Fechou o
Mundial e, por mero acaso, só vi os minutos finais do Portugal-Croácia. Não foi
protesto encenado nem sacrifício — foi indiferença genuína. E vale a pena,
agora que as bandeiras se recolhem, dizer porque ninguém me verá a entoar o
hino, a empunhar a bandeira das quinas ou a heroicizar quem ganha fortunas e
fama por saber dar chutos numa bola.
Não tenho
nada contra o jogo. Tenho contra o que se lhe pendura em cima. O futebol
tornou-se o último refúgio consentido do nacionalismo — o lugar onde é
socialmente aceitável gritar pela pátria, agitar o símbolo e sentir contra o
estrangeiro uma hostilidade que, noutro contexto, teria outro nome. Onze
milionários correm atrás de uma bola e um país inteiro projeta neles uma
identidade que, fora dos noventa minutos, se revela oca.
E há
sempre quem leve a coisa ao seu destino lógico. Mariano Rajoy, ex-chefe do
governo espanhol, publicou no El Debate um artigo em que reconhecia o
altíssimo nível da seleção francesa, mas acrescentava, com a delicadeza de um
coveiro, que ela jogava "sem franceses". Pelos apelidos, pela cor da
pele, aqueles Mbappé, Dembélé ou Olise não seriam, para Rajoy, verdadeiramente
franceses — como se a nacionalidade fosse questão de pigmento e sobrenome, e
não de pertença a uma comunidade política. A embaixada francesa respondeu-lhe
com factos: dos vinte e seis convocados, vinte e três nasceram em França. Mas o
facto nunca demoveu o preconceito, porque ele não parte dos factos, mas do
medo.
Este
Mundial deu ainda o retrato da promiscuidade entre a bola e o poder. Donald
Trump ligou pessoalmente a Gianni Infantino para exigir a revisão do cartão
vermelho mostrado a Balogun, jogador dos Estados Unidos. Achou "muito
injusto" e a FIFA ouviu porque está sempre com quem tem poder e desdenha quem
o não tem. O desporto que se apresenta como meritocracia curva-se diante do
telefonema presidencial com a docilidade de um súbdito.
E
Montenegro tentou o velho truque dos governantes em apuros: associar-se aos
êxitos da seleção para deles colher uns pingos de popularidade. Foi amuleto pífio.
A seleção não chegou onde ele esperava, e o primeiro-ministro que não
classifica exames a tempo também não se classificou como talismã. Ao menos
nisto houve justiça.
Samuel
Johnson dizia que o patriotismo é o último refúgio dos canalhas. A frase é dura
e é exata. Não condena o amor à terra onde se nasce — condena o uso desse amor
como arma, como distração, como cortina para esconder o que se faz enquanto o
povo canta o hino. Quem agita a bandeira mais alto costuma ser quem mais teme
que se olhe para trás dela. Rajoy que o diga.
Num tempo
em que o racismo e a xenofobia envenenam a convivência, em que se reúnem
cimeiras da remigração numa quinta da Figueira da Foz e se mede a pertença pela
cor da pele, ser internacionalista deixou de ser romantismo para se tornar
imperativo moral. Reconhecer-se antes na humanidade partilhada do que na
fronteira herdada é a única perspetiva compatível com um humanismo que se leve
a sério.
Por isso
não canto o hino nem empunho a bandeira. Não por desamor a este canto do mundo
onde calhei nascer — mas porque a minha lealdade é para com as pessoas, todas
elas, e não para com o símbolo que as divide em equipas. O apito final soou. As
bandeiras que se guardem. Os problemas, esses, continuam à espera de quem os
resolva — e nenhum se resolve a cantar.



















