quarta-feira, 24 de junho de 2026

Quatro Espelhos do Mesmo Mundo

 

Há semanas que os assuntos cruzam-se por puro acaso e ainda assim contam a mesma história.

Em Londres, António Guterres exigiu que as gigantes da inteligência artificial revelem o seu verdadeiro custo ambiental. "Chega de custos escondidos", disse, lembrando que os centros de dados consumiram 448 terawatts-hora de eletricidade em 2025 — mais do que a maioria dos países do mundo. O secretário-geral da ONU não pediu caridade. Pediu contabilidade. Quem promete revolucionar o futuro devia começar por dizer quanto isso custa hoje, e a quem.

Em Genebra, a Comissão Internacional Independente de Inquérito da ONU divulgou novo relatório sobre Gaza: crianças palestinianas têm sido deliberadamente alvejadas e mortas pelas forças de segurança israelitas, num padrão que persiste mesmo depois do cessar-fogo de outubro. Pelo menos 20 179 crianças mortas entre outubro de 2023 e outubro de 2025 — cerca de 30% de todas as vítimas, proporção superior à de qualquer conflito anterior em Gaza. A comissão fala de ataques aos serviços de maternidade, de fome usada como arma, de uma estratégia para destruir a continuidade biológica de um povo. Israel chama-lhe farsa caluniosa. Os números, voláteis e mortais, não se importam com o nome que lhes dão.

Em Lisboa, os dados do Eurostat mostram outra forma de violência, mais lenta mas igualmente concreta: Portugal é o sétimo país da União Europeia com maior esforço real das famílias face ao custo dos combustíveis, à frente de praticamente toda a Europa Ocidental — mais penalizado do que a Espanha, a França, a Alemanha, a Suécia. Não é fatalidade geográfica. É política fiscal de um governo que prefere tributar quem enche o depósito a tributar quem acumula lucros, e que descobre nos impostos sobre combustíveis a receita que falta noutro lado.

Em Nova Iorque, as ações da SpaceX perderam 600 mil milhões de dólares de valor em três sessões, depois de uma estreia em bolsa que tinha feito de Musk o primeiro bilionário a tornar-se trilionário. A empresa que prometia o maior mercado da história humana lembrou Wall Street de uma lei mais antiga do que qualquer foguetão: quem sobe pela euforia desce pela física. Avaliada a 175 vezes os seus resultados, sem fundamentos que sustentassem a fantasia, a queda não foi acidente — foi correção.

O que une estes quatro episódios é a mesma pergunta sem resposta satisfatória: quem paga a fatura do que outros decidem? As famílias portuguesas pagam a fatura da política fiscal de Montenegro. As crianças de Gaza pagam a fatura de uma guerra que escolheram não fazer. O planeta paga a fatura de uma corrida tecnológica cujos custos ambientais ninguém quer revelar. E os investidores que compraram a fantasia espacial de Musk pagam, finalmente, a fatura da sua própria euforia — a única fatura desta lista que tem alguma justiça poética em ser paga por quem a contraiu.

As outras três, infelizmente, continuam a ser pagas por quem nunca assinou a conta. 

terça-feira, 23 de junho de 2026

Os Pacotes e o Vazio

 


José Luís Carneiro tem razão. Quão bom seria este governo se a apreciação incidisse sobre o número dos pacotes de medidas anunciados e não sobre a sua concretização. Porque quanto a essa bitola nenhuma se pode perfilar como contabilizável se excluirmos as de conteúdo mais do que ambíguo, porque pensadas para dificultar a vida (emigrantes, transsexuais) a quem a já não tem nada fácil.

Em dois anos já lá vão duas dúzias de pacotes, todos anunciados com a mesma promessa de fazer Portugal um país maior, ao jeito enganador com que também Trump prometeu ao eleitorado MAGA uma grandeza que nunca chegou a materializar-se em bem-estar real.

Resultados? O Governo trata de não os reconhecer, mas a realidade não precisa da sua autorização para existir. Na saúde, mais pessoas sem médico de família do que há dois anos. Na habitação, preços que continuam a subir e a expulsar a classe média das cidades onde trabalha. Na qualidade de vida, a inflação a acelerar — 3,4% em abril — enquanto o primeiro-ministro considera que "não é ainda motivo de alarme", o que é uma forma elegante de dizer que o alarme só toca quando lhe toca a ele. No emprego para os jovens, a precariedade que persiste sem que nenhum dos vinte e cinco pacotes a tenha revertido. E até nas "contas certas" — o único trunfo que este governo gostava de reivindicar sem contestação — os números da execução orçamental do primeiro trimestre mostram o que Carneiro chamou, com precisão, a prova dos nove: receita inflacionada por impostos sobre combustíveis, não por crescimento genuíno da economia.

Há uma frase de Montenegro, dita sobre outro contexto, se adapta aqui com ironia exemplar: o país vai mal, e os portugueses muito piores. Era para descrever a herança que recebeu. Descreve, com mais justiça, o que vai deixando.

Vinte e cinco pacotes e o problema continua intacto debaixo do papel de embrulho. Em política, como em economia doméstica, há um limite para quantas vezes se pode vender a mesma promessa antes de o comprador perceber que está a pagar pelo embrulho, não pelo conteúdo.

segunda-feira, 22 de junho de 2026

A Inveja com Toga

 

A economia espanhola é, neste momento, a referência da zona euro. Cresceu 2,8% em 2025, mais do triplo da média da União Europeia, criou meio milhão de empregos por ano e reduziu o desemprego para níveis que não se viam há décadas. O FMI elogia. O Banco de Espanha revê em alta. Mesmo a guerra no Irão, que está a complicar tudo à escala global, mal arranha as previsões espanholas. É um desempenho que qualquer governo europeu assinaria de cruz.

