sábado, 25 de abril de 2026

A fotografia falsa e a obrigação de pensar

 

A imagem circula pelas redes sociais com a força emocional que elas adoram: um violinista esquelético, em primeiro plano, rodeado por dezenas de prisioneiros igualmente subnutridos, numa cena que, supostamente, retrata a transferência de prisioneiros de um campo de concentração nazi antes da chegada dos Aliados. É pungente, é comovente, é partilhável. E é completamente falsa.

A fotografia foi inteiramente construída por inteligência artificial. Não retrata momento histórico algum. Não documenta sofrimento real. É fabricação digital destinada a gerar cliques, a valorizar sites que ganham dinheiro em função do tráfego que conseguem atrair, a explorar emocionalmente quem a vê e partilha sem questionar.

Os historiadores detetaram rapidamente as incongruências gritantes. Os uniformes não correspondem aos usados nos campos. A disposição dos prisioneiros não faz sentido logístico. O violino, em bom estado de conservação, seria impensável naquele contexto. A própria composição da imagem — demasiado perfeita, demasiado cinematográfica — denuncia a sua artificialidade.

Mas a maioria de quem partilha não sabe disto. Não verifica. Não questiona. Vê uma imagem que confirma aquilo que já sabe — que o Holocausto foi horror indizível — e partilha para demonstrar solidariedade, para mostrar que não esquece, para afirmar valores humanistas.

E aqui reside o primeiro problema: mesmo quando serve causas justas — e lembrar o Holocausto é causa justa — a mentira permanece mentira. E usar imagens falsas para comover, mesmo que a emoção seja dirigida a factos reais, é manipulação. É instrumentalização do sofrimento histórico para lucro de quem gere sites destinados a quem julga neles encontrar informação fidedigna.

Mas há um segundo problema, mais perturbador e politicamente mais carregado. Esta fotografia falsa surge precisamente no momento em que Israel prossegue a sua política genocida em Gaza, na Cisjordânia e no Líbano. E ao circular massivamente, ao comover milhões de pessoas com o sofrimento judeu histórico — real, documentado, inegável — cria um contexto emocional que torna mais difícil criticar o sofrimento que Israel está neste momento a infligir aos palestinianos.

Não é coincidência. Não é acaso. É estratégia — consciente por parte de alguns, inconsciente por parte de muitos — de usar a memória do Holocausto como escudo contra as críticas às políticas israelitas atuais. Como se reconhecer o horror do genocídio nazi obrigasse a silenciar o que Israel faz hoje. Como se as vítimas de ontem não pudessem ser criticadas pelos crimes de hoje.

Esta instrumentalização é obscena. O Holocausto não pertence a Israel. Pertence à História, à memória coletiva da Humanidade, ao imperativo de "nunca mais". E esse "nunca mais" aplica-se a todos os genocídios — incluindo o que Israel está a perpetrar neste momento contra os palestinianos.

Usar imagens falsas do Holocausto para gerar tráfego comercial é vigarice moral. Usar essas mesmas imagens para criar contexto emocional que dificulta críticas a Israel é obscenidade política. E ambas as coisas acontecem simultaneamente quando fotografias como esta circulam sem escrutínio crítico.

O problema não é exclusivo desta imagem específica. É sintoma de crise mais profunda: a forma como consumimos informação nas redes sociais. Vemos, emocionamo-nos, partilhamos. Não verificamos, não questionamos, não pensamos criticamente sobre o que estamos a amplificar.

E isto tem consequências. Quando partilhamos imagens falsas — mesmo emocionalmente "verdadeiras" e politicamente alinhadas com os nossos valores — estamos a contribuir para a erosão da verdade como categoria relevante. Estamos a validar a ideia de que o que importa não é a correspondência com os factos, mas o impacto emocional. Estamos a treinar-nos a nós próprios e aos outros para aceitar manipulação desde que nos faça sentir da maneira "certa".

