domingo, 14 de junho de 2026

A ADEGA e os Seus Ventos

 


Daniel Oliveira encontrou o acrónimo certeiro: AD de coligação entre PSD e CDS, EGA das três letras do Chega. ADEGA. Uma aliança que se bebe em doses cada vez menos disfarçadas e começa a revelar os efeitos da embriaguez — a que confunde maioria momentânea de deputados com mandato histórico e transforma uma vitória eleitoral apertada na justificação para uma governação de direita radical.

A ADEGA tem programa. Na Lei da Nacionalidade, a guerra aos emigrantes — aqueles que construíram este país quando ele precisava de braços e agora são tratados como problema a resolver por quem beneficiou do seu trabalho. Na Prestação Social Única, a guerra aos pobres — o recorte das prestações sociais embrulhado na linguagem da racionalização, como se a miséria fosse um excesso burocrático a corrigir. São duas frentes do mesmo projeto: um país mais estreito,  hostil, confortável para quem já tem e mais duro para quem não tem nada.

Ferro Rodrigues, que conhece a casa por dentro, deu o conselho que a aritmética parlamentar justifica: perante tão acintosa aliança, votar contra o próximo orçamento é o mínimo que a decência política exige à esquerda. Não por prazer de desestabilizar — por recusa de cumplicidade. Um orçamento é um documento político, não uma peça técnica neutra, e este orçamento será o da ADEGA: quer de Ventura, quer de Montenegro, mesmo se este fingir o contrário.

A embriaguez pelo poder tem a desvantagem de todos os estados alterados: quem a vive não a reconhece. Montenegro continua a tratar Ventura como parceiro controlável, como se o abraço de urso fosse um gesto de afeto. Ventura continua a receber o que quer — das políticas às fotos — sem ceder nada em troca, porque não precisa de ceder: está a ganhar sem governar, que é a posição mais confortável da política.

Quem semeia estes ventos tumultuosos colherá as expectáveis tempestades. A questão é se a esquerda terá a lucidez e a unidade para que essa colheita aconteça nas urnas — e não depois, quando o estrago já estiver feito.

A noite e a manhã

 


José Vieira Mendes questiona se a obsessão com Salazar — dois filmes, um estreado, outro por estrear — faz sentido. Para mim faz. O público será reduzido, é certo, e não incluirá a gente que suspira pelo ditador com a memória seletiva de quem esqueceu a miséria do Portugal de então e confunde a “ordem” com o medo sistemático sobre quem se atrevia a pensar diferente. Mas é precisamente por essa gente existir que os filmes, os documentários, os livros e as canções são necessários — não para a converter, que é tarefa inglória, mas para que a memória não seja monopolizada pela nostalgia.

Os anos de fascismo foram uma longa noite escura. A formulação é de Sophia de Mello Breyner Andresen, que sabia do que falava, e a manhã clara a que aludia não foi oferecida — custou coragem, prisão, exílio e sangue a quem recusou normalizar a escuridão. Lembrar isto não é arqueologia. É higiene cívica.

Num momento em que Luís Montenegro anda de braço dado com André Ventura sem aparentemente perceber o abraço de urso que este lhe aplica, a memória do que o fascismo foi torna-se mais urgente do que decorativa. O PSD está a ser lentamente redefinido pela cumplicidade com quem tem no racismo e na xenofobia o combustível mais evidente do seu projeto político. Montenegro julga usar Ventura; Ventura sabe que é o contrário.

As sondagens começam a dar sinais animadores: a maioria dos portugueses não se revê nessa cumplicidade. Condena o racismo, a xenofobia, a deriva que ameaça um dos partidos determinantes da democracia pós-25 de Abril. É uma maioria silenciosa que as próximas eleições terão de traduzir em votos — porque as maiorias silenciosas que não votam são, na prática, maiorias que abdicam.

Dois filmes sobre Salazar não mudarão isso sozinhos. Mas fazem parte do mesmo esforço: o de garantir que a noite seja reconhecível quando regressa — e que não seja confundida, desta vez, com a ordem.

A lucidez dos que perderam

 


Há uma ironia que a história reserva aos que perderam o poder: por vezes, é então que começam a ver com clareza. A Igreja Católica —grande superpotência do passado, com tantos anos de crimes acumulados sobre quem declarava herege, cismático ou simplesmente inconveniente — dá sinais, com Robert Prevost, de ter compreendido algo que escapa aos donos do presente.

A encíclica sobre a inteligência artificial não é um documento revolucionário. Está condicionada pelos preconceitos de uma instituição que ainda não resolveu a sua relação com as mulheres, a diversidade sexual, os crimes que encobre debaixo dos tapetes das sacristias. Mas o diagnóstico económico é, curiosamente, consonante com o que o pensamento progressista do século XIX estipulava: a primazia das pessoas sobre a tecnologia, reduzida à função acessória de meio de produção, e a humanidade entendida como unidade solidária — o que foi, no seu tempo, o conceito da solidariedade internacionalista que Marx e Engels opunham ao nacionalismo dos proprietários.

Quem deteve grande poder e sabe não o vir a recuperar adquire, por vezes, uma lucidez que falta a quem ainda julga tê-lo. Os novos donos do mundo — Musk, os fundos soberanos, os algoritmos que decidem créditos e empregos — não têm encíclicas nem remorsos. Têm prospetos para a SEC (Securities and Exchange Commission) e data centers em zonas de baixa fiscalidade. Não perderam nada ainda. E é precisamente isso que os impede de ver.

O mundo avança em metafóricos carris — a concentração de capital, a crise climática, a agudização das desigualdades — e há uma multidão desnorteada nos cais das respetivas estações: os nacionalistas apostam em restaurar fronteiras que o capital há muito ignorou, os nostálgicos de impérios que a história encerrou, os tecno-otimistas convictos de que o próximo algoritmo resolverá o que os anteriores agravaram. Perderam o comboio e discutem a cor da locomotiva.