E é precisamente por isso que a direita espanhola, incapaz de o contestar nos números, foi à procura de outro terreno: os tribunais.

Begoña Gómez, mulher de Pedro Sánchez, está indiciada por uma cátedra universitária após dois anos de instrução em que o próprio Ministério Público pediu o arquivamento por falta de provas. David, irmão do primeiro-ministro, é julgado em Badajoz por um posto de trabalho atribuído em 2017, quando Sánchez nem chefiava o governo. São casos que, noutro país europeu qualquer, dificilmente sairiam da secção de notícias locais. Em Espanha, ocupam capas de jornais e moções de censura.

Há uma distinção que importa fazer, e que o próprio Sánchez faz: quando os indícios são sólidos — como nos casos de Ábalos e Santos Cerdán, antigos dirigentes socialistas com fortes suspeitas de corrupção —, o primeiro-ministro reconhece-os e pede desculpa. Quando os casos envolvem a mulher e o irmão, com instrução conduzida por um juiz que o próprio Ministério Público contraria, Sánchez fala de "máquina de lodo" e de juízes "a fazer política". A diferença entre os dois tipos de processo é precisamente o que torna a acusação de perseguição credível em vez de conveniente.

O Partido Popular e o Vox não têm projeto económico que rivalize com os números atuais. O que têm é paciência judicial e magistrados ideologicamente alinhados, dispostos a transformar processos fracos em desgaste político permanente. As sessões nas Cortes tornaram-se, por isso, um exercício de agressão verbal sem correspondência na gestão do país — porque é mais fácil gritar sobre uma cátedra universitária do que explicar por que motivo a alternativa governaria melhor.

A ânsia pelo poder, quando não tem como se justificar pelo mérito, recorre ao expediente mais antigo da política: já que não se pode vencer pelos resultados, tenta-se vencer pelo desgaste. A história julgará se a justiça espanhola serviu a lei ou a inveja.

sábado, 20 de junho de 2026

O Golaço na Própria Baliza

 

Hugo Soares avisou as bancadas de esquerda que teriam de engolir a aprovação da contrarreforma laboral. Era a previsão de quem julgava o resultado fechado. Mas levou um chapadão que não veio da esquerda mas do Chega, que se juntou a PS, Livre, PCP, Bloco, PAN e JPP para chumbar o "Trabalho XXI" na generalidade. Toma lá o golaço, secretário-geral do PSD. E foi mesmo ao fundo da própria baliza.

Não é bonito gozar com a fanfarronice. Mas há-as que pedem o troco.

Dito isto, fique claro: não se queira o Chega associar a esta vitória. Ventura justificou o voto com a idade da reforma e as "reformas milionárias" — populismo de quem precisa de parecer próximo dos trabalhadores sem nunca ter defendido um direito laboral na vida. O cálculo eleitoral, não a convicção, moveu aquele voto.

Quem derrubou o pacote foi outra gente: a CGTP e os milhares de trabalhadores que pararam o país por duas vezes em greve geral. Foi essa pressão sustentada, e não a aritmética parlamentar de ocasião, que tornou o diploma impossível de aprovar sem alterações que o Governo se recusava a fazer. Tiago Oliveira, visivelmente emocionado nas galerias, resumiu bem: ficou provado que é a luta dos trabalhadores que determina o desfecho.

Luís Montenegro comparece hoje no Congresso do PSD com a cara de defunto que a derrota lhe deixou. Resta-lhe o número do Calimero incompreendido — o primeiro-ministro que tudo fez bem e que o mundo, injustamente, não reconhece. Já disse que não vai desistir de "tornar o país competitivo". É a linguagem do costume: competitividade que se mede pela fragilização de quem trabalha, nunca pela responsabilização de quem lucra.

Quem o dizia bem sabia: só é derrotado quem desiste de lutar. Os trabalhadores não desistiram — pararam o país duas vezes e venceram à terceira, no Parlamento. A lei está morta, sem promulgação, sem fiscalização, sem Belém a decidir nada — chumbada na generalidade, não segue caminho nenhum. Fica provado o essencial: quem trabalha acaba por se erguer, mais tarde ou mais cedo, contra o que o prejudica. Foi assim com Palma Ramalho. Será assim sempre que for preciso. 

Os Dois Brunos

 

Esta semana deu protagonismo a dois Brunos, ambos polícias e ambos espelho do mesmo problema visto de ângulos diferentes.

Bruno Pinto matou Odair Moniz a tiro, na Cova da Moura, em outubro de 2024. O tribunal deu como provado que a vítima não tinha faca — a arma branca só apareceu no local entre vinte a trinta minutos depois da morte, com ADN inexistente, numa narrativa que os próprios juízes classificaram de "desprovida de lógica". Mesmo assim, consideraram que houve legítima defesa, "com excesso de meios", e afastaram qualquer hipótese de crime de ódio. Resultado: três anos e seis meses, suspensos. O agente pode voltar à PSP. A decisão cabe à própria PSP julgar-se a si mesma.

Bruno Gonçalves, chefe da Polícia Municipal de Lisboa e antigo agente da PSP, liderava o Movimento Armilar Lusitano — um grupo neonazi com armas impressas em 3D, modelos como a FGC-9 e a Not-a-Glock, granadas de morteiro e incendiárias fabricadas artesanalmente, treinos táticos e um arsenal pensado para "ações futuras contra o Estado". A acusação do DCIAP revela algo notável: entre os alvos vigiados estava a casa de Luís Montenegro, com um plano que incluía disparar uma granada por uma janela. O grupo não escolhia vítimas pela cor política — escolhia-as pelo facto de representarem o Estado que odiava.

