terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Trump e o caminho para a decadência imperial

 

Trump deve imaginar-se imperador. Já há quem fale em neorrealeza. As declarações, os gestos, a retórica — tudo aponta para alguém que se vê não como presidente temporário de uma república, mas como monarca absoluto de um império sem limites. E a História está cheia de exemplos do que acontece quando essa ilusão imperial se instala na mente de quem detém poder absoluto.

Trump é, como escreve Amílcar Correia, "o somatório perfeito de autoritarismo e competição". Substituiu deliberadamente a multilateralidade pela multipolaridade, trocou a cooperação pela competição pura. E nesta lógica, como bem nota Correia, "a transação oportuna vale mais do que a defesa do direito internacional". Não há regras, não há princípios, não há limites — apenas oportunidades de negócio e demonstrações de força.

Mas esta mesma lógica, que Trump julga ser prova da sua genialidade, pode ser o caminho para a decadência irreversível do império americano. A História oferece exemplos abundantes de impérios que entraram em colapso precisamente na fase em que eram liderados por figuras mentalmente transtornadas, convencidas da sua omnipotência, incapazes de perceber que estavam a destruir aquilo que pretendiam engrandecer.

Nero tocava lira enquanto Roma ardia. Não literalmente, talvez, mas a metáfora persiste porque captura uma verdade: o imperador que perde contacto com a realidade, que se rodeia de aduladores, que confunde capricho pessoal com interesse imperial, que transforma governação em espetáculo grotesco. Nero achava-se artista, poeta, visionário. O Senado achava-o louco. A História deu razão ao Senado. O império sobreviveu a Nero, mas nunca recuperou inteiramente o prestígio e a estabilidade que ele destruiu.

Hitler, nos seus últimos meses no bunker de Berlim, movia exércitos que já não existiam em mapas que já não correspondiam à realidade. Dava ordens a divisões fantasma, planeava contra-ataques impossíveis, recusava-se a aceitar que o Reich de Mil Anos estava a desmoronar-se à sua volta. A combinação de megalomania, paranoia e desligamento total da realidade levou-o a destruir deliberadamente a própria Alemanha numa espécie de suicídio nacional. Se ele não podia vencer, então ninguém merecia sobreviver.

Napoleão, após o desastre da Rússia, continuou a comportar-se como se fosse invencível. Recusou acordos de paz razoáveis porque achava que estava destinado a dominar a Europa. Mobilizou exércitos cada vez maiores para campanhas cada vez mais insensatas. E quando finalmente caiu, a França tinha perdido a hegemonia continental que ele próprio tinha construído. O império que Napoleão criou colapsou precisamente porque ele não soube quando parar, quando consolidar, quando aceitar limites.

A nomenklatura senil da União Soviética nos anos 1980 oferece um exemplo diferente mas igualmente instrutivo. Não era loucura individual, mas loucura sistémica — uma classe dirigente tão desligada da realidade, tão presa à retórica ideológica, tão incapaz de reformar, que continuou a insistir que o sistema funcionava mesmo quando todos os indicadores mostravam o contrário. Quando finalmente caiu, caiu de repente, apanhando toda a gente de surpresa, inclusive os próprios dirigentes soviéticos.

Trump apresenta elementos de todos estes padrões. Como Nero, transforma a governação em espetáculo pessoal, confunde os interesses do império com o seu ego hipertrofiado. Como Hitler, recusa-se a aceitar limites impostos pela realidade e rodeia-se de aduladores que lhe dizem apenas o que ele quer ouvir. Como Napoleão, não sabe quando parar, quando consolidar, quando perceber que mais expansão significa mais vulnerabilidade. Como a nomenklatura soviética, comanda um sistema que mostra sinais evidentes de disfunção mas insiste que está a tornar a América "grande outra vez".

