Um
cronista do Público assinalou esta semana algo que merece
desenvolvimento: as guerras de Putin e de Trump são, no fundo, guerras de
fantasmas. O primeiro quer restaurar o império soviético que a história
encerrou em 1991 e nunca existiu exatamente como ele o imagina. O segundo quer
restaurar a América industrial do século XX, a da hegemonia incontestada, a de
antes dos japoneses, dos chineses e da realidade. Ambos guerreiam contra o
passado com armas do presente e produzem, no processo, um futuro que nenhum dos
dois controla.
A China
observa. Sem o lastro desses fantasmas — sem império a restaurar, sem hegemonia
perdida a recuperar —, avança com a paciência de quem sabe que o tempo joga a
seu favor. Xi Jinping não precisa de fazer a América grande outra vez nem de
reconquistar Kiev. Precisa de continuar a crescer, a investir em infraestrutura
global, a comprar a dívida de quem lha vende e a esperar que os outros se
esgotem nas suas nostalgias. O travão demográfico existe e é real — uma
população que envelhece é uma economia que abranda —, mas é um problema de
décadas, não de anos. Por agora, a paciência é uma vantagem competitiva.
Fora
deste tabuleiro de potências há duas possibilidades que me parecem mais
determinantes do que qualquer disputa hegemónica.
A
primeira é distópica: a sucessão de guerras alimentadas pelos fantasmas do
século XX — e pelos novos que as direitas extremas fabricam em série, da
remigração ao nativismo, do negacionismo climático ao messianismo identitário —
conduz a um mundo de conflitos permanentes, de recursos militarizados, de
humanidade ocupada a destruir-se enquanto o planeta arde.
A segunda
é a única alternativa real: perante o agravamento incontornável dos efeitos
climáticos — as tempestades, as secas, as migrações em massa que nenhuma
fronteira deterá —, a população humana do planeta percebe finalmente ser parte
de um todo. Não por virtude, que é escassa, mas por necessidade, que é
implacável. As canalhices nacionalistas são um luxo que o Antropoceno não pode
financiar. A união de esforços não é utopia sentimental — é a condição de
sobrevivência de uma espécie suficientemente inteligente para construir bombas
atómicas e insuficientemente sábia para não as ter construído.
A
história não escolhe por nós. Mas desta vez a fatura do adiamento virá mais
depressa do que alguma vez veio. O clima não negocia, não aceita moções de
estratégia e não aguarda pelos resultados das próximas sondagens.



















