforços de Michel Giacometti na recolha de canções, rezas, alfaias e outras ferramentas de trabalho, que enriquecessem o conhecimento patrimonial do país.
A ideia fora de Vitorino Magalhães Godinho e teve aplicação efetiva no verão quente de 1975, quando a direita criava um clima de guerra civil contra os partidos e os movimentos de esquerda. Por essa altura  Durão Barroso, já então arrivista a buscar notoriedade através de ações terroristas com as cores do MRPP, quis-se distinguir como opositor dessas campanhas, hoje vistas com enorme saudade por quem integrou tal esforço e pelas populações, que as recordam como momentos muito importantes nas suas vidas.
O Museu do Trabalho em Setúbal é o exemplo vivo de quanto se ganhou com essas campanhas, que providenciaram muitos dos objetos então coletados com esse objetivo. E os registos sonoros das entrevistas então concretizadas são documentos históricos de uma riqueza inestimável.
A reportagem dá conta dos boicotes, dos boatos e de outras manifestações de hostilidade de padres e caciques locais, que  difundiam as maiores absurdidades quanto ás intenções daqueles barbudos e daquelas raparigas modernaças, que lhes invadiam as aldeias. Mas, a mais de quarenta anos de distância, quem olha para as fotografias, os filmes ou registos sonoros então recolhidos só pode reconhecer quão diferente se tornou a realidade. Por muito que apareça quem diga tudo ter constituído milagre da Senhora de Fátima ou da súbita lembrança de Deus sobre um povo até então por ele esquecido.