sábado, 20 de junho de 2026

O Golaço na Própria Baliza

 

Hugo Soares avisou as bancadas de esquerda que teriam de engolir a aprovação da contrarreforma laboral. Era a previsão de quem julgava o resultado fechado. Mas levou um chapadão que não veio da esquerda mas do Chega, que se juntou a PS, Livre, PCP, Bloco, PAN e JPP para chumbar o "Trabalho XXI" na generalidade. Toma lá o golaço, secretário-geral do PSD. E foi mesmo ao fundo da própria baliza.

Não é bonito gozar com a fanfarronice. Mas há-as que pedem o troco.

Dito isto, fique claro: não se queira o Chega associar a esta vitória. Ventura justificou o voto com a idade da reforma e as "reformas milionárias" — populismo de quem precisa de parecer próximo dos trabalhadores sem nunca ter defendido um direito laboral na vida. O cálculo eleitoral, não a convicção, moveu aquele voto.

Quem derrubou o pacote foi outra gente: a CGTP e os milhares de trabalhadores que pararam o país por duas vezes em greve geral. Foi essa pressão sustentada, e não a aritmética parlamentar de ocasião, que tornou o diploma impossível de aprovar sem alterações que o Governo se recusava a fazer. Tiago Oliveira, visivelmente emocionado nas galerias, resumiu bem: ficou provado que é a luta dos trabalhadores que determina o desfecho.

Luís Montenegro comparece hoje no Congresso do PSD com a cara de defunto que a derrota lhe deixou. Resta-lhe o número do Calimero incompreendido — o primeiro-ministro que tudo fez bem e que o mundo, injustamente, não reconhece. Já disse que não vai desistir de "tornar o país competitivo". É a linguagem do costume: competitividade que se mede pela fragilização de quem trabalha, nunca pela responsabilização de quem lucra.

Quem o dizia bem sabia: só é derrotado quem desiste de lutar. Os trabalhadores não desistiram — pararam o país duas vezes e venceram à terceira, no Parlamento. A lei está morta, sem promulgação, sem fiscalização, sem Belém a decidir nada — chumbada na generalidade, não segue caminho nenhum. Fica provado o essencial: quem trabalha acaba por se erguer, mais tarde ou mais cedo, contra o que o prejudica. Foi assim com Palma Ramalho. Será assim sempre que for preciso. 

Os Dois Brunos

 

Esta semana deu protagonismo a dois Brunos, ambos polícias e ambos espelho do mesmo problema visto de ângulos diferentes.

Bruno Pinto matou Odair Moniz a tiro, na Cova da Moura, em outubro de 2024. O tribunal deu como provado que a vítima não tinha faca — a arma branca só apareceu no local entre vinte a trinta minutos depois da morte, com ADN inexistente, numa narrativa que os próprios juízes classificaram de "desprovida de lógica". Mesmo assim, consideraram que houve legítima defesa, "com excesso de meios", e afastaram qualquer hipótese de crime de ódio. Resultado: três anos e seis meses, suspensos. O agente pode voltar à PSP. A decisão cabe à própria PSP julgar-se a si mesma.

Bruno Gonçalves, chefe da Polícia Municipal de Lisboa e antigo agente da PSP, liderava o Movimento Armilar Lusitano — um grupo neonazi com armas impressas em 3D, modelos como a FGC-9 e a Not-a-Glock, granadas de morteiro e incendiárias fabricadas artesanalmente, treinos táticos e um arsenal pensado para "ações futuras contra o Estado". A acusação do DCIAP revela algo notável: entre os alvos vigiados estava a casa de Luís Montenegro, com um plano que incluía disparar uma granada por uma janela. O grupo não escolhia vítimas pela cor política — escolhia-as pelo facto de representarem o Estado que odiava.

Dois Brunos, duas medidas. Um matou um homem desarmado e ouviu o seu superior elogiá-lo. O outro organizava uma milícia armada com intenção declarada de atacar instituições e pessoas, incluindo o próprio primeiro-ministro, e só não avançou porque lhe faltaram meios — não vontade.

O que ambos os casos revelam, em conjunto, é mais perturbador do que cada um isoladamente: há, dentro das forças policiais portuguesas, uma tolerância estrutural à violência quando exercida contra quem já é vulnerável, e uma permeabilidade preocupante à ideologia mais extrema quando se veste de uniforme. Não são fenómenos isolados de "maçãs podres" mas sintomas de uma instituição que recruta, forma e protege sem perguntar o suficiente sobre quem está a armar.

A justiça que suspende a pena de quem mata e investiga durante anos quem planeia matar não está a falhar por acidente. Está a revelar o que sempre esteve lá. 

quinta-feira, 18 de junho de 2026

O Pior Cego

 


Não há pior cego do que quem não quer ver — o provérbio é antigo e a sua aplicação nunca foi tão generosa em exemplos como agora.

Os prosélitos da Iniciativa Liberal continuam a acenar com os altos salários dos países do norte da Europa como prova de que o liberalismo económico funciona. Esquecem, propositadamente, que esses salários são a herança de décadas de políticas sociais-democratas em que os direitos dos trabalhadores não eram obstáculos ao crescimento mas condições dele. Herança que as próprias direitas do norte tratam de dilapidar, mas ainda resiste o suficiente para servir de argumento a quem prefere a conclusão ao raciocínio.