Dois Brunos, duas medidas. Um matou um homem desarmado e ouviu o seu superior elogiá-lo. O outro organizava uma milícia armada com intenção declarada de atacar instituições e pessoas, incluindo o próprio primeiro-ministro, e só não avançou porque lhe faltaram meios — não vontade.

O que ambos os casos revelam, em conjunto, é mais perturbador do que cada um isoladamente: há, dentro das forças policiais portuguesas, uma tolerância estrutural à violência quando exercida contra quem já é vulnerável, e uma permeabilidade preocupante à ideologia mais extrema quando se veste de uniforme. Não são fenómenos isolados de "maçãs podres" mas sintomas de uma instituição que recruta, forma e protege sem perguntar o suficiente sobre quem está a armar.

A justiça que suspende a pena de quem mata e investiga durante anos quem planeia matar não está a falhar por acidente. Está a revelar o que sempre esteve lá. 

quinta-feira, 18 de junho de 2026

O Pior Cego

 


Não há pior cego do que quem não quer ver — o provérbio é antigo e a sua aplicação nunca foi tão generosa em exemplos como agora.

Os prosélitos da Iniciativa Liberal continuam a acenar com os altos salários dos países do norte da Europa como prova de que o liberalismo económico funciona. Esquecem, propositadamente, que esses salários são a herança de décadas de políticas sociais-democratas em que os direitos dos trabalhadores não eram obstáculos ao crescimento mas condições dele. Herança que as próprias direitas do norte tratam de dilapidar, mas ainda resiste o suficiente para servir de argumento a quem prefere a conclusão ao raciocínio.

Ana Mendes Godinho lembrou no Público o que a narrativa contrária produziu quando já foi experimentada: as alterações ao Código do Trabalho de 2012, feitas em nome da modernização e da competitividade, geraram uma taxa de precariedade de 19,5%, que entre os jovens atingiu 60% — doze pontos acima da média europeia. O desemprego jovem escalou para 38,5%, catorze pontos acima da média da União Europeia. O crescimento que a desregulação prometia não apareceu. A precariedade ficou.

Foi a inversão dessas políticas — a aposta nos direitos laborais, no salário mínimo, na redução da precariedade — que produziu os resultados que Montenegro, Sarmento e companhia hoje gostariam de poder replicar. O PIB crescia, as contas estavam certas, o défice controlado. Portugal aparecia nas estatísticas europeias como caso de sucesso. Agora pedem à precarização que faça o que a dignificação do trabalho já demonstrou conseguir — e chamam-lhe modernização.

O pior cego não é o que nasceu sem visão. É o que a tem, fecha os olhos e pede a outros que descrevam o que está à frente.

O Silêncio das Partidas

 


A manicura da Elza mudou-se com a família para a Beira Alta. Não por amor à serra nem por nostalgia rural mas por ser o único lugar onde encontrou casa compatível com o que ela e o marido ganham. O jardineiro que todos os anos limpa o terreno que recebi de herança escusou-se este ano: está de regresso ao Brasil.

São dois casos. Apenas dois. Mas multiplicados pelos milhares de famílias brasileiras, cabo-verdianas, angolanas, nepalesas que nos últimos meses foram fazendo as malas em silêncio, sem conferência de imprensa nem declaração ao Jornal das 8, percebe-se o que está em curso: um esvaziamento lento mas consistente das grandes cidades do litoral, operado não por nenhuma lei de remigração mas pela mais eficaz das pressões — a impossibilidade económica de ficar.

A política de habitação deste governo, que dificulta o arrendamento e torna a compra inacessível a quem se situava na classe média, está a produzir o resultado que a ADEGA nunca ousaria anunciar em campanha mas que Ventura certamente contempla com satisfação privada. A xenofobia não precisa de sujar as mãos quando o mercado faz o trabalho.

Pedro Marques Lopes confessava há dias conhecer empresários aflitos por não encontrarem mão-de-obra para fábricas e construtoras. O paradoxo é delicioso na sua crueldade: muitos desses empresários foram, e continuam a ser, financiadores do Chega. Pagaram para que os imigrantes fossem tratados como problema — e agora descobrem que o problema é não os ter. O banho de realidade aproxima-se e promete ser devastador.

A ADEGA irá despertar tarde para esta dinâmica, como se acorda sempre tarde para as consequências do que se semeia com pressa e sem pensar. Quando acordar, procurará culpados à esquerda — é o reflexo do costume. Mas os imigrantes que partiram não deixaram endereço de reencaminhamento. Levaram consigo o trabalho, as rendas pagas, os filhos nas escolas, a manicura de bairro, o jardineiro de confiança.

Ficou o discurso. Que não limpa terrenos nem faz unhas.

A Compaixão em Falta

 


Confesso-me ateu impenitente, o que me dispensa de julgar quem quer que seja por critérios teológicos. Mas quando ouço as ministras do Trabalho e da Saúde no parlamento fico boquiaberto — não pela falta de fé, que é assunto de cada um, mas pela falta de humanidade, que é assunto de todos.

