sexta-feira, 20 de julho de 2018

A cumplicidade das esquerdas está para ficar


Para um  assumido apoiante da maioria parlamentar, sem perder a identidade socialista de há muitas décadas, foi com satisfação, que li a entrevista de João Oliveira ao «Público», por confirmar o potencial de uma perenização da atual solução  governativa. 
Pode-se contestar a perspetiva revisionista da História, quando ele evoca o período do governo de António Guterres, atribuindo ao então primeiro-ministro a falta de vontade para antecipar em vinte anos a bem sucedida solução atual.
Não duvido da escassa vontade de Guterres numa coligação informal à esquerda tendo em conta que ele representava um PS ainda muito marcado pelo anticomunismo de quem tinha bem presentes os confrontos pós-Revolução. Mas vale a pena lembrar a Oliveira que, sem verdadeira dimensão da concorrência à esquerda (a UDP continuava numa dimensão grupuscular e o PSR nem a tal podia ambicionar!), os comunistas ainda viam os socialistas como inimigos fidalgais, que tinham pretensão em superar eleitoralmente.
Agora que é óbvia a impossibilidade de suceder uma tal inversão da relação de forças nas esquerdas, parece sábia a atitude dos comunistas, quando se afirmam dispostos a manter os acordos com os socialistas depois das próximas eleições, dispensando até a formalidade do papel, que Cavaco exigira a António Costa. Tão só se conjuguem medidas corretivas das desigualdades (ex.: aumento das pensões e do salário mínimo) ou de investimento nos setores da saúde e da educação, que constem dos programas políticos de ambos os partidos, o líder parlamentar comunista não antevê razões para dar às direitas a satisfação de celebrarem o divórcio das esquerdas.

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