segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

Idiotas com curto prazo de validade


Num artigo que hoje publicará no «i» Alfredo Barroso lembra a frase de Nelson Rodrigues, segundo o qual acabaremos por ser governados por idiotas, porque têm a força do número para sobreporem-se ao talento dos inteligentes.
Aparentemente assim ocorre nos nossos dias: gente como Trump ou Balsonaro corresponde a esse padrão de idiotas sem a mínima noção das consequências inerentes às suas impensadas decisões, que muito prejudicam os iludidos eleitores.
Há, no entanto, uma regra, que contra eles se vira mais tarde ou mais cedo: atrás de tempos, tempos vêm, gerando um ricochete letal. Quando Trump mantém a chantagem sobre a Câmara dos Representantes exigindo as verbas para o muro na fronteira do México, sem o qual sabe perder a face perante muitos dos que o elegeram, não se apercebe quanto o tempo acelera em seu desfavor: no momento certo, e a fim de se libertarem de quem para eles se tornou num estorvo, serão os próprios republicanos a darem provimento ao impeachment. Até porque Mike Pence é bem mais ponderado na missão de servir os interesses dos que confiam na Casa Branca para incrementarem os seus lucros.
Balsonaro, por seu lado, já começa a provar do veneno, que viu ser dado a Lula da Silva. A estória dos sucessivos depósitos na conta bancária de um dos filhos poderá ser uma faísca, que pegue fogo ao estopim e encurte rapidamente o seu mandato. É certo que até pode haver mais juízes federais a replicarem o que logo se apressou a agir, travando a investigação do ministério público. Mas o argumento do putativo réu já denuncia a origem mais do que duvidosa desses milhares de euros: como considera que o cargo de senador o protege, exige que as comprometedoras provas sejam destruídas. Resta ver como a imprensa brasileira reagirá ao assunto: depois de ter ativamente contribuído para assassinar Lula politicamente, e não se ter visto premiada por tal «sucesso», pode aproveitar agora para premir o gatilho e sujeitar a família Balsonaro a demolidor ataque.
Quem deu os idiotas como inevitáveis vencedores numa espécie de fim da História depressa terá de rever o seu modelo de análise dos acontecimentos.

domingo, 20 de janeiro de 2019

Vencida uma batalha, Rio continua a ter a guerra perdida


Voltando a dar notícias depois da vitória no Conselho Nacional, Rui Rio surgiu  na Madeira a enunciar um argumento tão desonesto, que devemo-nos questionar se saiu da sua cabeça, se já dos publicitários contratados para lhe aprimorarem as mensagens aos eleitores. Perante as câmara de televisão não teve pejo em dizer aos madeirenses que, nas próximas eleições regionais, não deverão confiar em quem enfrenta tantas greves no Continente, demonstração de enormíssimos dessagrados, como se eles não fossem protagonizados por minoritários interesses corporativos, que a globalidade do eleitorado não os condenasse.
Vai-se a virar o argumento do direito e do avesso o que se pode concluir? Primeiro que tudo a atitude defensiva de quem sabe iminente a derrota! Rio diz aos insulares que sabe-os tentados a votarem nos socialistas, advertindo-os quanto aos riscos de ficarem desagradados com a sua escolha. A expressão é própria de quem vê o eleitorado a fugir-lhe e o procura desesperadamente agarrar.
Mas não só: Rio parece ter em fraca conta a capacidade dos eleitores para avaliarem os benefícios conseguidos com este governo graças ao fim dos cortes, que o anterior fizera nos salários e nas pensões e na estabilidade política propiciadora de futuros investimentos, que o segundo mandato comportará.
Esses mesmos eleitores têm ouvido Miguel Albuquerque queixar-se continuamente do (falso) boicote do governo central ao que ainda tem sede no Funchal e, ao contrário do que o sucessor de Alberto João julga, esse «papão» só tende a virar-se contra si, porque o mais natural é o eleitor local pensar que, já estando mais do que garantida a reeleição de António Costa como primeiro-ministro, será estúpido apoiar quem ali se lhe diz opor ? Não estará Albuquerque a facilitar a vitória de Cafôfo, cuja empatia com o governo central poderá beneficiar mais a Madeira? Não acusam os responsáveis do PSD que, por serem governados por socialistas, os açorianos têm vindo a ser beneficiados?
Rui Rio venceu a batalha interna no laranjal, mas continuará igual a si mesmo, somando desaires no confronto com as esquerdas, que pretende derrubar.