Que seja um papa, formado numa tradição que tem tanto a expiar, a lembrar que a tecnologia serve as pessoas e não o inverso — e a humanidade é um todo cujas divisões a condenam — diz menos sobre a Igreja do que sobre o estado do pensamento dominante. Quando a voz lúcida na sala é a de quem chegou tarde e com as mãos sujas, a sala tem um problema sério.

sexta-feira, 12 de junho de 2026

Os Fantasmas e o Clima

 


Um cronista do Público assinalou esta semana algo que merece desenvolvimento: as guerras de Putin e de Trump são, no fundo, guerras de fantasmas. O primeiro quer restaurar o império soviético que a história encerrou em 1991 e nunca existiu exatamente como ele o imagina. O segundo quer restaurar a América industrial do século XX, a da hegemonia incontestada, a de antes dos japoneses, dos chineses e da realidade. Ambos guerreiam contra o passado com armas do presente e produzem, no processo, um futuro que nenhum dos dois controla.

A China observa. Sem o lastro desses fantasmas — sem império a restaurar, sem hegemonia perdida a recuperar —, avança com a paciência de quem sabe que o tempo joga a seu favor. Xi Jinping não precisa de fazer a América grande outra vez nem de reconquistar Kiev. Precisa de continuar a crescer, a investir em infraestrutura global, a comprar a dívida de quem lha vende e a esperar que os outros se esgotem nas suas nostalgias. O travão demográfico existe e é real — uma população que envelhece é uma economia que abranda —, mas é um problema de décadas, não de anos. Por agora, a paciência é uma vantagem competitiva.

Fora deste tabuleiro de potências há duas possibilidades que me parecem mais determinantes do que qualquer disputa hegemónica.

A primeira é distópica: a sucessão de guerras alimentadas pelos fantasmas do século XX — e pelos novos que as direitas extremas fabricam em série, da remigração ao nativismo, do negacionismo climático ao messianismo identitário — conduz a um mundo de conflitos permanentes, de recursos militarizados, de humanidade ocupada a destruir-se enquanto o planeta arde.

A segunda é a única alternativa real: perante o agravamento incontornável dos efeitos climáticos — as tempestades, as secas, as migrações em massa que nenhuma fronteira deterá —, a população humana do planeta percebe finalmente ser parte de um todo. Não por virtude, que é escassa, mas por necessidade, que é implacável. As canalhices nacionalistas são um luxo que o Antropoceno não pode financiar. A união de esforços não é utopia sentimental — é a condição de sobrevivência de uma espécie suficientemente inteligente para construir bombas atómicas e insuficientemente sábia para não as ter construído.

A história não escolhe por nós. Mas desta vez a fatura do adiamento virá mais depressa do que alguma vez veio. O clima não negocia, não aceita moções de estratégia e não aguarda pelos resultados das próximas sondagens.

O Rio e os Sinais

 


Brecht legou-nos uma pergunta disfarçada de imagem: quando o rio transborda, é sua a culpa ou das margens que o comprimem? A pergunta não é de hidráulica — é de política. E a resposta, que Brecht conhecia bem, é que as margens têm nome, morada e interesse em manter o rio no lugar.

Jorge Silva Melo, numa entrevista revisitada na RTP Memória, recordava o poeta Gastão Cruz para dizer algo que os manuais de história raramente ensinam: as revoluções anunciam-se antes de acontecer, e os sinais não têm necessariamente a forma de barricadas, porque podem ser um encontro.

Para Gastão Cruz, o ano decisivo não foi o da fraudulenta derrota de Delgado — a desilusão eleitoral de quem esperava que o regime tropeçasse em si mesmo. Nesse mesmo ano de 1958, aquele em que conheceu Fiama Hasse Pais Brandão e Luísa Neto Jorge. Desse encontro nasceu o núcleo do que viria a ser a Poesia 61 — um movimento que não tinha programa político declarado e era, inteiramente, um sinal de que o mundo luso estava em ativa mudança. A língua estava a mover-se antes de a história se ter apercebido.

É assim que funciona. O rio começa a subir antes de galgar as margens. Quem sabe ler o nível da água vê o que está para vir; quem olha apenas para as margens julga que tudo está sob controlo.

Há sinais desse tipo no Portugal de hoje — dispersos, contraditórios, sem manifesto que os una. A greve geral de 3 de junho com a CGTP a encher as ruas sem a UGT. As sondagens que empurram o PS para uma liderança crescente. Os jovens a descobrirem que as promessas do governo tinham prazo de validade orçamental. A geração precária que a uberização formou para não ter ilusões. Não é ainda o rio a galgar — é o rio a subir, silenciosamente, enquanto as margens discutem entre si a melhor forma de o comprimir.

Essas margens têm nomes conhecidos: a lei laboral que facilita despedimentos, os privados à espera do SNS, a extrema-direita a reunir em quintas com convidados deportadores. Comprimem com método e com pressa — a pressa de quem sabe, como Ventura sabe, que as oportunidades têm prazo.

O rio, por enquanto, não diz nada. Mas Gastão Cruz em 1968 também não disse nada. Apenas conheceu duas poetas. E o mundo mudou.

O Papa e o Manifesto

 


A condição de ateu dispensaria a leitura da encíclica do papa Leão XIV. Não fosse o seu conteúdo demasiado pertinente para ser ignorado por quem, crente ou não, tem olhos para o que se passa.

O novo papa diagnostica na inteligência artificial o que Karl Marx diagnosticou na máquina a vapor: a acelerada concentração de capital nas mãos de um grupo exíguo de proprietários dos meios de produção e o correspondente empobrecimento da maioria. O diagnóstico é correto. A diferença é que Marx tirou as conclusões e o papa para aí não vai — a doutrina social da Igreja tem os seus limites, e o Manifesto Comunista não está entre as referências de cabeceira.

O que Leão XIV descreve sem o nomear é a luta de classes em versão algorítmica. As leis que regiam o capitalismo industrial do século XIX não foram revogadas — foram aceleradas. A mais-valia que ontem se extraía do operário têxtil extrai-se hoje do motorista de Uber, do estafeta de plataforma, do trabalhador cujas funções a IA substituiu antes que ele tivesse tempo de as aprender. A velocidade mudou. A lógica é a mesma.

