quinta-feira, 26 de março de 2026

Montenegro em queda livre e o PS a aferir o rumo

 

A sondagem do ISCTE publicada no Expresso de sábado veio confirmar o estado de desgraça em que o governo de Montenegro está a cair. Não é flutuação estatística, não é momento conjuntural difícil, não é azar político, antes a constatação objetiva deste governo não ter competência nem estratégia para responder aos problemas mais candentes para os eleitores: a saúde, a habitação, a qualidade de vida.

Os números são implacáveis. A popularidade de Montenegro desmorona-se. A confiança no Governo evapora-se. E isto acontece não por acidente, mas por incapacidade demonstrada repetidamente. As tempestades Kristin e seguintes expuseram a incompetência na gestão de crises. O pacote laboral revelou o desprezo pelos trabalhadores. O PTRR demonstrou que há muita propaganda, mas pouca execução. E na saúde, na habitação, na contenção da inflação — nos problemas que realmente importam às pessoas — há apenas discursos vazios e promessas incumpridas.

Montenegro governa como sempre viveu politicamente: à base de cartadas táticas, de golpes mediáticos, de nomeações salvadoras que afinal nada salvam. Mas tática sem estratégia é apenas improviso desesperado. E o eleitorado começa a perceber isso. A nomeação de Luís Neves foi a última cartada — e já não resultou. As pessoas perceberam que mudar ministros não resolve problemas quando o problema é a ausência total de visão e competência no topo.

Enquanto Montenegro afunda, o Chega continua a somar escândalos que o confirmam como o verdadeiro covil da malfeitores. Depois da namorada do líder do partido na Câmara Municipal de Lisboa andar a alugar tugúrios a emigrantes — explorando-lhes a vulnerabilidade que Ventura quer ainda mais agudizar — é agora o caso do candidato autárquico apanhado em flagrante a abusar da própria filha.

Que o Chega ainda não seja ilegalizado enquanto associação de delinquentes é mistério que não carece de maiores evidências. As provas acumulam-se: ligações a grupos neonazis, membros detidos por violência xenófoba, corrupção, exploração de imigrantes, abuso de menores. Não são casos isolados — é um padrão sistemático. O Chega atrai criminosos porque é essencialmente uma organização mafiosa disfarçada de partido político.

Mas a ilegalização não virá. Porque exigiria coragem política que este regime não tem. Porque beneficia Montenegro ter o Chega como espantalho — enquanto as atenções se focam no fascismo explícito de Ventura, a incompetência devastadora de Montenegro passa mais despercebida. E porque, no fundo, demasiados na direita ainda acham que podem instrumentalizar o Chega para os seus próprios fins. Não podem. Mas só perceberão isso quando for tarde demais.

No PS, para minha grata expectativa, começam a emergir vozes dissonantes desmentindo o suposto unanimismo em torno de José Luís Carneiro. E ainda bem. Não tendo uma direção que corresponda ao que deve ser um verdadeiro Partido Socialista, importa vê-lo a ajustar-se a algo mais conforme com o exemplo vindo dos vizinhos ibéricos.

Em Espanha, o PSOE de Sánchez governa com clareza ideológica, defendendo trabalhadores, investindo em serviços públicos, confrontando a direita e a extrema-direita sem hesitações. Não é perfeito, tem contradições, mas é inequivocamente um partido de esquerda que não tem medo de se assumir como tal. Em Portugal, o PS sob Carneiro parece ainda preso à lógica do consenso centrista, da moderação excessiva, do medo de desagradar ao establishment económico.

As vozes dissonantes que começam a emergir podem ser o sinal de que uma parte do partido percebe que este caminho não leva a lado nenhum. Que o país precisa de uma alternativa clara à direita incompetente de Montenegro e ao fascismo do Chega. Que essa alternativa não pode ser apenas "gestão competente do mesmo modelo" mas tem de ser projeto alternativo de sociedade. Que socialismo não é palavrão nem nostálgica relíquia do século XX, mas resposta necessária e atual aos problemas concretos das pessoas.

Carneiro pode ser o timoneiro de transição que mantenha o barco à tona enquanto essa alternativa se estrutura. Mas não pode ser mais do que isso. E se as vozes dissonantes ganharem força, e conseguirem disputar a direção do partido, se conseguirem puxá-lo para um programa verdadeiramente socialista — então talvez o PS volte a ser relevante como força de transformação social e não apenas como alternativa técnica à incompetência da AD.

E quando, perante este panorama, se proclama ainda faltarem mais de três anos para nos livrarmos de Montenegro, eu não seria tão taxativo. Nem o caso Spinumviva está encerrado — continua por esclarecer, a cheirar mal, a ser potencial bomba política que pode explodir a qualquer momento. Nem se anteveem grãos de asa para implementar as soluções que a inflação galopante criada pelas tontices de Trump criará.

Porque Trump, na guerra errática contra o Irão, no fecho do Estreito de Ormuz, na política económica caótica, está a criar as condições para um choque inflacionista global que fará parecer pálida a inflação pós-pandemia. Quando os preços da energia dispararem, quando o custo de vida se tornar insustentável para a maioria das famílias, quando a recessão bater à porta — Montenegro não terá respostas. Não tem competência técnica para gerir crise económica dessa magnitude. Não tem legitimidade política para pedir sacrifícios. Não tem estratégia para proteger os mais vulneráveis.

E quando isso acontecer o governo cairá. Por moção de censura, por implosão interna da AD, ou simplesmente porque se torna insustentável continuar a fingir que governa quando só está a afundar o país.

Três anos parece muito tempo. Mas em política, três anos pode ser uma eternidade ou pode ser três meses quando as circunstâncias mudam abruptamente. E as circunstâncias estão a mudar. A sondagem do ISCTE é apenas o primeiro sinal visível de uma tendência que se acelera. Montenegro em queda livre, o Chega exposto como organização criminosa, o PS à procura de um rumo que o volte a tornar relevante.

