Trump deve imaginar-se imperador. Já há quem fale em neorrealeza. As declarações, os gestos, a retórica — tudo aponta para alguém que se vê não como presidente temporário de uma república, mas como monarca absoluto de um império sem limites. E a História está cheia de exemplos do que acontece quando essa ilusão imperial se instala na mente de quem detém poder absoluto.
Trump é, como escreve Amílcar Correia, "o somatório perfeito de autoritarismo e competição". Substituiu deliberadamente a multilateralidade pela multipolaridade, trocou a cooperação pela competição pura. E nesta lógica, como bem nota Correia, "a transação oportuna vale mais do que a defesa do direito internacional". Não há regras, não há princípios, não há limites — apenas oportunidades de negócio e demonstrações de força.
Mas esta mesma lógica, que Trump julga ser prova da sua genialidade, pode ser o caminho para a decadência irreversível do império americano. A História oferece exemplos abundantes de impérios que entraram em colapso precisamente na fase em que eram liderados por figuras mentalmente transtornadas, convencidas da sua omnipotência, incapazes de perceber que estavam a destruir aquilo que pretendiam engrandecer.
Nero tocava lira enquanto Roma ardia. Não literalmente, talvez, mas a metáfora persiste porque captura uma verdade: o imperador que perde contacto com a realidade, que se rodeia de aduladores, que confunde capricho pessoal com interesse imperial, que transforma governação em espetáculo grotesco. Nero achava-se artista, poeta, visionário. O Senado achava-o louco. A História deu razão ao Senado. O império sobreviveu a Nero, mas nunca recuperou inteiramente o prestígio e a estabilidade que ele destruiu.
Hitler, nos seus últimos meses no bunker de Berlim, movia exércitos que já não existiam em mapas que já não correspondiam à realidade. Dava ordens a divisões fantasma, planeava contra-ataques impossíveis, recusava-se a aceitar que o Reich de Mil Anos estava a desmoronar-se à sua volta. A combinação de megalomania, paranoia e desligamento total da realidade levou-o a destruir deliberadamente a própria Alemanha numa espécie de suicídio nacional. Se ele não podia vencer, então ninguém merecia sobreviver.
Napoleão, após o desastre da Rússia, continuou a comportar-se como se fosse invencível. Recusou acordos de paz razoáveis porque achava que estava destinado a dominar a Europa. Mobilizou exércitos cada vez maiores para campanhas cada vez mais insensatas. E quando finalmente caiu, a França tinha perdido a hegemonia continental que ele próprio tinha construído. O império que Napoleão criou colapsou precisamente porque ele não soube quando parar, quando consolidar, quando aceitar limites.
A nomenklatura senil da União Soviética nos anos 1980 oferece um exemplo diferente mas igualmente instrutivo. Não era loucura individual, mas loucura sistémica — uma classe dirigente tão desligada da realidade, tão presa à retórica ideológica, tão incapaz de reformar, que continuou a insistir que o sistema funcionava mesmo quando todos os indicadores mostravam o contrário. Quando finalmente caiu, caiu de repente, apanhando toda a gente de surpresa, inclusive os próprios dirigentes soviéticos.
Trump apresenta elementos de todos estes padrões. Como Nero, transforma a governação em espetáculo pessoal, confunde os interesses do império com o seu ego hipertrofiado. Como Hitler, recusa-se a aceitar limites impostos pela realidade e rodeia-se de aduladores que lhe dizem apenas o que ele quer ouvir. Como Napoleão, não sabe quando parar, quando consolidar, quando perceber que mais expansão significa mais vulnerabilidade. Como a nomenklatura soviética, comanda um sistema que mostra sinais evidentes de disfunção mas insiste que está a tornar a América "grande outra vez".
Os sinais de desconexão com a realidade multiplicam-se. O rapto de Maduro foi apresentado como demonstração de força, mas pode acabar por ser demonstração de fraqueza — a incapacidade de conseguir objetivos estratégicos sem recurso a atos de pirataria internacional que destroem qualquer pretensão de liderança moral. O assédio à Gronelândia seguido de recuo tático em Davos mostra um padrão errático de ameaças seguidas de hesitações. O adiamento do ataque ao Irão revela que mesmo Trump percebe que há limites ao que pode fazer impunemente — mas essa perceção não o impede de continuar a fazer ameaças que depois não pode cumprir, minando sistematicamente a credibilidade americana.