Ana Mendes Godinho lembrou no Público o que a narrativa contrária produziu quando já foi experimentada: as alterações ao Código do Trabalho de 2012, feitas em nome da modernização e da competitividade, geraram uma taxa de precariedade de 19,5%, que entre os jovens atingiu 60% — doze pontos acima da média europeia. O desemprego jovem escalou para 38,5%, catorze pontos acima da média da União Europeia. O crescimento que a desregulação prometia não apareceu. A precariedade ficou.

Foi a inversão dessas políticas — a aposta nos direitos laborais, no salário mínimo, na redução da precariedade — que produziu os resultados que Montenegro, Sarmento e companhia hoje gostariam de poder replicar. O PIB crescia, as contas estavam certas, o défice controlado. Portugal aparecia nas estatísticas europeias como caso de sucesso. Agora pedem à precarização que faça o que a dignificação do trabalho já demonstrou conseguir — e chamam-lhe modernização.

O pior cego não é o que nasceu sem visão. É o que a tem, fecha os olhos e pede a outros que descrevam o que está à frente.

O Silêncio das Partidas

 


A manicura da Elza mudou-se com a família para a Beira Alta. Não por amor à serra nem por nostalgia rural mas por ser o único lugar onde encontrou casa compatível com o que ela e o marido ganham. O jardineiro que todos os anos limpa o terreno que recebi de herança escusou-se este ano: está de regresso ao Brasil.

São dois casos. Apenas dois. Mas multiplicados pelos milhares de famílias brasileiras, cabo-verdianas, angolanas, nepalesas que nos últimos meses foram fazendo as malas em silêncio, sem conferência de imprensa nem declaração ao Jornal das 8, percebe-se o que está em curso: um esvaziamento lento mas consistente das grandes cidades do litoral, operado não por nenhuma lei de remigração mas pela mais eficaz das pressões — a impossibilidade económica de ficar.

A política de habitação deste governo, que dificulta o arrendamento e torna a compra inacessível a quem se situava na classe média, está a produzir o resultado que a ADEGA nunca ousaria anunciar em campanha mas que Ventura certamente contempla com satisfação privada. A xenofobia não precisa de sujar as mãos quando o mercado faz o trabalho.

Pedro Marques Lopes confessava há dias conhecer empresários aflitos por não encontrarem mão-de-obra para fábricas e construtoras. O paradoxo é delicioso na sua crueldade: muitos desses empresários foram, e continuam a ser, financiadores do Chega. Pagaram para que os imigrantes fossem tratados como problema — e agora descobrem que o problema é não os ter. O banho de realidade aproxima-se e promete ser devastador.

A ADEGA irá despertar tarde para esta dinâmica, como se acorda sempre tarde para as consequências do que se semeia com pressa e sem pensar. Quando acordar, procurará culpados à esquerda — é o reflexo do costume. Mas os imigrantes que partiram não deixaram endereço de reencaminhamento. Levaram consigo o trabalho, as rendas pagas, os filhos nas escolas, a manicura de bairro, o jardineiro de confiança.

Ficou o discurso. Que não limpa terrenos nem faz unhas.

A Compaixão em Falta

 


Confesso-me ateu impenitente, o que me dispensa de julgar quem quer que seja por critérios teológicos. Mas quando ouço as ministras do Trabalho e da Saúde no parlamento fico boquiaberto — não pela falta de fé, que é assunto de cada um, mas pela falta de humanidade, que é assunto de todos.

Maria do Rosário Palma Ramalho e Ana Paula Martins falam dos mais pobres e dos imigrantes com a frieza clínica de quem gere categorias estatísticas, não pessoas. A lei laboral que facilita despedimentos, a Prestação Social Única que recorta apoios, a Lei da Nacionalidade que trata emigrantes como problema a resolver — tudo embrulhado numa linguagem de responsabilidade orçamental que serve de anestesia à consciência e de escudo ao escrutínio. O resultado é a estigmatização sistemática de quem já é vítima: torná-los mais vulneráveis aos preconceitos racistas e xenófobos que a ADEGA cultiva como eleitorado.

Não sei se estas senhoras são praticantes da religião cristã — é provável, dada a filiação política, mas não é certo e não me compete presumir. Se o forem, porém, há uma pergunta que o seu Deus lhes fará antes de mim: o que fizeram da compaixão? O que fizeram da bondade para com os humilhados e ofendidos? Porque o Cristo dos Evangelhos — aquele anterior às encíclicas, aos concílios e às cumplicidades com o poder — era inequívoco quanto aos pobres, aos estrangeiros e aos marginalizados. Não os tratava como categorias orçamentais. Sentava-se à mesa com eles.

A tradição cristã tem um nome para quem professa a fé e pratica o contrário: hipocrisia. E tem, nas suas profundezas doutrinárias, um lugar reservado a quem acumulou poder e o usou contra os mais frágeis. Não sou eu que o digo — é o livro que eventualmente têm na mesa de cabeceira.

Como ateu, poupo-me ao juízo final. Mas o juízo da história é igualmente implacável — e este, ao contrário do outro, é inevitável.

domingo, 14 de junho de 2026

A ADEGA e os Seus Ventos

 


Daniel Oliveira encontrou o acrónimo certeiro: AD de coligação entre PSD e CDS, EGA das três letras do Chega. ADEGA. Uma aliança que se bebe em doses cada vez menos disfarçadas e começa a revelar os efeitos da embriaguez — a que confunde maioria momentânea de deputados com mandato histórico e transforma uma vitória eleitoral apertada na justificação para uma governação de direita radical.