O que acontecerá a seguir depende de muita coisa. Mas uma certeza já existe: este governo não durará os três anos que alguns lhe profetizam. Ou porque cai politicamente antes disso, ou porque quando chegar o momento das próximas eleições já estará tão desacreditado que a derrota será monumental.

E talvez essa seja a única boa notícia num panorama político tão desolador: a incompetência também tem limites. E Montenegro está rapidamente a aproximar-se deles.

terça-feira, 17 de março de 2026

A Guerra dos Megalómanos

 

Não fosse trágica em várias dimensões e a guerra lançada por Trump e Netanyahu contra o Irão seria cómica pelos palpos de aranha em que se debatem. Ali está Trump a pedir apoio aos aliados para reabrir o Estreito de Ormuz e a embater sistematicamente na recusa desses mesmos aliados. Entre o poltrão que proclama não precisar de ninguém porque tem "o exército mais forte do mundo" e o mendigo diplomático que implora ajuda à NATO que acabou de ameaçar, ele ciranda numa inconstância que melhor denuncia o caso patológico que dará matéria de estudo para gerações de historiadores.

A sequência dos acontecimentos tem algo de farsa. Trump rapta Maduro, bombardeia a Venezuela, apodera-se do seu petróleo, proclama o regresso da América imperial. Sente-se invencível. Ameaça a Gronelândia, intimida a Dinamarca, desdenha dos europeus. Depois recua em Davos. Adia o ataque ao Irão. Volta a ameaçar. Volta a recuar. E agora, depois de finalmente ter lançado a operação militar contra o Irão — em conjunto com Netanyahu, esse outro megalómano em fuga permanente para a frente — descobre que fechar o Estreito de Ormuz tem consequências que nem todo o poderio militar americano consegue resolver sozinho.

O Estreito de Ormuz não é a Venezuela. Não é um país empobrecido por anos de sanções, com infraestruturas militares degradadas, isolado diplomaticamente. É o ponto de estrangulamento por onde passa cerca de um quinto do petróleo mundial. Fechá-lo — ou pior, vê-lo fechado pelo Irão em retaliação — significa colapso energético global, preços do crude estratosféricos, recessão mundial. E reabri-lo à força, contra a resistência iraniana, exige não apenas poder militar, mas capacidade logística, apoio regional e coordenação internacional que Trump

simplesmente não tem.

Daí as súplicas aos aliados europeus com a tentativa desesperada de mobilizar a NATO para uma guerra que esta nunca quis, numa região que não está coberta pelo Tratado do Atlântico Norte, contra um adversário que não ameaça diretamente território algum dos membros da Aliança.

E os aliados dizem não. A França diz não. A Alemanha diz não. O Reino Unido hesita mas também diz não. A Espanha, a Itália, até a Polónia — todos dizem não. Porque perceberam, mesmo que tardiamente, que esta guerra não é sobre segurança internacional, não é sobre defender a ordem mundial, não é sequer sobre conter uma ameaça real. É sobre a sobrevivência política pessoal de dois homens: Trump, que precisa de cortinas de fumo sobre os ficheiros Epstein e o colapso da credibilidade americana; Netanyahu, que precisa de guerra permanente para evitar o tribunal que o espera quando a paz chegar.

A recusa europeia expõe a nudez do imperador. Trump que dizia não precisar de aliados, que ameaçava abandonar a NATO, que insultava os europeus chamando-lhes parasitas do sistema de segurança americano, descobre agora que afinal precisa deles, dos seus navios, bases, legitimação política, e apoio logístico. E descobre também que queimar pontes tem consequências — quando se precisa atravessar o rio, já não há ponte disponível.

Netanyahu, esse, sempre soube que precisava dos americanos. Nunca teve ilusões de autonomia estratégica. Mas contava que Trump arrastasse os europeus, como tantas vezes aconteceu no passado. Contava que a pressão americana sobre Bruxelas, Paris, Berlim acabaria por forçar a participação europeia, ainda que relutante. Enganou-se. Desta vez os europeus perceberam que seguir Trump para mais esta guerra seria suicídio político interno e desastre estratégico externo.

E assim temos o espetáculo grotesco de Trump a cirandar entre a arrogância e a súplica. Num dia proclama que a América não precisa de ninguém, que tem o exército mais poderoso da história, que pode fazer o que quiser quando quiser. No dia seguinte telefona a líderes europeus pedindo navios, bases, apoio político. Volta a ameaçar — se não ajudarem, sairá da NATO, abandonará a Europa à própria sorte. Volta a suplicar — por favor, precisamos de vós, não podemos fazer isto sozinhos.

É a inconstância patológica de quem perdeu completamente o controlo da narrativa e da estratégia. É o comportamento errático de quem age por impulso, não por planeamento. É a evidência clara de deterioração cognitiva ou, na melhor das hipóteses, de total inadequação para o cargo que ocupa.

Os historiadores do futuro — se houver futuro, se esta guerra não escalar para catástrofe civilizacional — estudarão este episódio como caso paradigmático de liderança disfuncional em momento crítico. Estudarão como foi possível que o homem mais poderoso do mundo, comandante do arsenal militar mais formidável alguma vez reunido, se tenha metido numa guerra que não sabe como vencer, que não consegue justificar aos aliados, que não tem apoio interno sustentável, que pode colapsar a economia global.

Estudarão também como Netanyahu, político astuto e experiente, se deixou arrastar para uma escalada que pode destruir Israel enquanto projeto nacional. Porque esta guerra contra o Irão não é como as operações em Gaza ou no Líbano. É guerra contra potência regional com capacidade de retaliação efetiva, com mísseis que chegam a todo o território israelita, com aliados que podem abrir múltiplas frentes simultaneamente. E se Israel ficar isolado — se os americanos não conseguirem manter o Estreito aberto, se os europeus se recusarem a participar, se a opinião pública global se virar definitivamente contra a operação — Netanyahu pode ter finalmente conduzido o país ao desastre que sempre temeu.