Os sinais de desconexão com a realidade multiplicam-se. O rapto de Maduro foi apresentado como demonstração de força, mas pode acabar por ser demonstração de fraqueza — a incapacidade de conseguir objetivos estratégicos sem recurso a atos de pirataria internacional que destroem qualquer pretensão de liderança moral. O assédio à Gronelândia seguido de recuo tático em Davos mostra um padrão errático de ameaças seguidas de hesitações. O adiamento do ataque ao Irão revela que mesmo Trump percebe que há limites ao que pode fazer impunemente — mas essa perceção não o impede de continuar a fazer ameaças que depois não pode cumprir, minando sistematicamente a credibilidade americana.

E depois há a política interna: as deportações em massa, os ataques às instituições democráticas, a transformação do ICE numa espécie de polícia política, a retórica cada vez mais explicitamente autoritária. Amílcar Correia nota que a oposição ao "kitsch totalitário" está mobilizada, que os democratas ganham eleições, que protestos corajosos tomam as ruas. Mas isto também é padrão histórico: os impérios em declínio radicalizam-se internamente, tornam-se mais repressivos, mais paranoicos, mais dispostos a usar violência contra os próprios cidadãos.

A questão fundamental, como diz Mario Draghi citado por Correia, não é o colapso da ordem mundial — "a ameaça é o que a pode substituir". E aqui reside o verdadeiro perigo da loucura imperial de Trump: ele está a destruir a ordem internacional que garantiu décadas de relativa estabilidade, mas não está a construir nada no seu lugar. Apenas caos, oportunismo transacional, esferas de influência em competição permanente.

O resultado previsível é uma América que, como a Rússia de Putin hoje, será potência decadente. Ainda terá armas nucleares, ainda terá capacidade militar significativa, ainda poderá causar destruição massiva. Mas já não terá legitimidade, já não será modelo para ninguém, já não liderará através de soft power ou prestígio moral. Será apenas mais uma potência autoritária entre outras, tentando manter pela força aquilo que já não consegue manter pela influência.

Putin construiu essa Rússia — um país com armas de superpotência mas economia de país em desenvolvimento, com retórica imperial mas influência regional declinante, com pretensões globais mas cada vez mais dependente de parceiros menores como a Coreia do Norte e o Irão. É uma potência que inspira medo mas não respeito, que pode destruir mas não construir, que vive de glórias passadas porque já não consegue criar glórias presentes.

Trump está a construir a mesma coisa para os Estados Unidos. A operação na Venezuela pode ter sido militarmente bem-sucedida, mas foi desastre diplomático. A ameaça à Gronelândia pode ter mobilizado a base trumpista, mas alienou aliados europeus. O confronto com a China pode jogar bem internamente, mas está a acelerar a construção de uma ordem multipolar onde os EUA são apenas um pólo entre vários, não o centro indiscutível.

E tal como Nero não percebia que estava a destruir Roma, tal como Hitler não aceitava que estava a arrastar a Alemanha para o abismo, tal como Napoleão se recusava a ver que tinha ultrapassado o ponto de expansão sustentável, tal como a nomenklatura soviética não compreendia que o sistema estava morto — Trump também não parece capaz de perceber que está a transformar a América numa potência decadente.

Muitos temem que Trump esteja num estado de loucura em que tudo lhe parece ser permitido. Esse medo é justificado. Mas talvez o medo maior devesse ser outro: não que Trump seja louco no sentido clínico, mas que seja perfeitamente racional dentro da sua própria lógica — uma lógica que confunde força com poder, que substitui estratégia por táctica, que troca liderança por domínio, que destrói ordem sem criar alternativa.

Porque quando um império colapsa liderado por um louco, ainda há esperança de que a loucura seja temporária e reversível. Mas quando colapsa liderado por alguém que age racionalmente segundo premissas fundamentalmente erradas, então o colapso é estrutural, não conjuntural. Não é acidente que pode ser corrigido — é escolha que se torna destino.

A América prometida a ser "grande outra vez" pode acabar tão decadente quanto a Rússia de Putin. Não porque Trump seja louco, mas porque a sua racionalidade imperial — essa mistura tóxica de megalomania, oportunismo transacional e desprezo absoluto pelas regras — é exatamente a racionalidade que historicamente conduz impérios ao colapso.