A acumulação primitiva que Marx descreveu como fundação violenta do capitalismo tem hoje uma versão limpa e digital: cinco empresas controlam a infraestrutura sobre a qual assenta a economia mundial, os proprietários acumulam fortunas sem precedente histórico, e os estados nacionais descobrem que regular isto equivale a domar a gravidade — teoricamente possível e praticamente difícil. O papa pede moderação. Os mercados agradecem e continuam.

O que fica por dizer na encíclica — e que Marx e Engels disseram há cento e setenta e cinco anos no documento mais lido e menos aplicado da história do pensamento político — é que a agudização das contradições do sistema não produz automaticamente a fase seguinte. Produz crise, conflito, regressão e, por vezes, barbárie antes de qualquer avanço. Estamos na fase em que a ela se apresenta como solução: a extrema-direita a propor deportações, Trump a propor tarifas, Musk a propor que o futuro lhe pertença.

O capitalismo já se reinventou antes quando parecia esgotado. Pode voltar a fazê-lo. Ou não. A história não tem guião obrigatório — tem tendências, contradições e, de vez em quando, a irrupção do inesperado. O papa sabe isto à sua maneira. Marx sabia-o à sua. A diferença é que um deles propunha rezar e o outro propunha organizar.

segunda-feira, 8 de junho de 2026

A Cimeira e os seus Convidados

 


Na semana passada a Figueira da Foz entrou no roteiro internacional da extrema-direita identitária. Chamaram-lhe Remigration Summit — "Cimeira da Remigração" — e reuniram cerca de 500 ativistas, influencers e figuras políticas numa quinta, depois de o Porto ter recusado acolher o evento por falta de espaço disponível para racistas. A organização ficou a cargo de Afonso Gonçalves, líder do movimento Reconquista, atualmente investigado pelo Ministério Público por suspeitas de crimes de ódio.

O conceito de "remigração" foi popularizado pelo austríaco Martin Sellner, líder do Movimento Identitário com ligações documentadas ao neonazismo, presente na sala. Significa deportação em massa de imigrantes — e de quem, mesmo tendo nascido no país, não pertença à etnia considerada originária. É uma proposta que, formulada em linguagem de política pública, procura tornar palatável aquilo que, dito claramente, se chama limpeza étnica.

O convidado-surpresa foi Gregory Bovino, antigo comandante da Patrulha de Fronteiras dos Estados Unidos, símbolo da política anti-imigração de Trump — a mesma que produziu a detenção de crianças migrantes e a morte de civis nas fronteiras americanas. Bovino veio mostrar que isto não é teoria: é prática, tem manual e resultados mensuráveis em vidas destruídas.

Os jornalistas foram impedidos de entrar. Os influencers foram autorizados. A distinção é a definição da estratégia: não se quer escrutínio, quer-se amplificação. A mensagem circula nos canais digitais da rede, sem contraditório, diretamente para públicos já mobilizados — o mesmo modelo que transformou o X de Musk num viveiro de radicalismos calibrados por algoritmo.

O que estes homens propõem como solução é o que a administração Trump já está a aplicar como laboratório: fronteiras militarizadas, deportações em massa, erosão das instituições que limitam o poder, desprezo pela lei quando incomoda. O resultado é visível — não como promessa mas como facto: crianças em jaulas, aliados abandonados, instituições esvaziadas, e um país que em três anos de trumpismo perdeu uma guerra, perdeu o controlo do Estreito de Ormuz e perdeu o respeito de quem ainda tinha algum.

Portugal tem uma história comprida com o que acontece quando esta gente chega ao poder. Chama-se Estado Novo e durou quarenta e oito anos. A Figueira da Foz ficará na memória como o lugar onde se reuniram os seus herdeiros espirituais para planearem a sequela.

domingo, 7 de junho de 2026

A Pressa dos Impacientes

 



Há uma exasperação nova nas direitas extremas portuguesas. Não é a exasperação de quem perdeu — é a de quem julgou que tinha ganho e descobre que isso não chegou para o que pretendia.

Passos Coelho “apresenta” livros. Dois em poucos dias, o que num país de leitores escassos é uma cadência admirável para quem não tem currículo. Os ex-primeiros-ministros sem agenda declarada têm gostam muito destes eventos — é a regra do género. A questão é se a agenda é a sua ou a de quem o aplaude na primeira fila.

Cavaco Silva publica nova homilia no Observador. Cavaco descobriu tardiamente o jornalismo de opinião com a regularidade de quem tem muito a dizer e ninguém obrigado a ouvi-lo desde que saiu de Belém. As homilias têm o tom característico: a gravidade de quem foi chefe de Estado, a nostalgia de quem recorda os seus governos como idade de ouro, e a irritação mal disfarçada de quem vê o país a não seguir os seus conselhos. O Observador acolhe-as com a deferência devida a um ex-presidente que pensa como a casa.

Ventura tem pressa. Sempre teve, mas agora a pressa tem nome e calendário: quer rever a Constituição enquanto a janela está aberta, porque sabe que vem aí outro carreiro. Daí tratar a política como corrida de obstáculos onde o mais temido não é a esquerda mas o tempo. A Constituição que quer rever é a mesma que em abril de 1974 custou sangue e coragem a construir — ele trata-a como burocracia inconveniente que lhe atrasa os planos.

O que une este trio é a exasperação de quem quer mais do que o momento dá. Passos quer influência sem responsabilidade. Cavaco quer reverência sem contraditório. Ventura quer poder sem os limites que a democracia lhe impõe. São impaciências diferentes com a mesma raiz: a convicção de que o país lhes deve mais do que tem dado.

O país, entretanto, vai pagando as contas, esperando nas urgências e perdendo voos em aeroportos que ninguém quis modernizar a tempo. Está ocupado a sobreviver e tem pouco tempo para as impaciências dos que se sabem em risco de perderem a oportunidade.

