quarta-feira, 14 de outubro de 2026

Nem ingénuos, nem aterrados

 


A ingenuidade é hábito antigo da esquerda dita moderada, e vem sempre embrulhada em boas maneiras. José Luís Carneiro viabiliza mais um Orçamento e promete: se ganhar sem maioria, espera reciprocidade do PSD. Em 2024, Montenegro manteve o tabu sobre o que faria se o PS ganhasse sem maioria. Pedir hoje o favor a quem então o recusou é acreditar na bondade de quem vive de a não ter.

Em França, o ninho socialista já chocou um Macron, que por pouco o reduziu à irrelevância. Agora, dois terços dos votantes na primária escolheram Raphaël Glucksmann, que ainda tem de provar que é presidenciável. Oxalá o presságio falhe, mas quem foi enganado uma vez deve olhar duas para o próximo cuco.

A resposta, porém, não está no susto. As vitórias das extremas-direitas assustam no curto prazo, mas é no médio prazo que se jogam as maiorias sociais, e esse tempo pertence à habitação, à educação, à saúde e ao clima. Em Espanha, a falta de casas, a subida das rendas e os despejos já lançam milhares de pessoas à rua. As direitas não têm resposta para nenhum destes problemas: exploram a raiva, e a raiva, um dia, cansa-se de ser explorada.

Por agora, o espelho da direita mostra o que vale. Luís Neves, o ministro das trapalhadas, vê o secretário-geral que demitiu acusá-lo de pressões ilegítimas para cometer irregularidades, o que ele nega, falando em quebra de confiança. E André Ventura, que censurou Costa por responder por escrito a uma comissão de inquérito, vai testemunhar dessa mesma forma sobre o assalto ao seu gabinete. A PJ ainda não encontrou indícios de invasão e não exclui a encenação. Os impulsos têm consequências.

E o dinheiro não compra tudo. Nova Iorque elegeu Mamdani, apesar das fortunas despejadas pelos bilionários no rival Cuomo. Agora Musk injeta 276 milhões nas intercalares e ajuda a espalhar um boato falso sobre Talarico, desmentido em poucas horas. Cada fortuna a comprar marionetas ensina que o eleitorado nem sempre se deixe manipular por quem gosta de ser comprado.

O tempo não corre a favor de quem vive de explorar a raiva. Corre a favor de quem tiver, quando ela passar, respostas à mão.

terça-feira, 13 de outubro de 2026

A casamentos não se vai sem convite

 


Diz o povo, que raramente erra nestas matérias, que a casamentos e batizados não se vai sem ser convidado. Rita Matias, deputada e líder da Juventude Chega, quis pôr a sabedoria popular à prova, e a Associação Académica de Coimbra serviu de igreja.

Comece-se pelo protocolo. Desde fevereiro que a Assembleia Magna, a casa dos associados, vedou ao Chega a entrada no edifício. Ainda assim, a RUC convidou o partido para o debate das juventudes, com Livre, JS, JSD e IL, só que por via remota. O Chega recusou, por achar que o formato não garantia igualdade. Convite feito, convite declinado: a convidada avisou que não ia.

Na segunda-feira, às 9h30, foi. A deputada Rita Matias, a colega Madalena Cordeiro e dezassete jovens do partido entraram no estúdio, pegaram num microfone, e a emissão em direto parou. Disse depois a deputada que só queria “contribuir para o debate”, expressão admirável de quem chega ao banquete sem convite, senta-se à cabeceira e oferece-se para fazer o brinde. Saíram quando chegaram três agentes da PSP, e a Académica acrescenta que ainda visitaram os gabinetes da direção. Resta saber se os noivos já tinham feito a lista de presentes.

O gosto vem de longe. Em março, na Faculdade de Letras de Lisboa, o diretor não a quis receber, e a deputada forçou o encontro mostrando à PSP o cartão de deputado, esse livre-trânsito que serve para o Parlamento e nunca serviu de convite a casamentos alheios. A Comissão de Transparência da Assembleia concluiu que houve utilização abusiva do cartão e recomendou-lhe que se retratasse junto da faculdade. A boa educação, ao que parece, também se lê no regimento.

A queixa fica à vista: dizem-se “canceláveis” e cancelados, mas ninguém cancelou quem nunca bateu à porta. Para entrar, bastava tocar à campainha e esperar que lhe abrissem, regra elementar da boa vizinhança, que nenhum cartão de livre-trânsito dispensa.

A Académica, essa, tem mais com que se ocupar: as propinas que o Governo quer descongelar e um ensino superior que se quer universal, gratuito e de qualidade. Convite, esse, ninguém lhe passou.

O regresso do morto-vivo

 


Num domingo à noite, sob velas televisivas, Pedro Passos Coelho ergueu-se da cova para o castelo de Maria João Avillez. A anfitriã, noiva de Drácula na hospitalidade com que recebe quem regressa debaixo da terra, serviu o convidado com o desvelo de sempre: ninguém sai magoado de um castelo assim.

Em fevereiro, garantira ao ECO que não tinha desforras para tirar nem andava à procura de nada. Em outubro, anuncia que regressa se o PSD for malsucedido. Resume-se: quem não procura nada confessa, de dentes à mostra, que reza pelo insucesso do próprio partido, esse alheio de que se diz de bem com a vida.

O programa em que se declarou “executivo” mereceu resposta de Mário Centeno, com a graça seca de quem sabe contas: há mais de dez anos que não executa nada. Poderia, sugeriu, ter começado por uma tese de doutoramento. Faltou executar a tese, sobrou a ementa de coveiro.

A entrevista deu ainda a medida do apetite. Passos admite que Ventura pode derrotar o PSD e defende um acordo de regime com o Chega e a IL, enquanto coordena um estudo de reformas para entregar ao Governo e ao Presidente. Montenegro, entre amuado e aflito, lembrou que o partido não deve andar acorrentado ao que está à sua direita. A ADEGA, de Daniel Oliveira, já só lhe faltava um sommelier.