E quando esse colapso vier, como veio para Roma depois de Nero, para a Alemanha depois de Hitler, para a França depois de Napoleão, para a União Soviética depois da nomenklatura senil, a pergunta não será "como não vimos isto a chegar?" A pergunta será: "como é que deixámos que acontecesse, quando todos os precedentes históricos nos avisavam exatamente para onde este caminho conduzia?"

A resposta, provavelmente, será a mesma de sempre: porque enquanto o imperador estava nu, toda a gente fingia que ele estava vestido. Até ao dia em que já ninguém conseguia fingir mais.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

A tempestade que desnudou os politiqueiros

 

A tempestade Kristin deixou um rasto de destruição que mede-se em casas inundadas, estradas destruídas, vidas arruinadas. Mas deixou também outro tipo de destroços: a evidência crua de quem são os políticos que nos governam e pretendem governar. Quando a catástrofe obriga à resposta imediata, quando não há tempo para preparar discursos nem afinar estratégias, revela-se o carácter. E o que Kristin revelou não é bonito.

Comecemos por Marcelo Rebelo de Sousa, esse mestre da dualidade que ao longo de dez anos tem praticado dois pesos e duas medidas com a destreza de um prestidigitador. Quando António Costa era primeiro-ministro, cada inundação, cada incêndio, cada catástrofe natural servia de pretexto para Marcelo ir ao terreno numa postura de crítica enfática ao Governo. Visitava as zonas afetadas com ar grave, ouvia as queixas das vítimas com expressão consternada, e depois deixava cair declarações que, sem nunca nomearem Costa diretamente, apontavam inequivocamente para a suposta ineficácia governamental.

Agora, com Luís Montenegro em São Bento, a tempestade Kristin mereceu de Marcelo uma indulgência comovente. Nada de críticas veladas, nada de visitas ostensivas às zonas destruídas para contrastar com a (in)ação governamental, nada da pressão pública que tantas vezes exerceu sobre executivos de esquerda. Apenas solidariedade institucional, compreensão pelas dificuldades, reconhecimento dos esforços. É a mesma tempestade, são os mesmos destroços, são as mesmas vítimas — mas o primeiro-ministro é diferente, logo a postura presidencial também é.

Já vai sendo tempo de consensualizar uma tese: Marcelo Rebelo de Sousa concorreu a Belém em 2016 porque as esquerdas estavam com uma força notável após a "geringonça" e ele tudo deveria fazer para infletir a relação de forças a nível político. No que, infelizmente para nós, foi bem-sucedido. Durante dez anos, Marcelo usou a presidência não como magistratura de influência equilibrada, mas como contrapeso sistemático às maiorias de esquerda. E agora, perante um Governo de direita que se revela tão ou mais incompetente na gestão de crises do que qualquer outro, Marcelo transforma-se em protetor paternal.

Esta duplicidade não é falha de carácter — é estratégia política. E deveria ser nomeada como tal, em vez de continuarmos a fingir que Marcelo é o presidente consensual e acima das fações que ele próprio se esforça por parecer.

Passemos a André Ventura, que transformou a tragédia de milhares de pessoas numa oportunidade de campanha eleitoral tão grotesca que até o presidente da Câmara de Leiria, Gonçalo Lopes, sentiu necessidade de o criticar publicamente. E Lopes tem razão: é indecoroso o aproveitamento da destruição causada pela Kristin para fazer propaganda política. Ventura percorreu zonas afetadas não para ajudar, não para ouvir, mas para ser filmado. Fez declarações incendiárias sobre a incompetência governamental — ele, que nunca governou nada, que nunca geriu nada, que nunca resolveu problema algum.

O espantoso não é que Ventura seja um oportunista — isso já todos sabíamos. O espantoso é que os seus apoiantes, normalmente tão orgulhosos da sua "chico-espertice", da sua capacidade de "não se deixarem enganar pelos políticos", continuem a não ver a vigarice monumental em que embarcaram. Ventura não tem propostas para prevenir inundações, não tem planos para melhorar a proteção civil, não tem soluções técnicas para nada. Tem apenas a capacidade de aparecer nas tragédias alheias com ar indignado e câmaras atrás.