Maria do Rosário Palma Ramalho e Ana Paula Martins falam dos mais pobres e dos imigrantes com a frieza clínica de quem gere categorias estatísticas, não pessoas. A lei laboral que facilita despedimentos, a Prestação Social Única que recorta apoios, a Lei da Nacionalidade que trata emigrantes como problema a resolver — tudo embrulhado numa linguagem de responsabilidade orçamental que serve de anestesia à consciência e de escudo ao escrutínio. O resultado é a estigmatização sistemática de quem já é vítima: torná-los mais vulneráveis aos preconceitos racistas e xenófobos que a ADEGA cultiva como eleitorado.

Não sei se estas senhoras são praticantes da religião cristã — é provável, dada a filiação política, mas não é certo e não me compete presumir. Se o forem, porém, há uma pergunta que o seu Deus lhes fará antes de mim: o que fizeram da compaixão? O que fizeram da bondade para com os humilhados e ofendidos? Porque o Cristo dos Evangelhos — aquele anterior às encíclicas, aos concílios e às cumplicidades com o poder — era inequívoco quanto aos pobres, aos estrangeiros e aos marginalizados. Não os tratava como categorias orçamentais. Sentava-se à mesa com eles.

A tradição cristã tem um nome para quem professa a fé e pratica o contrário: hipocrisia. E tem, nas suas profundezas doutrinárias, um lugar reservado a quem acumulou poder e o usou contra os mais frágeis. Não sou eu que o digo — é o livro que eventualmente têm na mesa de cabeceira.

Como ateu, poupo-me ao juízo final. Mas o juízo da história é igualmente implacável — e este, ao contrário do outro, é inevitável.

domingo, 14 de junho de 2026

A ADEGA e os Seus Ventos

 


Daniel Oliveira encontrou o acrónimo certeiro: AD de coligação entre PSD e CDS, EGA das três letras do Chega. ADEGA. Uma aliança que se bebe em doses cada vez menos disfarçadas e começa a revelar os efeitos da embriaguez — a que confunde maioria momentânea de deputados com mandato histórico e transforma uma vitória eleitoral apertada na justificação para uma governação de direita radical.

A ADEGA tem programa. Na Lei da Nacionalidade, a guerra aos emigrantes — aqueles que construíram este país quando ele precisava de braços e agora são tratados como problema a resolver por quem beneficiou do seu trabalho. Na Prestação Social Única, a guerra aos pobres — o recorte das prestações sociais embrulhado na linguagem da racionalização, como se a miséria fosse um excesso burocrático a corrigir. São duas frentes do mesmo projeto: um país mais estreito,  hostil, confortável para quem já tem e mais duro para quem não tem nada.

Ferro Rodrigues, que conhece a casa por dentro, deu o conselho que a aritmética parlamentar justifica: perante tão acintosa aliança, votar contra o próximo orçamento é o mínimo que a decência política exige à esquerda. Não por prazer de desestabilizar — por recusa de cumplicidade. Um orçamento é um documento político, não uma peça técnica neutra, e este orçamento será o da ADEGA: quer de Ventura, quer de Montenegro, mesmo se este fingir o contrário.

A embriaguez pelo poder tem a desvantagem de todos os estados alterados: quem a vive não a reconhece. Montenegro continua a tratar Ventura como parceiro controlável, como se o abraço de urso fosse um gesto de afeto. Ventura continua a receber o que quer — das políticas às fotos — sem ceder nada em troca, porque não precisa de ceder: está a ganhar sem governar, que é a posição mais confortável da política.

Quem semeia estes ventos tumultuosos colherá as expectáveis tempestades. A questão é se a esquerda terá a lucidez e a unidade para que essa colheita aconteça nas urnas — e não depois, quando o estrago já estiver feito.

A noite e a manhã

 


José Vieira Mendes questiona se a obsessão com Salazar — dois filmes, um estreado, outro por estrear — faz sentido. Para mim faz. O público será reduzido, é certo, e não incluirá a gente que suspira pelo ditador com a memória seletiva de quem esqueceu a miséria do Portugal de então e confunde a “ordem” com o medo sistemático sobre quem se atrevia a pensar diferente. Mas é precisamente por essa gente existir que os filmes, os documentários, os livros e as canções são necessários — não para a converter, que é tarefa inglória, mas para que a memória não seja monopolizada pela nostalgia.

Os anos de fascismo foram uma longa noite escura. A formulação é de Sophia de Mello Breyner Andresen, que sabia do que falava, e a manhã clara a que aludia não foi oferecida — custou coragem, prisão, exílio e sangue a quem recusou normalizar a escuridão. Lembrar isto não é arqueologia. É higiene cívica.

Num momento em que Luís Montenegro anda de braço dado com André Ventura sem aparentemente perceber o abraço de urso que este lhe aplica, a memória do que o fascismo foi torna-se mais urgente do que decorativa. O PSD está a ser lentamente redefinido pela cumplicidade com quem tem no racismo e na xenofobia o combustível mais evidente do seu projeto político. Montenegro julga usar Ventura; Ventura sabe que é o contrário.

As sondagens começam a dar sinais animadores: a maioria dos portugueses não se revê nessa cumplicidade. Condena o racismo, a xenofobia, a deriva que ameaça um dos partidos determinantes da democracia pós-25 de Abril. É uma maioria silenciosa que as próximas eleições terão de traduzir em votos — porque as maiorias silenciosas que não votam são, na prática, maiorias que abdicam.

Dois filmes sobre Salazar não mudarão isso sozinhos. Mas fazem parte do mesmo esforço: o de garantir que a noite seja reconhecível quando regressa — e que não seja confundida, desta vez, com a ordem.

A lucidez dos que perderam

 


Há uma ironia que a história reserva aos que perderam o poder: por vezes, é então que começam a ver com clareza. A Igreja Católica —grande superpotência do passado, com tantos anos de crimes acumulados sobre quem declarava herege, cismático ou simplesmente inconveniente — dá sinais, com Robert Prevost, de ter compreendido algo que escapa aos donos do presente.