E depois há a política interna: as deportações em massa, os ataques às instituições democráticas, a transformação do ICE numa espécie de polícia política, a retórica cada vez mais explicitamente autoritária. Amílcar Correia nota que a oposição ao "kitsch totalitário" está mobilizada, que os democratas ganham eleições, que protestos corajosos tomam as ruas. Mas isto também é padrão histórico: os impérios em declínio radicalizam-se internamente, tornam-se mais repressivos, mais paranoicos, mais dispostos a usar violência contra os próprios cidadãos.
A questão fundamental, como diz Mario Draghi citado por Correia, não é o colapso da ordem mundial — "a ameaça é o que a pode substituir". E aqui reside o verdadeiro perigo da loucura imperial de Trump: ele está a destruir a ordem internacional que garantiu décadas de relativa estabilidade, mas não está a construir nada no seu lugar. Apenas caos, oportunismo transacional, esferas de influência em competição permanente.
O resultado previsível é uma América que, como a Rússia de Putin hoje, será potência decadente. Ainda terá armas nucleares, ainda terá capacidade militar significativa, ainda poderá causar destruição massiva. Mas já não terá legitimidade, já não será modelo para ninguém, já não liderará através de soft power ou prestígio moral. Será apenas mais uma potência autoritária entre outras, tentando manter pela força aquilo que já não consegue manter pela influência.
Putin construiu essa Rússia — um país com armas de superpotência mas economia de país em desenvolvimento, com retórica imperial mas influência regional declinante, com pretensões globais mas cada vez mais dependente de parceiros menores como a Coreia do Norte e o Irão. É uma potência que inspira medo mas não respeito, que pode destruir mas não construir, que vive de glórias passadas porque já não consegue criar glórias presentes.
Trump está a construir a mesma coisa para os Estados Unidos. A operação na Venezuela pode ter sido militarmente bem-sucedida, mas foi desastre diplomático. A ameaça à Gronelândia pode ter mobilizado a base trumpista, mas alienou aliados europeus. O confronto com a China pode jogar bem internamente, mas está a acelerar a construção de uma ordem multipolar onde os EUA são apenas um pólo entre vários, não o centro indiscutível.
E tal como Nero não percebia que estava a destruir Roma, tal como Hitler não aceitava que estava a arrastar a Alemanha para o abismo, tal como Napoleão se recusava a ver que tinha ultrapassado o ponto de expansão sustentável, tal como a nomenklatura soviética não compreendia que o sistema estava morto — Trump também não parece capaz de perceber que está a transformar a América numa potência decadente.
Muitos temem que Trump esteja num estado de loucura em que tudo lhe parece ser permitido. Esse medo é justificado. Mas talvez o medo maior devesse ser outro: não que Trump seja louco no sentido clínico, mas que seja perfeitamente racional dentro da sua própria lógica — uma lógica que confunde força com poder, que substitui estratégia por táctica, que troca liderança por domínio, que destrói ordem sem criar alternativa.
Porque quando um império colapsa liderado por um louco, ainda há esperança de que a loucura seja temporária e reversível. Mas quando colapsa liderado por alguém que age racionalmente segundo premissas fundamentalmente erradas, então o colapso é estrutural, não conjuntural. Não é acidente que pode ser corrigido — é escolha que se torna destino.
A América prometida a ser "grande outra vez" pode acabar tão decadente quanto a Rússia de Putin. Não porque Trump seja louco, mas porque a sua racionalidade imperial — essa mistura tóxica de megalomania, oportunismo transacional e desprezo absoluto pelas regras — é exatamente a racionalidade que historicamente conduz impérios ao colapso.
E quando esse colapso vier, como veio para Roma depois de Nero, para a Alemanha depois de Hitler, para a França depois de Napoleão, para a União Soviética depois da nomenklatura senil, a pergunta não será "como não vimos isto a chegar?" A pergunta será: "como é que deixámos que acontecesse, quando todos os precedentes históricos nos avisavam exatamente para onde este caminho conduzia?"
A resposta, provavelmente, será a mesma de sempre: porque enquanto o imperador estava nu, toda a gente fingia que ele estava vestido. Até ao dia em que já ninguém conseguia fingir mais.