É o populismo na sua forma mais pura e obscena: transformar o sofrimento real de pessoas reais em combustível para a máquina de propaganda. E os que votam nele, convencidos de que finalmente encontraram alguém que "diz as verdades", não percebem que estão a ser manipulados por alguém que usa essas "verdades" apenas como instrumento de ascensão pessoal.

Mas se Ventura deu um espetáculo lamentável, o ministro da Presidência, António Leitão Amaro, conseguiu a proeza de fazer ainda pior. O vídeo que publicou nas redes sociais — e que entretanto foi apressadamente retirado — revelou uma combinação de insensibilidade e estupidez que até para quem já lhe conhecia as limitações intelectuais causou espanto.

Já tínhamos identificado em Leitão Amaro uma inteligência mais do que deficitária, inversamente proporcional à ilusão que ele próprio alimenta sobre os efeitos da sua bravata oportunista. Mas ver essa evidência exposta de forma tão clara, tão irrefutável, tão documentada em vídeo — convenhamos que não o julgávamos tão mentecapto. Publicar conteúdo promocional do Governo enquanto milhares de pessoas estavam sem casa, sem água, sem eletricidade, é de uma falta de tato político que só pode ser explicada por incompetência ou por desprezo absoluto pela perceção pública. Provavelmente ambos.

Leitão Amaro é o exemplo perfeito do político que confunde habilidade tática com capacidade estratégica, que pensa que pequenos golpes de comunicação substituem governação efetiva, que acredita compensar indefinidamente a ausência de substância. Não pode. E Kristin provou-o de forma brutal.

Pelo contrário, o comportamento de António José Seguro durante estes dias tem sido exemplar. Não fez do sofrimento alheio palanque eleitoral, não instrumentalizou a tragédia para atacar o Governo, não aproveitou a catástrofe para se promover. Limitou-se a fazer o que um futuro Presidente deve fazer: manifestar solidariedade genuína, manter a dignidade institucional, separar a campanha eleitoral da resposta à emergência.

É verdade que não me sobram ilusões quanto ao que será a postura de Seguro em Belém. Não replicará para o lado inverso da balança a bem-sucedida estratégia marcelista de usar a presidência como contrapeso político permanente. Seguro será, previsivelmente, o presidente conciliador, que evita conflitos com o poder executivo mesmo quando seriam necessários. Isso é uma limitação, não uma virtude.

Mas nestes dias de tempestade, Seguro mostrou a Ventura algo que este, nem que se esforçasse por mil anos, seria capaz de aprender e replicar: sentido ético. A capacidade de perceber que há momentos em que a decência humana deve sobrepor-se ao cálculo político. Que há limites que não se ultrapassam, mesmo quando poderia obter vantagens eleitorais. Que a dignidade institucional não é apenas uma pose, mas um dever.

Ventura não tem este sentido porque não tem ética — tem apenas ambição. E a diferença entre os dois ficou ainda melhor espelhada durante a passagem da Kristin. Um candidato presidencial comportou-se como estadista, ainda que moderado em excesso. O outro comportou-se como abutre eleitoral, à espera que a tragédia lhe trouxesse mais votos.

A tempestade passou. Os destroços materiais levarão meses, talvez anos, a ser reparados. Mas os destroços políticos — a evidência de quem é Marcelo, de quem é Ventura, de quem é Leitão Amaro, de quem é Seguro — esses ficam registados. E na segunda volta das presidenciais, quando os eleitores tiverem de escolher entre um homem que demonstrou ter limites éticos e outro que demonstrou não ter limite algum, talvez se lembrem de como cada um se comportou quando a água destruía casas e vidas.