E quando a verdade deixa de importar, quando a verificação factual é substituída por ressonância emocional, ficamos indefesos perante manipulações muito mais perigosas. Se aceitamos fotografias falsas porque nos comovem, porque não aceitaremos narrativas falsas que nos confortam? Se não questionamos imagens que confirmam aquilo que já acreditamos, porque questionaríamos informações que reforçam os nossos preconceitos?

Há responsabilidade individual aqui. Cada um de nós que partilha sem verificar, que amplifica sem questionar, que consome informação como quem consome fast food — rapidamente, sem pensar, sem questionar ingredientes — está a contribuir para o problema.

Mas há também responsabilidade sistémica. Os algoritmos premiam conteúdo que gera reações emocionais fortes, não conteúdo que corresponde aos factos. Há muitos sites a ganharem dinheiro com tráfego, independentemente de como o conseguem.

E quando juntamos estas duas coisas — utilizadores que não pensam criticamente e sistemas que lucram com a ausência desse pensamento crítico — obtemos exatamente o que temos: um ecossistema informativo poluído onde imagens falsas circulam com a mesma ou maior facilidade que imagens verdadeiras, onde factos e ficção se misturam indistintamente, onde a emoção substitui o escrutínio.

O que fazer? Algumas sugestões práticas, humildes mas necessárias:

Antes de partilhar qualquer imagem emocionalmente forte, parar. Questionar. Verificar. Procurar fontes. Usar ferramentas de reverse image search. Ler o que historiadores e especialistas dizem.

Desconfiar especialmente de imagens que confirmam aquilo que já acreditamos. As que desafiam as nossas convicções são escrutinadas naturalmente. As que as reforçam passam sem filtro. E é precisamente aí que a manipulação é mais eficaz.

Reconhecer que partilhar informação falsa — mesmo sem intenção maliciosa, mesmo em defesa de causas justas — tem consequências. Polui o debate público, mina a confiança na informação verificável, facilita manipulações futuras.

E sobretudo: manter capacidade de distinguir entre causas justas e métodos duvidosos. O Holocausto foi real e deve ser lembrado. Isso não justifica usar imagens falsas para o lembrar. Israel comete genocídio em Gaza. Isso não fica invalidado porque também há manipulação emocional sobre o Holocausto. Duas coisas podem ser verdade ao mesmo tempo.

Navegar esta complexidade exige o que as redes sociais nos treinam para não fazer: pensar criticamente, verificar antes de partilhar, distinguir entre factos e emoções, reconhecer manipulação mesmo quando serve causas que apoiamos.

Não é fácil. Nunca foi. Mas é necessário. Porque quando deixamos de pensar criticamente sobre o que consumimos, quando substituímos escrutínio por ressonância emocional, quando partilhamos sem verificar — ficamos à mercê de quem nos quer manipular.

E neste momento, entre vigarices comerciais e instrumentalizações políticas, entre factos e ficções, entre memória e manipulação — há muita gente que lucra com a nossa ausência de pensamento crítico.

Não lhes facilitemos o trabalho.

A reforma laboral que ninguém quer

 

A reforma laboral está moribunda. Quase ninguém acredita na sua viabilização. E os poucos que ainda fingem acreditar fazem-no por teimosia, por orgulho ferido, por incapacidade de reconhecer a derrota que se avizinha.

Com o chumbo da UGT — essa central sindical habitualmente tão disponível para acordos com governos de direita — e a renitência do Chega — que adivinha perfeitamente o quanto lhe custaria eleitoralmente apoiar a "reforma" perante os que lhe chegaram a partir das esquerdas desiludidas — a teimosia da ministra Rosário Palma Ramalho, acolitada na ambição maximalista do patrão da CIP, parece destinada a resultar numa derrota significativa do Governo.

E essa derrota tem um sabor particularmente doce. Porque representa o momento em que Luís Montenegro e os seus lugares-tenentes começam finalmente a sentir na pele que uma coisa foi chegarem ao poder, outra completamente diferente é exercê-lo a seu bel-prazer.