Esta guerra é trágica para os iranianos que morrem sob os bombardeamentos, para os israelitas que vivem sob ameaça de retaliação, para a economia global que pode colapsar se o Estreito permanecer fechado e para a ordem internacional, já de si moribunda, que recebe mais este golpe mortal.

E no centro desta tragédia, dois homens arrastam o mundo para uma guerra que não conseguem vencer, não sabem como terminar e pode destruir muito mais do que imaginam.

No futuro perguntar-se-á como é que deixámos que isto acontecesse, quando todos os sinais estavam lá e sobravam vozes a alertar para quão mal poderia acabar?

A resposta, provavelmente, será a mesma de sempre: porque enquanto os megalómanos cirandavam na sua inconstância patológica, o resto do mundo preferiu fingir que estava tudo bem. Até ao dia em que já não estava.

domingo, 15 de março de 2026

Ambições Desmedidas e Cometas Moribundos

 

A História tem uma forma peculiar de ensinar sempre a mesma lição aos que se recusam a aprendê-la: quando a ambição é desmedida e o poder se julga ilimitado, o ricochete pode ser devastador. Napoleão marchou sobre Moscovo convencido da sua invencibilidade. Regressou com os destroços de um exército fantasma, arrastando atrás de si o princípio do fim do império que construíra. Hitler lançou-se sobre a União Soviética certo de que o Reich duraria mil anos. Durou doze, e os últimos foram uma agonia sangrenta que terminou num bunker em Berlim.

Hoje assistimos a dois megalómanos que parecem determinados a replicar estes padrões históricos com uma fidelidade quase obscena. Trump e Netanyahu, cada um à sua maneira, cada um com as suas motivações particulares, estão a lançar-se em aventuras militares que podem acabar por os destruir — e arrastar muita gente com eles no processo.

Trump rapta presidentes, ameaça países, proclama a reconquista imperial da América. Mas cada ação errática, cada ameaça não cumprida, cada recuo tático disfarçado de vitória estratégica mina a credibilidade do poder americano. A operação na Venezuela pode ter sido militarmente bem-sucedida, mas foi desastre diplomático. O assédio à Gronelândia acabou em recuo. O ataque ao Irão continua adiado sine die. Trump descobre, lentamente, que raptar Maduro não é o mesmo que enfrentar potências que podem ripostar. E enquanto isso, os ficheiros Epstein continuam a ser revelados, mostrando ligações que Trump preferiria manter enterradas. A nuvem de poeira que tenta levantar com guerras e ameaças pode não ser suficiente para encobrir o que está a ser exposto.

Netanyahu, por seu lado, multiplica frentes de guerra — Gaza, Líbano, Síria, Irão por procuração — numa fuga permanente para a frente que tem um objetivo claro: adiar indefinidamente a condenação judicial que o espera quando a guerra acabar. Cada nova operação militar é também uma operação de sobrevivência política pessoal. Cada escalada é também um adiamento do dia em que terá de responder em tribunal. Mas as guerras não duram eternamente, e quando esta acabar — e acabará — Netanyahu descobrirá que apenas adiou o inevitável enquanto destruía o que restava da reputação internacional de Israel.

A ambição desmedida não é exclusivo de megalómanos imperiais. Também a tiveram a ministra do Trabalho, Rosário Palma Ramalho, e o chefe da CIP ao tentarem impor uma lei laboral que esmaga direitos conquistados ao longo de décadas. Julgavam-se intocáveis, achavam que podiam fazer passar o que quisessem, confiavam que a fragmentação sindical e a passividade social lhes dariam margem para destruir o que restava de proteção aos trabalhadores.

Enganaram-se. A dimensão da greve geral travou-os. E a eleição de António José Seguro para Belém — por muito pouco que dele espere em termos de intervenção ativa — pode ter o efeito adicional de refrear os ímpetos de quem percebeu que a correlação de forças mudou. Seguro não será o presidente interventivo que bloqueará sistematicamente legislação regressiva, mas também não será o Marcelo que facilitou tudo à direita. E essa diferença, ainda que pequena, ainda que insuficiente, pode ser suficiente para tornar mais difícil a passagem de leis como esta.

O recuo tático sobre a lei laboral não significa vitória definitiva — significa apenas que perceberam que não tinham força para impor neste momento aquilo que pretendiam. Voltarão à carga, com outras formulações, outros timings, outras estratégias. Mas a greve demonstrou que há limites. E isso, por si só, já é algo.

No PS, a recondução de José Luís Carneiro como líder com uma votação ao estilo norte-coreano não me entusiasma. Estas unanimidades fabricadas, estas votações sem contestação aparente, estas coroações sem debate são sempre suspeitas. Mas reconheço a lógica conjuntural: numa altura de transição para uma agudização previsível das lutas sociais — propiciada pelos efeitos danosos da guerra no Médio Oriente na qualidade de vida da generalidade da população, pela inflação persistente, pela precarização crescente — justifica-se ter um timoneiro que mantenha a proa em direção à vaga.

Não é a liderança ideal. Não é sequer a liderança que eu desejaria. Mas é a que dá estabilidade num momento em que o PS precisa de espaço para que outra liderança, mais conforme com os objetivos programáticos de um partido verdadeiramente socialista, se possa afirmar. José Luís Carneiro não é essa liderança — mas pode ser a ponte para que ela emerja. E isso, neste momento, pode ser suficiente.

E depois há o regresso do cometa Passos Coelho. Como todos os cometas que regularmente vêm pretender dar conta de que ainda estão vivos, Passos ressurgiu da sua toca para causar algum estardalhaço junto dos que o veem como uma espécie de Sebastião regressado do deserto de Alcácer Quibir para salvar a pátria. Esquecem-se, esses sebastianistas tardios, que o rasto de cada cometa vai diminuindo-lhe a expressão sempre que se aproxima do sol em redor do qual roda.

