domingo, 8 de julho de 2018

Distopia à vista, ma non troppo


Nestes dias em que foi notícia a vinda de Barack Obama ao Porto para falar dos desafios da Humanidade face às alterações climáticas, também vi a sequela da «Verdade Inconveniente» de Al Gore, que atualiza a abordagem de dez anos atrás.
Na aparência vivemos um momento político muito inquietante com Trump na Casa Branca e vários fascistas, ou seus idiotas úteis, a liderarem os governos da Itália, da Polónia, da Hungria, da Áustria, da Ucrânia e de outros países outrora enquadráveis na influência soviética. Além de violentos ataques às liberdades fundamentais dos seus próprios cidadãos, portam-se como assassinos perante as sucessivas vagas de refugiados e de imigrantes vindos de países em guerra ou onde os efeitos do aquecimento global os privou de recursos mínimos pelos fenómenos climáticos, que lhes destruiu a possibilidade de manterem uma agricultura viável. Como dizia o ex-presidente norte-americano é estúpida a crença de ser possível conter o fluxo imigratório através de muros físicos ou virtuais.
Há quem se intimide com a distopia para que parecemos tender, mas o próprio Al Gore transmite uma mensagem e esperança, mesmo reconhecendo ter passado por tantas e tão dolorosas derrotas. Mas não parecia Hitler imparável entre 1939 e 1941, acolitado por tantas marionetas, que lhe seguiam o exemplo um pouco por toda a Europa? Quanto tempo durou a prosápia de construir um Império para durar mil anos? Afinal  a bandeira vermelha seria hasteada nas alturas berlinenses em menos de seis ...
E que dizer dos que se tinham curvado aos seus ditames e lhe quiseram replicar as políticas? À exceção de Salazar e de Franco todo o resto do continente virou do avesso a lógica fascista a que parecera condenado...
E quanto tempo levou Luther King a tornar incontornável a afirmação dos Direitos Cívicos? E quantos anos esperou Mandela na prisão para que o apartheid se tornasse memória de museu?
A exemplo dos maiores crápulas da História, Trump já conseguiu um lugarzinho de destaque nas suas páginas mais sombrias. Se existisse o Inferno tal qual Dante o descreveu, ficaria por certo num dos seus círculos mais profundos. A reviravolta ocorrerá, quando os ingénuos votantes nas forças populistas das direitas concluírem que elas nada de bom lhes terão trazido para se verem livres da miséria. E será glorioso o momento em que lhes virarão as costas e se abram a esperançosas propostas de futuro, mais justas, igualitárias e ambientalmente sustentáveis. Será então  altura de tornar mais efetivas as orientações definidas pelos Acordos de Paris para salvaguardar a nossa casa comum dos perigos em que incorre se prosseguir tão avassaladora emissão de dióxido de carbono.
Após tantas angústias e frustrações esperemos que se nos abram as tais janelas iluminadas de que falava o poema de Paul Éluard.

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