quarta-feira, 11 de julho de 2018

Governar entre as escolhas possíveis e as restrições vindas de Bruxelas


«A divergência europeia» é o título do texto publicado por Sandra Monteiro na edição deste mês do «Le Monde Diplomatique», de que é diretora.  Escrito na sequencia do fracasso do Conselho Europeu do final do mês passado o artigo constata não se terem vislumbrado quaisquer propostas de correção dos desequilíbrios estruturais, que seriam tão necessárias para evitar o que se vai comprovando: o projeto europeu converte-se progressivamente numa má solução para «o desenvolvimento sustentável e socialmente justo, de muitos dos seus países-membros.»
A autora descarta qualquer benefício da eventual aprovação de um orçamento da zona euro se ele continua a obrigar-nos a conter, se não mesmo a reduzir, as despesas com os serviços públicos, nomeadamente na área da saúde. Tanto mais que, paralelamente, existe a pressão do aumento da despesa com o esforço de militarização em curso, e que leva Trump a exigir que os países da NATO dupliquem em média esse contributo.
Para além de não se ver qualquer justificação para continuar a existir uma Aliança militar, que encontrava fundamento na existência da, entretanto dissolvida, estrutura oposta - o Pacto de Varsóvia - seria bom que os países membros da Nato exigissem, no mínimo, ter a capacidade de decisão correspondente ao seu contributo. Ora, os Estados Unidos decidem a seu bel prazer qual a estratégia da organização e ainda vêm exigir que lhes paguemos para lhes servirmos de moços de recados.
O que se está a passar com a União Europeia, mormente com a crise de acolhimento aos refugiados e da sua integração solidária, mais não é do que o prenúncio da fragmentação, que ameaça todo o edifício burocrático e disfuncional, alavancado, sobretudo, pela apressada integração dos países outrora subordinados à influência soviética, e hoje dirigidos por fascistas despudorados.
Quando António Costa alerta para a impossibilidade de, nas escolhas que faz como governante, não haver disponibilidades financeiras para satisfazer todas as exigências, move-se num quadro de condicionalismos restritivos, que tem Bruxelas como indesejável tutor. Por isso mesmo Sandra Monteiro conclui o artigo com este alerta: «quando as escolhas que estão disponíveis são demasiado restritivas, senão trágicas, convém questionar o próprio quadro que as cria, sob pena de se participar ativamente no afunilamento do campo dos possíveis e de se ficar reduzido ao papel de rolo compressor  de expetativas.”

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