Ana
Mercedes Pescada, professora e membro da Missão Escola Pública, escreveu na Visão
a melhor caracterização que li do atual Ministério da Educação. Recordando um
automóvel que teve em tempos, disse lembrar este ministério um carro construído
com as peças defeituosas caídas ao chão da oficina. E acrescentou o veredito
que a sabedoria popular guardava para casos assim: o que nasce torto, para o
torto caminha, sem salvação.
A imagem
é perfeita porque precisa. Um carro montado com refugo não avaria por azar —
avaria por projeto. Cada peça defeituosa cumpre a função de falhar, e o
conjunto limita-se a somar as falhas até ao estertor final. É a biografia do
Ministério de Fernando Alexandre reduzida a uma metáfora de garagem.
Pescada
dava um exemplo que vale por mil discursos sobre rigor. No exame de Português
do 12.º ano, a proposta de escrita era cópia de um exercício publicado num
livro de preparação para o exame. Ou seja: o ministério, rigoroso na exigência
de originalidade aos alunos, foi incapaz de a praticar na única tarefa em que
ela é obrigatória. E, pior, ao copiar de um manual comercial, premiou os alunos
cujas famílias podiam comprá-lo e penalizou os que não podiam. A injustiça
social embrulhada num descuido técnico — que é, no fundo, o resumo de toda a
política deste governo para a escola pública.
Pescada
lembra o tempo em que a construção dos exames obedecia a regras deontológicas
estritas: sigilo, versões alternativas prontas à menor suspeita de fuga,
consultores científicos, professores do terreno, a exigência de que nenhuma
questão fosse copiada de lado nenhum. Era o rigor que dava aos exames a essência
de justiça e integridade. Esse rigor foi substituído por convocatórias a
professores mortos, plataformas que não funcionam, notas adiadas e negações desmentidas,
uma a uma, pela realidade.
O
ministro, entretanto, mantém-se no lugar com a serenidade de quem confunde
permanência com competência. Não se demite porque, na lógica deste governo, fazê-lo
seria admitir — precisamente o que estes figurões nunca fazem. Preferem culpar
o código QR, os agrafadores, os diretores, António Costa, o alinhamento dos
planetas. Tudo, menos o carro que conduzem e as peças com que o montaram.
Ana
Mercedes Pescada, que conhece a oficina por dentro, disse o essencial numa
frase. E este ministério, montado com o refugo que os outros deitaram fora, não
tem alinhamento que o endireite nem mecânico que o salve. Só lhe resta o abate
— e quanto mais cedo, menos alunos leva consigo na despistagem.



