A reforma laboral — chamemos-lhe pelo nome real: destruição organizada de direitos dos trabalhadores — nasceu da arrogância de quem se julgava intocável. Montenegro chegou ao governo convencido de que podia fazer o que quisesse. Tinha maioria relativa, tinha o Chega disponível para viabilizar o que fosse preciso, tinha a comunicação social maioritariamente favorável, tinha o patronato a empurrá-lo.

A ministra Rosário Palma Ramalho, académica sem experiência política relevante mas com ideias muito claras sobre o quanto os trabalhadores portugueses têm demasiados direitos, apresentou um pacote legislativo que integrava o pensamento mágico do patronato: facilitação de despedimentos, precarização do vínculo laboral, redução de compensações, flexibilização de horários que na prática significa disponibilidade total do trabalhador para as necessidades da empresa.

O presidente da CIP aplaudiu entusiasticamente. Era tudo o que sempre quisera e mais alguma coisa. Esticava-se a corda ao máximo — não era só retirar alguns direitos, mas refundar por completo a relação laboral numa lógica em que o trabalhador é mercadoria descartável e o empregador senhor absoluto.

E julgavam que a fragmentação sindical, a passividade social, o medo do desemprego criariam as condições para impor o que quisessem. Enganaram-se.

A greve geral foi o primeiro sinal de que tinham ido longe demais. A dimensão da paralisação, a adesão transversal, a capacidade de mobilização que a CGTP demonstrou — tudo isto revelou que havia limite para o que os trabalhadores portugueses estavam dispostos a engolir.

Mas Montenegro e Palma Ramalho fingiram não ver. Continuaram a insistir, a fazer ajustes cosméticos ao pacote, a tentar vender como "diálogo social" o que era imposição mal disfarçada. A CIP continuou a pressionar — não queria menos do que tinha pedido inicialmente.

Depois veio o chumbo da UGT. E isto é particularmente revelador. A UGT, historicamente aliada dos governos de direita, disponível para acordos que a CGTP rejeita, moderada nas reivindicações e nos métodos — até a UGT disse não ao conjunto do pacote, à filosofia que o sustenta, à visão de relações laborais que representa. Quando até os teus amigos te abandonam, é porque foste verdadeiramente longe demais.

E depois há o Chega. Ventura descobriu que não pode simplesmente votar tudo o que a direita propõe sem pagar custos eleitorais. Uma parte significativa do seu eleitorado vem das esquerdas desiludidas — trabalhadores precarizados, gente que perdeu fé no PS e no sistema, pessoas que votam Chega não por ideologia fascista, mas por desespero e raiva.

Se Ventura aprovar uma reforma laboral que piora objetivamente as condições de vida desses trabalhadores, como se explicará aos seus eleitores? Como continuará a vender-se como defensor do "povo" contra as "elites" se vota com o patronato contra os trabalhadores?

Ventura não tem princípios — isso ficou abundantemente demonstrado. Mas tem instinto de sobrevivência política. E o instinto diz-lhe que aprovar esta reforma seria suicídio eleitoral. Daí a renitência, as hesitações, as exigências de alterações que sabe que o Governo não pode aceitar sem esvaziar o pacote de sentido.

É cinismo puro. Ventura não se opõe à reforma porque defende os trabalhadores — opõe-se porque obceca-o a preservação do seu eleitorado. Mas o resultado prático é o mesmo: mais um voto que falta para fazer passar a legislação.

Montenegro está encurralado. Não tem votos à direita — o Chega hesita, a IL quer mas não basta. Não tem votos ao centro — o PS obviamente opõe-se. Não tem apoio sindical — nem da CGTP nem da UGT. Não tem sequer consenso patronal — há sectores empresariais que percebem que relações laborais demasiado conflituais são más para os negócios.

E, no entanto, continua a insistir, só agravando a derrota que se avizinha. Cada dia que passa sem consenso é mais um dia em que fica claro que este Governo não consegue aprovar aquilo que queria aprovar, não consegue impor aquilo que queria impor, não tem a força que julgava ter.

Esta não é apenas derrota de uma lei específica. É derrota de uma visão de governação. Montenegro chegou ao poder julgando que podia governar como quem gere uma empresa privada — decide no topo, executa abaixo, ignora oposição. Está a descobrir que governar país democrático é outra coisa.