Quem Semeia Vento

 


Robert Kagan não é um nome que se associa à rendição. Cofundador do Project for the New American Century, arquiteto intelectual da invasão do Iraque em 2003, marido de Victoria Nuland — é, em suma, um dos homens que passou décadas a defender a força militar americana enquanto fator de ordem do mundo e devia ser usada. Quando este homem publica na The Atlantic um texto intitulado "Xeque-mate no Irão" e escreve que a derrota dos Estados Unidos "não pode ser reparada nem ignorada", é tempo de prestar atenção.

O Estreito de Ormuz — por onde passa cerca de 20% do petróleo mundial — está sob controlo iraniano. Kagan é explícito: a ideia de que o estreito reabrirá nas condições anteriores quando a crise terminar é infundada. O Irão cobrará portagens, favorecerá os países amigos, penalizará os demais. Tornou-se o porteiro da energia mundial e não há incentivo para abdicar dessa posição — muito menos num acordo com Trump, cuja fiabilidade o próprio Kagan questiona com a crueza de quem conhece o personagem.

Trump declarou em março que a guerra estava ganha e o Estreito reabrira. Falso. Pediu ajuda à NATO e à China para proteger a navegação. Recusaram. Três contratorpedeiros americanos tentaram forçar a passagem em maio e recuaram sob fogo iraniano. O presidente que prometeu fazer a América grande outra vez produziu, em menos de um ano de guerra, aquilo que Kagan compara a Pearl Harbor em termos de dano estratégico — com a diferença desse ter sido um ataque sofrido, e esta uma guerra escolhida.

A era da unipolaridade americana, inaugurada com o colapso soviético em 1991 e celebrada com a invasão do Iraque em 2003, terminou nas águas do Estreito de Ormuz em 2026. É o próprio Kagan quem o escreve. O tipo de frase que, vinda de quem vem, dispensa comentário — e exige, ainda assim, que se diga o óbvio: foi esta direita, a de Kagan, Cheney e Netanyahu, que semeou este vento durante décadas. A tempestade que agora colhem tem o tamanho exato das sementes que plantaram.

Trump limitou-se a acelerar o que já estava em curso. É o seu talento específico: transformar decadência lenta em colapso rápido e chamar-lhe vitória até a realidade o contradizer — o que, neste caso, já aconteceu, com a assinatura de um dos seus mais fervorosos apologistas.

terça-feira, 2 de junho de 2026

A Fome dos Privados

 


Há estratégias que se adivinham antes de serem declaradas. Este governo não anunciou que quer privatizar a Segurança Social e o Serviço Nacional de Saúde — anuncia-o por partes, em cada decisão orçamental que retira receita a estas instituições até que a sua alegada falência justifique a solução que sempre esteve em mente.

O mecanismo é simples e não é novo. Primeiro mingua-se o financiamento. Depois constata-se, com pesar encenado, que o sistema não funciona. Por fim convida-se o setor privado a resolver o que o Estado, deliberadamente subfinanciado, já não consegue. Os grandes grupos económicos agradecem, os acionistas recebem, e os portugueses pagam duas vezes — primeiro nos impostos que financiaram a destruição, depois nas mensalidades que financiam a substituição.

A notícia de que as receitas do imposto sobre as bebidas açucaradas deixam de ser consignadas ao SNS, vertendo diretamente para o Orçamento Geral do Estado, segue a lógica do que já aconteceu com o imposto do tabaco. São receitas criadas com um argumento de saúde pública — taxar o que prejudica para financiar o que cura — e desviadas para um orçamento onde competem com tudo o resto e perdem, porque tudo o resto tem lobbies mais organizados do que os doentes em lista de espera.

A narrativa da falência é a preparação do terreno. Um SNS a quem se retiram receitas sistematicamente é um SNS que caminha para a incapacidade — e a incapacidade, devidamente documentada e suficientemente amplificada, cria o consenso de que a solução privada é inevitável. Não é inevitável. É escolhida.

Há uma política alternativa — a de privilegiar o interesse de todos em detrimento da ganância de poucos. É mais do que urgente. É a diferença entre um país que cuida dos seus cidadãos e um mercado que os explora enquanto adoecem.

segunda-feira, 1 de junho de 2026

Este Governo Não Governa

 

O aeroporto de Lisboa tornou-se a montra do país. Não a montra que convida — a que afasta. Filas de horas para passageiros de fora do espaço Schengen, controlos de identidade que se arrastam até os voos partirem sem os passageiros, transferências perdidas, turistas retidos. A CNN americana já fez a reportagem. Nas redes sociais brasileiras recomenda-se evitar Lisboa como ponto de escala para outros destinos europeus. O dano reputacional instala-se com a rapidez que só as más notícias conhecem e demora anos a reparar.

Luís Montenegro, quando estava na oposição, dizia raios e coriscos das ineficiências do governo de António Costa. Ia resolver tudo, e depressa. Na educação prometeu professores para todos os alunos — há alunos sem aulas. Na saúde prometeu médico de família para toda a gente em seis meses — há cada vez mais pessoas dele privada e as cirurgias necessárias acumulam-se em listas de espera que transformam diagnósticos tratáveis em emergências. Na habitação prometeu casas acessíveis — os preços continuam a subir e a classe média junta-se aos que já a elas não chegam.

O aeroporto é apenas um capítulo desta história. Pedro Nuno Santos tinha uma visão para o que deveria ser a solução aeroportuária de Lisboa — grandiosa demais para a mesquinhez do então primeiro-ministro, que tratou de a travar por oposição ao homem antes de avaliar a ideia. Montenegro chegou ao poder sem visão alternativa, entregou o problema a quem não tem capacidade de o resolver, e o resultado é o que se vê: filas, voos perdidos e reportagens internacionais que o país não precisa.

Há um padrão. Chega-se ao poder convicto de que a incompetência alheia era o único obstáculo e que a própria chegada bastaria para resolver o que estava mal. Não bastou. Se as coisas já não estavam bem, ainda pior ficaram — que é a definição precisa de desgoverno.