Passos Coelho deixou o país arrasado, a economia destroçada, a sociedade empobrecida, os serviços públicos demolidos. Foi derrotado eleitoralmente, afastou-se, e agora regressa como se tivesse algo de novo a oferecer. Não tem. É apenas mais um apaniguado do mesmo campo entrincheirado — a exemplo de Portas, de Durão Barroso, de todos os outros que se julgaram indispensáveis e descobriram que não eram.

Passos está fadado a ficar como a esperança moribunda de uma ideologia que se vai exprimindo cada vez mais caricaturalmente. E a melhor demonstração dessa caricatura é a forma como Carlos Moedas exerce o seu pífio poder em Lisboa: muita propaganda, pouca execução; muitos powerpoints, poucos resultados; muita pose, pouca substância; umas quantas nomeações escandalosas e uns não menos impactantes saneamentos. Moedas é o que Passos representou levado ao paroxismo — a direita tecnocrata que se julga moderna mas é apenas incompetente vestida de fato caro.

O regresso de Passos não assusta. Incomoda, talvez. Mas sobretudo revela a pobreza intelectual e política de uma direita que, não tendo figuras novas nem ideias renovadas, tem de reciclar os destroços do passado e apresentá-los como futuro. É patético, mais do que perigoso.

Ambições desmedidas, cometas moribundos, guerras como fuga para a frente, leis laborais como assalto a direitos conquistados — tudo isto faz parte do mesmo padrão: um sistema em crise que se radicaliza, que ataca os mais fracos, que multiplica conflitos externos para esconder contradições internas, que recicla fracassos passados porque não tem futuro para oferecer.

A História ensina que estes processos terminam sempre mal para quem os protagoniza. Napoleão acabou exilado. Hitler suicidou-se no bunker. Trump e Netanyahu podem ainda achar que são diferentes, que a História não se aplica a eles, que desta vez será diferente. Não será. A ambição desmedida sempre teve o mesmo destino. E quando o ricochete vier — e virá — descobrirão que afinal não eram tão poderosos quanto imaginavam.

Quanto a Passos Coelho e aos seus epígonos lisboetas, o destino será mais banal, mas igualmente definitivo: o esquecimento. Porque os cometas, por mais brilhantes que pareçam quando regressam, vão perdendo massa a cada órbita. E quando finalmente se desintegram, ninguém se lembra que um dia pareceram importantes.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Montenegro e a Cartada Desesperada

 

A indigitação de Luís Neves como ministro da Administração Interna é mais uma demonstração do carácter de Luís Montenegro: um chico-esperto sem ideias de como governar o país, mas capaz de cartadas táticas destinadas exclusivamente a preservar-se no poder. Não há estratégia de longo prazo, não há visão de Estado, não há projeto político coerente — apenas sobrevivência política imediata, gestão de crise mediática, tentativa desesperada de recuperar uma imagem pública em queda livre.

A unanimidade em torno do indigitado merece-me profunda desconfiança. E essa desconfiança nada tem a ver com as objeções do Chega — essas são previsíveis e instrumentais. Tem mais a ver com a conhecida boutade de Groucho Marx, que se dizia indisponível para aceitar ser sócio de um clube que o convidasse para tal. Quando toda a gente aplaude, quando o consenso é tão amplo, quando a figura vem ungida numa quase imagem de santidade, alguma coisa não bate certo.

Não ponho em causa a competência técnica de Luís Neves. Ponho em causa a leitura política que faz dele um salvador providencial. E ponho sobretudo em causa como essa imagem de integridade imaculada se coaduna com a aceitação de cumplicidades governativas com gente tão poluente quanto Nuno Melo ou Leitão Amaro. Ou Luís Neves é ingénuo ao ponto de não perceber em que Governo está a entrar, ou é suficientemente pragmático para aceitar conviver com aquilo que publicamente todos reconhecem como mediocridade e oportunismo. Em qualquer dos casos, a santidade atribuída parece-me excessiva.

Mas percebe-se o que Montenegro pretende com esta nomeação. Quer afastar a má imagem pública deixada pela forma desastrosa como reagiu à catástrofe que as sete tempestades seguidas provocaram em Coimbra, Leiria e outras zonas do país. A incompetência foi tão evidente, a ausência de liderança tão gritante, a incapacidade de resposta tão manifesta, que até os media habitualmente amigáveis tiveram dificuldade em disfarçar o desastre.

E aqui confirma-se aquilo que dizíamos durante os governos de António Costa na época dos incêndios estivais ou da pandemia: "ainda bem que não é a direita a estar ao leme". Mais do que se confirmou. Demonstrou-se de forma inequívoca que se trata de gente estruturalmente incompetente. Não é falta de sorte, não é azar conjuntural, não são circunstâncias excecionais — é incompetência de base, incapacidade orgânica para governar em situação de crise.

Quando havia incêndios com António Costa no poder, a direita acusava-o de tudo: de falta de prevenção, de má gestão de meios, de incapacidade de coordenação. Agora que é Montenegro a enfrentar catástrofes naturais, descobre-se que afinal governar em crise é difícil, que coordenar múltiplas entidades é complexo, que a prevenção tem limites. A diferença é que Costa, com todas as suas falhas, tinha pelo menos capacidade de liderança visível. Montenegro tem apenas a capacidade de desaparecer quando é preciso aparecer e de aparecer quando já nada há para fazer senão distribuir declarações de solidariedade vazias.

Mas Montenegro procura também, com esta nomeação, libertar-se do embaraçoso caso da sua casa em Espinho. Tudo nesse caso cheira mal. Os valores declarados não batem certo, as explicações são confusas, os timings são suspeitos. E acaso acontecesse com um político de esquerda não faltariam manchetes de

primeira página ou notícias de abertura dos telejornais durante semanas seguidas.