Ou talvez não. Talvez a memória seja curta, talvez a indignação passe, talvez o oportunismo continue a vencer. Mas pelo menos ficará registado, para quem quiser ver, que quando a tempestade desnudou os políticos, alguns revelaram-se exatamente como sempre foram. E isso, por si só, já devia bastar para uma escolha informada.

terça-feira, 27 de janeiro de 2026

Este é o tempo dos cobardolas: 4 - o Tempo da Resistência ao Bully

 

Donald Trump apresenta-se como a encarnação da força sem limites. Rapta chefes de Estado, ameaça invasões, desafia o direito internacional, proclama o regresso da "diplomacia da canhoneira". Toda esta retórica assenta numa premissa: Trump não recua, não hesita, não tem medo.

Os factos contradizem a retórica. Em Davos, recuou — ainda que de forma malcriada — quando lhe explicaram as consequências económicas de uma eventual resposta europeia ao assédio à Gronelândia. Adiou sine die o ataque ao Irão quando lhe previram dificuldades militares incomparavelmente maiores do que as do rapto de Maduro.

O padrão é claro: Trump ataca quando o risco de retaliação é mínimo, recua quando o custo potencial é alto. Bombardeia a Venezuela porque sabe que não haverá resposta militar significativa. Ameaça a Gronelândia mas recua perante a possibilidade de resposta económica europeia. Planeia atacar o Irão mas adia quando percebe que não será como raptar Maduro numa operação relâmpago.

É a mesma lógica dos "valentes" de Aveiras: violência exercida apenas quando a superioridade é esmagadora, prudência quando existe possibilidade de resistência efetiva. A diferença é de escala, não de natureza. Trinta neonazis contra um emigrante. A maior potência militar do mundo contra um país empobrecido por anos de sanções. Em ambos os casos, a "coragem" depende da certeza da impunidade.

Esta constatação tem consequências políticas diretas. Os cobardolas — desde os fascistas de rua até aos líderes imperiais — só precisam de resistência para recuar. Não é necessária força equivalente, não é preciso vencer militarmente. Basta demonstrar capacidade e vontade de impor custos.

Montenegro recuará quando perceber que a equidistância perante o fascismo tem custos eleitorais superiores aos benefícios táticos. Rangel mudará de discurso quando a subserviência deixar de ser politicamente sustentável. Macron endurecerá quando a capitulação começar a ter consequências internas graves. Trump recua sempre que encontra resistência credível.

Este é o tempo dos cobardolas porque é o tempo em que a cobardia se tornou estratégia política viável — desde as ruas até aos gabinetes governamentais, desde os grupos de WhatsApp até aos salões de Davos. Mas pode ser também o tempo da sua derrota, se houver quem se recuse a capitular, quem demonstre que a resistência é possível, quem prove que a força dos cobardes é ilusória.

Os 37 detidos do grupo 1143 não foram apanhados porque a polícia se tornou subitamente mais eficaz mas porque houve vontade política para agir sobre provas que existiam há anos. A mudança não foi técnica — foi política. E o que se aplica ao grupo 1143 aplica-se a todas as outras manifestações de cobardia organizada: só precisam de ser confrontadas para desmoronar.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

Este é o tempo dos cobardolas: 3 - O Cobarde de Óculos Escuros

 

Emmanuel Macron aperfeiçoou a técnica da cobardia performativa. Em Paris, faz discursos sobre autonomia estratégica europeia e resistência ao unilateralismo americano. Apresenta-se como o líder que ousa desafiar Washington, que defende a soberania europeia, que não se curva perante Trump.

Depois envia mensagens privadas conciliatórias, faz gestos diplomáticos de apaziguamento, assegura que as declarações públicas são apenas retórica para consumo interno. Trump, que reconhece imediatamente este jogo, responde com desdém público. Macron engole a humilhação e continua.

Esta duplicidade não é uma falha de carácter pessoal — é a expressão política da condição europeia contemporânea. A Europa ainda precisa de fingir dignidade para a sua própria população, mas já não tem poder suficiente para transformar essa dignidade em atos. Resulta numa política externa esquizofrénica: palavras duras, atos suaves. Retórica de resistência, prática de submissão.

Os óculos escuros que Macron usou recentemente nas suas aparições públicas — essa estética emprestada do cinema de ação americano — simbolizam perfeitamente a farsa. Um líder europeu que precisa de parecer-se com Tom Cruise para projetar força já admitiu implicitamente que não a tem. A pose substitui a substância. A imagem compensa a impotência.