Este governo não governa. Administra a deterioração e chama-lhe gestão responsável.

domingo, 31 de maio de 2026

O Mundo Segundo Elon

 

Pedro Candeias escreve hoje no Público sobre os planos da SpaceX para entrar em Wall Street e o que revelam sobre as ambições de Elon Musk: um mercado potencial avaliado em 28,5 biliões de dólares, abrangendo satélites, inteligência artificial, mineração espacial e colonização de outros planetas — com os maiores bancos do mundo a subscrever. Candeias pergunta, no final, quem regula isto. É a pergunta certa. A resposta, por enquanto, é ninguém.

Não estamos perante um delírio. Estamos perante um plano.

Musk está na órbita com o Starlink, na superfície com a Tesla, nas redes sociais com o X, dentro das cabeças com a Neuralink, e na inteligência artificial com o Grok — calibrado segundo os seus critérios editoriais, que são os da extrema-direita global. Um homem, uma infraestrutura, um ecossistema fechado onde informação e desinformação circulam sob a mesma gestão. O Papa Francisco, antes de morrer, avisou que a concentração da IA nas mãos de poucos era o maior perigo civilizacional do século. Tinha razão, como costumava ter quando não estava a falar de mulheres ou de preservativos.

O que assusta não é Musk. Os megalómanos existiram sempre e a história tratou da maioria com a indiferença que mereciam. O que assusta é a adesão. Há gente inteligente — não ignorantes, não desesperados, gente com educação e capacidade crítica — que foi migrando para o X, adotou o Grok como oráculo e foi sendo reorientada pelos algoritmos para um mundo onde o genocídio em Gaza é narrativa de segurança nacional, Telavive tem sempre razão e a extrema-direita europeia é apenas bom senso popular mal compreendido pela esquerda caviar. O algoritmo não convence por argumentos — convence por repetição, por seleção, por aquecimento gradual até que a temperatura do fanatismo pareça temperatura ambiente.

É uma operação de engenharia social à escala planetária. Os estados nacionais chegam tarde, as instâncias multilaterais chegam mais tarde ainda, e a União Europeia descobre que regular plataformas de um homem com o ouvido do presidente dos Estados Unidos é um exercício de soberania com prazo de validade incerto.

Talvez este mundo ainda não seja de Elon Musk. Mas a distância entre o que é e o que ele quer que seja está a encolher — e há trezentos milhões de utilizadores do X a ajudá-lo, sem o saber, a encurtá-la.

O Luís Não Me Vai Defraudar

 

Luís Montenegro discursou para os militantes do seu partido. Não para todos — para os menos de 30% dos filiados que se deram ao trabalho de validar a recandidatura à presidência do PSD. É uma base de apoio que outros chamariam problema; ele chama mandato.

Do alto dessa legitimidade comprometida, prometeu não defraudar os portugueses. É um compromisso que aceito com a serenidade de quem não tem nada a perder. As expetativas quanto à melhoria da qualidade de vida por efeito das suas políticas não são baixas nem modestas — são inexistentes. Poupo-me assim à deceção, que é um luxo que os otimistas não se podem dar.

As sondagens continuam a fustigá-lo com más notícias. Nalgumas já aparece como terceira força política, atrás do PS e do Chega, o que é uma posição curiosa para um primeiro-ministro: governar o país a partir do terceiro lugar, como quem dirige uma orquestra sem que os músicos saibam que ele existe. O Chega aplaude. O PS espera. Montenegro discursa.

Noutro passo da intervenção prometeu fazer Portugal maior. Aqui, confesso o abandono da serenidade. Portugal tem as dimensões que tem e não me queixo delas — país pequeno, horizontes largos, mar à frente. Para onde pretende o primeiro-ministro aumentá-lo? A única hipótese geograficamente disponível é Olivença, o que remete para o patético ministro da Defesa e seus sonhos irredentistas, que os espanhóis contemplam com a condescendência de quem tem muito mais exército do que nós e muito menos necessidade de o provar.

Fazer Portugal maior pode também ser metáfora. Há quem a use por ser irrefutável — ninguém processa ninguém por país insuficientemente engrandecido. Nesse caso, a promessa vale o que valem todas as outras: o tempo do discurso e o aplauso dos presentes.

No fundo, o Luís continua igual a si mesmo. Primeiro-ministro em forma de assim — assim como assim, assim mais ou menos, assim dependendo do dia, da sondagem e de se a ministra do Trabalho ainda não provocou mais uma greve. Governa sem maioria, lidera o partido com apoio minoritário, promete não defraudar um país que já desistiu de ser defraudado porque desistiu de esperar.

É uma forma de estabilidade. Não é bem a que tínhamos em mente, mas é a que temos.

sexta-feira, 29 de maio de 2026

A Operação e o Calendário

Chama-se Operação Imergente. Quatrocentos inspetores, sete magistrados, 60 mandados de busca domiciliária, 32 não domiciliários, cinco detidos, 37 arguidos. A sede do PS no Largo do Rato foi revistada — pela primeira vez na história do partido, dizem os que contam estas coisas. O epicentro é a Junta de Freguesia de Santa Maria Maior, o nome central é o de Miguel Coelho, os factos investigados situam-se entre 2016 e 2022.

Repare-se bem: entre 2016 e 2022. A investigação existe há anos. A operação acontece quando o PS lidera as sondagens com dez pontos de vantagem sobre a AD e o Chega. A coincidência é, no mínimo, notável.

Não se trata de negar que ajustes diretos irregulares existem, que o favoritismo autárquico existe, que a promiscuidade entre poder local e interesses privados existe — existe em toda a parte e em todos os partidos, o que qualquer inspeção igualmente zelosa às autarquias da AD, do PSD, do CDS ou do Chega confirmaria com a mesma facilidade. Trata-se de perguntar por que razão 400 inspetores convergem sobre o PS no dia em que as sondagens lhe são mais favoráveis, por que razão processos que dormitam durante anos acordam com este estrondo e esta encenação, e por que razão a Unidade Nacional de Combate à Corrupção nunca organizou espetáculo equivalente na direção contrária.