Exige negociação. Exige compromisso. Exige capacidade de perceber quando se foi longe demais e é preciso recuar. Exige humildade para reconhecer que há limites ao que se pode impor mesmo quando se tem maioria parlamentar.

Montenegro não tem nenhuma destas qualidades. É gestor tático habituado a cartadas de curto prazo, não é estadista com visão de longo prazo. E está a pagar o preço dessa limitação.

A reforma laboral morrerá. Talvez não formalmente — talvez aprovem versão tão mutilada que já não serve os objetivos iniciais. Talvez a adiem sine die, fingindo que é para "aprofundar diálogo social". Talvez a retirem discretamente, enterrando-a em alguma gaveta ministerial.

Mas morrerá. E com ela morre um bocado da ilusão de Montenegro de que chegara ao poder para fazer o que quisesse. Uma coisa foi lá chegar. Outra é exercê-lo. Montenegro está a aprender a diferença. E a lição está a ser dolorosa.

Para nós, que vemos os direitos laborais defendidos por resistência dos trabalhadores, a lição é diferente: vale a pena lutar. Vale a pena fazer greve. Vale a pena resistir.

Porque às vezes — não sempre, mas às vezes — os poderosos recuam. E quando recuam, não é por generosidade. É porque encontraram força que não esperavam, resistência que não anteciparam, limites que julgavam não existir.

A reforma laboral ensinou isso a Montenegro. E ensinou-nos a nós que ainda não estamos tão derrotados quanto ele gostaria que estivéssemos.

quarta-feira, 8 de abril de 2026

A China que vai lá muito à frente

 

O professor Arlindo Oliveira regressou recentemente de uma viagem por alguns países asiáticos e aterrou na Europa com a sensação de vir do futuro. Porque a aplicação da tecnologia no quotidiano dos cidadãos comuns, sobretudo na China, é tal que o nosso atraso tecnológico cresce abissalmente a cada ano que passa.

Diariamente leio e ouço opinadores que expressam o seu terror perante a ameaça chinesa. Não lhes faltam loas à nossa "democracia liberal" perante a perversidade da "ditadura comunista". Invocam os direitos humanos, a liberdade de expressão, a superioridade moral do Ocidente. E usam tudo isto para esconder uma verdade que os aterroriza: estamos a ficar para trás. Tecnologicamente, economicamente, infraestruturalmente — estamos a perder a corrida.

Mas, tal como vi quando por razões profissionais estive na China em estadias ora curtas, ora prolongadas por várias semanas, não faltam testemunhos como o do professor do Técnico: quem lá vai surpreende-se com a rapidez com que o futuro ali se vai materializando. Pagamentos digitais universais que tornaram o dinheiro físico obsoleto. Transportes públicos integrados com eficiência que as nossas cidades nem sonham alcançar. Infraestruturas de telecomunicações que fazem parecer primitivo o que temos na Europa. Aplicação massiva de inteligência artificial em serviços públicos, saúde, educação.

Isto não é propaganda do Partido Comunista Chinês. É constatação factual de quem lá esteve e viu. E levanta questões desconfortáveis que os nossos opinadores preferem ignorar.

Enquanto o nosso capitalismo serôdio nos vai conduzindo em lentíssima velocidade — eternamente adiando investimentos, privatizando lucros e socializando prejuízos, subfinanciando infraestruturas — a China avança a uma velocidade que nos deixa cada vez mais para trás. E ainda assim, trazendo consequências em desemprego decorrente da automação e da inteligência artificial que não parecem assustar tanto os chineses.

Porquê? Porque têm planeamento de longo prazo. Porque o Estado pode investir maciçamente sem depender de ciclos eleitorais de quatro anos. Porque a implementação tecnológica não fica refém de lobbies corporativos que lucram com a ineficiência. Porque há coordenação entre investigação académica, aplicação industrial e serviços públicos que no nosso sistema fragmentado e privatizado é impossível replicar.