Até agora os amigos da comunicação social vêm-no poupando na medida do possível. Notícias breves, sem seguimento, rapidamente enterradas por outros temas. Mas até quando o conseguirão? A menos, claro, que Montenegro tenha na Polícia Judiciária e na Procuradoria-Geral da República os amigos necessários para sonegar a verdade dos factos ou para garantir que certos processos não avançam, certas investigações não se aprofundam, certos documentos não aparecem.

Montenegro sabe que perdeu o imerecido estado de graça de que beneficiou durante os primeiros meses de governação. A eleição presidencial demonstrou quão volátil está o seu eleitorado, quão frágil é a sua base de apoio, quão rápido pode desmoronar-se a ilusão de competência que conseguiu vender inicialmente. Seguro chegou a Belém com legitimidade superior à que Montenegro tem em São Bento. E isso muda o equilíbrio de poder, limita as margens de manobra, obriga a recalcular estratégias.

Daí a cartada Luís Neves. É a tentativa de recuperar credibilidade por associação, de colar a imagem de competência técnica de outro a um Governo que a perdeu, de usar uma nomeação consensual como escudo perante críticas crescentes. É, em suma, a tática típica de Montenegro: sem substância estratégica, mas com habilidade para o golpe político imediato que pode adiar problemas sem os resolver.

E a prova cabal da incompetência estrutural deste Governo está no propagandeado Plano de Recuperação e Resiliência Revisto (PTRR). Promete em ambição aquilo que lhe falta em substância. São milhares de milhões anunciados, projetos megalómanos descritos, transformações revolucionárias proclamadas — e zero capacidade demonstrada de executar seja o que for com eficácia.

O PTRR de Montenegro é a metáfora perfeita do seu governo: muito powerpoint, pouca realidade; muita propaganda, pouca execução; muitos anúncios, poucos resultados. É governo de comunicação social, não de governação efetiva. E quando as tempestades chegam — literais ou metafóricas — descobre-se que os powerpoints não seguram telhados, as apresentações não evitam inundações, os comunicados não governam país algum.

Por isso Montenegro precisa de Luís Neves. Não para governar melhor — para parecer que governa melhor. Não para resolver problemas — para adiar o momento em que terá de admitir que não os sabe resolver. Não para fazer o trabalho — para dar a ilusão de que o trabalho está a ser feito.

É a cartada do chico-esperto que ficou sem cartadas a sério. E quando um primeiro-ministro chega a este ponto é porque já perdeu o essencial: a capacidade de governar.

Montenegro pode continuar a fazer cartadas táticas, a nomear figuras consensuais, a gerir crises mediáticas com habilidade de curto prazo. Mas não governa. Apenas sobrevive. E um país não se governa com sobrevivência política. Governa-se com visão, competência e coragem.

Três coisas que Montenegro nunca demonstrou ter. E que Luís Neves, por muito competente que seja, não lhe conseguirá emprestar.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

O vencedor improvável que afinal resultou

 

Pronto. António José Seguro ganhou. E ainda bem. Ainda bem mesmo, apesar de nunca ter tido por ele qualquer simpatia política e, militante do PS, ter apoiado a sua substituição como secretário-geral por representar tudo aquilo que de mais conservador e acomodatício existe na dita social-democracia portuguesa.

Mas a realidade obriga a reconhecimentos desconfortáveis. E a posteriori, posso dar alguma razão a Susana Peralta quando afirmou que Seguro foi "afinal o candidato ideal da esquerda". Sem com isso reconhecer que ele se enquadra nesse campo ideológico ao qual nunca o vi pertencer. Porque uma coisa é ser o candidato que a esquerda precisava nestas circunstâncias específicas, outra completamente diferente é ser um candidato de esquerda.

A distinção não é bizantina. É essencial para perceber o que acabou de acontecer e o que pode vir a acontecer.

Seguro foi o candidato ideal não pelas suas convicções políticas — que permanecem firmemente ancoradas no centro-direita do espectro socialista — mas pelas circunstâncias que o rodearam e pela capacidade que demonstrou de agregar muito para além do seu campo natural. Os números falam por si: duplicou os votos da primeira volta, construindo uma coligação eleitoral que foi das forças esquerdistas aos liberais moderados, passando por uma parte significativa do eleitorado tradicional da AD que não se reviu em Ventura.

Do outro lado, Ventura conseguiu apenas um pífio alargamento da sua base de apoio. Entre as duas voltas, apesar de toda a mediatização, de toda a campanha agressiva, de todo o aproveitamento oportunista da tempestade Kristin, Ventura revelou ter um teto eleitoral muito mais baixo do que os seus apoiantes gostam de admitir. E este é um dado fundamental: dois terços dos eleitores portugueses demonstraram de forma inequívoca que não o querem. Dois terços. Quem é que Ventura pensa enganar quando anuncia que chegará em breve ao poder?

Esta derrota pode, aliás, prognosticar a iminente travagem do crescimento contínuo do Chega. O fenómeno, que durante alguns anos pareceu imparável, pode ter atingido o seu pico e começar agora a definhar — como sempre sucedeu historicamente com este tipo de populismos. São movimentos de moda política, alimentados por conjunturas específicas, que crescem rapidamente, mas que também podem desmoronar-se quando confrontados com os limites da sua própria proposta. Ventura oferece indignação, ressentimento, bodes expiatórios — mas não oferece soluções. E quando os eleitores percebem isso, quando o feitiço se desfaz, estes movimentos tendem a implodir com a mesma velocidade com que emergiram.

Claro que seria ingenuidade pensar que o fascismo desaparecerá sozinho. Não desaparecerá. Mas estas eleições demonstram que tem limites eleitorais que Ventura preferiria ignorar. E essa constatação é, em si mesma, importante.

O resultado tem outra consequência política imediata: Seguro chega a Belém com maior legitimidade democrática do que Luís Montenegro tem em São Bento. E isto não é detalhe processual — é facto político com consequências práticas. Montenegro, na sua habitual miopia estratégica, olhava para os dois terços que, somando Chega e IL aos votos da AD, possibilitariam teoricamente a mudança da Constituição. Fazia os seus cálculos, alimentava as suas fantasias de maioria constitucional conservadora, imaginava-se a liderar uma refundação da República à direita.