A resposta não é nova. O Ministério Público e a Polícia Judiciária têm uma relação com o PS que não é de equidade — é de hostilidade seletiva. A operação Influencer arrasta-se há anos, mantem o partido sob suspeição permanente e tem a resultados proporcionais ao estardalhaço: escassos ou mesmo nenhuns. O padrão repete-se: a operação é o castigo, o processo é o instrumento, a condenação é dispensável porque o dano já foi feito.

A maior culpa imputável aos governos de António Costa não foi a de ter tolerado irregularidades autárquicas — foi a de ter desperdiçado a disponibilidade, que Rui Rio mostrou, para uma reforma da justiça que a tornasse menos ideologicamente enviesada. Costa preferiu a estabilidade ao confronto. A estabilidade acabou. O enviesamento ficou.

Um deputado socialista disse hoje o que era preciso dizer: "No momento em que o PS aparece a reconquistar alguma confiança, demonstrada em sucessivas sondagens, aparece este tipo de notícias." Não é teoria da conspiração. É observação do calendário.

O Velho do Restelo e o “Catedrático” de Massamá

 


Hoje as direitas extremas suspiram pelo golpe que deu origem a quarenta e oito anos de ditadura. O 28 de maio é uma data que não precisa de comentário — precisa de memória. E a memória, neste país, tem o feitio conveniente de encurtar quando incomoda.

O Velho do Restelo, na epopeia de Camões, tinha razão na substância: via partir os compatriotas em detrimento da terra pobre em que viviam, para irem buscar riquezas além-mar que redundariam no infame tráfico negreiro. Era uma voz incómoda porque era uma voz certa. O que nos chegou esta semana da Faculdade de Direito de Lisboa tem a forma mas não o conteúdo.

Pedro Passos Coelho apresentou um livro. A assistir, com a satisfação de quem reconhece o território, estava André Ventura. O antigo primeiro-ministro falou durante quase uma hora, sem nomear ninguém, sobre políticos que para agradar a todos se tornam "postiços" — "prostitutos sem carácter", disse, com a palavra intacta. O seu frankenstein aplaudiu e foi para Belém contar aos jornalistas que Passos se estava a referir ao Governo. Claro que sim. Tudo é sempre sobre o Governo. O auditório era o acessório.

A questão não é o que Passos disse. A questão é onde o disse e para quem o disse. Há uma diferença entre criticar o poder e fazê-lo sentado ao lado de quem quer substituí-lo pelos piores métodos. Passos sabe disso. Escolheu o auditório, escolheu a primeira fila, escolheu o silêncio sobre o que ainda o separa de Ventura — que é, ou era, bastante. Francisco Mendes da Silva observa que ele adotou o tom cada vez mais dececionado de quem acreditou que o caso Spinumviva era a rampa de lançamento para o poder, e vê os meses a passar, os amigos "escritores" a minguar nas apresentações de livros e se sente reduzido à condição de voz que clama do deserto. Para uma corte de fiéis desnorteados pelo insucesso do seu proselitismo.

O Velho do Restelo falava sozinho no cais. Estes falam em conjunto, com microfone e câmaras, e chamam-lhe democracia.

A democracia que se comemora — a de abril, não a de maio de 1926 — custou o suficiente para não ser confundida com isto.

28 de maio de 2026

quarta-feira, 27 de maio de 2026

O Cerco Aperta

 

Em Braga, na Cimeira da Indústria organizada pelo Observador, Luís Montenegro foi recebido com manifestantes à porta e com a “sua” realidade lá dentro. Admitiu "modelar" o regime de outsourcing, não recuou no banco de horas, garantiu que o povo e as empresas estão do seu lado. O povo, neste contexto, é uma figura retórica. As empresas, essas estavam na sala.

Um governo não cai de um golpe. Cai quando os coros de apuros se repetem — nas ruas, nas sondagens, nos relatórios, nas salas onde julgava ter aliados. Esta semana os coros vieram de vários lados em simultâneo.

O barómetro da Aximage para o Diário de Notícias coloca o PS em primeiro com 33,4%, o Chega em segundo com 23,5% e a AD em terceiro com 23,2%. Um partido que tem a maioria absoluta "na mira" governa em terceiro lugar nas sondagens, a dez pontos do principal partido da oposição. A distância entre a ambição do congresso de Anadia e este retrato eleitoral é da ordem do abismo.

A revisão do sistema de bolsas do ensino superior, aprovada em Conselho de Ministros, revogou a lei que garantia o complemento de alojamento aos estudantes deslocados e retira um direito adquirido a quem já mal chega ao fim do mês. Os jovens que o Governo prometia não deixar para trás descobrem agora que "não deixar para trás" era uma promessa sujeita a revisão orçamental. Há uma geração que não esquece facilmente este tipo de aprendizagem.

De Belém chegou o relatório da Presidência Aberta sobre as tempestades. Seguro não veio em socorro do Governo. O documento identifica "insuficiências de coordenação, clareza e interoperabilidade", diagnostica "excesso de improviso e de articulações construídas sob pressão", exige que se desbloqueiem pagamentos que continuam pendentes. A ministra do Ambiente rejeitou as críticas. Quando um governo rejeita as conclusões do chefe de Estado sobre uma catástrofe cujas consequências ainda afetam famílias e empresas, a distância entre Belém e São Bento tornou-se mensurável.

O limbo não é um estado de equilíbrio. É um estado de queda ainda não reconhecida.

A Pedra e os Mortos por Baixo

 

A "Linha da Frente" desta semana voltou ao que a Igreja Católica portuguesa preferia que ficasse em silêncio. Os casos documentados pelas comissões de recolha de testemunhos de vítimas de abuso sexual — documentados, sublinhe-se, não alegados — continuam a ser tratados pela hierarquia com a técnica apurada ao longo de séculos: empurrar para debaixo do tapete, minimizar as indemnizações, classificar as vítimas como difamadores. A instituição que construiu a sua autoridade moral sobre o sofrimento alheio gere agora o seu próprio sofrimento causado com a frieza de um departamento jurídico.

Não é surpresa. É coerência.