A ADEGA tem programa. Na Lei da Nacionalidade, a guerra aos emigrantes — aqueles que construíram este país quando ele precisava de braços e agora são tratados como problema a resolver por quem beneficiou do seu trabalho. Na Prestação Social Única, a guerra aos pobres — o recorte das prestações sociais embrulhado na linguagem da racionalização, como se a miséria fosse um excesso burocrático a corrigir. São duas frentes do mesmo projeto: um país mais estreito,  hostil, confortável para quem já tem e mais duro para quem não tem nada.

Ferro Rodrigues, que conhece a casa por dentro, deu o conselho que a aritmética parlamentar justifica: perante tão acintosa aliança, votar contra o próximo orçamento é o mínimo que a decência política exige à esquerda. Não por prazer de desestabilizar — por recusa de cumplicidade. Um orçamento é um documento político, não uma peça técnica neutra, e este orçamento será o da ADEGA: quer de Ventura, quer de Montenegro, mesmo se este fingir o contrário.

A embriaguez pelo poder tem a desvantagem de todos os estados alterados: quem a vive não a reconhece. Montenegro continua a tratar Ventura como parceiro controlável, como se o abraço de urso fosse um gesto de afeto. Ventura continua a receber o que quer — das políticas às fotos — sem ceder nada em troca, porque não precisa de ceder: está a ganhar sem governar, que é a posição mais confortável da política.

Quem semeia estes ventos tumultuosos colherá as expectáveis tempestades. A questão é se a esquerda terá a lucidez e a unidade para que essa colheita aconteça nas urnas — e não depois, quando o estrago já estiver feito.

A noite e a manhã

 


José Vieira Mendes questiona se a obsessão com Salazar — dois filmes, um estreado, outro por estrear — faz sentido. Para mim faz. O público será reduzido, é certo, e não incluirá a gente que suspira pelo ditador com a memória seletiva de quem esqueceu a miséria do Portugal de então e confunde a “ordem” com o medo sistemático sobre quem se atrevia a pensar diferente. Mas é precisamente por essa gente existir que os filmes, os documentários, os livros e as canções são necessários — não para a converter, que é tarefa inglória, mas para que a memória não seja monopolizada pela nostalgia.

Os anos de fascismo foram uma longa noite escura. A formulação é de Sophia de Mello Breyner Andresen, que sabia do que falava, e a manhã clara a que aludia não foi oferecida — custou coragem, prisão, exílio e sangue a quem recusou normalizar a escuridão. Lembrar isto não é arqueologia. É higiene cívica.

Num momento em que Luís Montenegro anda de braço dado com André Ventura sem aparentemente perceber o abraço de urso que este lhe aplica, a memória do que o fascismo foi torna-se mais urgente do que decorativa. O PSD está a ser lentamente redefinido pela cumplicidade com quem tem no racismo e na xenofobia o combustível mais evidente do seu projeto político. Montenegro julga usar Ventura; Ventura sabe que é o contrário.

As sondagens começam a dar sinais animadores: a maioria dos portugueses não se revê nessa cumplicidade. Condena o racismo, a xenofobia, a deriva que ameaça um dos partidos determinantes da democracia pós-25 de Abril. É uma maioria silenciosa que as próximas eleições terão de traduzir em votos — porque as maiorias silenciosas que não votam são, na prática, maiorias que abdicam.

Dois filmes sobre Salazar não mudarão isso sozinhos. Mas fazem parte do mesmo esforço: o de garantir que a noite seja reconhecível quando regressa — e que não seja confundida, desta vez, com a ordem.

A lucidez dos que perderam

 


Há uma ironia que a história reserva aos que perderam o poder: por vezes, é então que começam a ver com clareza. A Igreja Católica —grande superpotência do passado, com tantos anos de crimes acumulados sobre quem declarava herege, cismático ou simplesmente inconveniente — dá sinais, com Robert Prevost, de ter compreendido algo que escapa aos donos do presente.

A encíclica sobre a inteligência artificial não é um documento revolucionário. Está condicionada pelos preconceitos de uma instituição que ainda não resolveu a sua relação com as mulheres, a diversidade sexual, os crimes que encobre debaixo dos tapetes das sacristias. Mas o diagnóstico económico é, curiosamente, consonante com o que o pensamento progressista do século XIX estipulava: a primazia das pessoas sobre a tecnologia, reduzida à função acessória de meio de produção, e a humanidade entendida como unidade solidária — o que foi, no seu tempo, o conceito da solidariedade internacionalista que Marx e Engels opunham ao nacionalismo dos proprietários.

Quem deteve grande poder e sabe não o vir a recuperar adquire, por vezes, uma lucidez que falta a quem ainda julga tê-lo. Os novos donos do mundo — Musk, os fundos soberanos, os algoritmos que decidem créditos e empregos — não têm encíclicas nem remorsos. Têm prospetos para a SEC (Securities and Exchange Commission) e data centers em zonas de baixa fiscalidade. Não perderam nada ainda. E é precisamente isso que os impede de ver.

O mundo avança em metafóricos carris — a concentração de capital, a crise climática, a agudização das desigualdades — e há uma multidão desnorteada nos cais das respetivas estações: os nacionalistas apostam em restaurar fronteiras que o capital há muito ignorou, os nostálgicos de impérios que a história encerrou, os tecno-otimistas convictos de que o próximo algoritmo resolverá o que os anteriores agravaram. Perderam o comboio e discutem a cor da locomotiva.

