segunda-feira, 25 de maio de 2026

O Limbo e os que Nele Habitam

 

O país está num limbo. Não é uma novidade — o limbo português tem décadas de prática —, mas há momentos em que a contradição entre o que se faz e o que seria necessário fazer atinge uma clareza quase pedagógica.

A ministra do Trabalho, Maria do Rosário Palma Ramalho, insiste no pacote "Trabalho XXI" como quem defende uma fortaleza. A proposta facilita os despedimentos, alarga o outsourcing após despedimentos coletivos, permite ao empregador pedir ao tribunal que bloqueie a reintegração de trabalhadores ilegalmente despedidos. A UGT, que não é exatamente um ninho de jacobinos, identificou estas matérias como linhas vermelhas e manteve-se disponível para negociar com quem não tem a mínima vontade de o fazer. A CGTP chama-lhe aquilo que é: um ataque. O Governo chama-lhe modernização. A diferença entre modernização e retrocesso depende, como sempre, de quem paga a conta.

Luís Montenegro apresentou, entretanto, a moção de estratégia ao congresso com a solenidade de quem inaugura um monumento. Tem a maioria absoluta "na mira". É uma mira sem bala, porque as eleições não estão à vista, mas a retórica serve para animar o evento da Anadia e para sinalizar a direção. A que se conhece: reformar o Estado, transformar a estabilidade em ambição, a ambição em reformas. O que fica por dizer é a favor de quem.

Mais à direita, onde o apetite raramente fica saciado, já se sonha com mexidas na Constituição. É o horizonte lógico de quem governa sem maioria e quer governar como se a tivesse.

Em contraponto, no dia 3 de junho, a CGTP convoca greve geral. Sem a UGT, que continua a negociar — o que o secretário-geral da CGTP, Tiago Oliveira, descreveu com precisão: não é depois de assaltarem a casa que se põem os cadeados. A ausência da UGT é a ausência de sempre, a dos que preferem a mesa às ruas enquanto a mesa ainda tem cadeiras. A greve será menor do que poderia ser e maior do que o Governo desejaria.

As sondagens indicam uma lenta correção da relação de forças a favor da esquerda. Lenta, diga-se, como quem não tem pressa de chegar. O eleitorado que quis punir quem não resolvia a saúde e a habitação vê hoje a situação agravada, com a inflação a tornar mais exíguos os rendimentos de quem já não tinha muito onde cortar. Melhores só os mais ricos — que é, rigorosamente, o único resultado garantido por uma política que chama modernização ao que é transferência.

O limbo não é neutro. Tem donos.

domingo, 24 de maio de 2026

A Barbárie com Credencial

 


Dois franceses, dois crimes, uma coincidência que não é apenas biográfica. Cédric Prizzon, militar da Gendarmerie Nationale, matou duas mulheres e enterrou-as na serra da Nogueira na presença do filho. Marc B., antigo polícia, abandonou dois enteados com os olhos vendados numa floresta do Alentejo. Em ambos os casos, homens formados pelo Estado para exercer a força legítima converteram essa formação em instrumento de domínio privado sobre mulheres e crianças. Não é uma anomalia. É uma síntese.

A análise não reduz estes casos à psicologia individual — ao monstro, ao louco, ao caso isolado que a sociedade pode contemplar com horror conveniente antes de mudar de canal. O que estes homens fizeram inscreve-se numa estrutura: a família patriarcal como célula de poder, o corpo da mulher como propriedade, a criança como extensão do ego masculino e instrumento de vingança. O capitalismo não inventou o patriarcado, mas acolheu-o, organizou-o juridicamente durante séculos e continua a alimentá-lo onde lhe é útil — na mão-de-obra doméstica não remunerada, na desigualdade salarial sistémica, na violência que mantém as mulheres no lugar que lhes foi atribuído.

O que mudou é o contexto em que esta violência emerge. A sociedade capitalista contemporânea produziu um tipo humano específico: o indivíduo meritocrático, convencido de que o seu valor é absoluto e de que qualquer perda — de custódia, de estatuto, de controlo — é uma injustiça que justifica a resposta extrema. A meritocracia não é apenas uma ideologia do mercado de trabalho. É uma ética do eu que dissolve a responsabilidade para com o outro. Se mereço tudo, quem me retira algo torna-se inimigo legítimo. A ex-mulher que levou o filho. A amante que se tornou inconveniente. As crianças que passaram a ser peso de uma vida que não correu como previsto.

Sobre esta base ergueu-se, nos últimos anos, uma religiosidade ultramontana em ressurgimento — não a fé modesta dos pobres, que historicamente encontrou em Cristo o defensor dos humilhados, mas a religião dos poderosos: hierárquica, punitiva, obcecada com a família como fortaleza e a mulher como pilar sacrificial. Esta religiosidade não combate a violência doméstica. “Abençoa-a” com o nome de ordem natural.

E tudo isto acontece num mundo do trabalho irreconhecível. A uberização liquidou a ideia de que o trabalho confere pertença — a uma empresa, a uma comunidade, a um projeto coletivo. O trabalhador precário não tem colega, não tem sindicato acessível, não tem futuro previsível. Tem uma aplicação e uma classificação de cinco estrelas. O outsourcing generalizou a descartabilidade: despede-se hoje, subcontrata-se amanhã, e a lei "Trabalho XXI" da ministra Palma Ramalho quer consagrar juridicamente o que a prática já instalou. Neste mundo, a solidariedade — que foi durante décadas a resposta coletiva à exploração — aparece como ingenuidade ou como luxo de quem ainda tem tempo para pensar nos outros.

Houve um tempo em que se julgava caminhar para algum lado. A social-democracia europeia do pós-guerra, com todas as suas insuficiências, produziu Estado social, serviços públicos, direitos laborais, uma ideia — imperfeita, contraditória, mas real — de que a sociedade tinha obrigações para com os seus membros. A Geringonça foi, durante quatro anos, um lampejo tardio dessa ideia. Os que a viveram sabem que não era o socialismo — era um ensaio de decência administrada. Mas era mais do que isto.

