A
sondagem do ISCTE publicada no Expresso de sábado veio confirmar o estado de
desgraça em que o governo de Montenegro está a cair. Não é flutuação
estatística, não é momento conjuntural difícil, não é azar político, antes a
constatação objetiva deste governo não ter competência nem estratégia para
responder aos problemas mais candentes para os eleitores: a saúde, a habitação,
a qualidade de vida.
Os
números são implacáveis. A popularidade de Montenegro desmorona-se. A confiança
no Governo evapora-se. E isto acontece não por acidente, mas por incapacidade
demonstrada repetidamente. As tempestades Kristin e seguintes expuseram a
incompetência na gestão de crises. O pacote laboral revelou o desprezo pelos
trabalhadores. O PTRR demonstrou que há muita propaganda, mas pouca execução. E
na saúde, na habitação, na contenção da inflação — nos problemas que realmente
importam às pessoas — há apenas discursos vazios e promessas incumpridas.
Montenegro
governa como sempre viveu politicamente: à base de cartadas táticas, de golpes
mediáticos, de nomeações salvadoras que afinal nada salvam. Mas tática sem
estratégia é apenas improviso desesperado. E o eleitorado começa a perceber
isso. A nomeação de Luís Neves foi a última cartada — e já não resultou. As
pessoas perceberam que mudar ministros não resolve problemas quando o problema
é a ausência total de visão e competência no topo.
Enquanto
Montenegro afunda, o Chega continua a somar escândalos que o confirmam como o
verdadeiro covil da malfeitores. Depois da namorada do líder do partido na
Câmara Municipal de Lisboa andar a alugar tugúrios a emigrantes — explorando-lhes
a vulnerabilidade que Ventura quer ainda mais agudizar — é agora o caso do
candidato autárquico apanhado em flagrante a abusar da própria filha.
Que
o Chega ainda não seja ilegalizado enquanto associação de delinquentes é
mistério que não carece de maiores evidências. As provas acumulam-se: ligações
a grupos neonazis, membros detidos por violência xenófoba, corrupção,
exploração de imigrantes, abuso de menores. Não são casos isolados — é um
padrão sistemático. O Chega atrai criminosos porque é essencialmente uma
organização mafiosa disfarçada de partido político.
Mas
a ilegalização não virá. Porque exigiria coragem política que este regime não
tem. Porque beneficia Montenegro ter o Chega como espantalho — enquanto as
atenções se focam no fascismo explícito de Ventura, a incompetência devastadora
de Montenegro passa mais despercebida. E porque, no fundo, demasiados na
direita ainda acham que podem instrumentalizar o Chega para os seus próprios
fins. Não podem. Mas só perceberão isso quando for tarde demais.
No
PS, para minha grata expectativa, começam a emergir vozes dissonantes
desmentindo o suposto unanimismo em torno de José Luís Carneiro. E ainda bem.
Não tendo uma direção que corresponda ao que deve ser um verdadeiro Partido
Socialista, importa vê-lo a ajustar-se a algo mais conforme com o exemplo vindo
dos vizinhos ibéricos.
Em
Espanha, o PSOE de Sánchez governa com clareza ideológica, defendendo
trabalhadores, investindo em serviços públicos, confrontando a direita e a
extrema-direita sem hesitações. Não é perfeito, tem contradições, mas é
inequivocamente um partido de esquerda que não tem medo de se assumir como tal.
Em Portugal, o PS sob Carneiro parece ainda preso à lógica do consenso
centrista, da moderação excessiva, do medo de desagradar ao establishment
económico.
As
vozes dissonantes que começam a emergir podem ser o sinal de que uma parte do
partido percebe que este caminho não leva a lado nenhum. Que o país precisa de
uma alternativa clara à direita incompetente de Montenegro e ao fascismo do
Chega. Que essa alternativa não pode ser apenas "gestão competente do
mesmo modelo" mas tem de ser projeto alternativo de sociedade. Que
socialismo não é palavrão nem nostálgica relíquia do século XX, mas resposta
necessária e atual aos problemas concretos das pessoas.
Carneiro
pode ser o timoneiro de transição que mantenha o barco à tona enquanto essa
alternativa se estrutura. Mas não pode ser mais do que isso. E se as vozes
dissonantes ganharem força, e conseguirem disputar a direção do partido, se
conseguirem puxá-lo para um programa verdadeiramente socialista — então talvez
o PS volte a ser relevante como força de transformação social e não apenas como
alternativa técnica à incompetência da AD.
E
quando, perante este panorama, se proclama ainda faltarem mais de três anos
para nos livrarmos de Montenegro, eu não seria tão taxativo. Nem o caso Spinumviva
está encerrado — continua por esclarecer, a cheirar mal, a ser potencial bomba
política que pode explodir a qualquer momento. Nem se anteveem grãos de asa
para implementar as soluções que a inflação galopante criada pelas tontices de
Trump criará.
Porque
Trump, na guerra errática contra o Irão, no fecho do Estreito de Ormuz, na política
económica caótica, está a criar as condições para um choque inflacionista
global que fará parecer pálida a inflação pós-pandemia. Quando os preços da
energia dispararem, quando o custo de vida se tornar insustentável para a
maioria das famílias, quando a recessão bater à porta — Montenegro não terá
respostas. Não tem competência técnica para gerir crise económica dessa
magnitude. Não tem legitimidade política para pedir sacrifícios. Não tem
estratégia para proteger os mais vulneráveis.
E
quando isso acontecer o governo cairá. Por moção de censura, por implosão
interna da AD, ou simplesmente porque se torna insustentável continuar a fingir
que governa quando só está a afundar o país.
Três
anos parece muito tempo. Mas em política, três anos pode ser uma eternidade ou
pode ser três meses quando as circunstâncias mudam abruptamente. E as
circunstâncias estão a mudar. A sondagem do ISCTE é apenas o primeiro sinal
visível de uma tendência que se acelera. Montenegro em queda livre, o Chega
exposto como organização criminosa, o PS à procura de um rumo que o volte a
tornar relevante.
O
que acontecerá a seguir depende de muita coisa. Mas uma certeza já existe: este
governo não durará os três anos que alguns lhe profetizam. Ou porque cai
politicamente antes disso, ou porque quando chegar o momento das próximas
eleições já estará tão desacreditado que a derrota será monumental.
E talvez essa seja a única boa notícia num panorama político tão desolador: a incompetência também tem limites. E Montenegro está rapidamente a aproximar-se deles.