A encíclica sobre a inteligência artificial não é um documento revolucionário. Está condicionada pelos preconceitos de uma instituição que ainda não resolveu a sua relação com as mulheres, a diversidade sexual, os crimes que encobre debaixo dos tapetes das sacristias. Mas o diagnóstico económico é, curiosamente, consonante com o que o pensamento progressista do século XIX estipulava: a primazia das pessoas sobre a tecnologia, reduzida à função acessória de meio de produção, e a humanidade entendida como unidade solidária — o que foi, no seu tempo, o conceito da solidariedade internacionalista que Marx e Engels opunham ao nacionalismo dos proprietários.

Quem deteve grande poder e sabe não o vir a recuperar adquire, por vezes, uma lucidez que falta a quem ainda julga tê-lo. Os novos donos do mundo — Musk, os fundos soberanos, os algoritmos que decidem créditos e empregos — não têm encíclicas nem remorsos. Têm prospetos para a SEC (Securities and Exchange Commission) e data centers em zonas de baixa fiscalidade. Não perderam nada ainda. E é precisamente isso que os impede de ver.

O mundo avança em metafóricos carris — a concentração de capital, a crise climática, a agudização das desigualdades — e há uma multidão desnorteada nos cais das respetivas estações: os nacionalistas apostam em restaurar fronteiras que o capital há muito ignorou, os nostálgicos de impérios que a história encerrou, os tecno-otimistas convictos de que o próximo algoritmo resolverá o que os anteriores agravaram. Perderam o comboio e discutem a cor da locomotiva.

Que seja um papa, formado numa tradição que tem tanto a expiar, a lembrar que a tecnologia serve as pessoas e não o inverso — e a humanidade é um todo cujas divisões a condenam — diz menos sobre a Igreja do que sobre o estado do pensamento dominante. Quando a voz lúcida na sala é a de quem chegou tarde e com as mãos sujas, a sala tem um problema sério.

sexta-feira, 12 de junho de 2026

Os Fantasmas e o Clima

 


Um cronista do Público assinalou esta semana algo que merece desenvolvimento: as guerras de Putin e de Trump são, no fundo, guerras de fantasmas. O primeiro quer restaurar o império soviético que a história encerrou em 1991 e nunca existiu exatamente como ele o imagina. O segundo quer restaurar a América industrial do século XX, a da hegemonia incontestada, a de antes dos japoneses, dos chineses e da realidade. Ambos guerreiam contra o passado com armas do presente e produzem, no processo, um futuro que nenhum dos dois controla.

A China observa. Sem o lastro desses fantasmas — sem império a restaurar, sem hegemonia perdida a recuperar —, avança com a paciência de quem sabe que o tempo joga a seu favor. Xi Jinping não precisa de fazer a América grande outra vez nem de reconquistar Kiev. Precisa de continuar a crescer, a investir em infraestrutura global, a comprar a dívida de quem lha vende e a esperar que os outros se esgotem nas suas nostalgias. O travão demográfico existe e é real — uma população que envelhece é uma economia que abranda —, mas é um problema de décadas, não de anos. Por agora, a paciência é uma vantagem competitiva.

Fora deste tabuleiro de potências há duas possibilidades que me parecem mais determinantes do que qualquer disputa hegemónica.

A primeira é distópica: a sucessão de guerras alimentadas pelos fantasmas do século XX — e pelos novos que as direitas extremas fabricam em série, da remigração ao nativismo, do negacionismo climático ao messianismo identitário — conduz a um mundo de conflitos permanentes, de recursos militarizados, de humanidade ocupada a destruir-se enquanto o planeta arde.

A segunda é a única alternativa real: perante o agravamento incontornável dos efeitos climáticos — as tempestades, as secas, as migrações em massa que nenhuma fronteira deterá —, a população humana do planeta percebe finalmente ser parte de um todo. Não por virtude, que é escassa, mas por necessidade, que é implacável. As canalhices nacionalistas são um luxo que o Antropoceno não pode financiar. A união de esforços não é utopia sentimental — é a condição de sobrevivência de uma espécie suficientemente inteligente para construir bombas atómicas e insuficientemente sábia para não as ter construído.

A história não escolhe por nós. Mas desta vez a fatura do adiamento virá mais depressa do que alguma vez veio. O clima não negocia, não aceita moções de estratégia e não aguarda pelos resultados das próximas sondagens.

O Rio e os Sinais

 


Brecht legou-nos uma pergunta disfarçada de imagem: quando o rio transborda, é sua a culpa ou das margens que o comprimem? A pergunta não é de hidráulica — é de política. E a resposta, que Brecht conhecia bem, é que as margens têm nome, morada e interesse em manter o rio no lugar.

Jorge Silva Melo, numa entrevista revisitada na RTP Memória, recordava o poeta Gastão Cruz para dizer algo que os manuais de história raramente ensinam: as revoluções anunciam-se antes de acontecer, e os sinais não têm necessariamente a forma de barricadas, porque podem ser um encontro.

Para Gastão Cruz, o ano decisivo não foi o da fraudulenta derrota de Delgado — a desilusão eleitoral de quem esperava que o regime tropeçasse em si mesmo. Nesse mesmo ano de 1958, aquele em que conheceu Fiama Hasse Pais Brandão e Luísa Neto Jorge. Desse encontro nasceu o núcleo do que viria a ser a Poesia 61 — um movimento que não tinha programa político declarado e era, inteiramente, um sinal de que o mundo luso estava em ativa mudança. A língua estava a mover-se antes de a história se ter apercebido.