O que vivemos hoje é o passo longo atrás. A precariedade como norma. A meritocracia como anestesia. A religião como polícia dos costumes. E a violência — contra as mulheres, contra as crianças, contra os trabalhadores — como resultado previsível de uma ordem que proclama a liberdade individual enquanto destrói as condições materiais e culturais para que essa liberdade exista para todos.

Os dois saltos para diante não virão de moções de estratégia nem de discursos em congressos de partidos que há muito esqueceram o que escreveram nos programas fundadores. Virão da greve geral de 3 de junho, e da seguinte, e da que vier depois. Da recusa coletiva de normalizar o descartável. Da memória, teimosamente preservada, de que houve momentos em que se acreditou ser possível construir uma sociedade em que nenhum homem julgasse ter o direito de enterrar uma mulher numa floresta — porque o mundo que o ensinaria a não o fazer nunca chegou a existir inteiramente.

Esse mundo continua a ser urgente.

domingo, 17 de maio de 2026

O punho e as cócoras

 

Em Pequim, Donald Trump despediu-se do topo das escadas do Air Force One com o gesto que o define: o punho erguido para as câmaras antes de entrar no avião. É o seu sinal de vitória, de desafio, de comunhão com as massas — um gesto que a história associa a quem luta contra o poder, e que ele usa para comunicar que é o poder. A ironia não o atinge. A ironia nunca atinge quem não lê.

Fizera-se acompanhar de Elon Musk, na qualidade ambígua de homem de negócios com fábrica em Xangai e de conselheiro do presidente que passou meses a chamar à China o inimigo civilizacional número um. Os dois foram a Pequim como quem vai cobrar uma dívida e descobriram que o devedor está mais rico do que eles.

Xi Jinping recebeu-os com a cortesia calculada de quem conhece o valor do silêncio. Falou da Armadilha de Tucídides. Falou de civilizações que podem coexistir. Falou para os CEOs — Musk, Tim Cook, Jensen Huang — como quem fala a homens que ele sabe precisarem mais de Pequim do que Pequim precisa deles. Não ergueu o punho. Não precisou. Tinha do seu lado, a História, as terras raras, os chips, o mercado. Deixou o visitante erguer o punho à vontade no topo das escadas. O punho erguido, quando não tem força por trás, é apenas ginástica.

Trump voltou convicto de ter ganho. É outra das suas características: a convicção não depende dos factos.

Enquanto isto, em Lisboa, o ministro dos Negócios Estrangeiros de Portugal descobria que tinha um problema. O problema chamava-se Marco Rubio e tinha a língua comprida. A bordo do Air Force One, a caminho de Pequim, Rubio elogiou Portugal perante as câmaras da Fox News com o entusiasmo de quem elogia um cão bem-amestrado: "disseram que sim antes mesmo de perguntarmos." Estava a referir-se à Base das Lajes e à guerra contra o Irão. Portugal autorizara o uso da base antes de saber para quê. Ou antes de lhes perguntarem. Dependendo de quem se acredita — e Rangel, naturalmente, desmentia tudo.

Foi Eurico Brilhante Dias quem encontrou as palavras certas: "o país viveu, desde aquele momento, agachado, de cócoras." A imagem é precisa e implacável. Portugal de cócoras perante Washington é uma postura conhecida — tem décadas, tem governos, tem partidos. Mas há uma diferença entre a subordinação discreta, que permite manter alguma dignidade de fachada, e a subordinação gabada pelo subordinante. Rubio não percebeu que estava a fazer uma descortesia. Ou percebeu e não lhe importou, que é pior.

Paulo Rangel desmente. O Ministério dos Negócios Estrangeiros emite comunicado. A posição oficial é que tudo foi feito segundo os mecanismos legais, que as condições foram impostas, que o Direito Internacional foi respeitado. Pode ser verdade. Pode ser mentira. O que é certo é que o secretário de Estado dos Estados Unidos, num avião presidencial, descreveu Portugal como o país que disse sim antes de saber a pergunta — e o fez em tom de elogio. Quando o senhor nos elogia desta maneira, o desmentido chega sempre tarde.

De cócoras ou de pé, a diferença é visível a olho nu. Rubio viu.

quinta-feira, 14 de maio de 2026

A Rosa e os seus Espinhos

 


Chamam-se Bandidos do Cante, o que constitui, em si mesmo, uma promessa que não cumpriram. Um bandido tem, ao menos, a virtude do risco. Estes foram a Viena fazer o que se vai a Viena fazer quando não se tem nada a dizer: cantar bonito e voltar para casa.

Voltaram. Sem final. Sem pontos suficientes. Com uma nota de despedida onde garantem ter dado "tudo de nós" e seguido "o caminho certo". O caminho certo levou-os à eliminação na primeira semifinal, o que é uma definição de caminho certo que merece reflexão.

A RTP, fiel à sua vocação de gastar dinheiro público em aventuras de resultado previsível, mandou-os representar um país que, na sua maioria, tinha decidido não ir. Em dezembro, a maior parte dos artistas portugueses anunciou que recusaria representar Portugal se ganhasse o Festival da Canção, por não querer emprestar o corpo a um concurso que mantém Israel na lista de participantes enquanto Gaza é demolida tijolo a tijolo. Os Bandidos do Cante anunciaram o contrário. Disseram que acreditam "no poder das canções para aproximar pessoas". Gaza e Tel Aviv, unidas pela melodia. Os mortos de Rafah, reconciliados com os seus assassinos através do televoto europeu.

Depois explicaram que têm "sensibilidades e opiniões diferentes" sobre a questão. É uma formulação elegante para dizer que não têm posição. Num grupo de cinco pessoas originárias do Alentejo — terra onde o cante nasceu das costas curvadas sobre o latifúndio, da fome administrada pelos senhores da terra, da luta que custou sangue antes de custar votos —, não ter posição sobre um genocídio documentado é, ela própria, uma posição. Chama-se conforto.

O cante alentejano não nasceu neutro. Nasceu da necessidade de dizer o que não se podia dizer em voz alta perante o feitor. Era a linguagem cifrada dos que não tinham outra. Transformá-lo em produto de exportação festivaleiro, embrulhá-lo em "pop fortemente inspirada" e levá-lo a competir no mesmo palco onde Israel coleciona apuramento após apuramento — com a ajuda, aliás, de campanhas de mobilização do próprio governo Netanyahu, como investigou o New York Times — é uma operação que tem nome: é a domesticação de uma forma de resistência para uso decorativo.