Que seja um papa, formado numa tradição que tem tanto a expiar, a lembrar que a tecnologia serve as pessoas e não o inverso — e a humanidade é um todo cujas divisões a condenam — diz menos sobre a Igreja do que sobre o estado do pensamento dominante. Quando a voz lúcida na sala é a de quem chegou tarde e com as mãos sujas, a sala tem um problema sério.

sexta-feira, 12 de junho de 2026

Os Fantasmas e o Clima

 


Um cronista do Público assinalou esta semana algo que merece desenvolvimento: as guerras de Putin e de Trump são, no fundo, guerras de fantasmas. O primeiro quer restaurar o império soviético que a história encerrou em 1991 e nunca existiu exatamente como ele o imagina. O segundo quer restaurar a América industrial do século XX, a da hegemonia incontestada, a de antes dos japoneses, dos chineses e da realidade. Ambos guerreiam contra o passado com armas do presente e produzem, no processo, um futuro que nenhum dos dois controla.

A China observa. Sem o lastro desses fantasmas — sem império a restaurar, sem hegemonia perdida a recuperar —, avança com a paciência de quem sabe que o tempo joga a seu favor. Xi Jinping não precisa de fazer a América grande outra vez nem de reconquistar Kiev. Precisa de continuar a crescer, a investir em infraestrutura global, a comprar a dívida de quem lha vende e a esperar que os outros se esgotem nas suas nostalgias. O travão demográfico existe e é real — uma população que envelhece é uma economia que abranda —, mas é um problema de décadas, não de anos. Por agora, a paciência é uma vantagem competitiva.

Fora deste tabuleiro de potências há duas possibilidades que me parecem mais determinantes do que qualquer disputa hegemónica.

A primeira é distópica: a sucessão de guerras alimentadas pelos fantasmas do século XX — e pelos novos que as direitas extremas fabricam em série, da remigração ao nativismo, do negacionismo climático ao messianismo identitário — conduz a um mundo de conflitos permanentes, de recursos militarizados, de humanidade ocupada a destruir-se enquanto o planeta arde.

A segunda é a única alternativa real: perante o agravamento incontornável dos efeitos climáticos — as tempestades, as secas, as migrações em massa que nenhuma fronteira deterá —, a população humana do planeta percebe finalmente ser parte de um todo. Não por virtude, que é escassa, mas por necessidade, que é implacável. As canalhices nacionalistas são um luxo que o Antropoceno não pode financiar. A união de esforços não é utopia sentimental — é a condição de sobrevivência de uma espécie suficientemente inteligente para construir bombas atómicas e insuficientemente sábia para não as ter construído.

A história não escolhe por nós. Mas desta vez a fatura do adiamento virá mais depressa do que alguma vez veio. O clima não negocia, não aceita moções de estratégia e não aguarda pelos resultados das próximas sondagens.

O Rio e os Sinais

 


Brecht legou-nos uma pergunta disfarçada de imagem: quando o rio transborda, é sua a culpa ou das margens que o comprimem? A pergunta não é de hidráulica — é de política. E a resposta, que Brecht conhecia bem, é que as margens têm nome, morada e interesse em manter o rio no lugar.

Jorge Silva Melo, numa entrevista revisitada na RTP Memória, recordava o poeta Gastão Cruz para dizer algo que os manuais de história raramente ensinam: as revoluções anunciam-se antes de acontecer, e os sinais não têm necessariamente a forma de barricadas, porque podem ser um encontro.

Para Gastão Cruz, o ano decisivo não foi o da fraudulenta derrota de Delgado — a desilusão eleitoral de quem esperava que o regime tropeçasse em si mesmo. Nesse mesmo ano de 1958, aquele em que conheceu Fiama Hasse Pais Brandão e Luísa Neto Jorge. Desse encontro nasceu o núcleo do que viria a ser a Poesia 61 — um movimento que não tinha programa político declarado e era, inteiramente, um sinal de que o mundo luso estava em ativa mudança. A língua estava a mover-se antes de a história se ter apercebido.

É assim que funciona. O rio começa a subir antes de galgar as margens. Quem sabe ler o nível da água vê o que está para vir; quem olha apenas para as margens julga que tudo está sob controlo.

Há sinais desse tipo no Portugal de hoje — dispersos, contraditórios, sem manifesto que os una. A greve geral de 3 de junho com a CGTP a encher as ruas sem a UGT. As sondagens que empurram o PS para uma liderança crescente. Os jovens a descobrirem que as promessas do governo tinham prazo de validade orçamental. A geração precária que a uberização formou para não ter ilusões. Não é ainda o rio a galgar — é o rio a subir, silenciosamente, enquanto as margens discutem entre si a melhor forma de o comprimir.

Essas margens têm nomes conhecidos: a lei laboral que facilita despedimentos, os privados à espera do SNS, a extrema-direita a reunir em quintas com convidados deportadores. Comprimem com método e com pressa — a pressa de quem sabe, como Ventura sabe, que as oportunidades têm prazo.

O rio, por enquanto, não diz nada. Mas Gastão Cruz em 1968 também não disse nada. Apenas conheceu duas poetas. E o mundo mudou.

O Papa e o Manifesto

 


A condição de ateu dispensaria a leitura da encíclica do papa Leão XIV. Não fosse o seu conteúdo demasiado pertinente para ser ignorado por quem, crente ou não, tem olhos para o que se passa.

