quinta-feira, 12 de julho de 2018

Acabado o espetáculo mediático nada mudou de substantivo na nossa realidade


Teria sido bom que o caso dos miúdos tailandeses, fechados numa gruta com o seu treinador, suscitasse um salto qualitativo no que muito subsiste em falta na comunidade internacional: o sentido da solidariedade. E, aparentemente, até se pode apostar que tal haja sucedido, se ignorarmos a indiferença a que continuam a ser votados os desgraçados mortos diariamente no percurso entre os seus países subsarianos, asiáticos ou do Médio Oriente e uma Europa, que se convenceram assemelhar-se ao El Dorado.
À mesma hora em que milhões se enterneciam com o salvamento dos miúdos, quantos estavam a morrer nas areias do Saara, a serem abatidos como gado pelos traficantes que os escravizam, ou a afogarem-se no Mediterrâneo? Quantos miúdos da mesma idade estavam a ser assassinados para alimentarem o abjeto comércio dos órgãos a serem transplantados nas clínicas ocidentais? E, no entanto, as televisões de todo o mundo embolsaram milhões em publicidade à conta da exploração do sofrimento por que passavam aquelas treze vítimas potenciais alavancado pelas palavras exageradamente emotivas dos que o relatavam?
Vivemos tempos singulares: o capitalismo neoliberal cuidou de criar uma tal individualização, que torna os espectadores televisivos fácil presa de situações talhadas para com elas se identificarem , masturbando-se com a ideia do que fariam se estivessem em tais circunstâncias. A competitividade torna-se tão intensa e focada numa falaciosa versão da meritocracia, que a grande maioria enquadra-se numa tribo própria, a quem são devidos todos os direitos em detrimento dos que não tenham cabimento no seu subgrupo. Aceitando subdividir-se em clãs sem qualquer importância no todo social, distraem-se da pertença ao que pode, efetivamente, gerar a diferença. Um operário conseguirá mais se se unir aos seus iguais ou se gastar energias a defender acefalamente o seu clube de futebol? Um português conseguirá ter mais benefícios das políticas internacionais se pugnar só pelos seus interesses ou se os conjugar com os de outras nacionalidades sujeitas aos mesmos constrangimentos?
É essa lógica de tribalização que leva os europeus a acharem-se no direito de negar o acesso dos pobres do Terceiro Mundo ao seu espaço geográfico, por não serem brancos, nem cristãos, mesmo que oriundos de sítios onde as matérias-primas dali esbulhadas justificaram muita da riqueza com que talharam a sua invejada qualidade de vida.
Mas os exemplos podem ser escalpelizados em muitos outros casos, para redundarem no mais obsceno de quantos assistimos: o enriquecimento ininterrupto da pequena tribo dos muito ricos à escala global, mesmo que à custa do empobrecimento da grande maioria dos que veem como pertencentes a outro universo que não o seu.
O capitalismo tem sido muito eficiente na divisão entre os que se deveriam unir para, em conjunto, virarem do avesso o sistema que os explora e humilha. A Solidariedade, ou a sua sinónima generosidade, foram-se perdendo à medida que se esqueceram as lições fundamentais, ainda há meio século tidas como óbvias. O individualismo com o correspondente egoísmo minou a preocupação genuína com a má sorte alheia, apenas iludida por espetáculos mediáticos como o agora concluído. E, sobretudo, fizeram-nos distrair da necessidade de conjugarmos as vontades das maiorias para tornarmos este planeta mais justo dentro dos constrangimentos definidos por quanto há a implementar para o tornar sustentável para as próximas gerações.

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