Saíram de Viena "tristes". Deram "tudo". Têm "muitos quilómetros pela frente" e "várias novidades em breve". A autocomiseração, quando bem gerida, pode ser uma carreira.

O Alentejo que inventou o cante merecia melhor herdeiros. Ou, pelo menos, herdeiros que soubessem de onde vêm.

domingo, 10 de maio de 2026

Quando só vemos as sombras

 


Tenho amigos que nas redes sociais carpem o facto de não se vislumbrarem sinais de esperança. Olham a realidade interna, veem Montenegro a cantar hinos enquanto o país afunda. Olham a externa, veem Trump e Netanyahu a incendiar o Médio Oriente. Concluem que não há saída.

Compreendo o desânimo. Partilho-o frequentemente. Mas há precedente histórico que convém lembrar.

Walter Benjamin suicidou-se em 1940 na fronteira entre França e Espanha, convencido de que os nazis o apanhariam, de que não havia fuga, de que o fascismo vencera definitivamente. Morreu sem saber que passaria a fronteira no dia seguinte, que os que vinham atrás dele conseguiram, que o Reich que julgava eterno duraria apenas mais cinco anos. Escreveu nas Teses sobre a História que cada geração tem pequena força messiânica sobre a qual o passado reclama direitos. Não viveu para ver essa força manifestar-se.

Stefan Zweig matou-se com a mulher no Brasil em 1942. Escreveu na carta de despedida que o seu mundo, o da cultura europeia humanista, morrera e que ele não tinha forças para reconstruir a vida noutra língua, noutro continente. Não viu a Alemanha derrotada dois anos depois, não viu a Europa reconstruída, não viu os valores que julgava mortos ressurgirem nas constituições democráticas do pós-guerra.

Virginia Woolf encheu os bolsos de pedras e afogou-se no rio Ouse em 1941. Depressão clínica, a guerra a aproximar-se de Inglaterra, o medo de novo colapso mental que não conseguiria suportar. Deixou cartas a dizer que já não aguentava. Morreu sem saber que as suas obras atravessariam o século, que o feminismo encontraria nela voz essencial, que Um Quarto que Seja Seu se tornaria manifesto lido por milhões.

Três suicídios. Três pessoas brilhantes que olharam para a realidade do seu tempo e viram apenas sombras. Concluíram que não havia esperança. Tinham razões objetivas para o pensar. Enganaram-se quanto ao futuro porque o futuro é por definição imprevisível.

Mais depressa do que se pode esperar irradiam motivos luminosos donde hoje só parecem vir sombras. Benjamin não viu os nazis derrotados. Zweig não viu a Europa renascer. Woolf não viu o feminismo triunfar. Mas tudo isso aconteceu.

Não sei se Montenegro cairá amanhã ou daqui a três anos. Não sei se Trump se afundará no Irão ou sobreviverá ao atoleiro. Não sei se o genocídio em Gaza terminará ou piorará. Não vislumbro sinais claros de esperança que possa apontar aos amigos desesperançados.

Mas sei que Benjamin, Zweig e Woolf também não vislumbravam. E sei que o futuro desmentiu o desespero deles. Não a tempo de os salvar, infelizmente. Mas desmentiu.

Vale a pena resistir não porque a vitória seja certa mas porque a derrota nunca é definitiva enquanto houver quem resista. Benjamin resistiu escrevendo até ao último dia. Zweig resistiu documentando o mundo que julgava perdido. Woolf resistiu criando a literatura que sobreviveu à guerra que a matou.

A resistência não garante vitória. Garante apenas que a luta continua, que a memória persiste, que as sombras não são absolutas porque alguém teima em acender a vela.

Os amigos desesperançados têm razão em constatar que a realidade é sombria. Enganam-se se concluem que por isso devem desistir. Porque mais depressa do que esperamos a luz pode vir donde hoje só vemos escuridão.

Não por milagre. Por resistência acumulada de quem não desistiu quando tudo parecia perdido.

Benjamin, Zweig e Woolf desistiram demasiado cedo. Nós ainda estamos vivos. Ainda podemos resistir. Ainda vale a pena.

Mesmo quando só vemos sombras.

sexta-feira, 1 de maio de 2026

Precário deverá ser este desgoverno

 

O jovem iraquiano que estuda no ISCTE não tem culpa da precariedade portuguesa. Não tem culpa de Montenegro ser incompetente. Não tem culpa da crise energética causada por Trump e Netanyahu. Não tem culpa de Portugal ser o 4.º país da UE com maior precariedade juvenil.

Mas foi ele quem apanhou. Porque estava ali. Porque vinha de fora. Porque uma chusma de jovens cobardes precisava de alguém para agredir e ele estava disponível.

E os facínoras que o agrediram também não são responsáveis únicos. São produto de sistema que os condena a precariedade, de discurso político que normaliza xenofobia, de desgoverno que ignora realidade, de educação que ensina valores mas não consegue fazê-los interiorizar.

Não os desculpa. Mas explica. E compreender a explicação é primeiro passo para prevenir que se repita.

Porque enquanto houver governos como o de Montenegro — que cantam hinos em vez de responder perguntas, que proclamam investimentos em vez de melhorar vidas, que se comparam a Cavaco em vez de se envergonharem dessa comparação — continuará a haver jovens precários. E alguns desses jovens precários continuarão a transformar frustração legítima em violência ilegítima.

O círculo vicioso só se quebra quando se quebra a precariedade. E a precariedade só se quebra quando há governos que governam para as pessoas e não para os powerpoints, que enfrentam realidade em vez de a ignorar, que combatem xenofobia em vez de a tolerarem.

Não é este Governo. Não será enquanto Montenegro estiver ao leme. E enquanto assim for, haverá mais Alamedas, mais violências gratuitas, mais jovens iraquianos agredidos por chusmas de jovens portugueses que podiam ser melhor e escolheram ser pior.