sábado, 19 de janeiro de 2019

Um desastre ecológico em acelerado agravamento


Na «Science et Vie» deste mês dão-se escassas esperanças quanto ao sucesso da luta contra a proliferação dos plásticos um pouco por todo o lado, e nos oceanos em particular. Uma investigadora da Universidade de Toulouse coloca o desafio um pouco nestes termos: o projeto Clean Up, que irá a iniciar a limpeza do imenso Great Pacific Garbage, conseguirá recolher, em cinco anos, entre 100 e 150 mil toneladas de dejetos de tamanho superior a 1 centímetro. Ora, anualmente, chegam aos oceanos 100 milhões de toneladas, ou seja cerca de mil vezes mais do que esse objetivo quinquenal. Pior ainda: a quantidade maior de resíduos plásticos até nem reside nas garrafas e outros objetos, que tanto nos impressionam, quando nos mostram esse continente á deriva no meio do Pacífico. São partículas mais pequenas, resultantes da fragmentação suscitada pelos raios ultravioletas e pela ondulação, que se misturam com o plâncton e entram na cadeia alimentar pondo-a em sérios riscos.
O panorama é, de facto, muito grave: todos os anos são produzidos 400 milhões de toneladas de plásticos, três quartos dos quais acabam no lixo, muitas vezes após uma única utilização. E prevê-se a duplicação desse volume de poluentes nos próximos vinte anos, sobretudo com o contributo dos países em vias de desenvolvimento.
Face ao desastre ecológico, já hoje percetível, nenhuma solução atual parece eficiente: nem a recolha de plásticos nos oceanos, nem a sua reciclagem, nem as enzimas preparadas pelas empresas biotecnológicas. A única e verdadeira alternativa reside na fonte: estaca-la, ou seja, proibir a sua produção ou restringi-la às utilizações justificáveis, que sejam imediatamente substituídas por novos materiais não poluentes, a serem futuramente disponibilizáveis por quem está a porfiar na sua criação..
A dimensão do problema não permite, que se procrastinem as difíceis, mas imprescindíveis, decisões a nível internacional!

Saúde, publicitários e pedreiras


Na primeira página do «Expresso» de hoje vem a notícia da aposta do governo em fazer aprovar a nova Lei de Bases da Saúde com quem tem toda a lógica que assegure tal objetivo: com os parceiros, que o têm viabilizado durante estes quatro anos. O que merece, de imediato, a condenação da lobista Maria de Belém, durante algum tempo iludida quanto à sua capacidade em salvaguardar os interesses dos hospitais privados para que, há muito, vem trabalhando.
Mais significativa é a promessa de Marcelo Rebelo de Sousa em contrariar a nova Lei. Mas haverá alguma admiração quanto ao facto de continuar fiel a si mesmo, tudo fazendo para prejudicar o Serviço Nacional de Saúde contra o qual votou quando foi criado?
Faz, pois, todo o sentido que a nova Lei seja aprovada as vezes que forem necessárias - nomeadamente depois do previsível veto presidencial - pelos partidos que sempre têm defendido o direito constitucional dos cidadãos portugueses a disporem de um serviço público de qualidade e a todos acessível. Será essa a melhor homenagem que poderá organizar-se à memória de João Semedo e António Arnaut, que tanto por tal se bateram.
Ao exigir que Rui Rio se associe à nova Lei, mormente exigindo-lhe  que consiga o que Maria de Belém viu frustrado, Marcelo esquece-se de um pormenor: é o próprio presidente do PSD a anunciar que, daqui até às eleições, nada acordará com o governo, porfiando na contínua maledicência como forma de minimizar a previsível derrota. Para tal também vai contratar uma agência de comunicação para melhor dourar a indigesta pílula do seu argumentário. Resta saber se esses publicitários conseguirão melhorar a imagem do mau produto, que tentarão vender.
Na capa do semanário de Balsemão ainda se faz caixa com a situação crítica de 191 pedreiras para que são exigidas urgentes paliativos. Mas pela experiência de ter estado esta semana na zona entre Borba e Vila Viçosa, é evidente que não são só os riscos de segurança para quem nelas trabalha e para as populações à sua volta, a serem tidos em consideração. A paisagem está, de tal forma, destruída pela ganância indecorosa dos donos dessas explorações, que importa pensar na sua requalificação ambiental para lhe retirar o desagradável aspeto de um cenário de Terceiro Mundo. Exigindo a quem vem lucrando com tal negócio, que corresponda com os custos de tal recuperação...

sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

Trivialidades sobre o futuro do trabalho


A CIP quis mostrar quão preocupada está com a eliminação de muitos milhares de empregos por causa do uso intensivo da automação, e particularmente da robótica. Vai daí encomendou um estudo ontem apresentado ao som de bandas e fanfarras com muitos balões e fitinhas a esvoaçarem virtualmente entre os convivas. Ao governo não emitiu convite porque, de acordo com o Saraiva, seu mandão, e em tom de Diácono Remédios, «não havia nexexidade». E, no entanto, lá «brilhava» na primeira fila esse putativo candidato à liderança laranja (Pedro Duarte), que é a reserva de Marcelo Rebelo de Sousa para retomar o controlo do partido que foi ( e é!) o seu.
O que o tal estudo diz não comporta qualquer novidade. É necessária mais formação, blá-blá-blá. É preciso que o governo pague essa requalificação, blá-blá-blá. Importa que os patrões possam despedir mais facilmente quem se torna prescindível com os novos meios de produção, e sem terem de arcar com quaisquer custos, blá-blá-blá.
No «Público» recordava-se oportunamente uma frase do escritor francês Jean Paulhan que, décadas atrás, dizia: “as máquinas parecem ter sido inventadas para nos poupar de fadigas, mas todos os trabalhadores trabalham muito mais desde que se servem delas.”
E o busílis da questão está mesmo aí, no facto dos patrões quererem aumentar os lucros com menor recurso à mão-de-obra em vez de distribuírem o trabalho manual existente por mais trabalhadores, que receberiam o mesmo por horários de trabalho mais aligeirados. E que anseiam por reduzir as prestações sociais em vez de se verem sujeitos à justa contribuição decorrente de descontarem em função dos seus lucros e não pelo volume de massa salarial, que paguem. Salvaguardando-se obviamente que não mantenham a capacidade para escaparem com esses lucros para paraísos fiscais, claro.
Em suma a CIP fez o diagnóstico do futuro do trabalho nas próximas décadas, mas preparando-se para as orientar de forma a que se salvaguardem os seus interesses. Precisamente o oposto do que mais importa a quem não integra (nem quer integrar!) a sua interesseira corte!

Uma efeméride que merece ser sempre evocada


No pós-25 de abril de 1974 era obrigatória a recordação da revolta dos operários da Marinha Grande, quando se chegava a este dia 18 de janeiro. Oitenta e cinco anos depois não vi qualquer referência à efeméride na comunicação social, apesar de se ter tratado de data fundamental no combate à ditadura e demonstrativa da capacidade de, em certas alturas, as dinâmicas sociais conterem em si o potencial de suscitarem alterações qualitativas nos rumos da História.
Não foi o caso, porque as forças ao serviço do salazarismo conseguiram derrotar as aspirações dos que intentaram antecipar em quarenta anos o advento da Democracia, mas seria justo, que se continuassem a celebrar os seus participantes como verdadeiros heróis que foram. Ate porque andamos necessitados de exemplos de gente de coragem, do tipo de antes quebrar que torcer, porque avulta internacionalmente uma cultura de cobardia, traduzida em tantos movimentos fascistas ou deles aparentados, porque outra coisa não são os nacionalistas, os populistas ou os tontos coletes amarelos...

As televisões e os jornais andam num afã a contratarem mais opinadores de direita

