segunda-feira, 16 de julho de 2018

Entre desempregos de longa duração e falhanços sempre piores


Este fim-de-semana, além de ser o da comemoração de mais um aniversário, também foi um daqueles em que ficar em casa se tornou obrigatório pelos incómodos de uma antipática gripe. Agarrado aos lenços para, em vão, desentupir o nariz, vivi acessos lacrimejantes, mormente na altura em que estava a ler a compadecida reportagem do semanário de Balsemão sobre a triste desdita de um desempregado de longa duração a quem, apesar das conhecidas competências, ninguém quererá dar nova oportunidade seja lá onde for. Por momentos tive de operar o exercício introspetivo: será que estou a ser levado pelo tom de fazer chorar as pedrinhas da calçada com que os jornalistas adornam os dias presentes de Zeinal Bava? Feita a análise concluí que (in)suportava por essa altura uma das fases mais gravosas da súbita doença, porque acaso assim não fosse bem teria de arranjar melhor esconjuro...
A leitura do jornal em causa é sempre edificante e não compreendo como há quem dele diga cobras e lagartos, fazendo tenção de não o ler. É que perderia, por exemplo, a confissão angustiada de Ricardo Costa que, na sua crónica, terá por certo presente o resultado da sondagem sobre a satisfação dos portugueses com a atual maioria parlamentar e quer-se convencer a si mesmo, ainda que aparentando ter por objetivo sossegar outros angustiados detratores desta solução governativa, sobre o quão extemporâneo é olhar para tais indicadores e concluir pela inevitabilidade de nova e mais robusta vitória das esquerdas em 2019.
Angustiado também se confessa Marcelo Rebelo de Sousa pela pena da sua oficiosa porta-voz no mesmo semanário - Ângela Silva - que dá conta do seu desagrado a respeito do secessionismo de Santana Lopes a quem pretenderá travar antes de causar pior dano ao seu já combalido campo ideológico. E, porque o que tem de ser tem muita força, Marcelo manda dizer aos prosélitos, que cuidará de António Costa passados dois anos sobre a sua re-vitória eleitoral, tempo por ele considerado necessário para que o campo contrário se organize e o possa enfrentar em eleições antecipadas.
Como de costume está aqui a funcionar o wishful thinking de Marcelo, que joga póquer com cartas sem saber quais terá então na mão. Até porque, nessa altura, já será provável um reanimar da esperança internacional com novo inquilino na Casa Branca - desejavelmente inquilina naquela que é a minha aposta: Elizabeth Warren! - e, sobretudo com o refluxo das extremas-direitas, todas elas a contas com crises difíceis de gerir com as falaciosas soluções, que visivelmente o não são. Como a política é feita de fluxos e refluxos, depois desta moda de sucessos criptofascistas, será altura de um ressurgimento das esquerdas tal qual já se verifica aquém-Pirenéus.
É nessa perspetiva, que se torna anedótico o percurso errático de Santana Lopes. Ele quase imita o guarda-redes francês na forma como propicia golos na própria baliza. Anunciando-se eurocético e populista, julga incontornável a onda reacionária, que varre o resto da Europa e ambiciona cavalgar a onda, que espera ver aqui chegar. Ele é a negação da célebre máxima de Samuel Beckett falhando sempre e cada vez pior...

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