Terá agora de haver-se com um presidente que tem legitimidade superior à sua e que, apesar de todas as limitações ideológica, quer estabilidade constitucional. Seguro não será o presidente interventivo que questionará sistematicamente as políticas do Governo — não é essa a sua natureza política. Mas também não será o presidente complacente que facilitará aventuras constitucionais ou que tolerará normalizações do Chega. Há limites que, por conservadorismo institucional mais do que por convicção progressista, Seguro não deixará ultrapassar.

E Montenegro, confrontado com estes novos dados da realidade política, reagiu de forma lamentável. O discurso que proferiu na noite da sua nova derrota — porque isto foi derrota de Montenegro tanto quanto de Ventura — foi a reconfirmação do já sabido: é demasiado medíocre para ocupar o cargo de primeiro-ministro. Não teve grandeza para reconhecer o significado da votação, não teve inteligência para perceber as suas implicações, não teve sequer o básico sentido de oportunidade para ajustar o discurso ao momento.

Montenegro continua preso à pequena tática, aos cálculos mesquinhos, à incapacidade congénita de ler o que está para além do imediato. Pensou que a equidistância entre Seguro e Ventura lhe traria dividendos. Enganou-se. Pensou que podia cavalgar o tigre do fascismo sem ser devorado. Está a perceber que não pode. Pensou que tinha espaço para manobrar entre a direita moderada e a extrema-direita. Descobriu que esse espaço está a fechar-se rapidamente.

E agora terá pela frente cinco anos de coabitação com um presidente que, sendo conservador, tem legitimidade democrática superior à sua e não estará disponível para as aventuras constitucionais que Montenegro possa imaginar com os parceiros à direita.

Quanto a Seguro, o que fará em Belém? As expectativas não podem ser elevadas para quem esperava uma presidência que contrariasse ativamente a deriva conservadora do país. O mais provável é que seja exatamente aquilo que sempre foi: um moderado institucionalista que privilegia o diálogo sobre o conflito, a estabilidade sobre a mudança, o consenso sobre a rutura.

Não será o presidente que bloqueie sistematicamente iniciativas legislativas regressivas, que force referendos sobre políticas conservadoras, que use o púlpito presidencial para questionar escolhas governamentais que aumentam desigualdades. Será, provavelmente, o presidente que tanto partes do PS como da AD podem acomodar: previsível, não conflituoso, institucionalmente correto.

Isto é uma limitação séria. Porque Portugal precisaria de uma presidência que travasse a normalização do Chega, que defendesse ativamente o Estado social, que usasse a autoridade moral do cargo para questionar políticas que precarizam o trabalho e destroem direitos. Seguro não será esse presidente. Não por má-fé, mas por convicção genuína de que o papel presidencial é o de moderador neutral, não o de ator político interventivo.

Mas — e aqui reside o paradoxo que justifica o "ainda bem" com que comecei — mesmo sendo tudo isto, Seguro continua a ser infinitamente melhor do que a alternativa que enfrentou. Ventura em Belém teria sido catástrofe civilizacional. Seguro em Belém será presidência conservadora e pouco interventiva, mas dentro dos parâmetros democráticos constitucionais.

E talvez seja essa a lição desconfortável destas presidenciais: às vezes, em momentos de perigo extremo, o que se precisa não é do candidato ideal segundo critérios ideológicos puros, mas do candidato capaz de impedir o pior enquanto agrega o suficiente para vencer. Seguro não é de esquerda, mas foi o candidato que conseguiu duplicar votos, demonstrou que Ventura tem teto eleitoral, e impediu a vitória do fascismo. E neste momento histórico específico, isso conta mais do que a pureza programática.

O que não significa que a esquerda deva agora celebrar acriticamente ou iludir-se sobre o que virá. Caberá a elas — dentro e fora do PS — garantir que a contenção do fascismo não se traduza em acomodação total ao status quo. Caberá aos movimentos sociais, aos sindicatos, aos partidos progressistas manter a pressão, exigir mais do que consensos vazios, reclamar políticas que defendam efetivamente quem trabalha.

Seguro ganhou. E ainda bem que ganhou. Mas o reconhecimento desta vitória necessária não pode transformar-se em suspensão da crítica ou em esquecimento de quem ele verdadeiramente é.

Porque uma coisa é certa: António José Seguro não fará por nós o trabalho de transformação social que continua por fazer. Esse trabalho, como sempre, caberá a quem realmente acredita nele. E Seguro, convenhamos, nunca acreditou.

domingo, 8 de fevereiro de 2026

Os patos bravos nunca morreram

 

Estamos num país onde os patos bravos dos anos sessenta não desapareceram. Continuam por cá, prosperando, embolsando todos os subsídios disponíveis, construindo tão barato quanto possível, vendendo tão caro quanto o mercado aguenta, empregando um exército de emigrantes por salários miseráveis associados a nenhuns direitos. Mudaram de geração, talvez de fato, certamente de retórica — mas a lógica é exatamente a mesma: lucro máximo, investimento mínimo, o resto que se lixe.

As consequências das tempestades dos dias mais recentes vieram demonstrar essa situação no seu esplendor. As linhas elétricas e as das comunicações móveis continuam a passar por via aérea em vez de enterrada — porque enterrar custa mais, demora mais, exige mais planeamento. Os materiais de construção revelam-se frágeis para ventos mais fortes — porque materiais resistentes custam mais, reduzem a margem de lucro, complicam a execução rápida. A urbanização em leitos de cheia com impermeabilização dos solos a montante resulta em situações como as de Gaia ou de Alcácer do Sal — porque construir onde não se deve é mais barato do que respeitar condicionantes ambientais, e impermeabilizar é mais rápido do que preservar capacidade de absorção natural.