Portugal, 4.º na precariedade juvenil. Primeiro na hipocrisia governamental. E no meio disto tudo, um estudante estrangeiro espancado por quem deveria recebê-lo como colega, não como inimigo.

Envergonha. Mas não surpreende. Porque esta é a Portugal que Montenegro constrói enquanto canta hinos e se compara a Cavaco.

Uma Portugal onde quase ninguém está bem, e quase todos estão de mal a pior. Incluindo — especialmente — os jovens que deveriam ser futuro e são apenas frustração à procura de bodes expiatórios. 

Desatinado desgoverno

 

Montenegro equipara-se a Cavaco Silva — exemplo pífio entre os pífios — para enaltecer a sua alegada "capacidade" em investir milhões na economia e manter as miríficas contas certas. Em contraponto José Luís Carneiro constata o óbvio: temos um desgoverno que é completamente avesso a querer entender a realidade em que vivem os portugueses.

Porque a realidade é esta: o custo de vida aumenta vertiginosamente a um ritmo que é bem pior que o da média das economias europeias. E se essas economias também estão acossadas pelos efeitos da crise energética causada pela agressão trumpista-sionista ao Irão —em Portugal o impacto é mais brutal porque partimos de rendimentos mais baixos, de menor capacidade de poupança, de redes de proteção social mais frágeis.

Montenegro faz conferências de imprensa espalhafatosas onde proclama investimentos e apresenta gráficos coloridos. Obriga ministros a cantar o hino nacional para evitar responder a perguntas. Compara-se a Cavaco como se isso fosse elogio e não insulto à inteligência de quem se lembra do que foi esse Portugal cavaquista de desigualdades crescentes e de privatizações ruinosas.

E enquanto isto, as famílias portuguesas veem o poder de compra evaporar-se, os jovens enfrentam precariedade estrutural, a habitação torna-se inacessível, os serviços públicos colapsam. E alguns desses jovens — frustrados, sem perspetivas, alimentados por discurso xenófobo que Ventura normaliza e que Montenegro não combate — descarregam a raiva em estudantes estrangeiros na Alameda. 

Há uma linha de ligação direta entre tudo isto. Entre o desgoverno de Montenegro que ignora as condições reais de vida das pessoas. Entre a precariedade estrutural que condena uma geração inteira a futuro bloqueado. Entre o discurso xenófobo que o Chega promove e que a AD tolera. Entre a violência gratuita que explode na Alameda.

Não é relação de causa única e efeito direto. É teia complexa de fatores que se reforçam mutuamente. E um Governo que recusa-se a encarar esta realidade, prefere cantar hinos a responder perguntas, se compara a Cavaco como se isso fosse virtude, e anuncia investimentos mirabolantes enquanto o custo de vida dispara, Um Governo que não está apenas a ser incompetente, mas também a criar condições para que a violência se normalize, a xenofobia se banalize e jovens frustrados escolham bodes expiatórios em vez de identificarem verdadeiros responsáveis.

A Violência da Alameda

 



A perplexidade perante a falta de valores de uma certa juventude — cobarde e estúpida — foi o sentimento quando soube o que aconteceu na zona da Alameda. Uma chusma de rapazes e raparigas insultou, agrediu e roubou um jovem iraquiano atualmente a estudar em Portugal no ISCTE.

Não foi confronto entre grupos rivais, não foi disputa territorial, não foi sequer crime com motivação económica primária. Foi pura violência gratuita, xenofobia em grupo, cobardia de quem só ataca quando tem superioridade numérica esmagadora.

Vinte contra um. Ou trinta. Os relatos variam, mas a essência permanece: uma alcateia de jovens portugueses — bem vestidos, bem alimentados, com acesso a educação que milhões não têm — decidiu que um estudante estrangeiro merecia ser humilhado, espancado, roubado. Porque vinha de fora. Porque era diferente. Porque podiam.

E depois veio a revelação que ainda mais perturba: alguns dos facínoras foram identificados como alunos do Colégio Moderno. Aquele que pertence à família de Mário Soares, e nos habituámos a associar a valores de tolerância, de abertura ao mundo, de humanismo. E descobrimos que afinal também ali se cultivam — ou pelo menos não se combatem eficazmente — jovens capazes desta violência.

Não é o colégio que causa a violência, obviamente. Mas a expectativa era que uma instituição com aquela história, com aquele legado, fosse particularmente vigilante contra comportamentos xenófobos, particularmente ativa na educação para a cidadania, particularmente intolerante com alunos que demonstrassem este tipo de desvios. Aparentemente, não foi suficiente. Ou então foi, e os miúdos fizeram na mesma — o que seria ainda mais perturbador, porque significaria que valores ensinados não se traduzem em comportamentos praticados.

Mas seria demasiado fácil — e intelectualmente desonesto — atribuir esta violência apenas a falhas educativas familiares ou escolares. Há contexto social mais amplo que a alimenta. E esse contexto tem nome: precariedade.

Portugal é o 4.º país da União Europeia com maior precariedade entre os jovens. Lê-se a notícia e percebe-se subitamente muito mais sobre a violência gratuita, sobre o niilismo destrutivo, sobre a raiva mal dirigida que explode em agressões como a da Alameda.

Porque estes jovens — mesmo os que frequentam colégios privados, mesmo os que vêm de famílias com alguns recursos — sabem perfeitamente que o futuro que os espera é precário. Sabem que dificilmente terão casa própria. Sabem que os empregos disponíveis são instáveis, mal pagos, sem perspetivas de progressão. Sabem que a ascensão social que as gerações anteriores conheceram está fechada para eles.

E este conhecimento — esta certeza de futuro bloqueado, de expectativas frustradas, de promessas não cumpridas — pode alimentar um niilismo destrutivo que, nas suas expressões mais gravosas, se manifesta precisamente neste tipo de violência. Se não há futuro para mim, se não há esperança, se tudo está bloqueado — então porque não destruir? Porque não agredir? Porque não descarregar a frustração em quem está ainda mais vulnerável, em quem vem de fora, em quem pode ser transformado em bode expiatório?