Há quem o compare a Franz von Papen, o conservador que julgava domesticar os radicais, como lembrou Miguel Prata Roque. É exagero: Papen, ao menos, chegou a chanceler. Passos, se tudo correr como sonha, poderá aspirar a ministro das Finanças de Ventura, que não é mau para quem se recusava a ser coveiro de si próprio.

O sebastianismo precisa de nevoeiro, e outubro tem-no, mas os mortos-vivos temem a luz do dia. À luz do dia há quem se lembre dos anos da troika: os salários cortados, as pensões cortadas, os filhos emigrados. O alho e o crucifixo são para os filmes. Para esta cripta, basta a memória.

domingo, 11 de outubro de 2026

Uma Setúbal vazia dentro de Lisboa

 


Álvaro Santos Pereira, o antigo ministro dos pastéis de nata, voltou aos holofotes. Em 2012, perguntava por que razão não havia um franchising de pastéis para combater o défice e a dívida externa. Agora, governador do Banco de Portugal, avisa que faltam trezentas mil casas, o equivalente a uma Lisboa inteira, e que o país não encara o problema com a “urgência necessária”, nem no investimento público nem no privado. Desta vez, em abono da verdade, acerta no diagnóstico.

Acerta também, sem querer, na acusação. Portugal tem os mais baixos indicadores de investimento em habitação social de toda a OCDE, diz o governador, que classifica a habitação como o principal risco interno da economia, sobretudo social. Um Governo que enfrenta tal risco com a pressa de quem espera o comboio ouve e arruma o aviso na gaveta.

O governador receita construir mais, e ninguém o contradirá, mas construir leva anos e as famílias não esperam. Há alternativa à mão. Os Censos de 2021 contaram quase quarenta e oito mil casas vagas no concelho de Lisboa, cerca de quinze por cento do parque, e mais de cento e cinquenta mil na área metropolitana. Mais de metade não estava à venda nem para arrendar.

Parte, bem entendido, é herança por partilhar ou prédio à espera de obra. Parte é opção de quem prefere o imóvel fechado à casa habitada, porque comprou como quem compra um ativo e não como quem acolhe uma família. Só em Lisboa, as vagas alojariam, em média, mais de cem mil pessoas, quase uma Setúbal.

Pô-las no mercado exigiria taxar o abandono, obrigar a arrendar, premiar quem ocupa e castigar quem especula. Contraria os interesses que sustentam este Governo, e que dele esperam a garantia de continuarem a enriquecer na especulação imobiliária. Por isso a conversa é toda sobre construir e quase nada sobre ocupar.

Faltam trezentas mil casas, dizem-nos, e há quarenta e sete mil fechadas só na capital. Faltou ao governador acrescentar o essencial: não falta só construir, falta querer.

sábado, 10 de outubro de 2026

Nuremberga, outra vez

 


O Nobel da Paz atribuído a Navi Pillay, foi mais um chapadão em quem insiste em não ver, ouvir ou ler as notícias que se acumulam sobre Gaza. A jurista sul-africana presidiu à comissão da ONU que concluiu ter Israel cometido genocídio.

Como resposta os criminosos falaram de libelos de sangue, e os Estados Unidos sancionaram o Tribunal Penal Internacional. A resposta ao juiz é sempre a mesma: pretender rebentar-lhe com o tribunal.

Durante muito tempo espantámo-nos com quem vivia ao lado dos campos de concentração nazis, via chegar comboios cheios e partir vazios, e cheirava o fumo das chaminés. Libertos os campos, jurava, “inocentemente”, de nada ter suspeitado.

Assim se comportam hoje muitos, apostados em negar o evidente e em acusar de antissemitas os que tentam despertá-los do torpor cúmplice. Antissemita não é quem denuncia um Estado e o seu exército. Não o são os judeus corajosos que o fazem, mormente os realizadores Yuval Abraham e Rachel Szor, autores de Naza, documentário onde vinte e quatro militares e agentes de informações, sob anonimato, descrevem o que fizeram.

O título é a sigla de que o exército se serve para as baixas civis: mais cómodo dizer que morreram vinte nazas do que vinte pessoas, mulheres e crianças incluídas. Um dos depoentes recorda a autorização para matar pelo menos quinhentos danos colaterais num só ataque, sem saber quantos eram crianças. A linguagem burocrática serve sempre o mesmo fim: tornar suportável o insuportável.

O álibi é velho: cumpriam ordens. Foi o argumento de alguns dos criminosos julgados nos tribunais do século passado, e viram-no rejeitado esperando-se que a lição ficasse irrepetível. Não ficou.

Foi em Nuremberga, na sala onde se recusou a desculpa das ordens cumpridas, que Navi Pillay soube do prémio. Não se encomenda um simbolismo assim. Quem agora olha para o lado terá de se explicar mais tarde, e a história já sabe a que perguntas vai ouvir as mesmas respostas.

Ninguém poderá dizer que não viu, não ouviu, não leu.

sexta-feira, 9 de outubro de 2026

Orçamento sem almofada

 


Miranda Sarmento apresentou o Orçamento para 2027 com a inquietação de quem sabe a despensa vazia. Excedente de 0,1%, tão raso que o próprio ministro avisa que qualquer medida sem contrapartida atira o país para o défice. Juros da dívida a subirem 23%. Inflação de 2,9% este ano e de 2,3% no próximo. E o fim do PRR, que em 2027 já não existe para tapar buracos: o investimento público, com a bolsa europeia incluída, cai 31%.

Entre a almofada herdada dos governos socialistas e o dinheiro de Bruxelas, a festa foi larga. A conta chega agora, com margem estreitíssima, e com as guerras a encarecer a energia. O ministro e o seu chefe veem os céus escurecer, e as nuvens não vão soprar para outro lado.

