Há temas
que regressam como marés, não porque tragam novidade, mas porque a repetição confere-lhes
uma espécie de fascínio cansado, e talvez seja isso que me acontece com os
filmes e documentários sobre o Titanic, que surgem ciclicamente nos
canais como se o naufrágio precisasse de ser reencenado para continuar vivo na
imaginação coletiva, embora quase nunca acrescentem algo que justifique o tempo
investido a vê‑los.
Foi o que
sucedeu com Titanic, chronique d’un naufrage, quatro horas de
reconstrução minuciosa baseada em cartas e testemunhos dos sobreviventes, aqui
interpretados por atores que emprestam voz ao espanto, ao medo, ao heroísmo de
uns e à cobardia de outros, mas sobretudo ao atordoamento da maioria, que mergulhou
nas profundezas do Atlântico sem compreender como o navio insubmersível se
rendia tão facilmente ao impacto do iceberg.
A
narrativa insiste nos 160 minutos entre o embate e o desaparecimento do casco,
como se esse intervalo contivesse toda a verdade do desastre, a perplexidade
humana, esse instante em que a confiança absoluta na máquina se desfaz e deixa
os passageiros suspensos entre a incredulidade e a urgência de sobreviver,
incapazes de aceitar que o impossível se tornou real.
Talvez
seja por isso que estes documentários continuam a proliferar: não para revelar
o que ainda não sabemos, mas para repetir o que não conseguimos esquecer sobre
a fragilidade das certezas e a rapidez com que a segurança se transforma em
ficção, lembrando que a modernidade, tão orgulhosa da sua engenharia, nunca
deixou de depender da sorte, da atenção, da humildade perante o que não
controla.
Termino
com a sensação de que o Titanic não naufraga apenas no Atlântico, naufraga
também na necessidade de acreditar que o mundo é previsível, e cada nova versão
da história tenta, sem sucesso, recuperar essa confiança perdida.



