Se Ricardo Costa, Sérgio Figueiredo ou Manuel de Carvalho, respetivamente responsáveis pela falta de qualidade da SIC, da TVI ou do Público, andam a despedir comentadores e a contratar outros, não têm apenas a rentabilidade como objetivo: os seus patrões - donos dos meios de (des)informação em causa - já compreenderam que o desgaste do governo e dos demais partidos da maioria parlamentar não será conseguido apenas com o concurso da Cofina ou do Observador. Apesar da má imprensa e do concurso de muitas greves motivadas por mesquinhos interesses corporativistas, António Costa e os partidos, com que pretenderá prosseguir coligado depois de outubro, vão, de acordo com as sondagens, mantendo uma média de 20 pontos acima da soma dos que se lhes opõem à direita.
Razão para quererem tornar constante um discurso direitista fiando-se nos pressupostos de Goebbels a propósito dos «méritos» das mentiras mil vezes repetidas. Como a que Marques Mendes emitiu sobre a redução da despesa no Serviço Nacional de Saúde, destinada a ser retomada pela Cavaca da Ordem dos grevistas cirúrgicos e seus concertados altifalantes, mas que é rigorosamente falsa, como o demonstrou o comunicado dos Ministérios das Finanças e da Saúde, que enalteceu o ter-se ultrapassado pela primeira vez os 10 mil milhões de euros no setor em 2018, ou seja mais de mil milhões acima do que se gastava em 2015. No entanto as televisões e os jornais darão sempre maior relevo às mentiras do anão da SIC do que ao esclarecimento fundamentado do governo.
Ao contratarem gente da estirpe de António Barreto ou Paula Teixeira Pinto para se juntarem ao casal Moniz e a outros figurões e figuronas dignos de autêntica galeria de horrores, o que os manipuladores da realidade pretendem é multiplicar essa disseminação de mentiras de forma a ocultarem o mais possível os números indesmentíveis do Instituto Nacional de Estatística e outras instituições mais ou menos independentes. Mas convirá, igualmente, estar atento ao que delas provirá, porque até mesmo o Banco Mundial veio agora desculpar-se por ter falsificado os indicadores chilenos, agravando-os quando estava Michelle Michelet na presidência e empolando-os quando era o seu rival de direita, Piñera.
Às vezes lamento a excessiva passividade com que as esquerdas reagem a tudo isto não arregaçando as mangas para contrariar ativamente o presente estado das coisas na comunicação social. O escândalo já é tão evidente, que deixá-lo tal qual está é um convite para ver piorado o que já é suficientemente mau...

quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

O tema da coragem no meio de desprezível bulha


Na biografia sobre a vida e obra de José Saramago, Joaquim Vieira relata situações em que o autor de «Memorial do Convento» foi a única voz discordante em reuniões do seu Partido quando nelas se buscava a unanimidade na aprovação das medidas discutidas. Esse desassombro na afirmação das convicções, mesmo implicando uma forma encapotada de ostracização interna, só superada com o Nobel, serviu de exemplo para o definir como homem de grande coragem.
Ora dessa qualidade, ou da falta dela, tem-se falado amiúde por estes dias a propósito da forma como se votarão as moções a serem discutidas no Conselho Nacional do PSD. A direção nacional pretende o esclarecedor escrutínio do braço no ar. O grupo passista exige voto secreto a pretexto de tornar «mais democrática» a decisão.
Estou incluído naquela imensa multidão de portugueses para quem, entre os dois lados em disputa, venha o Diabo e escolha. Rio não deixa de ser um conservador com tiques autocráticos e salazaristas na forma de zelar pelas contas públicas, mas avesso às questões culturais (para ele prescindíveis em favor de umas ridículas corridas de carros antigos!). Mas Montenegro, Hugo Soares & Cª são o paradigma do oportunismo elevado à sua máxima potência.
Nem uns, nem outros  revelam qualquer ideia para o país, especializando-se no maldizer da maioria de esquerda, mas sem esclarecerem o que fariam para conseguirem melhores resultados nos indicadores económicos e sociais.
Se tivermos de considerar qual constituirá o mal menor para a vida futura dos portugueses, aposto nos que não têm medo de dar a cara e assumir-se naquilo que acreditam. Sem pensarem nas consequências das suas opções. Mas, convém que se diga, que comparar a coragem de Saramago com qualquer dos que estarão presentes no cenáculo laranja, será como Mário de Carvalho um dia considerou num dos contos do Beco das Sardinheiras: confundir Manuel Germano com género humano! O que já se percebeu não ser possível: o género humano - pelo menos no que possa ter de grandioso! - não se coaduna com a perfídia intriguista que grassa no maior partido da oposição ...

quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

Theresa May e os conservadores a arderem em lume brando


Daqui a umas horas Jeremy Corbyn verá derrotada a moção de censura que procura derrubar o executivo de Theresa May. E ainda bem que assim será, porque seria precoce essa substituição por um novo governo trabalhista.
Tendo em conta que foram os Conservadores a criar a grande confusão, que está criada com o Brexit, que sejam eles a colher os elevados juros da sua decisão. A libra tem estado em contínua quebra, a inflação vai tornando mais insuportável o dia-a-dia dos que auferem rendimentos mais baixos e o desemprego vai dando sinais de se agravar: tudo consequências do previsto apartamento entre as Ilhas Britânicas e o resto do Continente.
Quer se decidissem por um novo referendo, quer garantissem um acordo alternativo de saída com a União Europeia, os trabalhistas enfrentariam consequências negativas, que os converteriam nos convenientes bodes expiatórios de Farage, Johnson & Cª. Que, aproveitando a memória curta dos eleitores mais desinformados, cuidariam de recuperar o papel de heróis, que julgam já ter conhecido.
No Reino Unido há muitas mudanças que urgem: a independência da Escócia, a união das Irlandas, a substituição da vetusta monarquia por enérgica república, e nenhuma delas depende da atual substituição de Theresa May pelo seu opositor...
Muito convirá a Corbyn, que a governação lhe venha cair no colo daqui a mais alguns meses...

segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

Teimoso me confesso: não vou com o estilo de Marcelo!


Semanas atrás um amigo que prezo, mas de quem me distanciam as opiniões sobre Marcelo Rebelo de Sousa, perguntou-me se não me andava a sentir cada vez mais isolado naquele que seria o quixotesco esforço de frequentemente denunciar o comportamento político do inquilino de Belém.
A melhor resposta a essa pergunta provém de vários setores que, nos últimos dias, têm equacionado até que ponto o populismo de Marcelo - que há quem designe como «popularucho»! - vem contribuindo para a contínua perda de fôlego nas sondagens, onde passou de quase unânime apoio do eleitorado para a sua progressiva divisão entre uma metade, que ainda alinha no seu estilo, e a outra que lhe prefere um outro mais de acordo com a dignidade da função. Num excelente texto, que Alfredo Barroso hoje publicou no «i», ele é dado como exemplo lapidar do tipo de telepopulismo, que tanto tem iludido os explorados para que se façam representar politicamente por quem os explora ou pelas suas marionetas. Porque, a exemplo de Trump, de Macron, de Balsonaro ou de Erdogan, o presidente português assumiu o cargo com o mesmo estímulo que, outrora, o levava a dirigir o PSD, a escrever artigos de jornal ou a fazer comentários nas televisões, tendo por trás a bem conhecida amizade com Ricardo Salgado e outros pretensos «donos disto tudo»!
Daí que aqui se continue a verberar uma presidência a contento dos que querem que as coisas continuem a ser como são!

Bons augúrios para este ano eleitoral

Saem novas sondagens e pouco diferem no que verdadeiramente importa: somados os três partidos das esquerdas valem mais vinte por cento, que outros tantos das direitas, o que pressupõe o relativo passeio, que constituirá cada um dos atos eleitorais deste ano. Para tal contribuirá não só o sucesso da governação, que os mesmos estudos de opinião confirmam não ser beliscado pelas repetitivas greves corporativas, mas também o clima de guerra civil no principal partido de oposição. 
Por certo mal aconselhado pelo suspeito do costume (Miguel Relvas) Montenegro terá dado tiro de pólvora seca, que o deixa exposto à letal reação de Rui Rio. Sobretudo, porque foi indisfarçável a motivação politiqueira, que o terá norteado na bravata anunciada no CCB. Sem ideias redentoras, que lhe justifiquem a iniciativa, facilmente será desqualificado por quem denunciará os propósitos estritamente pessoais de garantir para si, e para o grupo de correligionários à sua volta, os lugares de deputado, que sabem ficar-lhes vedados a partir da tomada de posse da próxima legislatura. 
Só não se compreende a razão do convite de Marcelo para o receber em Belém, algo de tão esdrúxulo quem nem um indefetível do presidente, como Pedro Marques Lopes, encontra qualquer razão que o explique. Mas que dizer de quem se começa a discutir se é populista ou popularucho e que vai conhecendo acentuado desgaste nas sondagens, mês após mês?