Macron não é uma exceção europeia — é a norma. Representa a classe política continental que ainda usa a linguagem da soberania mas já interiorizou a vassalagem. Que ainda faz discursos sobre valores europeus mas já aceitou que esses valores cedem perante os interesses americanos. Que ainda se apresenta eleitoralmente como independente mas governa como dependente.

domingo, 25 de janeiro de 2026

Este é o tempo dos cobardolas 2 - A Cobardia no Poder

 

A cobardia não se esgota nas milícias de rua. Manifesta-se também, com consequências potencialmente mais graves, no topo do poder político.

Luís Montenegro decidiu não tomar posição sobre a segunda volta das presidenciais. Nem apoia Seguro, nem condena Ventura. A justificação oficial é a neutralidade institucional. A realidade é o cálculo político: Montenegro não quer alienar os eleitores do PSD que estão disponíveis para votar em Ventura, mas também não quer assumir publicamente essa cedência ao fascismo. O resultado é a equidistância — essa forma particularmente insidiosa de cumplicidade que se disfarça de prudência.

Esta não-decisão tem efeitos concretos. Normaliza Ventura como opção democrática legítima. Dá cobertura moral aos eleitores da AD que hesitam. Aprofunda o processo de arrastamento da direita moderada para o radicalismo que Pedro Adão e Silva identifica corretamente: em poucos anos, o eleitorado que outrora rejeitava liminarmente a extrema-direita passou a considerá-la uma opção possível.

Montenegro julga-se hábil. Pensa que pode gerir esta ambiguidade sem custos, que pode beneficiar eleitoralmente da aproximação ao Chega sem se comprometer publicamente com ele. É a mesma ilusão que levou tantos políticos europeus ao desastre: a ideia de que se pode instrumentalizar o fascismo para fins próprios. A História documenta exaustivamente o resultado dessa ilusão. Montenegro terá o seu momento de aprendizagem.

Paulo Rangel representa a mesma lógica aplicada à política externa. Quando Trump rapta Maduro e anuncia a apropriação do petróleo venezuelano, seis países — Brasil, Chile, Colômbia, México, Uruguai e Espanha — emitem um comunicado conjunto de condenação. Portugal, que partilha língua e história colonial com vários desses países, que experimentou décadas de ditadura, fica de fora.

Rangel não protestou, não condenou, não se juntou aos que manifestaram indignação. Escolheu o silêncio atlantista, a submissão automática a Washington, a genuflexão preventiva perante o poder imperial. É a mesma lógica de Montenegro aplicada a outra escala: não tomar posição clara porque isso poderia ter custos, fingir que a neutralidade é uma virtude quando é apenas cobardia calculada.

A diferença entre prudência diplomática e capitulação moral mede-se precisamente aqui: na capacidade de reconhecer quando uma violação do direito internacional é tão flagrante que o silêncio se torna cumplicidade. Rangel falhou esse teste. E ao falhar, transformou Portugal num país vassalo que abdica de voz própria para não desagradar ao império.

sábado, 24 de janeiro de 2026

Este é o tempo dos cobardolas 1 - os valentões de Aveiras

 

Este é o tempo dos cobardolas. Dos que só são valentes em grupo, dos que só ameaçam quando têm poder, dos que recuam assim que encontram resistência. Vivemos rodeados de covardes travestidos de homens fortes, e está na altura de os nomear pelo que são.

Comecemos pelos "valentões" do grupo 1143, esses orgulhosos membros de uma milícia neonazi que preparavam-se para repetir a façanha de Aveiras. Recordemos os factos: em outubro entre vinte e trinta "orgulhosos lusitanos" juntaram-se para insultar e agredir um único cidadão emigrante. Um contra vinte. Ou trinta. Eis a medida exata da sua coragem. Ou a dos que filmaram as "proezas" na esquadra do Rato para as partilhar em grupos de WhatsApp com cerca de 70 pessoas, onde se congratulavam mutuamente.