A Igreja portuguesa tem um passivo que não cabe num sermão. Começou pela Inquisição, que queimou pessoas em nome de Deus com a bênção do Estado e o aplauso do povo. Atravessou a monarquia, onde detinha o monopólio do registo civil e do pensamento legítimo. Resistiu à Primeira República, que a laicizou à força porque de outra forma ela não se laicizava. Sobreviveu ao Estado Novo — sobreviveu-lhe bem, diga-se, porque foi seu pilar ideológico durante quarenta anos. E chegou à democracia com o mesmo catálogo de proibições: o divórcio, que as pessoas não podiam pedir antes do 25 de Abril sem que a Igreja os condenasse ao inferno social; os direitos de quem escolhe o seu género e o seu amor, que a instituição continua a tratar como desvio a corrigir em nome de dogmas que a ciência desmentiu há décadas.

Passo todos os dias pela Igreja do meu bairro. Olho para quem entra com a curiosidade genuína de quem tenta perceber como se mantém a fé numa instituição criminosa — não no sentido retórico, mas no sentido penal do termo: crimes cometidos, documentados, sistematicamente encobertos. Olho com inquietação para as crianças que entram atrás dos adultos, para os escuteiros em fila, para os que ainda não têm idade para saber que a instituição que lhes ensina o bem tem um arquivo de mal que nenhum tapete consegue cobrir inteiramente.

A Igreja sobreviveu a tudo porque soube sempre adaptar o discurso sem tocar na estrutura. Fala agora em escuta, em acolhimento, em caminho sinodal. As vítimas continuam a esperar as indemnizações. Os processos continuam a prescrever. O tapete continua no mesmo sítio.

Há uma pergunta que fica no ar quando se olha para os rostos que entram pela porta da igreja: não a pergunta da fé, que é assunto de cada um, mas a da cumplicidade. Porque continuar a financiar, a legitimar e a encher os bancos de uma instituição que encobriu sistematicamente a violação de crianças não é apenas um ato de crença. É um ato político. E tem consequências para quem não tem voz para o dizer — a começar pelas crianças que entram atrás de quem as leva, sem escolha nem aviso.

segunda-feira, 25 de maio de 2026

O Limbo e os que Nele Habitam

 

O país está num limbo. Não é uma novidade — o limbo português tem décadas de prática —, mas há momentos em que a contradição entre o que se faz e o que seria necessário fazer atinge uma clareza quase pedagógica.

A ministra do Trabalho, Maria do Rosário Palma Ramalho, insiste no pacote "Trabalho XXI" como quem defende uma fortaleza. A proposta facilita os despedimentos, alarga o outsourcing após despedimentos coletivos, permite ao empregador pedir ao tribunal que bloqueie a reintegração de trabalhadores ilegalmente despedidos. A UGT, que não é exatamente um ninho de jacobinos, identificou estas matérias como linhas vermelhas e manteve-se disponível para negociar com quem não tem a mínima vontade de o fazer. A CGTP chama-lhe aquilo que é: um ataque. O Governo chama-lhe modernização. A diferença entre modernização e retrocesso depende, como sempre, de quem paga a conta.

Luís Montenegro apresentou, entretanto, a moção de estratégia ao congresso com a solenidade de quem inaugura um monumento. Tem a maioria absoluta "na mira". É uma mira sem bala, porque as eleições não estão à vista, mas a retórica serve para animar o evento da Anadia e para sinalizar a direção. A que se conhece: reformar o Estado, transformar a estabilidade em ambição, a ambição em reformas. O que fica por dizer é a favor de quem.

Mais à direita, onde o apetite raramente fica saciado, já se sonha com mexidas na Constituição. É o horizonte lógico de quem governa sem maioria e quer governar como se a tivesse.

Em contraponto, no dia 3 de junho, a CGTP convoca greve geral. Sem a UGT, que continua a negociar — o que o secretário-geral da CGTP, Tiago Oliveira, descreveu com precisão: não é depois de assaltarem a casa que se põem os cadeados. A ausência da UGT é a ausência de sempre, a dos que preferem a mesa às ruas enquanto a mesa ainda tem cadeiras. A greve será menor do que poderia ser e maior do que o Governo desejaria.

As sondagens indicam uma lenta correção da relação de forças a favor da esquerda. Lenta, diga-se, como quem não tem pressa de chegar. O eleitorado que quis punir quem não resolvia a saúde e a habitação vê hoje a situação agravada, com a inflação a tornar mais exíguos os rendimentos de quem já não tinha muito onde cortar. Melhores só os mais ricos — que é, rigorosamente, o único resultado garantido por uma política que chama modernização ao que é transferência.

O limbo não é neutro. Tem donos.

domingo, 24 de maio de 2026

A Barbárie com Credencial

 


Dois franceses, dois crimes, uma coincidência que não é apenas biográfica. Cédric Prizzon, militar da Gendarmerie Nationale, matou duas mulheres e enterrou-as na serra da Nogueira na presença do filho. Marc B., antigo polícia, abandonou dois enteados com os olhos vendados numa floresta do Alentejo. Em ambos os casos, homens formados pelo Estado para exercer a força legítima converteram essa formação em instrumento de domínio privado sobre mulheres e crianças. Não é uma anomalia. É uma síntese.

A análise não reduz estes casos à psicologia individual — ao monstro, ao louco, ao caso isolado que a sociedade pode contemplar com horror conveniente antes de mudar de canal. O que estes homens fizeram inscreve-se numa estrutura: a família patriarcal como célula de poder, o corpo da mulher como propriedade, a criança como extensão do ego masculino e instrumento de vingança. O capitalismo não inventou o patriarcado, mas acolheu-o, organizou-o juridicamente durante séculos e continua a alimentá-lo onde lhe é útil — na mão-de-obra doméstica não remunerada, na desigualdade salarial sistémica, na violência que mantém as mulheres no lugar que lhes foi atribuído.

O que mudou é o contexto em que esta violência emerge. A sociedade capitalista contemporânea produziu um tipo humano específico: o indivíduo meritocrático, convencido de que o seu valor é absoluto e de que qualquer perda — de custódia, de estatuto, de controlo — é uma injustiça que justifica a resposta extrema. A meritocracia não é apenas uma ideologia do mercado de trabalho. É uma ética do eu que dissolve a responsabilidade para com o outro. Se mereço tudo, quem me retira algo torna-se inimigo legítimo. A ex-mulher que levou o filho. A amante que se tornou inconveniente. As crianças que passaram a ser peso de uma vida que não correu como previsto.

