(Décimo
quinto de uma série de retratos à maneira de Woody Allen, em que se constata quanto
a fanfarronice depressa acentua o ridículo de quem a ostenta ).
Há
antipatias que lembram a de certos vinhos, e a de Hugo Soares pelos socialistas
é uma delas: duradoura, cultivada com paciência, servida sempre à temperatura
certa em cada debate parlamentar. Chama-lhes "radicalizados", "forças
de bloqueio", tudo menos parceiros possíveis — reservando essa honra,
invariavelmente, para o Chega, com quem negoceia reforma laboral e Prestação
Social Única na mesma intimidade com que evita negociar seja o que for com quem
mais sensatamente deveria.
Foi essa
preferência que o traiu, ou melhor, que André Ventura se encarregou de trair
por ele. Na véspera da votação da reforma laboral, Soares subiu à tribuna,
virou-se para as bancadas da esquerda com o dedo quase em riste, e prometeu:
"por muito que vos custe, amanhã esta proposta vai ser aprovada". Foi
um momento de fanfarronice pura, dessas que os deputados repetem depois nos
corredores com sorriso maroto, porque sabem já o desfecho antes de o orador
saber.
O
desfecho chegou por mão de quem Soares tratava como aliado natural: o Chega
tirou-lhe o tapete debaixo dos pés, aliou-se à esquerda que ele tinha acabado
de troçar, e a reforma caiu por terra com o estrondo reservado às quedas
anunciadas em voz alta.
Não há
imagem mais completa do género: um homem que aposta tudo no parceiro errado,
perde a aposta, e ainda assim recusa aprender a lição, porque implicaria
admitir que talvez o PS não fosse, afinal, o inimigo mais fiável de se ter por
perto.
Semanas
depois, o verão trouxe nova ironia, desta vez de praia. Montenegro jurara não
tirar férias, comprometido em "coordenar a atividade do Governo"
enquanto o país suava. Foi surpreendido no areal do Garrão, ao entardecer, com
a mulher ao lado — e, à sua espera, quem mais senão Hugo Soares, também ele de
família e chinelo, como quem tinha combinado o encontro com a mesma
antecedência com que combinara a antiga certeza sobre a lei laboral.
Fica o
retrato de um homem cuja fé nunca vacila, apesar da evidência regular do
contrário: confiante nas alianças que o traem, confiante nas promessas que o
desmentem, confiante na praia que ninguém devia estar a frequentar. Há
personagens que aprendem com as quedas; Hugo Soares aprende apenas a escolher,
para a próxima queda, um cenário com mais sol.



