Não estou a justificar. Estou a explicar. São coisas diferentes. A violência xenófoba é injustificável sempre, independentemente das circunstâncias socioeconómicas de quem a pratica. Mas compreender as condições que a tornam mais provável não é desculpá-la — é tentar preveni-la.

quarta-feira, 29 de abril de 2026

O ridículo que não mata (mas deveria)

 

Se o ridículo matasse, hoje teríamos acordado sem governo. Tão letais teriam sido as consequências da espalhafatosa conferência de imprensa de ontem para apresentar o dito PTRR que Montenegro, os seus ministros e toda a parafernália governamental teriam sucumbido ali mesmo, fulminados pelo peso da sua própria má figura.

Mas o ridículo não mata. Apenas humilha. E mesmo a humilhação parece já não ter efeito sobre quem perdeu há muito qualquer sentido de vergonha política.

A operação foi de propaganda primária, daquelas que insultam a inteligência de quem assiste. Montenegro apresentou como novidade aquilo que já fora anunciado tantas vezes desde os efeitos das tempestades de há dois meses. Prometeu apoios, proclamou investimentos, garantiu transformações. Tudo muito bonito em powerpoint, tudo muito convincente em slides bem desenhados, tudo muito impressionante em gráficos coloridos. E tudo completamente desligado da realidade que as pessoas vivem.

Porque na realidade — essa que não cabe em powerpoints nem se deixa impressionar por conferências de imprensa — não há nenhuns apoios efetivos às pessoas e às empresas para reerguerem as suas vidas. Os que perderam casas continuam sem saber como as reconstruir. Os que viram negócios destruídos continuam sem apoio concreto. Os que ficaram sem nada continuam com nada.

E as seguradoras fazem aquilo que muito bem sabem: rápidas a cobrarem os prémios dos seguros, especialistas em encontrar cláusulas que lhes permitem escusar-se a indemnizar os clientes quando estes se veem sinistrados

Montenegro promete milhões. As pessoas continuam a receber zeros. E a distância entre o que se anuncia em conferências de imprensa e o que se executa na realidade mede-se em anos-luz de incompetência e má-fé.

Mas o cúmulo da desfaçatez — aquilo que transformou conferência de imprensa em farsa inqualificável — foi Montenegro recusar-se a responder a qualquer pergunta dos jornalistas. Fez o discurso preparado, leu os papéis escritos pelos assessores, proclamou as maravilhas do PTRR. E depois, quando chegou o momento de responder a questões, de esclarecer dúvidas, de prestar contas — fugiu.

Chamou os ministros. E ali, perante jornalistas atónitos e uma nação que assistia incrédula, obrigou-os a cantar em coro o hino nacional.

Coisa nunca vista. Nunca. Em décadas de democracia portuguesa, em centenas de conferências de imprensa, em milhares de momentos de comunicação governamental — nunca se tinha visto tamanha instrumentalização patética de um símbolo nacional para fugir a perguntas incómodas.

É a expressão de um nacionalismo serôdio que, como bem se sabe desde Samuel Johnson, costuma ser o último refúgio dos canalhas. Quando não tens argumentos, agitas a bandeira. Quando não tens respostas, cantas o hino. Quando não tens competência para governar, escondes-te atrás de símbolos pátrios como se isso compensasse a tua mediocridade.

Montenegro não é o primeiro nem será o último a usar patriotismo barato para encobrir incompetência real. É tática antiga, testada, eficaz junto dos mais distraídos. Mas é também reveladora. Porque quando um primeiro-ministro precisa de transformar conferência de imprensa em número de circo, quando tem de obrigar ministros a cantar o hino para evitar responder a jornalistas, quando substitui prestação de contas por teatralização patriótica — é porque já não tem nada de substancial para dizer.


É patético. Mas é também perigoso. Porque este tipo de nacionalismo performativo — esse que substitui governação por símbolos, que troca políticas por folclore, que esconde incompetência atrás de pátria — é o mesmo que historicamente sempre antecedeu derivas autoritárias.

Não que Montenegro seja fascista. Não é. É apenas incompetente e desesperado. Mas a incompetência desesperada que recorre a nacionalismo barato para se legitimar cria condições para que verdadeiros autoritários — esses sim, como Ventura — se apresentem como alternativa credível.

E assim vai Portugal. Quase ninguém bem, quase todos de mal a pior.

O ridículo não mata. Mas a incompetência mata — mata esperanças, mata perspetivas, mata a confiança de que é possível ter governantes à altura dos problemas que o país enfrenta.

Montenegro descobrirá, mais cedo do que imagina, que não basta cantar o hino. É preciso governar. E governar exige competência, transparência, capacidade de prestar contas, coragem para responder a perguntas incómodas.

Tudo aquilo que ontem ficou claro que a este Governo falta por completo.

O ridículo não mata. Mas expõe. E ontem, perante uma nação atónita, Montenegro expôs-se completamente. Resta saber se ainda lhe resta alguma vergonha para reconhecer o que todos já perceberam: que aquilo não foi conferência de imprensa de um Governo que governa. Foi o canto do cisne de quem já sabe que está a afundar-se e tenta disfarçar o naufrágio com hinos e bandeiras.

Não resultará. Nunca resulta. Mas pelo menos ficará registado para a História: o dia em que um primeiro-ministro português, incapaz de responder a jornalistas, transformou uma conferência de imprensa em sessão de karaoke patriótico.

sábado, 25 de abril de 2026

A fotografia falsa e a obrigação de pensar

 

A imagem circula pelas redes sociais com a força emocional que elas adoram: um violinista esquelético, em primeiro plano, rodeado por dezenas de prisioneiros igualmente subnutridos, numa cena que, supostamente, retrata a transferência de prisioneiros de um campo de concentração nazi antes da chegada dos Aliados. É pungente, é comovente, é partilhável. E é completamente falsa.

A fotografia foi inteiramente construída por inteligência artificial. Não retrata momento histórico algum. Não documenta sofrimento real. É fabricação digital destinada a gerar cliques, a valorizar sites que ganham dinheiro em função do tráfego que conseguem atrair, a explorar emocionalmente quem a vê e partilha sem questionar.