Na hora de enfrentar a tempestade, pesa a demagogia com que se quis disfarçar a falta de visão. Baixam-se o IRC e o IRS para a fotografia, enquanto o dinheiro europeu acaba. O PS já garantiu a abstenção, e as nuvens, por ora, não aceleram tanto quanto a instabilidade politica potenciaria.

Convém que as esquerdas aproveitem a pausa para se reforçarem e, no momento certo, encontrarem condições para repetir a Geringonça, desta vez sem a atitude de quem, a contragosto, a formou na esperança de dar um abraço de urso aos parceiros. Aprenda-se com a vizinhança: em Espanha, PSOE e Sumar governam em coligação há quase sete anos, entre tensões e conspirações judiciais e mediáticas. Sanchéz convocou agora eleições para 29 de novembro, com a habitação no centro da campanha, e as sondagens não lhe sorriem. Ninguém garante vitória a quem governa unido, mas a alternativa à união tem-se mostrado pior.

Sobretudo, porque o Governo da AD, sendo de direita, é-o como nenhum outro desde 1974 tão próximo da extrema-direita. Fez dela bengala, e dela se fez bengala, na lei dos estrangeiros, na da nacionalidade e agora na dos despejos. Os banhos de realidade que tais governos proporcionam não deixarão de juntar nas ruas e avenidas os que foram enganados e depressa se sentirão desenganados. Quem então estiver pronto, com programa e unidade, colherá o que a demagogia semeou.

quinta-feira, 8 de outubro de 2026

As margens e o rio

 


Brecht lembrava, em versos que a memória guarda sem esforço, que se chama violento ao rio que transborda e nunca às margens que o comprimem. Em França, a lição dá-se em direto.

Os liceus ferveram em setembro, a começar em Créteil, com professores em falta, turmas sobrelotadas, edifícios a desfazerem-se. Da fagulha fez-se incêndio, e o incêndio ficou notícia pelas piores razões: mais de seis mil e quinhentos detidos, a maioria menores, um adolescente de quinze anos sem uma mão, granadas suspensas só depois da mutilação. Houve violência de manifestantes, ninguém o nega. Mas o enquadramento mediático fez do rio o culpado e das margens simples paisagem.

Lecornu tenta apagar o fogo que ajudou a atear. Matignon falou em manobra dos Insubmissos, como se bastasse a ignição, sem combustível nem comburente. O combustível está nas escolas degradadas, o comburente no empobrecimento sem solução à vista. E muito graças ao ministro do Interior, Laurent Nuñez, tão obcecado com o principal partido da esquerda que carrega a acusação de, semanas atrás, ter acreditado, perante jornalistas, numa droga imaginária no saco da eurodeputada Rima Hassan. Negou a fuga, mas saiu chamuscado.

A marcha de terça-feira reuniu 256 mil pessoas, segundo o Ministério do Interior, e 450 mil, segundo os organizadores: estudantes, pais, professores, sindicatos. A insatisfação juvenil já não caminha sozinha.

Augusto Santos Silva vê nisto caldo de cultura para Le Pen e admite que ela pode ser travada se os adversários não forem estúpidos. Receio de timorato, que toma o termómetro pela febre. Situações propícias à rutura podem dar em retrocesso, como em França, onde junho de 68 trouxe uma maré gaullista às urnas e 1969 a eleição de Pompidou. Mas o retrocesso eleitoral não apagou o essencial: muitos dos valores de maio acabaram por impor-se, social e culturalmente, nos anos seguintes. Outras vezes, a rutura dá transformação política efetiva, como na Rússia de 1917, onde uma minoria organizada, de programa claro e disciplina firme, tomou a condução do processo e conquistou a maioria nos sovietes.

Le Pen, favorita nas sondagens de abril, cresce com o desencanto de quem vê o Estado cortar na escola e acenar com a ordem. Trava-a quem oferece alternativa.

Que o rio transborde, desde que se reconstrua o leito.

segunda-feira, 5 de outubro de 2026

Nem fatalismo, nem milagre

 


Admito que a noite brasileira me caiu mal. Flávio Bolsonaro à frente, Lula atrás, mais de dois milhões de votos de diferença e um resultado pior do que o de 2022. Ainda falta a segunda volta, a 25 de outubro, mas o susto não se disfarça.

Tentemos perceber, sem dramatismo. Quem vive de salário não come estatísticas. Com juros altos e a vida cara, o prato vazio pesa mais do que qualquer indicador favorável, e a prudência orçamental, pensada para sossegar os mercados, deixou muita gente de esquerda a esperar pelo prometido.

Depois, o país mudou. O operário, com sindicato e carteira assinada, cedeu lugar ao ao biscateiro. Muitos encontraram na igreja evangélica o que ninguém lhes oferecia: comunidade, ajuda nas horas más, uma promessa de prosperidade. Podemos torcer o nariz, mas a direita chegou lá primeiro, e a esquerda ficou a olhar.

Entretanto, a fábrica de mentiras trabalhou sem descanso, e Jair Bolsonaro, preso, virou mártir para os seus. O PT, por seu turno, governou de mãos dadas com o centrão, trocando mudança por governabilidade. Pagou o preço de ter deixado esfriar a base que o levou ao poder.

Mas calma, que o jogo não acabou. Em 2022 Lula venceu a segunda volta por um fio, e agora quem ficou de fora, a chamada terceira via, recusa apoiar qualquer dos dois. Vai ser outra eleição, com outras contas, e muita gente continua a rejeitar o apelido Bolsonaro.

E depois de outubro? Marx lembrava que fazemos a nossa história, mas nunca nas circunstâncias que escolhemos. Gramsci a escrever numa cela fascista, deixou a divisa certa para dias assim: pessimismo da inteligência, otimismo da vontade. A Europa, aliás, dá alento: a Suécia e Berlim mostram que a maré da extrema-direita não é lei da natureza.