domingo, 13 de janeiro de 2019

Não se ganhando de uma maneira, tenta-se de outra


Nas eleições de 2000 Al Gore teve mais votos do que George W. Bush e viu o opositor ganhar o acesso à Casa Branca. Em 2016 a situação repetiu-se: os três milhões de votos a mais em Hillary Clinton não impediram Donald Trump de ser empossado como presidente dos EUA.
As direitas portuguesas muito gostariam de encontrar algo de semelhante para conseguirem que, mesmo sendo minoritárias sociologicamente junto do eleitorado, a governação lhes voltasse a cair nas mãos. Foi isso que se discutiu na Convenção, que o Movimento Europa e Liberdade promoveu na semana agora finda no auditório da Culturgest, e é  essa mesma campanha que Fátima Campos Ferreira intentará prosseguir com o seu programa televisivo de amanhã à noite. A conclusão é esta: desde que a atual maioria parlamentar demonstrou que, com o presente sistema eleitoral, as coligações deixaram de só serem possíveis à direita, haverá que o mudar para outro, que replique o resultado anterior.
O pretexto é uma mentira descarada: o eleitorado está a abster-se cada vez mais, porque os deputados não tenderiam a representar a vontade dos cidadãos. Ora o problema nunca é posto na sua devida equação: foram os partidos das direitas, e, sobretudo, os interesses que representam, quem apostaram no afastamento entre votantes e votados, ao alienarem a consciência cívica dos portugueses com o que os tende a mediocrizar: dois dos tais éfes tão prezados pelo fascismo - o futebol e Fátima - associados ao consumismo, que imita as drogas duras no seu potencial de virulência. Envenenados por padres e pastores evangélicos, atiçados num clubismo doentio e instados a comprarem o que necessitam, frustrando-se por não alcançarem o que lhes é mostrado como cenoura, mas nunca alcançam, os politicamente mais indefesos indignam-se e sentem ganas de se associarem a coletes amarelos e outras coisas ainda piores.
Utopicamente poderíamos pensar que a solução era correr com as Fátimas, os Gouchas, os Orelhas e outros trastes que tais dos écrãs e substitui-los por quem assumisse a importância do papel das televisões enquanto ferramenta de formação dos espectadores dotando-os de sentido crítico para melhor entenderem o quanto os manipulam para que sirvam interesses contrários aos seus. Trata-se de solução impossível, porque as direitas apossaram-se de tal forma dos canais mediáticos, que a desajeitada tentativa de Sócrates para lhes beliscar o monopólio deu no que deu.
Resta aos partidos das esquerdas serem mais proactivos no seu papel: não apenas em anos de eleições, importa que acorram regularmente a mercados e estações de transportes para encontrarem as populações, propondo-lhes as soluções, mas também ouvindo-as, porque - constato-o por experiência própria, quando faço campanhas eleitorais! - existe uma apetência enorme de um número significativo de cidadãos em darem expressão às suas inacessíveis aspirações. A que só uma política consistente de redistribuição de rendimentos poderá dar progressiva satisfação.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