É assim que funciona. O rio começa a subir antes de galgar as margens. Quem sabe ler o nível da água vê o que está para vir; quem olha apenas para as margens julga que tudo está sob controlo.

Há sinais desse tipo no Portugal de hoje — dispersos, contraditórios, sem manifesto que os una. A greve geral de 3 de junho com a CGTP a encher as ruas sem a UGT. As sondagens que empurram o PS para uma liderança crescente. Os jovens a descobrirem que as promessas do governo tinham prazo de validade orçamental. A geração precária que a uberização formou para não ter ilusões. Não é ainda o rio a galgar — é o rio a subir, silenciosamente, enquanto as margens discutem entre si a melhor forma de o comprimir.

Essas margens têm nomes conhecidos: a lei laboral que facilita despedimentos, os privados à espera do SNS, a extrema-direita a reunir em quintas com convidados deportadores. Comprimem com método e com pressa — a pressa de quem sabe, como Ventura sabe, que as oportunidades têm prazo.

O rio, por enquanto, não diz nada. Mas Gastão Cruz em 1968 também não disse nada. Apenas conheceu duas poetas. E o mundo mudou.

O Papa e o Manifesto

 


A condição de ateu dispensaria a leitura da encíclica do papa Leão XIV. Não fosse o seu conteúdo demasiado pertinente para ser ignorado por quem, crente ou não, tem olhos para o que se passa.

O novo papa diagnostica na inteligência artificial o que Karl Marx diagnosticou na máquina a vapor: a acelerada concentração de capital nas mãos de um grupo exíguo de proprietários dos meios de produção e o correspondente empobrecimento da maioria. O diagnóstico é correto. A diferença é que Marx tirou as conclusões e o papa para aí não vai — a doutrina social da Igreja tem os seus limites, e o Manifesto Comunista não está entre as referências de cabeceira.

O que Leão XIV descreve sem o nomear é a luta de classes em versão algorítmica. As leis que regiam o capitalismo industrial do século XIX não foram revogadas — foram aceleradas. A mais-valia que ontem se extraía do operário têxtil extrai-se hoje do motorista de Uber, do estafeta de plataforma, do trabalhador cujas funções a IA substituiu antes que ele tivesse tempo de as aprender. A velocidade mudou. A lógica é a mesma.

A acumulação primitiva que Marx descreveu como fundação violenta do capitalismo tem hoje uma versão limpa e digital: cinco empresas controlam a infraestrutura sobre a qual assenta a economia mundial, os proprietários acumulam fortunas sem precedente histórico, e os estados nacionais descobrem que regular isto equivale a domar a gravidade — teoricamente possível e praticamente difícil. O papa pede moderação. Os mercados agradecem e continuam.

O que fica por dizer na encíclica — e que Marx e Engels disseram há cento e setenta e cinco anos no documento mais lido e menos aplicado da história do pensamento político — é que a agudização das contradições do sistema não produz automaticamente a fase seguinte. Produz crise, conflito, regressão e, por vezes, barbárie antes de qualquer avanço. Estamos na fase em que a ela se apresenta como solução: a extrema-direita a propor deportações, Trump a propor tarifas, Musk a propor que o futuro lhe pertença.

O capitalismo já se reinventou antes quando parecia esgotado. Pode voltar a fazê-lo. Ou não. A história não tem guião obrigatório — tem tendências, contradições e, de vez em quando, a irrupção do inesperado. O papa sabe isto à sua maneira. Marx sabia-o à sua. A diferença é que um deles propunha rezar e o outro propunha organizar.

segunda-feira, 8 de junho de 2026

A Cimeira e os seus Convidados

 


Na semana passada a Figueira da Foz entrou no roteiro internacional da extrema-direita identitária. Chamaram-lhe Remigration Summit — "Cimeira da Remigração" — e reuniram cerca de 500 ativistas, influencers e figuras políticas numa quinta, depois de o Porto ter recusado acolher o evento por falta de espaço disponível para racistas. A organização ficou a cargo de Afonso Gonçalves, líder do movimento Reconquista, atualmente investigado pelo Ministério Público por suspeitas de crimes de ódio.

O conceito de "remigração" foi popularizado pelo austríaco Martin Sellner, líder do Movimento Identitário com ligações documentadas ao neonazismo, presente na sala. Significa deportação em massa de imigrantes — e de quem, mesmo tendo nascido no país, não pertença à etnia considerada originária. É uma proposta que, formulada em linguagem de política pública, procura tornar palatável aquilo que, dito claramente, se chama limpeza étnica.

O convidado-surpresa foi Gregory Bovino, antigo comandante da Patrulha de Fronteiras dos Estados Unidos, símbolo da política anti-imigração de Trump — a mesma que produziu a detenção de crianças migrantes e a morte de civis nas fronteiras americanas. Bovino veio mostrar que isto não é teoria: é prática, tem manual e resultados mensuráveis em vidas destruídas.

Os jornalistas foram impedidos de entrar. Os influencers foram autorizados. A distinção é a definição da estratégia: não se quer escrutínio, quer-se amplificação. A mensagem circula nos canais digitais da rede, sem contraditório, diretamente para públicos já mobilizados — o mesmo modelo que transformou o X de Musk num viveiro de radicalismos calibrados por algoritmo.

