(Décimo
nono de uma série de retratos à maneira de Woody Allen, em que se mostra a
eficácia de um fútil)
Nasceu
filho de um subsecretário de Salazar que se tornaria governador de Moçambique
nomeado por Caetano, e recebeu o nome do próprio Marcello, padrinho de
casamento dos pais e quase padrinho seu, tão íntimo que lhe emprestou até o
nome — pequenas duas letras de diferença guardam a distância exata entre a
devoção e a discrição.
Cresceu,
por isso, menos convertido do que ajustado: a democracia chegou-lhe depois,
como um fato bem cortado que se veste com naturalidade quando o anterior já não
serve. Mesmo não faltando testemunhos contraditórios quanto à sua condição de
fura-greves nalgumas das lutas académicas do período de estertor do regime.
O 25 de
Abril encontra-o no Expresso na apressada reciclagem de quem sempre soube nadar
em qualquer maré, desde que o levasse a algum lado visível.
Já
catedrático, sentou-se no júri que chumbou Saldanha Sanches na agregação de
2007, um "ajuste de contas" segundo o próprio visado; Marcelo nega
hoje ter votado contra, mas recusa-se, "por delicadeza", a dizer
mais. É a delicadeza mais conveniente da política portuguesa, a que protege
sempre quem a invoca.
Décadas
antes, tinha inventado para Paulo Portas um jantar inteiro em Belém, com ementa
e vichyssoise incluídas, jantar que nunca existira — episódio que Portas
descobriu ao telefone, praguejando, e que ficou na história como o "facto
político" por excelência: aquele que se torna verdade só por ser repetido
com convicção suficiente.
Jurou não
liderar o PSD "nem que Cristo descesse à Terra", em 1996, e liderou-o
um mês depois; jurou deixar a política de vez ao sair de Belém, e o país
aguarda, cético, para ver se desta vez o milagre falha a tempo. Entretanto,
provou uma tese académica com a própria carreira: que a televisão pode levar
quem quiser à Presidência, bastam selfies certas e beijos suficientes na
plateia certa.
Foi com
esse beneplácito televisivo que pareceu só assistir, em silêncio cúmplice, ou
distração genuína, ao parágrafo que Lucília Gago diz ter escrito sozinha, mas Marcelo
conheceu antes do próprio António Costa — coincidência que a história ainda não
resolveu inteiramente a favor de ninguém, e que devolveu aos socialistas a
oposição e ao Chega a antecâmara do poder.
Fica o
saldo, esse sim indiscutível: com atos, silêncios e intrigas bem cronometradas,
ajudou a dar à extrema-direita portuguesa a dimensão que hoje tem. Ele fica
para a pequena História como o democrata da última hora que chegou sempre a
tempo de mudar de lado, menos o de evitar as consequências.



