Como de costume, as direitas arrasadas no debate parlamentar


O primeiro debate parlamentar do ano entre o primeiro-ministro e a oposição replicou o costume: o PSD com um nervosismo inerente a estar a passar por disputas autofágicas e o CDS a escolher o insulto e os ataques pessoais como forma de escamotear a sua completa ausência de argumentos.
As direitas agarram-se ás dificuldades do Serviço Nacional de Saúde, qualificando-o de caótico, mas Jerónimo de Sousa identificou bem o motivo de tanta celeuma: uma campanha orquestrada de vários canais de propaganda para impedirem a secundarização dos interesses privados na satisfação das necessidades da enorme maioria dos cidadãos. Os mandantes dos políticos das direitas e donos dos jornais e televisões, que lhes sustentam a cruzada, receiam o desiderato do processo governativo dos últimos anos, caracterizado por contratação de mais profissionais, concretização de mais atos médicos e construção de novos hospitais, culminando num SNS à medida do definido na Constituição: o direito universal e gratuito à saúde, que sonegue aos grupos económicos do setor a prossecução do seu obsceno negócio. Muito justamente António Costa deixaria no ar a pergunta da razão, porque os telejornais não visitam os hospitais privados onde, por estes dias, os tempos de espera também se têm mostrado exagerados.
As direitas agitaram, igualmente, a enorme falácia do Plano Estratégico de Transportes e Infraestruturas que deveria estar concluído em 2020, mas só se concretizou em 20%. António Costa pôs bem os pontos nos is: para além de estarem atualmente em execução 40% dos trabalhos previstos e outros 20% em vias de concluírem a fase de projeto, o que o governo encontrou há três anos, ao tomar posse, foi um mero power point, sem estudos fundamentados do que se pretendia, nem muito menos concursos lançados para a sua concretização. Pior ainda: não se operara a necessária ligação com as autoridades europeias para viabilizarem as verbas para els canalizáveis.
As direitas deveriam ter vergonha de utilizarem uma fake new desta natureza. Porque se Cristas gosta de enfatizar a suposta «incompetência» do primeiro-ministro teria de olhar para si e para os comparsas do governo anterior, como tendo a enormíssima responsabilidade pelo que deixaram estragado e este governo, e  esta maioria parlamentar, têm andado a consertar.
É evidente que as direitas olham horrorizadas para os sucessos, que as circunstâncias tendem a comprovar doravante como resultado da solução política encontrada há três anos. Por isso mesmo agitam-se, nervosas, com o receio de se verem reduzidas a expressão ainda mais minguada na capacidade de condicionarem o futuro dos portugueses. Se tantos oponentes de Rui Rio se manifestam é por temerem o que as urnas ditarão nos sucessivos atos eleitorais deste ano. Mudar alguma coisa para que, da sua parte, ideologicamente, tudo fique na mesma, é a estratégia, que lhes resta. E que não lhes evitará o anunciado fracasso.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

O crepúsculo de dois deuses menores


É uma chatice ver chegado o final de um mandato em funções a termo e saber-se à beira de procurar novo modo de vida.  No entanto, enquanto é possível, esbraceja-se, estica-se o corpo na ponta dos pés, faz-se os possíveis por arranjar quem interceda em seu favor.
Nos últimos dias esse tipo de situação repetiu-se com Francisco Assis e com António Filipe Pimentel.
O primeiro foi um notório opositor à opção do Partido Socialista em coligar-se com os partidos à esquerda, sendo-lhe conhecidas afirmações enfáticas em como seria lícito que, após as eleições de 2015, fosse Passos Coelho a liderar o governo com a abstenção ativa do que seria o principal partido da oposição.
Pode-se imaginar como teria involuído o país se a vontade de Assis tivesse sido satisfeita? Agora, estando em vias de perder as mordomias do precário cargo, desdobrou-se em entrevistas lançando a António Costa o insólito recado: ele que liderara a lista socialista nas europeias anteriores, predispunha-se a abdicar dessa primazia conquanto fosse considerado para lugar elegível.
António Costa fez orelhas moucas à cantilena a lembrar uma canção do Sérgio Godinho («Arranja-me um emprego!») e dispensou a oferta do camarada a quem não deixará de agradecer pelo «contributo» desenvolvido nos últimos anos.
Com o ainda diretor do Museu Nacional de Arte Antiga, António Filipe Pimentel, acontece algo de semelhante. Nos últimos anos ele tem participado ativamente na contestação à política ao governo socialista a quem exigiu aquilo que nunca obtivera, quando estivera em funções o anterior de quem era assumido simpatizante. Aliás, foi notória a sua passagem por um cenáculo do CDS, há um par de anos, em que exagerou nas críticas à tutela vindo logo penitenciar-se, quando compreendeu o risco de ver acelerado o processo de ser devolvido à procedência.
Agora, com a intenção do governo em lançar um concurso internacional para a indigitação de um novo diretor para a instituição, anunciou-se indisponível para continuar num cargo para o qual teria de se bater, de igual para  igual, com outros candidatos e multiplicando as críticas ao Ministério da Cultura. Lamentavelmente a RTP prestou-se a servir de altifalante ao iminente desempregado, dando-lhe o ensejo de dizer-se disposto a continuar se lhe satisfizessem todas as birras.
O caso lembra o da antecessora, Dalila Rodrigues, cuja substituição pelo governo Sócrates motivou críticas de Cavaco Silva e manifestações no jardim da Rua das Janelas Verdes. A exemplo do que sucederá a António Filipe Pimentel, a então diretora era elogiada pelo trabalho feito, que a tornariam imprescindível. O resultado viu-se: quase nove anos depois quem ainda se lembra que Dalila existiu?

