Tenho
amigos que nas redes sociais carpem o facto de não se vislumbrarem sinais de
esperança. Olham a realidade interna, veem Montenegro a cantar hinos enquanto o
país afunda. Olham a externa, veem Trump e Netanyahu a incendiar o Médio
Oriente. Concluem que não há saída.
Compreendo
o desânimo. Partilho-o frequentemente. Mas há precedente histórico que convém
lembrar.
Walter
Benjamin suicidou-se em 1940 na fronteira entre França e Espanha, convencido de
que os nazis o apanhariam, de que não havia fuga, de que o fascismo vencera
definitivamente. Morreu sem saber que passaria a fronteira no dia seguinte, que
os que vinham atrás dele conseguiram, que o Reich que julgava eterno duraria
apenas mais cinco anos. Escreveu nas Teses sobre a História que cada
geração tem pequena força messiânica sobre a qual o passado reclama direitos.
Não viveu para ver essa força manifestar-se.
Stefan Zweig matou-se com a mulher no Brasil em 1942. Escreveu na carta de despedida que o seu mundo, o da cultura europeia humanista, morrera e que ele não tinha forças para reconstruir a vida noutra língua, noutro continente. Não viu a Alemanha derrotada dois anos depois, não viu a Europa reconstruída, não viu os valores que julgava mortos ressurgirem nas constituições democráticas do pós-guerra.
Virginia Woolf encheu os bolsos de pedras e
afogou-se no rio Ouse em 1941. Depressão clínica, a guerra a aproximar-se de
Inglaterra, o medo de novo colapso mental que não conseguiria suportar. Deixou
cartas a dizer que já não aguentava. Morreu sem saber que as suas obras
atravessariam o século, que o feminismo encontraria nela voz essencial, que Um
Quarto que Seja Seu se tornaria manifesto lido por milhões.
Três
suicídios. Três pessoas brilhantes que olharam para a realidade do seu tempo e
viram apenas sombras. Concluíram que não havia esperança. Tinham razões
objetivas para o pensar. Enganaram-se quanto ao futuro porque o futuro é por
definição imprevisível.
Mais
depressa do que se pode esperar irradiam motivos luminosos donde hoje só
parecem vir sombras. Benjamin não viu os nazis derrotados. Zweig não viu a
Europa renascer. Woolf não viu o feminismo triunfar. Mas tudo isso aconteceu.
Não sei
se Montenegro cairá amanhã ou daqui a três anos. Não sei se Trump se afundará
no Irão ou sobreviverá ao atoleiro. Não sei se o genocídio em Gaza terminará ou
piorará. Não vislumbro sinais claros de esperança que possa apontar aos amigos
desesperançados.
Mas sei
que Benjamin, Zweig e Woolf também não vislumbravam. E sei que o futuro
desmentiu o desespero deles. Não a tempo de os salvar, infelizmente. Mas
desmentiu.
Vale a
pena resistir não porque a vitória seja certa mas porque a derrota nunca é
definitiva enquanto houver quem resista. Benjamin resistiu escrevendo até ao
último dia. Zweig resistiu documentando o mundo que julgava perdido. Woolf
resistiu criando a literatura que sobreviveu à guerra que a matou.
A
resistência não garante vitória. Garante apenas que a luta continua, que a
memória persiste, que as sombras não são absolutas porque alguém teima em
acender a vela.
Os amigos
desesperançados têm razão em constatar que a realidade é sombria. Enganam-se se
concluem que por isso devem desistir. Porque mais depressa do que esperamos a
luz pode vir donde hoje só vemos escuridão.
Não por
milagre. Por resistência acumulada de quem não desistiu quando tudo parecia
perdido.
Benjamin,
Zweig e Woolf desistiram demasiado cedo. Nós ainda estamos vivos. Ainda podemos
resistir. Ainda vale a pena.
Mesmo
quando só vemos sombras.