Mesmo perdendo, a esquerda brasileira não fica de mãos vazias. Tem sindicatos, os sem-terra, associações de bairro, milhões de militantes. Uma desfeita nas urnas só se torna derrota de classe se se desistir de a organizar.

O materialismo histórico nunca prometeu vitórias fáceis. Pede, isso sim, que se arregacem as mangas.

sábado, 3 de outubro de 2026

O Iluminismo das Trevas IV - A Economia Política da Guerra

 


(Quarto de uma série de textos sugeridos pelo excelente podcast de Mariana Mortágua no “Publico” – “ Senhores do Algoritmo” - que muito informou sobre o tema)

 

Na tradição do Iluminismo clássico, a paz universal e a estabilidade do direito internacional eram vistas como o horizonte ético indispensável para o progresso humano. Pelo contrário, para a ontologia do Dark Enlightenment e do Aceleracionismo que o sustenta, a paz perpétua é encarada como um estado de estagnação, uma entropia metabólica que amolece as sociedades e desacelera o desenvolvimento tecnológico.

Na visão neoreacionária, a guerra não é uma tragédia a evitar, mas o mais potente catalisador de seleção natural e de inovação. É no teatro de destruição que os sistemas tecnológicos são testados até ao limite, que as regulações éticas do Estado de Direito são suspensas e que a alocação de capital ganha uma urgência absoluta. A guerra surge como o modelo de negócio perfeito para o capitalismo de rotura: um mercado de consumo destrutivo onde a obsolescência da mercadoria é imediata e a procura por rearmamento é infinita.

A conversão da guerra num ativo económico primordial marca a consolidação de uma nova necroindústria, onde o sofrimento humano e a desestabilização geopolítica são convertidos em margens de lucro para os oligarcas da tecnologia.

Durante a Segunda Guerra Mundial e a Guerra Fria, o complexo militar-industrial clássico assentava na cooperação entre governos e grandes multinacionais de armamento sob estrito controlo estatal. No entanto, na última década, assistimos a uma mutação decisiva: a privatização do próprio núcleo intelectual e tecnológico da defesa através de startups de Deep Tech financiadas pelo capital de risco de Silicon Valley.

Empresas como a Anduril Industries (fundada por Palmer Luckey, apoiado pelo ecossistema de Peter Thiel), a Palantir, a Shield AI e a SpaceX redefiniram o campo de batalha. O armamento pesado e estático do século XX deu lugar a sistemas integrados de inteligência artificial, enxames de drones autónomos, redes de vigilância por satélite e ferramentas de guerra cibernética preditiva.

Esta nova classe de empresários do setor militar opera abertamente sob a ideologia do Iluminismo das Trevas. Promovem a ideia de que a segurança das nações não deve depender de tratados internacionais, diplomacia ou exércitos conscritos, mas sim do algoritmo proprietário e da superioridade tecnológica privada. Ao fundirem a cultura de disrupção de Silicon Valley com a indústria da morte, estas empresas desmantelaram os travões éticos da guerra convencional.

A eficácia da nova necroindústria assenta num tríptico infraestrutural que reconfigurou a própria natureza da soberania estatal:

·        A Malha Orbital (Satélites): O controlo do espaço orbital tornou-se a condição de possibilidade de qualquer operação militar moderna. Redes de satélites de órbita baixa — como a Starlink de Elon Musk — fornecem a espinha dorsal de comunicações, navegação e inteligência em tempo real. O facto de o comando estratégico militar depender de constelações de satélites pertencentes a empresas privadas confere a um pequeno grupo de indivíduos o poder de ditar o resultado de guerras e de chantagear governos soberanos.

·        A Automação do Homicídio (Drones): A introdução de enxames de drones governados por inteligência artificial remove o fator humano da decisão de matar. O algoritmo de reconhecimento facial e de deteção de padrões passa a selecionar alvos e a executar ataques com uma frieza matemática. Elimina-se o custo político da perda de vidas de soldados próprios, tornando a guerra psicologicamente mais aceitável para as elites políticas e financeiras.

·        A Guerra da Informação (Algoritmos e Data Centers): A dimensão física da destruição é permanentemente acompanhada pela guerra psicológica digital. Os mesmos algoritmos e data centers que processam dados no campo de batalha são utilizados para manipular a perceção pública, desinformar populações e desestabilizar adversários geopolíticos a partir de dentro, apagando as fronteiras entre o estado de paz e o estado de guerra.

A economia política da guerra no contexto do Dark Enlightenment exige a perpetuação da instabilidade. A paz prolongada e a cooperação multilateral representam um risco existencial para a valorização bolsista da nova necroindústria.

Ao capturarem a infraestrutura de defesa dos Estados, os oligarcas da tecnologia garantem a instauração de um estado de exceção permanente. Sob o pretexto da ameaça iminente e da competição geopolítica, as garantias constitucionais dos cidadãos são erodidas, a vigilância em massa é normalizada e os orçamentos públicos de saúde, educação e proteção social são canalizados para o financiamento sem fundo da máquina militar-tecnológica.

A guerra, que no passado era encarada como o fracasso da política, converteu-se na realização máxima da política neoreacionária: uma ordem social disciplinada pelo medo, governada por algoritmos de sobrevivência e dominada por uma elite proprietária que lucra com a própria destruição do planeta.

 

sexta-feira, 2 de outubro de 2026

Lição de ética, com casa própria por explicar

 


Há discursos que só ganham sentido completo quando se sabe onde foram proferidos. Luís Montenegro foi a uma escola falar sobre ética, integridade e prevenção da corrupção, e escolheu para isso Espinho, terra onde nasceu, onde presidiu à JSD, e onde o Ministério Público investiga a construção da sua própria casa.