O que estes homens propõem como solução é o que a administração Trump já está a aplicar como laboratório: fronteiras militarizadas, deportações em massa, erosão das instituições que limitam o poder, desprezo pela lei quando incomoda. O resultado é visível — não como promessa mas como facto: crianças em jaulas, aliados abandonados, instituições esvaziadas, e um país que em três anos de trumpismo perdeu uma guerra, perdeu o controlo do Estreito de Ormuz e perdeu o respeito de quem ainda tinha algum.

Portugal tem uma história comprida com o que acontece quando esta gente chega ao poder. Chama-se Estado Novo e durou quarenta e oito anos. A Figueira da Foz ficará na memória como o lugar onde se reuniram os seus herdeiros espirituais para planearem a sequela.

domingo, 7 de junho de 2026

A Pressa dos Impacientes

 



Há uma exasperação nova nas direitas extremas portuguesas. Não é a exasperação de quem perdeu — é a de quem julgou que tinha ganho e descobre que isso não chegou para o que pretendia.

Passos Coelho “apresenta” livros. Dois em poucos dias, o que num país de leitores escassos é uma cadência admirável para quem não tem currículo. Os ex-primeiros-ministros sem agenda declarada têm gostam muito destes eventos — é a regra do género. A questão é se a agenda é a sua ou a de quem o aplaude na primeira fila.

Cavaco Silva publica nova homilia no Observador. Cavaco descobriu tardiamente o jornalismo de opinião com a regularidade de quem tem muito a dizer e ninguém obrigado a ouvi-lo desde que saiu de Belém. As homilias têm o tom característico: a gravidade de quem foi chefe de Estado, a nostalgia de quem recorda os seus governos como idade de ouro, e a irritação mal disfarçada de quem vê o país a não seguir os seus conselhos. O Observador acolhe-as com a deferência devida a um ex-presidente que pensa como a casa.

Ventura tem pressa. Sempre teve, mas agora a pressa tem nome e calendário: quer rever a Constituição enquanto a janela está aberta, porque sabe que vem aí outro carreiro. Daí tratar a política como corrida de obstáculos onde o mais temido não é a esquerda mas o tempo. A Constituição que quer rever é a mesma que em abril de 1974 custou sangue e coragem a construir — ele trata-a como burocracia inconveniente que lhe atrasa os planos.

O que une este trio é a exasperação de quem quer mais do que o momento dá. Passos quer influência sem responsabilidade. Cavaco quer reverência sem contraditório. Ventura quer poder sem os limites que a democracia lhe impõe. São impaciências diferentes com a mesma raiz: a convicção de que o país lhes deve mais do que tem dado.

O país, entretanto, vai pagando as contas, esperando nas urgências e perdendo voos em aeroportos que ninguém quis modernizar a tempo. Está ocupado a sobreviver e tem pouco tempo para as impaciências dos que se sabem em risco de perderem a oportunidade.

Quem Semeia Vento

 


Robert Kagan não é um nome que se associa à rendição. Cofundador do Project for the New American Century, arquiteto intelectual da invasão do Iraque em 2003, marido de Victoria Nuland — é, em suma, um dos homens que passou décadas a defender a força militar americana enquanto fator de ordem do mundo e devia ser usada. Quando este homem publica na The Atlantic um texto intitulado "Xeque-mate no Irão" e escreve que a derrota dos Estados Unidos "não pode ser reparada nem ignorada", é tempo de prestar atenção.

O Estreito de Ormuz — por onde passa cerca de 20% do petróleo mundial — está sob controlo iraniano. Kagan é explícito: a ideia de que o estreito reabrirá nas condições anteriores quando a crise terminar é infundada. O Irão cobrará portagens, favorecerá os países amigos, penalizará os demais. Tornou-se o porteiro da energia mundial e não há incentivo para abdicar dessa posição — muito menos num acordo com Trump, cuja fiabilidade o próprio Kagan questiona com a crueza de quem conhece o personagem.

Trump declarou em março que a guerra estava ganha e o Estreito reabrira. Falso. Pediu ajuda à NATO e à China para proteger a navegação. Recusaram. Três contratorpedeiros americanos tentaram forçar a passagem em maio e recuaram sob fogo iraniano. O presidente que prometeu fazer a América grande outra vez produziu, em menos de um ano de guerra, aquilo que Kagan compara a Pearl Harbor em termos de dano estratégico — com a diferença desse ter sido um ataque sofrido, e esta uma guerra escolhida.

A era da unipolaridade americana, inaugurada com o colapso soviético em 1991 e celebrada com a invasão do Iraque em 2003, terminou nas águas do Estreito de Ormuz em 2026. É o próprio Kagan quem o escreve. O tipo de frase que, vinda de quem vem, dispensa comentário — e exige, ainda assim, que se diga o óbvio: foi esta direita, a de Kagan, Cheney e Netanyahu, que semeou este vento durante décadas. A tempestade que agora colhem tem o tamanho exato das sementes que plantaram.

Trump limitou-se a acelerar o que já estava em curso. É o seu talento específico: transformar decadência lenta em colapso rápido e chamar-lhe vitória até a realidade o contradizer — o que, neste caso, já aconteceu, com a assinatura de um dos seus mais fervorosos apologistas.

terça-feira, 2 de junho de 2026

A Fome dos Privados

 


Há estratégias que se adivinham antes de serem declaradas. Este governo não anunciou que quer privatizar a Segurança Social e o Serviço Nacional de Saúde — anuncia-o por partes, em cada decisão orçamental que retira receita a estas instituições até que a sua alegada falência justifique a solução que sempre esteve em mente.