Não é incompetência. É escolha. Uma escolha deliberada, sistemática, protegida por décadas de cumplicidade entre quem constrói e quem licencia, entre quem lucra e quem fiscaliza, entre quem faz obra e quem distribui dinheiro público.

Quando as linhas elétricas caem à primeira rajada de vento forte, não é falha técnica — é consequência direta de décadas de opção por soluções baratas em vez de soluções adequadas. Quando as casas ficam sem telhado, não é porque o vento foi excecionalmente forte — é porque os materiais e as técnicas de construção foram excecionalmente medíocres. Quando bairros inteiros ficam inundados, não é porque choveu muito — é porque se construiu onde não se devia e se impermeabilizou o que deveria ter ficado permeável.

E depois vêm as declarações de solidariedade, as promessas de reconstrução, os apoios de emergência. Tudo pago com dinheiro público, naturalmente. Reconstruir o que foi mal construído à primeira, reparar o que nunca deveria ter sido danificado se tivesse sido bem feito, compensar as vítimas de decisões que enriqueceram outros.

É o ciclo perfeito: os patos bravos constroem barato, vendem caro, embolsam os lucros. Quando a construção falha — e falha sempre, mais cedo ou mais tarde — é o Estado que paga a reconstrução. E quem reconstrói? Os mesmos. Com os mesmos métodos. Para os mesmos resultados. Até à próxima tempestade.

Precisávamos de quem pensasse o futuro numa lógica preventiva, mesmo investindo mais do que a cultura dos tais patos bravos pressupõe. Precisávamos de linhas enterradas que não caem com o vento. De materiais de construção que resistem a tempestades previsíveis. De planeamento urbano que respeita leitos de cheia e capacidade de absorção dos solos. De fiscalização que fiscaliza a sério, de licenciamento que condiciona a sério, de penalizações que doem a sério quando se constrói mal.

Mas quem tem o poder e distribui o dinheiro público enjeita o provérbio popular sobre sair caro o que parece ser barato. Porque para eles não sai caro — sai barato e rende muito. E quando finalmente se prova caro, quem paga não são eles. São os que ficam sem luz, sem comunicações, sem casa, sem segurança.

Os patos bravos dos anos sessenta ficaram ricos construindo mal e rápido. Os patos bravos de hoje continuam a ficar ricos exatamente da mesma maneira. A única diferença é que agora têm acesso a fundos europeus, a programas de desenvolvimento regional, a incentivos à construção. Mais dinheiro público para embolsar. Mais oportunidades para construir barato e vender caro. Mais lucros privados extraídos de investimento público.

E quando a tempestade vem — e a tempestade vem sempre — somos nós que pagamos. Duas vezes: primeiro quando financiamos a construção barata através de subsídios e fundos públicos, depois quando financiamos a reparação dos estragos que essa construção barata inevitavelmente provoca.

Os patos bravos nunca morreram. Apenas evoluíram. E enquanto continuarem a ter quem lhes distribui dinheiro público sem exigir qualidade, quem lhes licencia obras sem fiscalizar execução, quem lhes permite construir em leitos de cheia e impermeabilizar à vontade, continuarão a prosperar.

E nós continuaremos a pagar. A conta da ganância alheia. Como sempre. 

terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Trump e o caminho para a decadência imperial

 

Trump deve imaginar-se imperador. Já há quem fale em neorrealeza. As declarações, os gestos, a retórica — tudo aponta para alguém que se vê não como presidente temporário de uma república, mas como monarca absoluto de um império sem limites. E a História está cheia de exemplos do que acontece quando essa ilusão imperial se instala na mente de quem detém poder absoluto.

Trump é, como escreve Amílcar Correia, "o somatório perfeito de autoritarismo e competição". Substituiu deliberadamente a multilateralidade pela multipolaridade, trocou a cooperação pela competição pura. E nesta lógica, como bem nota Correia, "a transação oportuna vale mais do que a defesa do direito internacional". Não há regras, não há princípios, não há limites — apenas oportunidades de negócio e demonstrações de força.

Mas esta mesma lógica, que Trump julga ser prova da sua genialidade, pode ser o caminho para a decadência irreversível do império americano. A História oferece exemplos abundantes de impérios que entraram em colapso precisamente na fase em que eram liderados por figuras mentalmente transtornadas, convencidas da sua omnipotência, incapazes de perceber que estavam a destruir aquilo que pretendiam engrandecer.

Nero tocava lira enquanto Roma ardia. Não literalmente, talvez, mas a metáfora persiste porque captura uma verdade: o imperador que perde contacto com a realidade, que se rodeia de aduladores, que confunde capricho pessoal com interesse imperial, que transforma governação em espetáculo grotesco. Nero achava-se artista, poeta, visionário. O Senado achava-o louco. A História deu razão ao Senado. O império sobreviveu a Nero, mas nunca recuperou inteiramente o prestígio e a estabilidade que ele destruiu.

Hitler, nos seus últimos meses no bunker de Berlim, movia exércitos que já não existiam em mapas que já não correspondiam à realidade. Dava ordens a divisões fantasma, planeava contra-ataques impossíveis, recusava-se a aceitar que o Reich de Mil Anos estava a desmoronar-se à sua volta. A combinação de megalomania, paranoia e desligamento total da realidade levou-o a destruir deliberadamente a própria Alemanha numa espécie de suicídio nacional. Se ele não podia vencer, então ninguém merecia sobreviver.

Napoleão, após o desastre da Rússia, continuou a comportar-se como se fosse invencível. Recusou acordos de paz razoáveis porque achava que estava destinado a dominar a Europa. Mobilizou exércitos cada vez maiores para campanhas cada vez mais insensatas. E quando finalmente caiu, a França tinha perdido a hegemonia continental que ele próprio tinha construído. O império que Napoleão criou colapsou precisamente porque ele não soube quando parar, quando consolidar, quando aceitar limites.