O novo papa diagnostica na inteligência artificial o que Karl Marx diagnosticou na máquina a vapor: a acelerada concentração de capital nas mãos de um grupo exíguo de proprietários dos meios de produção e o correspondente empobrecimento da maioria. O diagnóstico é correto. A diferença é que Marx tirou as conclusões e o papa para aí não vai — a doutrina social da Igreja tem os seus limites, e o Manifesto Comunista não está entre as referências de cabeceira.

O que Leão XIV descreve sem o nomear é a luta de classes em versão algorítmica. As leis que regiam o capitalismo industrial do século XIX não foram revogadas — foram aceleradas. A mais-valia que ontem se extraía do operário têxtil extrai-se hoje do motorista de Uber, do estafeta de plataforma, do trabalhador cujas funções a IA substituiu antes que ele tivesse tempo de as aprender. A velocidade mudou. A lógica é a mesma.

A acumulação primitiva que Marx descreveu como fundação violenta do capitalismo tem hoje uma versão limpa e digital: cinco empresas controlam a infraestrutura sobre a qual assenta a economia mundial, os proprietários acumulam fortunas sem precedente histórico, e os estados nacionais descobrem que regular isto equivale a domar a gravidade — teoricamente possível e praticamente difícil. O papa pede moderação. Os mercados agradecem e continuam.

O que fica por dizer na encíclica — e que Marx e Engels disseram há cento e setenta e cinco anos no documento mais lido e menos aplicado da história do pensamento político — é que a agudização das contradições do sistema não produz automaticamente a fase seguinte. Produz crise, conflito, regressão e, por vezes, barbárie antes de qualquer avanço. Estamos na fase em que a ela se apresenta como solução: a extrema-direita a propor deportações, Trump a propor tarifas, Musk a propor que o futuro lhe pertença.

O capitalismo já se reinventou antes quando parecia esgotado. Pode voltar a fazê-lo. Ou não. A história não tem guião obrigatório — tem tendências, contradições e, de vez em quando, a irrupção do inesperado. O papa sabe isto à sua maneira. Marx sabia-o à sua. A diferença é que um deles propunha rezar e o outro propunha organizar.

segunda-feira, 8 de junho de 2026

A Cimeira e os seus Convidados

 


Na semana passada a Figueira da Foz entrou no roteiro internacional da extrema-direita identitária. Chamaram-lhe Remigration Summit — "Cimeira da Remigração" — e reuniram cerca de 500 ativistas, influencers e figuras políticas numa quinta, depois de o Porto ter recusado acolher o evento por falta de espaço disponível para racistas. A organização ficou a cargo de Afonso Gonçalves, líder do movimento Reconquista, atualmente investigado pelo Ministério Público por suspeitas de crimes de ódio.

O conceito de "remigração" foi popularizado pelo austríaco Martin Sellner, líder do Movimento Identitário com ligações documentadas ao neonazismo, presente na sala. Significa deportação em massa de imigrantes — e de quem, mesmo tendo nascido no país, não pertença à etnia considerada originária. É uma proposta que, formulada em linguagem de política pública, procura tornar palatável aquilo que, dito claramente, se chama limpeza étnica.

O convidado-surpresa foi Gregory Bovino, antigo comandante da Patrulha de Fronteiras dos Estados Unidos, símbolo da política anti-imigração de Trump — a mesma que produziu a detenção de crianças migrantes e a morte de civis nas fronteiras americanas. Bovino veio mostrar que isto não é teoria: é prática, tem manual e resultados mensuráveis em vidas destruídas.

Os jornalistas foram impedidos de entrar. Os influencers foram autorizados. A distinção é a definição da estratégia: não se quer escrutínio, quer-se amplificação. A mensagem circula nos canais digitais da rede, sem contraditório, diretamente para públicos já mobilizados — o mesmo modelo que transformou o X de Musk num viveiro de radicalismos calibrados por algoritmo.

O que estes homens propõem como solução é o que a administração Trump já está a aplicar como laboratório: fronteiras militarizadas, deportações em massa, erosão das instituições que limitam o poder, desprezo pela lei quando incomoda. O resultado é visível — não como promessa mas como facto: crianças em jaulas, aliados abandonados, instituições esvaziadas, e um país que em três anos de trumpismo perdeu uma guerra, perdeu o controlo do Estreito de Ormuz e perdeu o respeito de quem ainda tinha algum.

Portugal tem uma história comprida com o que acontece quando esta gente chega ao poder. Chama-se Estado Novo e durou quarenta e oito anos. A Figueira da Foz ficará na memória como o lugar onde se reuniram os seus herdeiros espirituais para planearem a sequela.

domingo, 7 de junho de 2026

A Pressa dos Impacientes

 



Há uma exasperação nova nas direitas extremas portuguesas. Não é a exasperação de quem perdeu — é a de quem julgou que tinha ganho e descobre que isso não chegou para o que pretendia.

Passos Coelho “apresenta” livros. Dois em poucos dias, o que num país de leitores escassos é uma cadência admirável para quem não tem currículo. Os ex-primeiros-ministros sem agenda declarada têm gostam muito destes eventos — é a regra do género. A questão é se a agenda é a sua ou a de quem o aplaude na primeira fila.

Cavaco Silva publica nova homilia no Observador. Cavaco descobriu tardiamente o jornalismo de opinião com a regularidade de quem tem muito a dizer e ninguém obrigado a ouvi-lo desde que saiu de Belém. As homilias têm o tom característico: a gravidade de quem foi chefe de Estado, a nostalgia de quem recorda os seus governos como idade de ouro, e a irritação mal disfarçada de quem vê o país a não seguir os seus conselhos. O Observador acolhe-as com a deferência devida a um ex-presidente que pensa como a casa.