Gente infeliz com lágrimas


Fórum de viúvas do passismo. Foi a fórmula assassina utilizada por Carlos César para classificar o encontro promovido pelo chamado Movimento Europa e Liberdade, que merecerá bem mais atenção dos media do que justificaria o valor dos seus participantes. Quase, ou senão mesmo todos, gente medíocre, que só a determinação arrivista possibilitou alguma notoriedade mediática. É sina do país ter de arcar com quem falha em engenho e arte, criando desnecessários entraves a quem efetivamente os possui.
Adivinhando o quanto as orelhas lhe ficarão a arder, Rio pôs-se de fora. António José Seguro e Francisco Assis foram convidados. e aceitaram aparecer mas, quando se deram conta do papel de idiotas úteis, que lhes estava reservado, puseram-se de fora. Marcelo gostaria muito de ir e chegou a ponderar o envio de mensagem simpática, mas compreendeu a inconveniência de se lhes colar numa altura em que o preocupa o segundo mandato. Por muito que execre as esquerdas, ainda não é para si o tempo de as enfrentar como lhe ditaria o instinto.
É claro que se adivinham os conteúdos dos discursos tão vazios de ideias concretas para o país, quão ocas andam aquelas cabeças incapazes de se reformatarem para algo de diferente das costumeiras fórmulas testadas e esgotadas. Nenhum dos convivas quer reconhecer que as mãos invisíveis evaporaram-se e os mercados se tornaram tão disfuncionais, que o caos espreita ao virar da esquina como o seu efémero herói - Macron - anda a constatar.
Alheados de tal premissa, os telejornais abundarão em extratos do que se dirá na Culturgest com destaque para quem aposta na quadratura do círculo: exigir mais investimento nas funções do Estado e, ao mesmo tempo, reduzir os impostos, eliminar as propinas ou satisfazer as indecorosas pretensões corporativas. Aquela gente infeliz com tantas lágrimas de crocodilo pelos que fizeram sofrer, e de cuja má sina fingem agora compaixão,  deve julgar que nos toma a todos por parvos...

quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

Os corruptos incorruptíveis


Uma coisa esdrúxula chamada Transparência e Integridade, própria daquele tipo de gente que proclama as virtudes públicas e, quase sempre oculta, vícios privados, veio mostrar-se indignada pela reação negativa do governo ao relatório da OCDE, preparado pelo apastelado Álvaro Santos Pereira, em que denuncia Portugal como um país marcado pela corrupção e, como tal, inadequado para que capitais estrangeiros nele queiram investir.
É claro que para os apaniguados daquele candidato presidencial com cara de obstipado sacristão, que dá pelo nome de Paulo Morais, importa proclamar que a corrupção, exista em maior ou menor grau, por constituir pasto em que chafurdam em busca de alimento. Os pretensos incorruptíveis não ponderam que o gesto do autor do relatório é, ele próprio, um exemplo lapidar de corrupção, porque o que se poderá dizer de quem chegou ao seu cargo por habilidade arrivista e dele se serve para prosseguir a aplicação de uma agenda política, que já era a sua antes de integrar o governo anterior? Desonestidade intelectual é o mínimo, que se poderá dizer do relator em causa e dos seus putativos defensores locais.

Entre o indignarmo-nos e o calarmos a indignação


Não concordando com o essencial do conteúdo da crónica de Daniel Oliveira no «Expresso» de ontem em que acaba a dar o benefício da dúvida à estratégia do irmão luso do jagunço brasileiro contra o mau populismo, tenho de convir na sua razão, quando escreve: “Vivemos um tempo difícil em que lidamos com um paradoxo: quando mais nos indignamos com o indefensável mais ajudamos o indefensável.”
De facto, quando se trata de coisas inaceitáveis como o episódio ocorrido no programa do Goucha, justifica-se que nos questionemos se valerá a pena dar-lhe a importância verificada nas redes sociais, porquanto ter-se-á aqui verificado uma lógica da regra de não haver má publicidade, apenas publicidade. Ou como dizia um colaborador meu há uns bons anos: “não importa que digam bem ou que digam mal. O que importa é que de nós falem!”.
Os tempos atuais não se coadunam com o que nos dizia a experiência passada, que encontrava valimento em desprezar o que se revelava desprezível. É que as redes sociais tendem a favorecer o que é crapuloso em detrimento do ético, se não dermos particular enfoque a esta última dimensão.