(Quarto
de uma série de textos sugeridos pelo excelente podcast de Mariana Mortágua no
“Publico” – “ Senhores do Algoritmo” - que muito informou sobre o tema)
Na
tradição do Iluminismo clássico, a paz universal e a estabilidade do direito
internacional eram vistas como o horizonte ético indispensável para o progresso
humano. Pelo contrário, para a ontologia do Dark Enlightenment e do
Aceleracionismo que o sustenta, a paz perpétua é encarada como um estado de
estagnação, uma entropia metabólica que amolece as sociedades e desacelera o
desenvolvimento tecnológico.
Na visão
neoreacionária, a guerra não é uma tragédia a evitar, mas o mais potente
catalisador de seleção natural e de inovação. É no teatro de destruição que os
sistemas tecnológicos são testados até ao limite, que as regulações éticas do
Estado de Direito são suspensas e que a alocação de capital ganha uma urgência
absoluta. A guerra surge como o modelo de negócio perfeito para o capitalismo
de rotura: um mercado de consumo destrutivo onde a obsolescência da mercadoria
é imediata e a procura por rearmamento é infinita.
A
conversão da guerra num ativo económico primordial marca a consolidação de uma
nova necroindústria, onde o sofrimento humano e a desestabilização geopolítica
são convertidos em margens de lucro para os oligarcas da tecnologia.
Durante a
Segunda Guerra Mundial e a Guerra Fria, o complexo militar-industrial clássico
assentava na cooperação entre governos e grandes multinacionais de armamento
sob estrito controlo estatal. No entanto, na última década, assistimos a uma
mutação decisiva: a privatização do próprio núcleo intelectual e tecnológico da
defesa através de startups de Deep Tech financiadas pelo capital
de risco de Silicon Valley.
Empresas
como a Anduril Industries (fundada por Palmer Luckey, apoiado pelo ecossistema
de Peter Thiel), a Palantir, a Shield AI e a SpaceX
redefiniram o campo de batalha. O armamento pesado e estático do século XX deu
lugar a sistemas integrados de inteligência artificial, enxames de drones
autónomos, redes de vigilância por satélite e ferramentas de guerra cibernética
preditiva.
Esta nova
classe de empresários do setor militar opera abertamente sob a ideologia do
Iluminismo das Trevas. Promovem a ideia de que a segurança das nações não deve
depender de tratados internacionais, diplomacia ou exércitos conscritos, mas
sim do algoritmo proprietário e da superioridade tecnológica privada. Ao
fundirem a cultura de disrupção de Silicon Valley com a indústria da morte,
estas empresas desmantelaram os travões éticos da guerra convencional.
A
eficácia da nova necroindústria assenta num tríptico infraestrutural que
reconfigurou a própria natureza da soberania estatal:
·
A Malha Orbital (Satélites): O controlo do espaço orbital tornou-se a
condição de possibilidade de qualquer operação militar moderna. Redes de
satélites de órbita baixa — como a Starlink de Elon Musk — fornecem a
espinha dorsal de comunicações, navegação e inteligência em tempo real. O facto
de o comando estratégico militar depender de constelações de satélites
pertencentes a empresas privadas confere a um pequeno grupo de indivíduos o poder
de ditar o resultado de guerras e de chantagear governos soberanos.
·
A Automação do Homicídio (Drones): A introdução de enxames de drones
governados por inteligência artificial remove o fator humano da decisão de
matar. O algoritmo de reconhecimento facial e de deteção de padrões passa a
selecionar alvos e a executar ataques com uma frieza matemática. Elimina-se o
custo político da perda de vidas de soldados próprios, tornando a guerra
psicologicamente mais aceitável para as elites políticas e financeiras.
·
A Guerra da Informação (Algoritmos e Data Centers): A dimensão física da
destruição é permanentemente acompanhada pela guerra psicológica digital. Os
mesmos algoritmos e data centers que processam dados no campo de batalha são
utilizados para manipular a perceção pública, desinformar populações e desestabilizar
adversários geopolíticos a partir de dentro, apagando as fronteiras entre o
estado de paz e o estado de guerra.
A
economia política da guerra no contexto do Dark Enlightenment exige
a perpetuação da instabilidade. A paz prolongada e a cooperação multilateral
representam um risco existencial para a valorização bolsista da nova necroindústria.
Ao
capturarem a infraestrutura de defesa dos Estados, os oligarcas da tecnologia
garantem a instauração de um estado de exceção permanente. Sob o pretexto da
ameaça iminente e da competição geopolítica, as garantias constitucionais dos
cidadãos são erodidas, a vigilância em massa é normalizada e os orçamentos
públicos de saúde, educação e proteção social são canalizados para o
financiamento sem fundo da máquina militar-tecnológica.
A guerra,
que no passado era encarada como o fracasso da política, converteu-se na
realização máxima da política neoreacionária: uma ordem social disciplinada
pelo medo, governada por algoritmos de sobrevivência e dominada por uma elite
proprietária que lucra com a própria destruição do planeta.



