Isto não significa que a China seja modelo a seguir acriticamente. O regime é autoritário, a vigilância é omnipresente, a repressão política é real. Mas fingir que estas limitações democráticas explicam ou justificam o nosso atraso tecnológico é exercício de autoilusão confortável.

A verdade desconfortável é que o nosso sistema — a “democracia liberal” combinada com capitalismo neoliberal — está a revelar-se incapaz de planear e executar investimento tecnológico à escala e velocidade necessárias para competir com economias que operam sob lógicas diferentes. E quanto mais tempo passarmos a cantar loas à nossa superioridade moral em vez de reconhecer a inferioridade executiva, mais irrecuperável se torna o fosso.

O professor Arlindo Oliveira voltou do futuro. E o futuro, pelos vistos, não fala a nossa língua nem partilha o nosso sistema político. Podemos continuar a fingir que a nossa “democracia liberal” nos salvará automaticamente. Ou podemos acordar para a realidade: estamos a ficar para trás, e rápido. E nenhuma quantidade de retórica sobre valores ocidentais mudará esse facto.

terça-feira, 7 de abril de 2026

Os burgessos da Manosfera

 

Um artigo recente do Público evocou o quanto é séria a ameaça da manosfera, esse universo digital onde rapazes frustrados cultivam ódio às mulheres, ressentimento social e fantasias de violência. O fenómeno indica uma tremenda frustração de muitos jovens com o medíocre presente e com o saberem quão problemático lhes será o futuro — sem perspetivas de emprego estável, sem possibilidade de casa própria, sem os privilégios que as gerações anteriores tiveram.

Mas, ao invés dos que pedem contenção a respeito das razões sociológicas que os tornam assim — como se compreender fosse desculpar, como se explicar fosse justificar — mantenho a convicção de confrontá-los com o quão burgessos são e o quanto poderiam ter melhor rumo se tentassem contrariar essa condição em vez de se afundarem nela.

Sim, o sistema é injusto. Sim, o capitalismo neoliberal destruiu as perspetivas de ascensão social que gerações anteriores tiveram. Sim, a precariedade é estrutural e a frustração é legítima. Mas nada disto justifica transformar as mulheres em bodes expiatórios, cultivar o supremacismo masculino, alimentar a violência misógina.

E há precedente histórico para lidar com isto. Durante anos houve muitos racistas e fascistas entre nós. Sabíamo-los encapotados, envergonhados, escondidos — porque tinham consciência de quão desmascarados e humilhados seriam se ostentassem publicamente o que pensavam. A vergonha social funcionava como travão. Não eliminava o racismo nem o fascismo, mas impedia que se normalizasse, se tornasse aceitável e contaminasse o espaço público.

É fundamental que os burgessos da manosfera voltem a essa clandestinidade, batendo de frente com a constatação da sua misoginia não ser opinião legítima num debate de ideias, mas patologia que merece repúdio social. Que sintam vergonha — não da frustração legítima com o sistema, mas da forma cobarde e destrutiva como escolhem canalizá-la.

Compreender as causas sociológicas não implica tolerância com as consequências. E confrontar a estupidez dos burgessos não é falta de empatia — é recusa de normalizar o inaceitável.

segunda-feira, 6 de abril de 2026

Um cowboy desorientado

 

Os fracassos acumulados por Trump no Irão lembram-me a opção que cedo fiz quando, em miúdo, via filmes ou séries de cowboys: tomava invariavelmente o partido dos índios. E isso coincidiu, felizmente, com o aparecimento de filmes vindos de Hollywood em que essa opção também começava a ser assumida — filmes que mostravam os nativos americanos não como selvagens unidimensionais, mas como povos com cultura, dignidade e razão para resistir aos invasores que lhes roubavam terras e vida.

A escolha das trincheiras de esquerda contra as da direita foi-me natural desde sempre por defender os humilhados e ofendidos do sistema capitalista contra os seus exploradores. Daí que, não tendo obviamente nenhuma simpatia pelo regime dos aiatolas — que é teocrático, repressivo e profundamente injusto para a sua população — me dê particular prazer as derrotas sucessivas que Trump vai acumulando na guerra, que começou por instigação dos genocidas sionistas.