Sobre esta base ergueu-se, nos últimos anos, uma religiosidade ultramontana em ressurgimento — não a fé modesta dos pobres, que historicamente encontrou em Cristo o defensor dos humilhados, mas a religião dos poderosos: hierárquica, punitiva, obcecada com a família como fortaleza e a mulher como pilar sacrificial. Esta religiosidade não combate a violência doméstica. “Abençoa-a” com o nome de ordem natural.

E tudo isto acontece num mundo do trabalho irreconhecível. A uberização liquidou a ideia de que o trabalho confere pertença — a uma empresa, a uma comunidade, a um projeto coletivo. O trabalhador precário não tem colega, não tem sindicato acessível, não tem futuro previsível. Tem uma aplicação e uma classificação de cinco estrelas. O outsourcing generalizou a descartabilidade: despede-se hoje, subcontrata-se amanhã, e a lei "Trabalho XXI" da ministra Palma Ramalho quer consagrar juridicamente o que a prática já instalou. Neste mundo, a solidariedade — que foi durante décadas a resposta coletiva à exploração — aparece como ingenuidade ou como luxo de quem ainda tem tempo para pensar nos outros.

Houve um tempo em que se julgava caminhar para algum lado. A social-democracia europeia do pós-guerra, com todas as suas insuficiências, produziu Estado social, serviços públicos, direitos laborais, uma ideia — imperfeita, contraditória, mas real — de que a sociedade tinha obrigações para com os seus membros. A Geringonça foi, durante quatro anos, um lampejo tardio dessa ideia. Os que a viveram sabem que não era o socialismo — era um ensaio de decência administrada. Mas era mais do que isto.

O que vivemos hoje é o passo longo atrás. A precariedade como norma. A meritocracia como anestesia. A religião como polícia dos costumes. E a violência — contra as mulheres, contra as crianças, contra os trabalhadores — como resultado previsível de uma ordem que proclama a liberdade individual enquanto destrói as condições materiais e culturais para que essa liberdade exista para todos.

Os dois saltos para diante não virão de moções de estratégia nem de discursos em congressos de partidos que há muito esqueceram o que escreveram nos programas fundadores. Virão da greve geral de 3 de junho, e da seguinte, e da que vier depois. Da recusa coletiva de normalizar o descartável. Da memória, teimosamente preservada, de que houve momentos em que se acreditou ser possível construir uma sociedade em que nenhum homem julgasse ter o direito de enterrar uma mulher numa floresta — porque o mundo que o ensinaria a não o fazer nunca chegou a existir inteiramente.

Esse mundo continua a ser urgente.

domingo, 17 de maio de 2026

O punho e as cócoras

 

Em Pequim, Donald Trump despediu-se do topo das escadas do Air Force One com o gesto que o define: o punho erguido para as câmaras antes de entrar no avião. É o seu sinal de vitória, de desafio, de comunhão com as massas — um gesto que a história associa a quem luta contra o poder, e que ele usa para comunicar que é o poder. A ironia não o atinge. A ironia nunca atinge quem não lê.

Fizera-se acompanhar de Elon Musk, na qualidade ambígua de homem de negócios com fábrica em Xangai e de conselheiro do presidente que passou meses a chamar à China o inimigo civilizacional número um. Os dois foram a Pequim como quem vai cobrar uma dívida e descobriram que o devedor está mais rico do que eles.

Xi Jinping recebeu-os com a cortesia calculada de quem conhece o valor do silêncio. Falou da Armadilha de Tucídides. Falou de civilizações que podem coexistir. Falou para os CEOs — Musk, Tim Cook, Jensen Huang — como quem fala a homens que ele sabe precisarem mais de Pequim do que Pequim precisa deles. Não ergueu o punho. Não precisou. Tinha do seu lado, a História, as terras raras, os chips, o mercado. Deixou o visitante erguer o punho à vontade no topo das escadas. O punho erguido, quando não tem força por trás, é apenas ginástica.

Trump voltou convicto de ter ganho. É outra das suas características: a convicção não depende dos factos.

Enquanto isto, em Lisboa, o ministro dos Negócios Estrangeiros de Portugal descobria que tinha um problema. O problema chamava-se Marco Rubio e tinha a língua comprida. A bordo do Air Force One, a caminho de Pequim, Rubio elogiou Portugal perante as câmaras da Fox News com o entusiasmo de quem elogia um cão bem-amestrado: "disseram que sim antes mesmo de perguntarmos." Estava a referir-se à Base das Lajes e à guerra contra o Irão. Portugal autorizara o uso da base antes de saber para quê. Ou antes de lhes perguntarem. Dependendo de quem se acredita — e Rangel, naturalmente, desmentia tudo.

Foi Eurico Brilhante Dias quem encontrou as palavras certas: "o país viveu, desde aquele momento, agachado, de cócoras." A imagem é precisa e implacável. Portugal de cócoras perante Washington é uma postura conhecida — tem décadas, tem governos, tem partidos. Mas há uma diferença entre a subordinação discreta, que permite manter alguma dignidade de fachada, e a subordinação gabada pelo subordinante. Rubio não percebeu que estava a fazer uma descortesia. Ou percebeu e não lhe importou, que é pior.

Paulo Rangel desmente. O Ministério dos Negócios Estrangeiros emite comunicado. A posição oficial é que tudo foi feito segundo os mecanismos legais, que as condições foram impostas, que o Direito Internacional foi respeitado. Pode ser verdade. Pode ser mentira. O que é certo é que o secretário de Estado dos Estados Unidos, num avião presidencial, descreveu Portugal como o país que disse sim antes de saber a pergunta — e o fez em tom de elogio. Quando o senhor nos elogia desta maneira, o desmentido chega sempre tarde.

De cócoras ou de pé, a diferença é visível a olho nu. Rubio viu.