Não há, sublinhe-se, prova de crime contra o primeiro-ministro, nem contra o seu ministro da Administração Interna, cuja gestão do episódio das obras em Odemira foi tudo menos a de um profissional seguro de si: contradições, versões sucessivas, um atrelado ligado a tráfico de droga a complicar o enredo de uma simples reforma doméstica. Mas entre a ausência de prova de crime e a presença de integridade vai a distância que separa um tribunal de uma conferência de imprensa, e nessa segunda, ambos ficaram a dever explicações.

Fica por isso a pergunta que o ditado popular já tinha formulado antes de qualquer cronista: não é o prevaricador sempre tentado a voltar ao local onde prevaricou? Montenegro voltou a Espinho para falar de ética. A ironia escreveu-se sozinha.

E há mais. Como recorda Susana Peralta em crónica no Público, este é o mesmo primeiro-ministro que recebeu de António Costa o Mecanismo Nacional Anticorrupção pronto a avançar, e que o tem privado dos recursos humanos e materiais que o próprio presidente do organismo reclama há anos.

Não é preciso provar crime para reconhecer negligência: um instrumento de combate à corrupção reduzido a caricatura de si próprio, por falta de meios que dependem exclusivamente de quem agora discursa sobre o tema em escolas, diz mais sobre prioridades reais do que qualquer alocução.

Falar de ética custa pouco. Dotá-la de meios, esse sim, parece ser o verdadeiro teste que este Governo prefere adiar indefinidamente.

quinta-feira, 1 de outubro de 2026

O ópio dos relvados

 


Um senhor que ganha o equivalente ao orçamento de uma câmara municipal a dar pontapés numa bola, e que ultimamente falha mais do que acerta, decidiu afastar-se da seleção, ou talvez ainda não, ou talvez sim — os jornais, por hábito, nunca distinguem bem a notícia do boato. O país, esse, decidiu tratar o episódio como luto nacional.

Compreenda-se a confusão de prioridades: há quem confunda o resultado de um jogo com o destino da pátria, e esse equívoco tem nome antigo. Samuel Johnson já dizia, há séculos, que o patriotismo é o último refúgio dos canalhas. Não precisava de imaginar quanto a formulação ganharia em exatidão aplicada a um país que discute em horário nobre o estado de espírito de um avançado, enquanto ignora olimpicamente a inflação que lhe esvazia o carrinho de compras.

Porque há, de facto, assuntos a merecer o tempo de antena que se gasta a especular sobre lesões, convocatórias e adeuses por confirmar. O aquecimento global não espera pela próxima Liga das Nações para continuar a desregular estações, incendiar florestas e afogar cidades. As guerras, que os noticiários despacham em três minutos antes de dedicarem vinte à crise existencial de um balneário, continuam a matar gente que não tem o privilégio de ser notícia.

O futebol tem uma vantagem sobre a realidade: não exige ao espectador que pense, apenas que grite. Oferece inimigo fácil, o árbitro, o adversário, o selecionador; oferece herói disponível, o capitão; oferece drama sem consequência real, porque, perdido o jogo, amanhã há sempre outro, e a vida de quem perdeu continua exatamente igual à de quem ganhou — ao contrário do que sucede a quem perde a casa ou o salário.

Não se trata de negar o talento de quem passou duas décadas a fazer o que poucos fazem com uma bola nos pés. Trata-se de recusar que esse talento, em declínio normal e previsível como o de qualquer carreira que chega ao fim, seja promovido a assunto de Estado.

Que o senhor se reforme quando entender e descanse em paz competitiva. O país devia reformar-se urgentemente do hábito de confundir o relvado com o que verdadeiramente importa.

A lição que não atravessou a fronteira

 


Notícias funcionam como aviso, mesmo havendo quem prefira lê-las como se fossem de outro planeta. Enquanto em Espanha o despejo de uma mulher de oitenta e sete anos, arrancada de casa onde vivera setenta, levava centenas de milhares de pessoas à rua e obrigava o governo a equacionar um decreto com o nome dela, na Assembleia da República, a AD e o Chega entenderam-se para facilitar precisamente o mecanismo que a vitimou.

Não é coincidência de calendário, é contraste de civilização política. De um lado, uma sociedade que reconhece no corpo de uma idosa retirada de maca o rosto de uma crise estrutural, e responde com indignação de massas. Do outro, um parlamento que olha para a mesma crise e decide que o problema é a lentidão dos despejos, não a sua existência.

Nada tem de surpreendente a aliança entre o partido do governo e a extrema-direita para quem acompanha o padrão: já se tinha repetido na lei da nacionalidade, na lei dos estrangeiros, repete-se agora na habitação. Sempre que se trata de reforçar quem já tem poder sobre quem já tem pouco, a direita tradicional encontra no Chega um parceiro disponível, por mais que se distancie dele nos microfones.

Fica a pergunta incómoda: quantas Maricarmens portuguesas serão precisas, e quantos despejos com oposição policial, até que o país reaja como reagiu o vizinho? Ou preferimos continuar a admirar à distância, com o comentário condescendente de costume sobre o "temperamento espanhol", enquanto por cá se aprova em silêncio parlamentar aquilo que lá incendeia as ruas?

A indignação não precisa de passaporte. Precisava apenas de atravessar a fronteira a tempo de impedir a lei. Chegou tarde, ou talvez nunca estivesse destinada a chegar — e essa é, afinal, a diferença entre os dois países que esta semana a notícia expôs sem rodeios.

O vento muda de direção

 


A greve geral em França, a mobilização pelo direito à habitação em Espanha, as insónias dos republicanos em Estados como o Iowa, que costumavam considerar seus e agora sentem a pender para os democratas, conjugam-se com a crise da Argentina, que leva o homem da motosserra a peregrinar pela Europa a mendigar investimento.

Sabíamos que não há mal que sempre dure. Faltava a confirmação empírica, e esta semana trouxe-a de várias direções ao mesmo tempo.

