A capa do
Libération de hoje resume o mundo para onde caminhamos numa imagem só:
nas águas da bacia de Arcachon, entre o Cap-Ferret e Bordéus, um homem de
tronco nu avança pela água enquanto, na outra margem, uma parede de fumo negro
devora o horizonte. Por cima, em maiúsculas, o veredito de um habitante:
"Uma visão de apocalipse."
Não é
metáfora. O incêndio que começou na quarta-feira em Saumos já percorreu mais de
dezanove mil hectares. Cento e dez mil pessoas foram evacuadas. A península
turística do Cap-Ferret foi esvaziada por estrada e por barco, numa operação
que parecia saída de um filme de catástrofe e era apenas o telejornal. O fogo
avança agora sobre a metrópole de Bordéus. E, mal esta vaga de calor der breve
tréguas, anuncia-se já outra, com previsões acima dos quarenta graus a partir
de quarta-feira.
É este o
mundo novo. Cidades evacuadas, florestas convertidas em cinza, o verão
transformado de estação em ameaça. Não é anomalia passageira — é o padrão que
as alterações climáticas instalaram e que cada ano agrava.
E, no
entanto, há quem ache tudo normal. As extremas-direitas, alimentadas pelo que o
algoritmo do X de Elon Musk faz circular, tratam estes incêndios como
fatalidade cíclica — a Terra que ora aquece, ora arrefece, sem que a mão do
homem tenha nisso responsabilidade. É a velha manobra: transformar a ciência em
opinião e a opinião em ruído, até que o cidadão desista de distinguir uma da
outra. Os ecologistas passam a líricos, a esquerda a inimiga do
desenvolvimento, e o negacionismo veste-se de bom senso popular.
Mas que
desenvolvimento é este que se diz travar? Nesta fase de tecno-feudalismo, o
"desenvolvimento" que os oligarcas de Silicon Valley defendem
resume-se ao direito de acrescentarem mais zeros à direita nas suas fortunas
indecorosas. Musk, que possui a rede onde o negacionismo prospera, é o mesmo
que lucra com a infraestrutura da desinformação. O incêndio serve-lhe: enquanto
o mundo arde e discute se arde, ninguém lhe pergunta quanto consome, quanto
polui, quanto acumula.
Gramsci
dizia que a crise consiste precisamente no facto de o velho mundo estar a
morrer e o novo não conseguir nascer — e que nesse claro-escuro surgem os
monstros. Vivemos esse intervalo. Enquanto o velho não morre e o novo não
desponta, contaremos as tragédias uma a uma: os hectares, os evacuados, os
graus a mais.
Resta a
esperança de que os algoritmos percam, um dia, a capacidade de enganar quem se
julga dono da razão — e que a inteligência, essa, sirva finalmente para
compreender a fase que atravessamos. É a acumulação extrema de capital que Marx
descreveu, agora com data centers em vez de fábricas. E é dela que
nascerá, mais tarde ou mais cedo, a nova luta de classes capaz de devolver a
humanidade aos valores que sempre a deveriam ter norteado.
O homem
da fotografia continua a caminhar na água, de costas para nós, de frente para o
fumo. Não sabemos se foge ou apenas observa. Talvez seja essa, afinal, a imagem
exata do nosso tempo: uma humanidade parada à beira-água, a ver o incêndio
aproximar-se, sem decidir ainda se corre ou se fica.



