Porque Trump é o poltrão arquetípico. Lembra aqueles miúdos corpulentos que, nas escolas, gostavam de dar tareias nos miúdos franganotes, cientes de não esperarem deles grandes capacidades de resistência. Escolhem sempre vítimas que julgam indefesas, atacam quando têm esmagadora superioridade numérica ou física, recuam sempre que encontram quem resista.

Dos iranianos, o ocupante conjuntural da Casa Branca está a descobrir uma realidade muito diferente da que sonhara. Pensou que seria como raptar Maduro — uma operação relâmpago, nenhuma resistência efetiva, vitória fácil para exibir aos apoiantes. Descobriu que o Irão não é a Venezuela empobrecida por anos de sanções. Tem capacidade militar real, mísseis que chegam a todo o território israelita, aliados regionais que podem multiplicar frentes de conflito, controlo sobre o Estreito de Ormuz que pode estrangular a economia global.

E quando Trump percebeu isto — quando lhe explicaram que atacar o Irão não seria passeio militar, mas guerra prolongada com custos humanos, económicos e políticos devastadores — fez o que os poltrões fazem sempre: anseia por recuar. Adiou. Procurou culpar outros. Pediu ajuda aos aliados que tinha insultado. E agora debate-se em palpos de aranha, preso numa guerra que começou, mas não sabe como terminar, descobrindo que afinal precisa de ajuda mas ninguém a quer dar.

É uma lição que a História ensina repetidamente, mas que os poltrões nunca aprendem: bater nos fracos não te torna forte. Apenas te expõe quando finalmente enfrentas quem dá o possível troco. 

quinta-feira, 2 de abril de 2026

Dupond, Dupond e o Pote

 

Passos Coelho regressou. Montenegro governa. E os comentadores políticos deliciam-se a analisar as diferenças, as nuances, os desacordos subtis entre os dois homens que supostamente representam visões distintas da direita portuguesa. É teatro. Puro teatro para entreter os distraídos enquanto ambos fazem exatamente a mesma coisa: governar para os mesmos interesses, com os mesmos objetivos, partilhando a mesma cumplicidade essencial com o Chega.

A Lei da Nacionalidade é apenas o mais recente exemplo dessa cumplicidade. Montenegro apresenta-a, Passos Coelho apoia-a dos bastidores, Ventura aplaude. Os três comungam da mesma visão: Portugal para os "verdadeiros" portugueses, fronteiras fechadas, estrangeiros como ameaça, cidadania como privilégio a conceder parcimoniosamente. Muda a retórica — Montenegro finge moderação, Passos veste-se de estadista, Ventura berra abertamente — mas a substância é idêntica.

Para os portugueses, o que separa Passos de Montenegro pouco deve importar. Porque pensando exatamente o mesmo, destruindo os mesmos serviços públicos, precarizando o mesmo trabalho, favorecendo os mesmos interesses económicos, só os divide uma questão: quem deve estar na posse do "pote". Quem controla o partido, quem distribui os cargos, quem manda na máquina. O resto é cosmética para consumo mediático.


Neste sentido, como não pensar nos personagens de Dupond e Dupond do Tintin? Os gémeos inseparáveis, vestidos de forma idêntica, com os mesmos bigodes, as mesmas bengalas, dizendo as mesmas coisas com ligeiras variações sintáticas. "Diria mesmo mais" — a frase que os caracteriza — resume perfeitamente a falsa oposição entre Passos e Montenegro. Um diz "vamos destruir os direitos laborais", o outro acrescenta "diria mesmo mais: vamos aniquilá-los completamente". Um propõe "dificultar a nacionalização", o outro emenda "diria mesmo mais: torná-la quase impossível".

São o mesmo. Sempre foram. A diferença está apenas na disputa pelo protagonismo, pela liderança, pelo controlo do aparelho partidário. Passos julga-se o grande estadista da austeridade, o homem que "salvou" Portugal (leia-se: destruiu os serviços públicos e empobreceu a população para pagar aos credores). Montenegro julga-se o hábil tático que finalmente devolveu o poder à direita. Mas olhando para as políticas, para as escolhas, para as cumplicidades — são indistinguíveis.