Vale a pena recordar a futilidade das certezas de outrora. Os comentadores da direita, com a mesma convicção de Fukuyama há umas boas décadas quando anunciou o fim da história, garantiam que a tendência dos últimos anos se prolongaria indefinidamente, como se as marés obedecessem a decretos ideológicos e não a movimentos sociais que se acumulam até transbordar.

Não se trata de anunciar vitórias, muito menos de baixar a guarda: os retrocessos instalados não desaparecem por decreto de otimismo, e os indícios de refluxo levam tempo a tornar-se maioria consolidada. Mas os indícios existem, e ignorá-los seria tão ingénuo quanto foi a certeza contrária.

A história, ao contrário do que Fukuyama previu, continua a escrever-se. E, desta vez, parece escrevê-la com letra diferente da que os arautos do fim da história esperavam.

sábado, 26 de setembro de 2026

Chamem-lhe aldrabão, é o que ele é!

 


Há-de chamar-se a alguém outra coisa que não aquilo que ele é? A pergunta ficou no ar depois de Hugo Soares ter chamado aldrabão a André Ventura em pleno hemiciclo, e de o momento ter dividido opiniões no podcast do Público: Ana Sá Lopes bateu palmas, Helena Pereira chocou-se com uma atitude tão pouco habitual nos partidos do outrora chamado arco da governação.

Comece-se pela ironia óbvia: dificilmente será o líder parlamentar do PSD a figura de maior legitimidade moral para tal arremesso, ele que tantas vezes reserva a mal educada picardia para as esquerdas, poupando ao Chega o tratamento equivalente. Não falta, porém, razão a Ana Sá Lopes em aplaudir o momento, ainda que viesse de quem viesse.

Porque há um público que precisa de ser confrontado com a sua deplorável condição: a de apoiante acéfalo de um... aldrabão. Repita-se, sem eufemismos, que é disso mesmo que se trata, e não de outra coisa que a linguagem contemporizadora costuma inventar para não ofender quem já devia estar ofendido consigo próprio.

Ruben Martins questionava se seria necessário mergulhar na imundície com um porco para por ele se fazer entender. A pergunta é legítima, mas a resposta é simples: sim, às vezes é preciso, porque o porco não entende linguagem de salão, e o eleitorado iludido do Chega tão-pouco costuma reconhecer-se em eufemismos parlamentares.

Talvez essa forma de os despertar da sua adesão à pocilga lhes dê, finalmente, vontade de um longo e higiénico banho. Não é garantido, note-se: há quem se instale na lama por gosto, não por ignorância, e a esses nenhuma palavra, por mais certeira, devolve a vergonha que nunca tiveram.

Mas aos outros, aos que seguem Ventura por desespero social mal direcionado, por raiva sem norte que a esquerda devia ter captado e não captou, a estes talvez sirva ouvir, dito sem rodeios, por quem quer que seja, mesmo por quem não tem toda a legitimidade para o dizer: o homem que seguem é um aldrabão. Chamar-lhe outra coisa seria a verdadeira indelicadeza, o verdadeiro desrespeito — não para com ele, que esse já perdeu qualquer direito a consideração, mas para com a inteligência de quem o ouve. 

terça-feira, 22 de setembro de 2026

Liturgias

 


Há os governos dedicados aos factos e os dedicados aos ritos. Estes tempos pertencem aos segundos: quando a realidade incomoda, oficia-se uma cerimónia, e ela faz as vezes da realidade.

Em Cascais, a nova Escola Secundária abriu com placa descerrada e bênção do patriarca de Lisboa. Numa escola pública de um Estado laico, frequentada por filhos de todos os credos e de nenhum, a água benta caiu sobre o betão do PRR perante um Presidente da República condescendente. O rito cumpriu a função. Ninguém falou dos alunos ainda sem vaga à beira de outubro, entre eles crianças com necessidades educativas específicas, nem dos professores em falta. Seguro preferiu o elevador social. Fernando Alexandre, dois anos e meio de trapalhadas, seguiu a comitiva à distância.

A inflação tem também o seu missal. O índice oficial marca 3,3%, e o Governo responde com a quinta descida do IRS, entre 1,7 e 12 euros mensais. Fora do cânone ficam o cabaz básico da DECO, com uma subida de 6% num ano, e a prestação da casa, presa à Euribor e contabilizada como investimento. A estatística absolve; a carteira não se deixa convencer.

Em Israel, a liturgia chega ao anátema. Yuval Abraham e Rachel Szor, israelitas, levaram a Veneza NAZA, com testemunhos de militares sobre alvos escolhidos por inteligência artificial em Gaza, e trouxeram o Prémio Especial do Júri. O ministro da Cultura declarou-os traidores e prometeu retirar-lhes a cidadania; Netanyahu anunciou lei para o efeito. Excomunga-se quem mostra, perdoa-se a quem mata: no mesmo fim de semana, Herzog indultou um soldado pela execução de um palestiniano ferido e caído no chão.

Esse credo faz prosélitos. As direitas latino-americanas, observa Manuel Loff, veem em Israel um modelo de suprematismo étnico, fervor religioso e tecnologia de guerra, o tecnofascismo em versão de exportação. Converter-se é fácil. Difícil será explicar a fé às populações empobrecidas pelas políticas dos convertidos.

Há, porém, um fenómeno imune a cerimónias. A NOAA atribui mais de 90% de probabilidade a um El Niño muito forte neste outono e inverno, e 75% a um episódio sem precedentes desde 1950. Os cientistas avisam: o recorde de agora anuncia e não encerra, e o pior chega em 2027.

Ao Pacífico nenhum patriarca estende o hissope. Será talvez o único a ignorar a liturgia e a cobrar a fatura a todos os fiéis, crentes ou não.

segunda-feira, 21 de setembro de 2026

A maré vira

 


Confirmou-se: o que parecia o início de uma vaga era, afinal, a sua última investida. A vitória esmagadora da AfD na Saxónia-Anhalt, com 43,8% dos votos a 6 de setembro, ficará registada como o pico de uma maré que já começou a baixar.