Ventura tem pressa. Sempre teve, mas agora a pressa tem nome e calendário: quer rever a Constituição enquanto a janela está aberta, porque sabe que vem aí outro carreiro. Daí tratar a política como corrida de obstáculos onde o mais temido não é a esquerda mas o tempo. A Constituição que quer rever é a mesma que em abril de 1974 custou sangue e coragem a construir — ele trata-a como burocracia inconveniente que lhe atrasa os planos.

O que une este trio é a exasperação de quem quer mais do que o momento dá. Passos quer influência sem responsabilidade. Cavaco quer reverência sem contraditório. Ventura quer poder sem os limites que a democracia lhe impõe. São impaciências diferentes com a mesma raiz: a convicção de que o país lhes deve mais do que tem dado.

O país, entretanto, vai pagando as contas, esperando nas urgências e perdendo voos em aeroportos que ninguém quis modernizar a tempo. Está ocupado a sobreviver e tem pouco tempo para as impaciências dos que se sabem em risco de perderem a oportunidade.

Quem Semeia Vento

 


Robert Kagan não é um nome que se associa à rendição. Cofundador do Project for the New American Century, arquiteto intelectual da invasão do Iraque em 2003, marido de Victoria Nuland — é, em suma, um dos homens que passou décadas a defender a força militar americana enquanto fator de ordem do mundo e devia ser usada. Quando este homem publica na The Atlantic um texto intitulado "Xeque-mate no Irão" e escreve que a derrota dos Estados Unidos "não pode ser reparada nem ignorada", é tempo de prestar atenção.

O Estreito de Ormuz — por onde passa cerca de 20% do petróleo mundial — está sob controlo iraniano. Kagan é explícito: a ideia de que o estreito reabrirá nas condições anteriores quando a crise terminar é infundada. O Irão cobrará portagens, favorecerá os países amigos, penalizará os demais. Tornou-se o porteiro da energia mundial e não há incentivo para abdicar dessa posição — muito menos num acordo com Trump, cuja fiabilidade o próprio Kagan questiona com a crueza de quem conhece o personagem.

Trump declarou em março que a guerra estava ganha e o Estreito reabrira. Falso. Pediu ajuda à NATO e à China para proteger a navegação. Recusaram. Três contratorpedeiros americanos tentaram forçar a passagem em maio e recuaram sob fogo iraniano. O presidente que prometeu fazer a América grande outra vez produziu, em menos de um ano de guerra, aquilo que Kagan compara a Pearl Harbor em termos de dano estratégico — com a diferença desse ter sido um ataque sofrido, e esta uma guerra escolhida.

A era da unipolaridade americana, inaugurada com o colapso soviético em 1991 e celebrada com a invasão do Iraque em 2003, terminou nas águas do Estreito de Ormuz em 2026. É o próprio Kagan quem o escreve. O tipo de frase que, vinda de quem vem, dispensa comentário — e exige, ainda assim, que se diga o óbvio: foi esta direita, a de Kagan, Cheney e Netanyahu, que semeou este vento durante décadas. A tempestade que agora colhem tem o tamanho exato das sementes que plantaram.

Trump limitou-se a acelerar o que já estava em curso. É o seu talento específico: transformar decadência lenta em colapso rápido e chamar-lhe vitória até a realidade o contradizer — o que, neste caso, já aconteceu, com a assinatura de um dos seus mais fervorosos apologistas.

terça-feira, 2 de junho de 2026

A Fome dos Privados

 


Há estratégias que se adivinham antes de serem declaradas. Este governo não anunciou que quer privatizar a Segurança Social e o Serviço Nacional de Saúde — anuncia-o por partes, em cada decisão orçamental que retira receita a estas instituições até que a sua alegada falência justifique a solução que sempre esteve em mente.

O mecanismo é simples e não é novo. Primeiro mingua-se o financiamento. Depois constata-se, com pesar encenado, que o sistema não funciona. Por fim convida-se o setor privado a resolver o que o Estado, deliberadamente subfinanciado, já não consegue. Os grandes grupos económicos agradecem, os acionistas recebem, e os portugueses pagam duas vezes — primeiro nos impostos que financiaram a destruição, depois nas mensalidades que financiam a substituição.

A notícia de que as receitas do imposto sobre as bebidas açucaradas deixam de ser consignadas ao SNS, vertendo diretamente para o Orçamento Geral do Estado, segue a lógica do que já aconteceu com o imposto do tabaco. São receitas criadas com um argumento de saúde pública — taxar o que prejudica para financiar o que cura — e desviadas para um orçamento onde competem com tudo o resto e perdem, porque tudo o resto tem lobbies mais organizados do que os doentes em lista de espera.

A narrativa da falência é a preparação do terreno. Um SNS a quem se retiram receitas sistematicamente é um SNS que caminha para a incapacidade — e a incapacidade, devidamente documentada e suficientemente amplificada, cria o consenso de que a solução privada é inevitável. Não é inevitável. É escolhida.

Há uma política alternativa — a de privilegiar o interesse de todos em detrimento da ganância de poucos. É mais do que urgente. É a diferença entre um país que cuida dos seus cidadãos e um mercado que os explora enquanto adoecem.

segunda-feira, 1 de junho de 2026

Este Governo Não Governa

 

O aeroporto de Lisboa tornou-se a montra do país. Não a montra que convida — a que afasta. Filas de horas para passageiros de fora do espaço Schengen, controlos de identidade que se arrastam até os voos partirem sem os passageiros, transferências perdidas, turistas retidos. A CNN americana já fez a reportagem. Nas redes sociais brasileiras recomenda-se evitar Lisboa como ponto de escala para outros destinos europeus. O dano reputacional instala-se com a rapidez que só as más notícias conhecem e demora anos a reparar.