Os historiadores detetaram rapidamente as incongruências gritantes. Os uniformes não correspondem aos usados nos campos. A disposição dos prisioneiros não faz sentido logístico. O violino, em bom estado de conservação, seria impensável naquele contexto. A própria composição da imagem — demasiado perfeita, demasiado cinematográfica — denuncia a sua artificialidade.

Mas a maioria de quem partilha não sabe disto. Não verifica. Não questiona. Vê uma imagem que confirma aquilo que já sabe — que o Holocausto foi horror indizível — e partilha para demonstrar solidariedade, para mostrar que não esquece, para afirmar valores humanistas.

E aqui reside o primeiro problema: mesmo quando serve causas justas — e lembrar o Holocausto é causa justa — a mentira permanece mentira. E usar imagens falsas para comover, mesmo que a emoção seja dirigida a factos reais, é manipulação. É instrumentalização do sofrimento histórico para lucro de quem gere sites destinados a quem julga neles encontrar informação fidedigna.

Mas há um segundo problema, mais perturbador e politicamente mais carregado. Esta fotografia falsa surge precisamente no momento em que Israel prossegue a sua política genocida em Gaza, na Cisjordânia e no Líbano. E ao circular massivamente, ao comover milhões de pessoas com o sofrimento judeu histórico — real, documentado, inegável — cria um contexto emocional que torna mais difícil criticar o sofrimento que Israel está neste momento a infligir aos palestinianos.

Não é coincidência. Não é acaso. É estratégia — consciente por parte de alguns, inconsciente por parte de muitos — de usar a memória do Holocausto como escudo contra as críticas às políticas israelitas atuais. Como se reconhecer o horror do genocídio nazi obrigasse a silenciar o que Israel faz hoje. Como se as vítimas de ontem não pudessem ser criticadas pelos crimes de hoje.

Esta instrumentalização é obscena. O Holocausto não pertence a Israel. Pertence à História, à memória coletiva da Humanidade, ao imperativo de "nunca mais". E esse "nunca mais" aplica-se a todos os genocídios — incluindo o que Israel está a perpetrar neste momento contra os palestinianos.

Usar imagens falsas do Holocausto para gerar tráfego comercial é vigarice moral. Usar essas mesmas imagens para criar contexto emocional que dificulta críticas a Israel é obscenidade política. E ambas as coisas acontecem simultaneamente quando fotografias como esta circulam sem escrutínio crítico.

O problema não é exclusivo desta imagem específica. É sintoma de crise mais profunda: a forma como consumimos informação nas redes sociais. Vemos, emocionamo-nos, partilhamos. Não verificamos, não questionamos, não pensamos criticamente sobre o que estamos a amplificar.

E isto tem consequências. Quando partilhamos imagens falsas — mesmo emocionalmente "verdadeiras" e politicamente alinhadas com os nossos valores — estamos a contribuir para a erosão da verdade como categoria relevante. Estamos a validar a ideia de que o que importa não é a correspondência com os factos, mas o impacto emocional. Estamos a treinar-nos a nós próprios e aos outros para aceitar manipulação desde que nos faça sentir da maneira "certa".

E quando a verdade deixa de importar, quando a verificação factual é substituída por ressonância emocional, ficamos indefesos perante manipulações muito mais perigosas. Se aceitamos fotografias falsas porque nos comovem, porque não aceitaremos narrativas falsas que nos confortam? Se não questionamos imagens que confirmam aquilo que já acreditamos, porque questionaríamos informações que reforçam os nossos preconceitos?

Há responsabilidade individual aqui. Cada um de nós que partilha sem verificar, que amplifica sem questionar, que consome informação como quem consome fast food — rapidamente, sem pensar, sem questionar ingredientes — está a contribuir para o problema.

Mas há também responsabilidade sistémica. Os algoritmos premiam conteúdo que gera reações emocionais fortes, não conteúdo que corresponde aos factos. Há muitos sites a ganharem dinheiro com tráfego, independentemente de como o conseguem.

E quando juntamos estas duas coisas — utilizadores que não pensam criticamente e sistemas que lucram com a ausência desse pensamento crítico — obtemos exatamente o que temos: um ecossistema informativo poluído onde imagens falsas circulam com a mesma ou maior facilidade que imagens verdadeiras, onde factos e ficção se misturam indistintamente, onde a emoção substitui o escrutínio.

O que fazer? Algumas sugestões práticas, humildes mas necessárias:

Antes de partilhar qualquer imagem emocionalmente forte, parar. Questionar. Verificar. Procurar fontes. Usar ferramentas de reverse image search. Ler o que historiadores e especialistas dizem.

Desconfiar especialmente de imagens que confirmam aquilo que já acreditamos. As que desafiam as nossas convicções são escrutinadas naturalmente. As que as reforçam passam sem filtro. E é precisamente aí que a manipulação é mais eficaz.

Reconhecer que partilhar informação falsa — mesmo sem intenção maliciosa, mesmo em defesa de causas justas — tem consequências. Polui o debate público, mina a confiança na informação verificável, facilita manipulações futuras.

E sobretudo: manter capacidade de distinguir entre causas justas e métodos duvidosos. O Holocausto foi real e deve ser lembrado. Isso não justifica usar imagens falsas para o lembrar. Israel comete genocídio em Gaza. Isso não fica invalidado porque também há manipulação emocional sobre o Holocausto. Duas coisas podem ser verdade ao mesmo tempo.

Navegar esta complexidade exige o que as redes sociais nos treinam para não fazer: pensar criticamente, verificar antes de partilhar, distinguir entre factos e emoções, reconhecer manipulação mesmo quando serve causas que apoiamos.

Não é fácil. Nunca foi. Mas é necessário. Porque quando deixamos de pensar criticamente sobre o que consumimos, quando substituímos escrutínio por ressonância emocional, quando partilhamos sem verificar — ficamos à mercê de quem nos quer manipular.

E neste momento, entre vigarices comerciais e instrumentalizações políticas, entre factos e ficções, entre memória e manipulação — há muita gente que lucra com a nossa ausência de pensamento crítico.

Não lhes facilitemos o trabalho.