A prova chegou ontem, com dupla força. Na Meclemburgo-Pomerânia Ocidental, a AfD venceu, mas a CDU nem sequer superou a barreira dos 5%, ficando fora do parlamento: a direita tradicional, de tantas cumplicidades com a extrema-direita, está a ser por ela vampirizada. As esquerdas, somando social-democratas, verdes e Die Linke, reúnem contudo maioria de mandatos suficiente para formar governo.

Em Berlim, o Die Linke tornou-se, pela primeira vez na sua história, a força mais votada, com uma coligação de esquerda a somar maioria clara sobre qualquer alternativa dominada pela CDU. A coligação CDU-SPD que governava a capital alemã foi taxativamente afastada pelos eleitores.

Junte-se a isto o que já se sabia da Suécia, onde a vitória do bloco de esquerda, liderado por Magdalena Andersson, se deveu sobretudo à queda acentuada dos votos na extrema-direita: os Democratas Suecos perderam cerca de onze deputados. Estamos, tudo indica, perante o momento em que a maré muda de sentido de facto, não apenas na expectativa.

Por cá, o retrato mantém-se menos animador. Montenegro ostenta o medo que o assombra, incapaz de engenho ou de meios para responder às graves ameaças que pendem sobre os portugueses, refugiando-se em monólogos sem perguntas dos jornalistas, onde até Trump lhe serve de bode expiatório. Fernando Alexandre continua a alijar responsabilidades pela falta de professores e de vagas nas escolas, e o inenarrável Carlos Moedas descobriu no sistema Volta a causa do lixo em Lisboa, esquecendo que já acusava as freguesias do mesmo problema antes de a medida sequer existir.

As sondagens continuam a dar ao PS a liderança das intenções de voto, mas uma parte substancial dos eleitores continua esquecida da consciência de classe, iludindo-se com o covil de oportunistas, mentirosos e delinquentes que tem em Ventura o seu capo.

Fica a lição de fora: a maré vira-se com organização, com forças de implantação social real a somarem-se, não com vaidades fundadoras. É essa a lição que a Alemanha e a Suécia acabam de dar, e que continua por aprender aos que, por cá, insistem em fundar mais um partido à esquerda em vez de reforçar os que já existem.

quarta-feira, 16 de setembro de 2026

A paciência milenar e o pânico ocidental

 


Talvez seja reflexo das simpatias juvenis pela versão que o Diário da China dava de si própria, antes de virem a lume os desvarios da Revolução Cultural, mas a estadia durante dois meses em Xangai em 1998 e algumas visitas episódicas a Pequim justificaram a admiração por certas características do povo chinês, mormente a milenar paciência e a determinação em chegar a objetivos que lhe pareceriam vedados.

Há vinte e oito anos espantei-me com a rapidez investida na transformação daquela grande metrópole na foz do Iansequião. E com a curiosidade nunca satisfeita dos intérpretes que nos apoiavam, sequiosos de saber tudo sobre os avanços ocidentais.

Acredito que a reação das autoridades de Pequim ao alvoroço dos últimos dias, esse que levou Dario Amodei, da Anthropic, secundado por Sam Altman e por Elon Musk, a proporem travões ao desenvolvimento da inteligência artificial, foi lida em Washington como oportunidade, não como ameaça. Para as empresas norte-americanas, ainda na liderança da IA, seria cómodo dotarem-se de regras que lhes preservassem essa dianteira, replicando os manuais gastos da Guerra Fria: primeiro assusta-se o mundo, depois regula-se em proveito próprio.

Não contam, porém, com as tais idiossincrasias chinesas. É questão de meses até a DeepSeek ou a Kimi rivalizarem com quem hoje surfa o anúncio catastrofista saído da demissão de Jacob Coxon, o investigador que abandonou a Anthropic a acusar os laboratórios de "apostarem com as nossas vidas".

E há uma ironia que os arautos do apocalipse tecnológico preferem não sublinhar: soube-se, por estes mesmos dias, que já existem armas em órbita da Terra — e são norte-americanas. A Força Espacial confirmou-o, pela primeira vez, sem adiantar detalhes.

Enquanto se pede ao mundo que tema o algoritmo alheio, guarda-se em silêncio o arsenal próprio, já lançado, operacional, apontado a quem quer que ouse disputar a supremacia.

A paciência chinesa, essa que Xangai me ensinou a respeitar, não se mede em trimestres de resultados nem em comunicados de imprensa apocalípticos. Mede-se em décadas. E é essa a variável que os profetas do medo, tão apressados a regular os outros, continuam a subestimar.

terça-feira, 15 de setembro de 2026

Gerir a escola pública até à porta fechada

 


Houve um tempo em que a escola pública garantia duas coisas: professor e lugar. Este ano, o Ministério de Fernando Alexandre já não assegura nenhuma das duas, e o PS, entre eufemismos habituais, resolveu finalmente chamar-lhe o pior ministro da Educação da democracia.

Os números não deixam margem para a retórica ministerial do costume. Na semana de sete a onze de setembro, as escolas lançaram 1453 horários por preencher, mais do que os 1372 do ano anterior, enquanto entre setembro e outubro se reformam 1102 professores, duzentos a mais do que em igual período do ano passado. A Fenprof estima em cento e dez mil os alunos afetados só por esta via.

O agravamento não fica pelos horários vazios. Em Sintra há 744 alunos sem vaga, em Lisboa 576, crianças que não chegaram ontem a Portugal, apenas mudaram de morada ou quiseram trocar de escola — direito básico que a rede pública, este ano, simplesmente não consegue cumprir.