O mecanismo é simples e não é novo. Primeiro mingua-se o financiamento. Depois constata-se, com pesar encenado, que o sistema não funciona. Por fim convida-se o setor privado a resolver o que o Estado, deliberadamente subfinanciado, já não consegue. Os grandes grupos económicos agradecem, os acionistas recebem, e os portugueses pagam duas vezes — primeiro nos impostos que financiaram a destruição, depois nas mensalidades que financiam a substituição.

A notícia de que as receitas do imposto sobre as bebidas açucaradas deixam de ser consignadas ao SNS, vertendo diretamente para o Orçamento Geral do Estado, segue a lógica do que já aconteceu com o imposto do tabaco. São receitas criadas com um argumento de saúde pública — taxar o que prejudica para financiar o que cura — e desviadas para um orçamento onde competem com tudo o resto e perdem, porque tudo o resto tem lobbies mais organizados do que os doentes em lista de espera.

A narrativa da falência é a preparação do terreno. Um SNS a quem se retiram receitas sistematicamente é um SNS que caminha para a incapacidade — e a incapacidade, devidamente documentada e suficientemente amplificada, cria o consenso de que a solução privada é inevitável. Não é inevitável. É escolhida.

Há uma política alternativa — a de privilegiar o interesse de todos em detrimento da ganância de poucos. É mais do que urgente. É a diferença entre um país que cuida dos seus cidadãos e um mercado que os explora enquanto adoecem.

segunda-feira, 1 de junho de 2026

Este Governo Não Governa

 

O aeroporto de Lisboa tornou-se a montra do país. Não a montra que convida — a que afasta. Filas de horas para passageiros de fora do espaço Schengen, controlos de identidade que se arrastam até os voos partirem sem os passageiros, transferências perdidas, turistas retidos. A CNN americana já fez a reportagem. Nas redes sociais brasileiras recomenda-se evitar Lisboa como ponto de escala para outros destinos europeus. O dano reputacional instala-se com a rapidez que só as más notícias conhecem e demora anos a reparar.

Luís Montenegro, quando estava na oposição, dizia raios e coriscos das ineficiências do governo de António Costa. Ia resolver tudo, e depressa. Na educação prometeu professores para todos os alunos — há alunos sem aulas. Na saúde prometeu médico de família para toda a gente em seis meses — há cada vez mais pessoas dele privada e as cirurgias necessárias acumulam-se em listas de espera que transformam diagnósticos tratáveis em emergências. Na habitação prometeu casas acessíveis — os preços continuam a subir e a classe média junta-se aos que já a elas não chegam.

O aeroporto é apenas um capítulo desta história. Pedro Nuno Santos tinha uma visão para o que deveria ser a solução aeroportuária de Lisboa — grandiosa demais para a mesquinhez do então primeiro-ministro, que tratou de a travar por oposição ao homem antes de avaliar a ideia. Montenegro chegou ao poder sem visão alternativa, entregou o problema a quem não tem capacidade de o resolver, e o resultado é o que se vê: filas, voos perdidos e reportagens internacionais que o país não precisa.

Há um padrão. Chega-se ao poder convicto de que a incompetência alheia era o único obstáculo e que a própria chegada bastaria para resolver o que estava mal. Não bastou. Se as coisas já não estavam bem, ainda pior ficaram — que é a definição precisa de desgoverno.

Este governo não governa. Administra a deterioração e chama-lhe gestão responsável.

domingo, 31 de maio de 2026

O Mundo Segundo Elon

 

Pedro Candeias escreve hoje no Público sobre os planos da SpaceX para entrar em Wall Street e o que revelam sobre as ambições de Elon Musk: um mercado potencial avaliado em 28,5 biliões de dólares, abrangendo satélites, inteligência artificial, mineração espacial e colonização de outros planetas — com os maiores bancos do mundo a subscrever. Candeias pergunta, no final, quem regula isto. É a pergunta certa. A resposta, por enquanto, é ninguém.

Não estamos perante um delírio. Estamos perante um plano.

Musk está na órbita com o Starlink, na superfície com a Tesla, nas redes sociais com o X, dentro das cabeças com a Neuralink, e na inteligência artificial com o Grok — calibrado segundo os seus critérios editoriais, que são os da extrema-direita global. Um homem, uma infraestrutura, um ecossistema fechado onde informação e desinformação circulam sob a mesma gestão. O Papa Francisco, antes de morrer, avisou que a concentração da IA nas mãos de poucos era o maior perigo civilizacional do século. Tinha razão, como costumava ter quando não estava a falar de mulheres ou de preservativos.

O que assusta não é Musk. Os megalómanos existiram sempre e a história tratou da maioria com a indiferença que mereciam. O que assusta é a adesão. Há gente inteligente — não ignorantes, não desesperados, gente com educação e capacidade crítica — que foi migrando para o X, adotou o Grok como oráculo e foi sendo reorientada pelos algoritmos para um mundo onde o genocídio em Gaza é narrativa de segurança nacional, Telavive tem sempre razão e a extrema-direita europeia é apenas bom senso popular mal compreendido pela esquerda caviar. O algoritmo não convence por argumentos — convence por repetição, por seleção, por aquecimento gradual até que a temperatura do fanatismo pareça temperatura ambiente.

É uma operação de engenharia social à escala planetária. Os estados nacionais chegam tarde, as instâncias multilaterais chegam mais tarde ainda, e a União Europeia descobre que regular plataformas de um homem com o ouvido do presidente dos Estados Unidos é um exercício de soberania com prazo de validade incerto.

Talvez este mundo ainda não seja de Elon Musk. Mas a distância entre o que é e o que ele quer que seja está a encolher — e há trezentos milhões de utilizadores do X a ajudá-lo, sem o saber, a encurtá-la.