Luís Montenegro, quando estava na oposição, dizia raios e coriscos das ineficiências do governo de António Costa. Ia resolver tudo, e depressa. Na educação prometeu professores para todos os alunos — há alunos sem aulas. Na saúde prometeu médico de família para toda a gente em seis meses — há cada vez mais pessoas dele privada e as cirurgias necessárias acumulam-se em listas de espera que transformam diagnósticos tratáveis em emergências. Na habitação prometeu casas acessíveis — os preços continuam a subir e a classe média junta-se aos que já a elas não chegam.

O aeroporto é apenas um capítulo desta história. Pedro Nuno Santos tinha uma visão para o que deveria ser a solução aeroportuária de Lisboa — grandiosa demais para a mesquinhez do então primeiro-ministro, que tratou de a travar por oposição ao homem antes de avaliar a ideia. Montenegro chegou ao poder sem visão alternativa, entregou o problema a quem não tem capacidade de o resolver, e o resultado é o que se vê: filas, voos perdidos e reportagens internacionais que o país não precisa.

Há um padrão. Chega-se ao poder convicto de que a incompetência alheia era o único obstáculo e que a própria chegada bastaria para resolver o que estava mal. Não bastou. Se as coisas já não estavam bem, ainda pior ficaram — que é a definição precisa de desgoverno.

Este governo não governa. Administra a deterioração e chama-lhe gestão responsável.

domingo, 31 de maio de 2026

O Mundo Segundo Elon

 

Pedro Candeias escreve hoje no Público sobre os planos da SpaceX para entrar em Wall Street e o que revelam sobre as ambições de Elon Musk: um mercado potencial avaliado em 28,5 biliões de dólares, abrangendo satélites, inteligência artificial, mineração espacial e colonização de outros planetas — com os maiores bancos do mundo a subscrever. Candeias pergunta, no final, quem regula isto. É a pergunta certa. A resposta, por enquanto, é ninguém.

Não estamos perante um delírio. Estamos perante um plano.

Musk está na órbita com o Starlink, na superfície com a Tesla, nas redes sociais com o X, dentro das cabeças com a Neuralink, e na inteligência artificial com o Grok — calibrado segundo os seus critérios editoriais, que são os da extrema-direita global. Um homem, uma infraestrutura, um ecossistema fechado onde informação e desinformação circulam sob a mesma gestão. O Papa Francisco, antes de morrer, avisou que a concentração da IA nas mãos de poucos era o maior perigo civilizacional do século. Tinha razão, como costumava ter quando não estava a falar de mulheres ou de preservativos.

O que assusta não é Musk. Os megalómanos existiram sempre e a história tratou da maioria com a indiferença que mereciam. O que assusta é a adesão. Há gente inteligente — não ignorantes, não desesperados, gente com educação e capacidade crítica — que foi migrando para o X, adotou o Grok como oráculo e foi sendo reorientada pelos algoritmos para um mundo onde o genocídio em Gaza é narrativa de segurança nacional, Telavive tem sempre razão e a extrema-direita europeia é apenas bom senso popular mal compreendido pela esquerda caviar. O algoritmo não convence por argumentos — convence por repetição, por seleção, por aquecimento gradual até que a temperatura do fanatismo pareça temperatura ambiente.

É uma operação de engenharia social à escala planetária. Os estados nacionais chegam tarde, as instâncias multilaterais chegam mais tarde ainda, e a União Europeia descobre que regular plataformas de um homem com o ouvido do presidente dos Estados Unidos é um exercício de soberania com prazo de validade incerto.

Talvez este mundo ainda não seja de Elon Musk. Mas a distância entre o que é e o que ele quer que seja está a encolher — e há trezentos milhões de utilizadores do X a ajudá-lo, sem o saber, a encurtá-la.

O Luís Não Me Vai Defraudar

 

Luís Montenegro discursou para os militantes do seu partido. Não para todos — para os menos de 30% dos filiados que se deram ao trabalho de validar a recandidatura à presidência do PSD. É uma base de apoio que outros chamariam problema; ele chama mandato.

Do alto dessa legitimidade comprometida, prometeu não defraudar os portugueses. É um compromisso que aceito com a serenidade de quem não tem nada a perder. As expetativas quanto à melhoria da qualidade de vida por efeito das suas políticas não são baixas nem modestas — são inexistentes. Poupo-me assim à deceção, que é um luxo que os otimistas não se podem dar.

As sondagens continuam a fustigá-lo com más notícias. Nalgumas já aparece como terceira força política, atrás do PS e do Chega, o que é uma posição curiosa para um primeiro-ministro: governar o país a partir do terceiro lugar, como quem dirige uma orquestra sem que os músicos saibam que ele existe. O Chega aplaude. O PS espera. Montenegro discursa.

Noutro passo da intervenção prometeu fazer Portugal maior. Aqui, confesso o abandono da serenidade. Portugal tem as dimensões que tem e não me queixo delas — país pequeno, horizontes largos, mar à frente. Para onde pretende o primeiro-ministro aumentá-lo? A única hipótese geograficamente disponível é Olivença, o que remete para o patético ministro da Defesa e seus sonhos irredentistas, que os espanhóis contemplam com a condescendência de quem tem muito mais exército do que nós e muito menos necessidade de o provar.