Organizam-se em células, hierarquias, estruturas — toda essa parafernália paramilitar que caracteriza os movimentos fascistas desde sempre. A violência é sempre exercida em superioridade numérica esmagadora, contra alvos isolados e vulneráveis. É o padrão que se repete: na estação de serviço de Aveiras, nas manifestações do 25 de Abril, em todas as ocasiões documentadas pela investigação da Polícia Judiciária.

Mário Machado, o líder desta organização, comanda-os a partir da cadeia. Telefona, dá ordens, instiga crimes — tudo do conforto de uma cela onde está protegido das consequências diretas da violência que promove. Manda os outros para a rua enquanto se mantém a salvo. Os seguidores obedecem, demasiado limitados para perceberem que são fantoches manipulados por quem nem sequer tem a coragem de sujar as próprias mãos.

Entre os 37 detidos na operação da Polícia Judiciária — que só peca por tardia — estão um polícia e um militar. Dois homens que vestem fardas do Estado, que juraram defender a lei e os cidadãos, e afinal integram uma organização dedicada a perseguir e agredir os mais vulneráveis. Usam o poder que o Estado lhes deu não para proteger, mas para aterrorizar. E fazem-no sempre na certeza da impunidade, sempre contra quem não pode replicar, sempre escondidos no número.

Trinta anos depois do assassínio de Alcindo Monteiro, alguns dos envolvidos naquele crime continuam ativos na mesma lógica de violência racista. A operação da PJ documenta uma estrutura hierárquica estabelecida, com distribuição de funções, ligações a grupos internacionais, financiamento através de merchandising. Não são casos isolados nem explosões espontâneas de violência — é uma organização criminosa que opera sistematicamente há anos.

Merecem acabar atrás das grades. E não por vingança, mas porque é o único lugar onde esta lógica de violência em grupo contra indivíduos isolados finalmente se inverte.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

A necessidade de votar contra o fascismo

 

Votei a contragosto em António José Seguro na primeira volta. Continuo a considerá-lo um homem de direita quando medido pela matriz histórica do Partido Socialista, esse que um dia acreditou na transformação social e não apenas na gestão competente do capitalismo. Mas na segunda volta votarei nele sem rebuços, sem hesitações, sem o nariz tapado que outros precisam. E fá-lo-ei mesmo "acompanhado" de tanta gente de quem me sinto abismalmente afastado ideologicamente — dos liberais da Iniciativa Liberal aos sociais-democratas de sempre, passando por toda essa fauna política que normalmente combato.

A questão agora em equação não admite sofismas nem finuras teóricas: trata-se de escolher entre democracia e fascismo. Escrevo democracia com minúscula porque a Democracia com maiúscula — essa que transformaria radicalmente quem detém os meios de produção e de expressão do pensamento livre — é outra coisa completamente diferente, um horizonte que permanece distante e talvez inatingível nestas coordenadas históricas. Mas mesmo esta democracia imperfeita, burguesa, limitada, vale infinitamente mais do que o fascismo que André Ventura representa sem disfarces.

Manuel Loff tem razão quando pergunta se não são fascistas. São. Ventura e os seus não precisam de usar camisas negras ou desfilar com tochas para serem reconhecidos pelo que são. A retórica adaptada ao século XXI, os aliados internacionais, a base social, os métodos — tudo remete para o fascismo clássico atualizado para os tempos das redes sociais e da pós-verdade. Quem ainda nega este perigo, ou está cego por conveniência ideológica, ou é cúmplice consciente da catástrofe que se avizinha.

Montenegro, ao optar por não decidir entre Seguro e Ventura, não está apenas a estabelecer uma equivalência moral obscena entre democracia e fascismo. Está a normalizar o inaceitável, a tornar palatável o que deveria repugnar qualquer pessoa minimamente decente. Pedro Adão e Silva acerta ao diagnosticar o processo de arrastamento da direita moderada para o radicalismo. Em poucos anos passámos de um país que se julgava imune ao populismo para um onde a direita tradicional namora abertamente com o fascismo ou, na melhor das hipóteses, se demite de o combater.