A reforma laboral que ninguém quer

 

A reforma laboral está moribunda. Quase ninguém acredita na sua viabilização. E os poucos que ainda fingem acreditar fazem-no por teimosia, por orgulho ferido, por incapacidade de reconhecer a derrota que se avizinha.

Com o chumbo da UGT — essa central sindical habitualmente tão disponível para acordos com governos de direita — e a renitência do Chega — que adivinha perfeitamente o quanto lhe custaria eleitoralmente apoiar a "reforma" perante os que lhe chegaram a partir das esquerdas desiludidas — a teimosia da ministra Rosário Palma Ramalho, acolitada na ambição maximalista do patrão da CIP, parece destinada a resultar numa derrota significativa do Governo.

E essa derrota tem um sabor particularmente doce. Porque representa o momento em que Luís Montenegro e os seus lugares-tenentes começam finalmente a sentir na pele que uma coisa foi chegarem ao poder, outra completamente diferente é exercê-lo a seu bel-prazer.

A reforma laboral — chamemos-lhe pelo nome real: destruição organizada de direitos dos trabalhadores — nasceu da arrogância de quem se julgava intocável. Montenegro chegou ao governo convencido de que podia fazer o que quisesse. Tinha maioria relativa, tinha o Chega disponível para viabilizar o que fosse preciso, tinha a comunicação social maioritariamente favorável, tinha o patronato a empurrá-lo.

A ministra Rosário Palma Ramalho, académica sem experiência política relevante mas com ideias muito claras sobre o quanto os trabalhadores portugueses têm demasiados direitos, apresentou um pacote legislativo que integrava o pensamento mágico do patronato: facilitação de despedimentos, precarização do vínculo laboral, redução de compensações, flexibilização de horários que na prática significa disponibilidade total do trabalhador para as necessidades da empresa.

O presidente da CIP aplaudiu entusiasticamente. Era tudo o que sempre quisera e mais alguma coisa. Esticava-se a corda ao máximo — não era só retirar alguns direitos, mas refundar por completo a relação laboral numa lógica em que o trabalhador é mercadoria descartável e o empregador senhor absoluto.

E julgavam que a fragmentação sindical, a passividade social, o medo do desemprego criariam as condições para impor o que quisessem. Enganaram-se.

A greve geral foi o primeiro sinal de que tinham ido longe demais. A dimensão da paralisação, a adesão transversal, a capacidade de mobilização que a CGTP demonstrou — tudo isto revelou que havia limite para o que os trabalhadores portugueses estavam dispostos a engolir.

Mas Montenegro e Palma Ramalho fingiram não ver. Continuaram a insistir, a fazer ajustes cosméticos ao pacote, a tentar vender como "diálogo social" o que era imposição mal disfarçada. A CIP continuou a pressionar — não queria menos do que tinha pedido inicialmente.

Depois veio o chumbo da UGT. E isto é particularmente revelador. A UGT, historicamente aliada dos governos de direita, disponível para acordos que a CGTP rejeita, moderada nas reivindicações e nos métodos — até a UGT disse não ao conjunto do pacote, à filosofia que o sustenta, à visão de relações laborais que representa. Quando até os teus amigos te abandonam, é porque foste verdadeiramente longe demais.

E depois há o Chega. Ventura descobriu que não pode simplesmente votar tudo o que a direita propõe sem pagar custos eleitorais. Uma parte significativa do seu eleitorado vem das esquerdas desiludidas — trabalhadores precarizados, gente que perdeu fé no PS e no sistema, pessoas que votam Chega não por ideologia fascista, mas por desespero e raiva.

Se Ventura aprovar uma reforma laboral que piora objetivamente as condições de vida desses trabalhadores, como se explicará aos seus eleitores? Como continuará a vender-se como defensor do "povo" contra as "elites" se vota com o patronato contra os trabalhadores?

Ventura não tem princípios — isso ficou abundantemente demonstrado. Mas tem instinto de sobrevivência política. E o instinto diz-lhe que aprovar esta reforma seria suicídio eleitoral. Daí a renitência, as hesitações, as exigências de alterações que sabe que o Governo não pode aceitar sem esvaziar o pacote de sentido.

É cinismo puro. Ventura não se opõe à reforma porque defende os trabalhadores — opõe-se porque obceca-o a preservação do seu eleitorado. Mas o resultado prático é o mesmo: mais um voto que falta para fazer passar a legislação.

Montenegro está encurralado. Não tem votos à direita — o Chega hesita, a IL quer mas não basta. Não tem votos ao centro — o PS obviamente opõe-se. Não tem apoio sindical — nem da CGTP nem da UGT. Não tem sequer consenso patronal — há sectores empresariais que percebem que relações laborais demasiado conflituais são más para os negócios.

E, no entanto, continua a insistir, só agravando a derrota que se avizinha. Cada dia que passa sem consenso é mais um dia em que fica claro que este Governo não consegue aprovar aquilo que queria aprovar, não consegue impor aquilo que queria impor, não tem a força que julgava ter.

Esta não é apenas derrota de uma lei específica. É derrota de uma visão de governação. Montenegro chegou ao poder julgando que podia governar como quem gere uma empresa privada — decide no topo, executa abaixo, ignora oposição. Está a descobrir que governar país democrático é outra coisa.

Exige negociação. Exige compromisso. Exige capacidade de perceber quando se foi longe demais e é preciso recuar. Exige humildade para reconhecer que há limites ao que se pode impor mesmo quando se tem maioria parlamentar.

Montenegro não tem nenhuma destas qualidades. É gestor tático habituado a cartadas de curto prazo, não é estadista com visão de longo prazo. E está a pagar o preço dessa limitação.

A reforma laboral morrerá. Talvez não formalmente — talvez aprovem versão tão mutilada que já não serve os objetivos iniciais. Talvez a adiem sine die, fingindo que é para "aprofundar diálogo social". Talvez a retirem discretamente, enterrando-a em alguma gaveta ministerial.

Mas morrerá. E com ela morre um bocado da ilusão de Montenegro de que chegara ao poder para fazer o que quisesse. Uma coisa foi lá chegar. Outra é exercê-lo. Montenegro está a aprender a diferença. E a lição está a ser dolorosa.