A nomenklatura senil da União Soviética nos anos 1980 oferece um exemplo diferente mas igualmente instrutivo. Não era loucura individual, mas loucura sistémica — uma classe dirigente tão desligada da realidade, tão presa à retórica ideológica, tão incapaz de reformar, que continuou a insistir que o sistema funcionava mesmo quando todos os indicadores mostravam o contrário. Quando finalmente caiu, caiu de repente, apanhando toda a gente de surpresa, inclusive os próprios dirigentes soviéticos.

Trump apresenta elementos de todos estes padrões. Como Nero, transforma a governação em espetáculo pessoal, confunde os interesses do império com o seu ego hipertrofiado. Como Hitler, recusa-se a aceitar limites impostos pela realidade e rodeia-se de aduladores que lhe dizem apenas o que ele quer ouvir. Como Napoleão, não sabe quando parar, quando consolidar, quando perceber que mais expansão significa mais vulnerabilidade. Como a nomenklatura soviética, comanda um sistema que mostra sinais evidentes de disfunção mas insiste que está a tornar a América "grande outra vez".

Os sinais de desconexão com a realidade multiplicam-se. O rapto de Maduro foi apresentado como demonstração de força, mas pode acabar por ser demonstração de fraqueza — a incapacidade de conseguir objetivos estratégicos sem recurso a atos de pirataria internacional que destroem qualquer pretensão de liderança moral. O assédio à Gronelândia seguido de recuo tático em Davos mostra um padrão errático de ameaças seguidas de hesitações. O adiamento do ataque ao Irão revela que mesmo Trump percebe que há limites ao que pode fazer impunemente — mas essa perceção não o impede de continuar a fazer ameaças que depois não pode cumprir, minando sistematicamente a credibilidade americana.

E depois há a política interna: as deportações em massa, os ataques às instituições democráticas, a transformação do ICE numa espécie de polícia política, a retórica cada vez mais explicitamente autoritária. Amílcar Correia nota que a oposição ao "kitsch totalitário" está mobilizada, que os democratas ganham eleições, que protestos corajosos tomam as ruas. Mas isto também é padrão histórico: os impérios em declínio radicalizam-se internamente, tornam-se mais repressivos, mais paranoicos, mais dispostos a usar violência contra os próprios cidadãos.

A questão fundamental, como diz Mario Draghi citado por Correia, não é o colapso da ordem mundial — "a ameaça é o que a pode substituir". E aqui reside o verdadeiro perigo da loucura imperial de Trump: ele está a destruir a ordem internacional que garantiu décadas de relativa estabilidade, mas não está a construir nada no seu lugar. Apenas caos, oportunismo transacional, esferas de influência em competição permanente.

O resultado previsível é uma América que, como a Rússia de Putin hoje, será potência decadente. Ainda terá armas nucleares, ainda terá capacidade militar significativa, ainda poderá causar destruição massiva. Mas já não terá legitimidade, já não será modelo para ninguém, já não liderará através de soft power ou prestígio moral. Será apenas mais uma potência autoritária entre outras, tentando manter pela força aquilo que já não consegue manter pela influência.

Putin construiu essa Rússia — um país com armas de superpotência mas economia de país em desenvolvimento, com retórica imperial mas influência regional declinante, com pretensões globais mas cada vez mais dependente de parceiros menores como a Coreia do Norte e o Irão. É uma potência que inspira medo mas não respeito, que pode destruir mas não construir, que vive de glórias passadas porque já não consegue criar glórias presentes.

Trump está a construir a mesma coisa para os Estados Unidos. A operação na Venezuela pode ter sido militarmente bem-sucedida, mas foi desastre diplomático. A ameaça à Gronelândia pode ter mobilizado a base trumpista, mas alienou aliados europeus. O confronto com a China pode jogar bem internamente, mas está a acelerar a construção de uma ordem multipolar onde os EUA são apenas um pólo entre vários, não o centro indiscutível.

E tal como Nero não percebia que estava a destruir Roma, tal como Hitler não aceitava que estava a arrastar a Alemanha para o abismo, tal como Napoleão se recusava a ver que tinha ultrapassado o ponto de expansão sustentável, tal como a nomenklatura soviética não compreendia que o sistema estava morto — Trump também não parece capaz de perceber que está a transformar a América numa potência decadente.

Muitos temem que Trump esteja num estado de loucura em que tudo lhe parece ser permitido. Esse medo é justificado. Mas talvez o medo maior devesse ser outro: não que Trump seja louco no sentido clínico, mas que seja perfeitamente racional dentro da sua própria lógica — uma lógica que confunde força com poder, que substitui estratégia por táctica, que troca liderança por domínio, que destrói ordem sem criar alternativa.

Porque quando um império colapsa liderado por um louco, ainda há esperança de que a loucura seja temporária e reversível. Mas quando colapsa liderado por alguém que age racionalmente segundo premissas fundamentalmente erradas, então o colapso é estrutural, não conjuntural. Não é acidente que pode ser corrigido — é escolha que se torna destino.

A América prometida a ser "grande outra vez" pode acabar tão decadente quanto a Rússia de Putin. Não porque Trump seja louco, mas porque a sua racionalidade imperial — essa mistura tóxica de megalomania, oportunismo transacional e desprezo absoluto pelas regras — é exatamente a racionalidade que historicamente conduz impérios ao colapso.

E quando esse colapso vier, como veio para Roma depois de Nero, para a Alemanha depois de Hitler, para a França depois de Napoleão, para a União Soviética depois da nomenklatura senil, a pergunta não será "como não vimos isto a chegar?" A pergunta será: "como é que deixámos que acontecesse, quando todos os precedentes históricos nos avisavam exatamente para onde este caminho conduzia?"

A resposta, provavelmente, será a mesma de sempre: porque enquanto o imperador estava nu, toda a gente fingia que ele estava vestido. Até ao dia em que já ninguém conseguia fingir mais.