O que custa é a primeira vez, diz Adão e Silva. E tem razão. Os eleitores que agora votam em Ventura pela primeira vez podem nunca mais voltar. Cada voto normaliza, cada abstenção facilita, cada equidistância covarde da direita moderada pavimenta o caminho para a barbárie.

Neste contexto, a operação da Polícia Judiciária contra o grupo neonazi liderado por Mário Machado só peca por tardia. Não faltavam provas incriminatórias contra estes indivíduos — sinistras caricaturas do que devem ser os seres humanos — que faziam da violência xenófoba o seu programa político e da intimidação racial a sua prática quotidiana. Durante demasiado tempo deixámo-los agir, organizar-se, recrutar, agredir. E agora descobrimos que entre os 37 detidos estão um polícia e um militar, que há ligações a grupos organizados de claques de futebol, que existe uma estrutura hierárquica estabelecida que opera há anos em plena luz do dia.

Trinta anos depois do assassínio de Alcindo Monteiro, alguns dos envolvidos naquele crime hediondo continuam ativos na mesma lógica de violência racista. Isto não é apenas falha policial — é falha civilizacional. É o resultado de décadas de complacência com o discurso de ódio, de normalização da xenofobia, de tolerância com a intolerância. Quando a extrema-direita passa de marginal a mainstream, quando políticos eleitos legitimam o racismo com eufemismos sobre "segurança" e "identidade nacional", não nos podemos surpreender quando aparecem milícias neonazis a agredir imigrantes nas ruas.

E aqui chegamos ao terceiro elemento desta equação: a luta sindical que a CGTP liderará — pela habitual falta de comparência da UGT — contra o pacote laboral de Montenegro. Esta será outro momento fundamental da luta pela democracia. Porque os "direitos" remanescentes concedidos por esse projeto de lei a quem trabalha só se enquadram nos regimes autocráticos onde os trabalhadores são mercadoria descartável e os sindicatos são domesticados ou abolidos.

Montenegro pode anunciar acordos plurianuais com a UGT e dar a ideia de que a CGTP está isolada. Mas a verdade é que um pacote laboral que precariza ainda mais as relações de trabalho, facilita os despedimentos, reduz direitos conquistados ao longo de décadas, não é apenas uma questão técnica de gestão económica — é um ataque frontal à dignidade de quem trabalha. É a preparação do terreno social para o autoritarismo político.

Porque o fascismo não chega ao poder apenas pelo voto. Decorre da erosão prévia das condições materiais de vida das pessoas, pela destruição das redes de proteção social, pela precarização permanente. E da insegurança económica tão insuportável que as pessoas aceitam qualquer promessa de ordem, mesmo que seja a do chicote.

Por isso a luta contra o pacote laboral não é apenas uma luta sindical — é uma luta antifascista. E por isso votar em Seguro contra Ventura não é apenas escolher o menor de dois males — é escolher a possibilidade de continuar a luta pela Democracia com maiúscula, mesmo dentro dos limites apertados da democracia com minúscula.

Não teço ilusões. Seguro não será o presidente que transforma Portugal num país mais justo. Não desafiará o poder económico, não questionará a NATO, não porá em causa o capitalismo. Mas garantirá — e já não é pouco — a continuação do respeito pelas liberdades constitucionais que permitem continuar a lutar por algo melhor. Ventura, esse, fecharia definitivamente essa possibilidade.

Entre a náusea de votar num candidato de direita e a necessidade de travar o fascismo, não há dúvida possível. A náusea passa. O fascismo, uma vez instalado, demora gerações a ser derrotado. E o preço dessa derrota mede-se em sangue, tortura, campos de concentração, vidas destruídas.

Votarei em Seguro sem entusiasmo mas sem vergonha. Porque às vezes a dignidade política não está em votar naquilo em que se acredita, mas em impedir aquilo que se combate. E o fascismo, mesmo vestido de fato e gravata, mesmo falando a linguagem do século XXI, continua a ser o inimigo absoluto de tudo aquilo em que acredito.