A raiz do colapso tem nome técnico e efeito devastador: a extinção da Dgeste e a sua substituição pela Agência para a Gestão do Sistema Educativo esvaziou o Ministério do pessoal que fazia a máquina funcionar, sem que a nova estrutura, mais autónoma no papel, tenha ganhado capacidade real de decisão. As escolas podem matricular, mas não podem abrir turmas nem vagas; a Agência, com menos funcionários do que a Dgeste, já não tem quem atenda presencialmente os encarregados de educação que antes encontravam porta aberta.

O ministro que, sobre os exames digitais falhados, assumiu a responsabilidade final por decisão própria, repete agora o mesmo padrão: geriu mal, sozinho, sem rede. Desta vez não há outsourcing de consultores que resolva o problema, porque ele é precisamente a falta da estrutura humana que geria estes processos sem precisar de consultor nenhum.

O PS já ameaça com comissão de inquérito, o PCP fala em enfraquecimento deliberado da escola pública, o Livre e o Bloco perguntam quantos alunos continuam sem colocação. Cada partido escolhe o seu ângulo de indignação, mas o diagnóstico converge: um ministério que se desmantelou a si próprio e agora finge investigar as consequências da própria demolição.

Não é falta de professores apenas, é falta de Estado. E um Estado que se recusa a administrar-se deixa, no fim, a criança em casa à espera de resposta, enquanto o ano letivo já decorre sem ela.

domingo, 13 de setembro de 2026

A necessidade de reocupar a rua

 


As férias acabaram, as escolas retomaram os seus ciclos e a política regressa à rua a par do que se passa no Parlamento.

O Chega escolheu a porta de casa de Luís Montenegro para protestar contra o preço dos combustíveis, com o rigor habitual de quem trata os problemas reais como pretexto para a fotografia: pouca gente, muito microfone, direito garantido a peça no telejornal. A extrema-direita já percebeu que a rua, para ela, vale sobretudo como cenário.

Mais substância têm os que se preparam para outubro. A CGTP anuncia já a manifestação nacional que dará corpo às reivindicações adiadas de um ano inteiro de braço-de-ferro laboral. O Livre, por seu turno, promete disputar palmo a palmo o espaço público a uma extrema-direita que o vem ocupando com cartazes pagos por patrocinadores que preferem manter-se na sombra do dinheiro que gastam.

Contra essa campanha de outdoors, imóvel e bem financiada, intenta-se responder com agitprop: ação, não propaganda estática, para desmontar as mentiras de Ventura peça a peça e travar a inversão de sinais que tem feito de qualquer posição moderada uma acusação de "perigoso esquerdismo". A gramática do salazarismo sempre soube disfarçar-se de bom senso.

Durante décadas, quem simpatizava com esse legado escondeu as opiniões, receoso da vergonha a que a sociedade o condenava — e fazia bem em recear, porque a vergonha pública é, ainda hoje, um dos poucos instrumentos que resta à decência coletiva.

É tempo de repor essa vergonha no seu lugar, devolvendo ao pensamento de extrema-direita o acantonamento social de que nunca devia ter saído.

Não se trata de silenciar ninguém, trata-se de recusar a normalização. A rua serve precisamente para isso: para mostrar, através dos números e da persistência, que a maioria não comprou o discurso do ódio disfarçado de bom senso — para dizer, com a força que só a presença física garante, que o espaço público não se abandona a quem o paga em cartazes.

A esquerda tem condições históricas – as tais que Marx dizia “materiais” - para retomar a primazia que foi hesitantemente cedendo. Falta-lhe apenas decidir-se a ocupá-la.

sexta-feira, 11 de setembro de 2026

O folclore e a água que ninguém mede

 

Ventura falou sozinho. A moção de censura teve o destino que já se sabia ao início: cento e quatro votos contra, sessenta a favor — os do próprio Chega — e o resto em abstenção silenciosa. Nenhum partido lhe deu a dignidade de uma pergunta, todos lhe deram o desdém de um adjetivo. É a única unanimidade possível nesta legislatura: a de tratar o folclore como folclore.

Montenegro, esse, aproveitou o palco alheio para o discurso próprio. Um bónus de quatrocentos milhões para pensionistas, uma descida de IRS de outros tantos, anunciados como dádiva na hora exata em que convinha mudar de assunto. Oitocentos milhões, no total, que soam a muito e valem pouco: menos de metade dos mais de dois mil milhões que o mesmo Governo arrecadou, nestes dois anos, com impostos sobre combustíveis e com o IVA que a inflação lhe foi entregando de bandeja. Devolve-se moedas do que se cobrou em notas, e chama-se a isso contas certas.

Entretanto, o país seca, e não por acidente. Um jornalista teve de fazer dez pedidos de informação e ir a tribunal para descobrir o óbvio: a Agência Portuguesa do Ambiente não sabe quem consome a água nem quanta. As subterrâneas continuam propriedade de quem tem o terreno por cima, pagam taxas simbólicas e não têm medição. Assim se explica que a Sonae Arauco beba sozinha um oitavo da água de Mangualde, enquanto o concelho vizinho recorria a camiões-cisterna, e que um resort algarvio, a 1500 euros a noite, exiba um selo de sustentabilidade por oferecer água engarrafada aos

hóspedes que lhe esvaziam o aquífero.

O Estado sabe menos da água que temos do que dos centros de dados que promete atrair — um só, em Sines, vai consumir tanta eletricidade como três, quatro, cinco cidades médias, sem que o plano nacional lhe exija sequer declarar o que gasta.

Três histórias, um só fio: o poder a gerir a atenção pública com a mesma desenvoltura com que evita geri-la na realidade. Ao Chega, dá-se o silêncio que os seus argumentos merecem. Aos pensionistas, dá-se o bónus que os números não justificam. À água que resta, não se dá preço nem medida — porque essa conta, ao contrário das outras duas, ninguém a quer fazer antes de a seca a apresentar em camiões-cisterna.