(Vigésimo texto de uma série de
retratos à maneira de Woody Allen, em que se mostra a inconsequência de um
visionário)
José
Sócrates teve uma Visão. A maiúscula é dele, e impõe-se, porque nada no seu
universo é minúsculo — nem os projetos, nem as certezas, nem a ideia que faz de
si mesmo.
Enquanto
os primeiros-ministros da sua geração administravam o presente com a ambição de
um guarda-livros, José olhava para o horizonte e via coisas: barragens, painéis
solares, laboratórios, um país inteiro reconfigurado à imagem do futuro que parecia
enxergar.
E o mais
irritante, para os inimigos, é que muita dessa Visão se concretizou. As
renováveis, que hoje são ortodoxia, foram heresia sua quando ninguém acreditava
que o vento pagasse contas. A ciência, com o saudoso Mariano Gago, teve o único
período em que os investigadores portugueses não precisaram de emigrar para
existir. As desigualdades, medidas pelo tal coeficiente de nome grego que os
comentadores fingem conhecer, diminuíram. José governou como quem pinta um
mural, com o pincel largo e o desprezo pelos pormenores contabilísticos que os
pintores de números tanto veneram.
Aqui
está, porém, o busílis do homem: José nunca teve dúvidas. Nenhuma. A dúvida,
esse tempero que humaniza os mortais, foi-lhe poupada à nascença. Onde os
outros hesitam, José decide; onde os outros ponderam, José já executou e passou
ao projeto seguinte. Esta ausência total de hesitação deu-lhe a força para
transformar o país e a fragilidade para não conceber que alguém, algures,
pudesse legitimamente discordar. Quem discordava não estava a discordar —
estava a invejar. É uma epistemologia cómoda: dispensa o contraditório e
explica o universo inteiro a partir de uma só emoção alheia.
E, de
facto, inveja não faltou. José tinha o dom de a provocar em doses industriais.
Vestia bem, falava melhor, tinha aquela pose de quem entra numa sala e a
organiza à sua volta sem pedir licença. Para a pequena-burguesia portuguesa —
essa classe que nunca perdoa a quem se atreve a brilhar acima da média
autorizada —, José era uma afronta ambulante. O rapaz de origens modestas que
se pôs a dar lições de futuro aos que se julgavam donos do presente. Havia quem
o odiasse pela obra; a maioria odiava-o pela postura.
O
problema da Visão é que ela raramente olha para baixo, para o chão onde os pés
se sujam. José, absorto no horizonte, parece nunca ter reparado inteiramente no
que se passava à altura dos joelhos — nas companhias, nos negócios, nas
fortunas de proveniência discutida que a Justiça haveria de passar quinze anos
a tentar decifrar.
Ele dirá
que é perseguição, e tem argumentos; os tribunais dirão que é outra coisa, e o
processo segue. No meio fica um país que nunca soube, ao certo, se estava
perante um estadista incompreendido ou um ilusionista de primeira água — e a
hipótese mais perturbadora, tipicamente socrática, é a de que pudesse ser as
duas coisas ao mesmo tempo, sem contradição que o incomodasse.
Porque
José é, acima de tudo, um homem de fé. Fé numa só divindade, é certo, mas com
uma devoção que comoveria qualquer teólogo: ele próprio. Reza-se no espelho,
comunga da própria certeza, e sai de cada provação mais convencido da própria
inocência do que entrara. É uma religião de um só crente e um só deus,
felizmente coincidentes, o que elimina cismas e simplifica a liturgia.
Dizem
que, nas longas tardes de agora, José escreve, dá entrevistas e planeia o
regresso ao debate público com a serenidade de quem sabe que a História — outra
maiúscula sua — acabará por lhe dar razão. Talvez tenha razão nisso também.
Foi, afinal, o último a ter uma Visão num país que se habituou a governar de
olhos postos nos pés. Resta a dúvida, que só a ele não assalta: se o problema
de ver tão longe não terá sido, precisamente, deixar de ver o que estava mesmo
à frente do nariz.



