Para nós, que vemos os direitos laborais defendidos por resistência dos trabalhadores, a lição é diferente: vale a pena lutar. Vale a pena fazer greve. Vale a pena resistir.

Porque às vezes — não sempre, mas às vezes — os poderosos recuam. E quando recuam, não é por generosidade. É porque encontraram força que não esperavam, resistência que não anteciparam, limites que julgavam não existir.

A reforma laboral ensinou isso a Montenegro. E ensinou-nos a nós que ainda não estamos tão derrotados quanto ele gostaria que estivéssemos.

quarta-feira, 8 de abril de 2026

A China que vai lá muito à frente

 

O professor Arlindo Oliveira regressou recentemente de uma viagem por alguns países asiáticos e aterrou na Europa com a sensação de vir do futuro. Porque a aplicação da tecnologia no quotidiano dos cidadãos comuns, sobretudo na China, é tal que o nosso atraso tecnológico cresce abissalmente a cada ano que passa.

Diariamente leio e ouço opinadores que expressam o seu terror perante a ameaça chinesa. Não lhes faltam loas à nossa "democracia liberal" perante a perversidade da "ditadura comunista". Invocam os direitos humanos, a liberdade de expressão, a superioridade moral do Ocidente. E usam tudo isto para esconder uma verdade que os aterroriza: estamos a ficar para trás. Tecnologicamente, economicamente, infraestruturalmente — estamos a perder a corrida.

Mas, tal como vi quando por razões profissionais estive na China em estadias ora curtas, ora prolongadas por várias semanas, não faltam testemunhos como o do professor do Técnico: quem lá vai surpreende-se com a rapidez com que o futuro ali se vai materializando. Pagamentos digitais universais que tornaram o dinheiro físico obsoleto. Transportes públicos integrados com eficiência que as nossas cidades nem sonham alcançar. Infraestruturas de telecomunicações que fazem parecer primitivo o que temos na Europa. Aplicação massiva de inteligência artificial em serviços públicos, saúde, educação.

Isto não é propaganda do Partido Comunista Chinês. É constatação factual de quem lá esteve e viu. E levanta questões desconfortáveis que os nossos opinadores preferem ignorar.

Enquanto o nosso capitalismo serôdio nos vai conduzindo em lentíssima velocidade — eternamente adiando investimentos, privatizando lucros e socializando prejuízos, subfinanciando infraestruturas — a China avança a uma velocidade que nos deixa cada vez mais para trás. E ainda assim, trazendo consequências em desemprego decorrente da automação e da inteligência artificial que não parecem assustar tanto os chineses.

Porquê? Porque têm planeamento de longo prazo. Porque o Estado pode investir maciçamente sem depender de ciclos eleitorais de quatro anos. Porque a implementação tecnológica não fica refém de lobbies corporativos que lucram com a ineficiência. Porque há coordenação entre investigação académica, aplicação industrial e serviços públicos que no nosso sistema fragmentado e privatizado é impossível replicar.

Isto não significa que a China seja modelo a seguir acriticamente. O regime é autoritário, a vigilância é omnipresente, a repressão política é real. Mas fingir que estas limitações democráticas explicam ou justificam o nosso atraso tecnológico é exercício de autoilusão confortável.

A verdade desconfortável é que o nosso sistema — a “democracia liberal” combinada com capitalismo neoliberal — está a revelar-se incapaz de planear e executar investimento tecnológico à escala e velocidade necessárias para competir com economias que operam sob lógicas diferentes. E quanto mais tempo passarmos a cantar loas à nossa superioridade moral em vez de reconhecer a inferioridade executiva, mais irrecuperável se torna o fosso.

O professor Arlindo Oliveira voltou do futuro. E o futuro, pelos vistos, não fala a nossa língua nem partilha o nosso sistema político. Podemos continuar a fingir que a nossa “democracia liberal” nos salvará automaticamente. Ou podemos acordar para a realidade: estamos a ficar para trás, e rápido. E nenhuma quantidade de retórica sobre valores ocidentais mudará esse facto.

terça-feira, 7 de abril de 2026

Os burgessos da Manosfera

 

Um artigo recente do Público evocou o quanto é séria a ameaça da manosfera, esse universo digital onde rapazes frustrados cultivam ódio às mulheres, ressentimento social e fantasias de violência. O fenómeno indica uma tremenda frustração de muitos jovens com o medíocre presente e com o saberem quão problemático lhes será o futuro — sem perspetivas de emprego estável, sem possibilidade de casa própria, sem os privilégios que as gerações anteriores tiveram.

Mas, ao invés dos que pedem contenção a respeito das razões sociológicas que os tornam assim — como se compreender fosse desculpar, como se explicar fosse justificar — mantenho a convicção de confrontá-los com o quão burgessos são e o quanto poderiam ter melhor rumo se tentassem contrariar essa condição em vez de se afundarem nela.

Sim, o sistema é injusto. Sim, o capitalismo neoliberal destruiu as perspetivas de ascensão social que gerações anteriores tiveram. Sim, a precariedade é estrutural e a frustração é legítima. Mas nada disto justifica transformar as mulheres em bodes expiatórios, cultivar o supremacismo masculino, alimentar a violência misógina.

E há precedente histórico para lidar com isto. Durante anos houve muitos racistas e fascistas entre nós. Sabíamo-los encapotados, envergonhados, escondidos — porque tinham consciência de quão desmascarados e humilhados seriam se ostentassem publicamente o que pensavam. A vergonha social funcionava como travão. Não eliminava o racismo nem o fascismo, mas impedia que se normalizasse, se tornasse aceitável e contaminasse o espaço público.

É fundamental que os burgessos da manosfera voltem a essa clandestinidade, batendo de frente com a constatação da sua misoginia não ser opinião legítima num debate de ideias, mas patologia que merece repúdio social. Que sintam vergonha — não da frustração legítima com o sistema, mas da forma cobarde e destrutiva como escolhem canalizá-la.

Compreender as causas sociológicas não implica tolerância com as consequências. E confrontar a estupidez dos burgessos não é falta de empatia — é recusa de normalizar o inaceitável.