Fazer Portugal maior pode também ser metáfora. Há quem a use por ser irrefutável — ninguém processa ninguém por país insuficientemente engrandecido. Nesse caso, a promessa vale o que valem todas as outras: o tempo do discurso e o aplauso dos presentes.

No fundo, o Luís continua igual a si mesmo. Primeiro-ministro em forma de assim — assim como assim, assim mais ou menos, assim dependendo do dia, da sondagem e de se a ministra do Trabalho ainda não provocou mais uma greve. Governa sem maioria, lidera o partido com apoio minoritário, promete não defraudar um país que já desistiu de ser defraudado porque desistiu de esperar.

É uma forma de estabilidade. Não é bem a que tínhamos em mente, mas é a que temos.

sexta-feira, 29 de maio de 2026

A Operação e o Calendário

Chama-se Operação Imergente. Quatrocentos inspetores, sete magistrados, 60 mandados de busca domiciliária, 32 não domiciliários, cinco detidos, 37 arguidos. A sede do PS no Largo do Rato foi revistada — pela primeira vez na história do partido, dizem os que contam estas coisas. O epicentro é a Junta de Freguesia de Santa Maria Maior, o nome central é o de Miguel Coelho, os factos investigados situam-se entre 2016 e 2022.

Repare-se bem: entre 2016 e 2022. A investigação existe há anos. A operação acontece quando o PS lidera as sondagens com dez pontos de vantagem sobre a AD e o Chega. A coincidência é, no mínimo, notável.

Não se trata de negar que ajustes diretos irregulares existem, que o favoritismo autárquico existe, que a promiscuidade entre poder local e interesses privados existe — existe em toda a parte e em todos os partidos, o que qualquer inspeção igualmente zelosa às autarquias da AD, do PSD, do CDS ou do Chega confirmaria com a mesma facilidade. Trata-se de perguntar por que razão 400 inspetores convergem sobre o PS no dia em que as sondagens lhe são mais favoráveis, por que razão processos que dormitam durante anos acordam com este estrondo e esta encenação, e por que razão a Unidade Nacional de Combate à Corrupção nunca organizou espetáculo equivalente na direção contrária.

A resposta não é nova. O Ministério Público e a Polícia Judiciária têm uma relação com o PS que não é de equidade — é de hostilidade seletiva. A operação Influencer arrasta-se há anos, mantem o partido sob suspeição permanente e tem a resultados proporcionais ao estardalhaço: escassos ou mesmo nenhuns. O padrão repete-se: a operação é o castigo, o processo é o instrumento, a condenação é dispensável porque o dano já foi feito.

A maior culpa imputável aos governos de António Costa não foi a de ter tolerado irregularidades autárquicas — foi a de ter desperdiçado a disponibilidade, que Rui Rio mostrou, para uma reforma da justiça que a tornasse menos ideologicamente enviesada. Costa preferiu a estabilidade ao confronto. A estabilidade acabou. O enviesamento ficou.

Um deputado socialista disse hoje o que era preciso dizer: "No momento em que o PS aparece a reconquistar alguma confiança, demonstrada em sucessivas sondagens, aparece este tipo de notícias." Não é teoria da conspiração. É observação do calendário.

O Velho do Restelo e o “Catedrático” de Massamá

 


Hoje as direitas extremas suspiram pelo golpe que deu origem a quarenta e oito anos de ditadura. O 28 de maio é uma data que não precisa de comentário — precisa de memória. E a memória, neste país, tem o feitio conveniente de encurtar quando incomoda.

O Velho do Restelo, na epopeia de Camões, tinha razão na substância: via partir os compatriotas em detrimento da terra pobre em que viviam, para irem buscar riquezas além-mar que redundariam no infame tráfico negreiro. Era uma voz incómoda porque era uma voz certa. O que nos chegou esta semana da Faculdade de Direito de Lisboa tem a forma mas não o conteúdo.

Pedro Passos Coelho apresentou um livro. A assistir, com a satisfação de quem reconhece o território, estava André Ventura. O antigo primeiro-ministro falou durante quase uma hora, sem nomear ninguém, sobre políticos que para agradar a todos se tornam "postiços" — "prostitutos sem carácter", disse, com a palavra intacta. O seu frankenstein aplaudiu e foi para Belém contar aos jornalistas que Passos se estava a referir ao Governo. Claro que sim. Tudo é sempre sobre o Governo. O auditório era o acessório.

A questão não é o que Passos disse. A questão é onde o disse e para quem o disse. Há uma diferença entre criticar o poder e fazê-lo sentado ao lado de quem quer substituí-lo pelos piores métodos. Passos sabe disso. Escolheu o auditório, escolheu a primeira fila, escolheu o silêncio sobre o que ainda o separa de Ventura — que é, ou era, bastante. Francisco Mendes da Silva observa que ele adotou o tom cada vez mais dececionado de quem acreditou que o caso Spinumviva era a rampa de lançamento para o poder, e vê os meses a passar, os amigos "escritores" a minguar nas apresentações de livros e se sente reduzido à condição de voz que clama do deserto. Para uma corte de fiéis desnorteados pelo insucesso do seu proselitismo.

O Velho do Restelo falava sozinho no cais. Estes falam em conjunto, com microfone e câmaras, e chamam-lhe democracia.

A democracia que se comemora — a de abril, não a de maio de 1926 — custou o suficiente para não ser confundida com isto.

28 de maio de 2026