E aqui reside uma ironia amarga: para fazer esta comparação com Dupond e Dupond, tenho de recorrer a um autor que, pela xenofobia e ultracatolicismo que atravessam a sua obra, não poderia estar mais de acordo com o trio de cúmplices — Passos, Montenegro e Ventura. Hergé, o criador de Tintin, tinha simpatias fascistas bem documentadas, colaborou com publicações pró-nazis durante a ocupação da Bélgica, encheu as suas histórias de estereótipos racistas que hoje fazem corar qualquer leitor minimamente atento.

Os congoleses retratados como selvagens infantilizados. Os judeus caricaturados com todos os clichés antissemitas disponíveis. Os árabes como vilões unidimensionais. A visão imperial europeia como norma civilizacional inquestionável. Hergé seria hoje militante confortável do Chega — talvez até seu ideólogo cultural, fornecendo aos seguidores de Ventura a justificação pseudointelectual de que tanto precisam para disfarçar o ódio primário.

Mas as personagens de Dupond e Dupond captam tão perfeitamente a essência da falsa oposição Passos-Montenegro que vale a pena usar a referência, mesmo reconhecendo a toxicidade do seu criador. Porque Hergé, conscientemente ou não, retratou na dupla de detetives incompetentes algo de universal: a ilusão da diferença onde só existe repetição, a encenação do desacordo onde reina o consenso, a farsa da oposição onde há apenas divisão de espólio.

Passos e Montenegro encenam desacordos para a comunicação social. Trocam farpas calculadas, deixam filtrar "tensões" entre as suas equipas, alimentam narrativas de "correntes" diferentes dentro do PSD. E depois, quando é preciso votar, quando é preciso governar, quando é preciso escolher entre proteger os trabalhadores ou servir o patronato, entre defender o SNS ou entregá-lo aos privados, entre integrar imigrantes ou criminalizá-los — votam igual, governam igual, escolhem igual.

A Lei da Nacionalidade é cristalina neste sentido. Podiam ter optado por facilitar a integração, por reconhecer que Portugal precisa de imigrantes não apenas economicamente, mas também demograficamente, por aceitar que a nacionalidade não é prémio de mérito mas direito de quem aqui vive e contribui. Podiam. Não quiseram. Porque tanto Passos como Montenegro partilham com Ventura a mesma visão essencial: Portugal como clube exclusivo, cidadania como privilégio, estrangeiros como ameaça.

Ventura di-lo aos berros. Montenegro embrulha em tecnicalidades jurídicas. Passos reveste de linguagem pseudoestadista. Mas dizem o mesmo. Querem o mesmo. Servem os mesmos interesses e os mesmos medos.

E aqui está a grande fraude da política portuguesa contemporânea: fazem-nos discutir se preferimos Passos ou Montenegro, se achamos melhor o "estadista" experiente ou o "tático" oportunista, se a direita deve ser mais europeia ou mais atlantista. Enquanto isso, ambos executam a mesma agenda, destroem os mesmos direitos, protegem os mesmos privilégios, alimentam os mesmos preconceitos.

Dupond e Dupond perseguem criminosos e capturam inocentes. Causam desastres em cadeia enquanto se julgam competentes. Repetem as mesmas parvoíces com ligeiras variações. E no final, quando tudo corre mal, culpam outros pelos seus próprios erros.

Passos e Montenegro destroem serviços públicos e culpam os utentes por os usar. Precarizam o trabalho e culpam os trabalhadores por não serem "competitivos". Dificultam a integração de imigrantes e depois culpam-nos pelos "problemas de integração". E enquanto fazem isto, encenam divergências para entreter a plateia, discutem quem deve ter o pote, fingem que representam visões diferentes quando representam apenas os mesmos interesses com retóricas ligeiramente distintas.

A verdade é simples e brutal: para quem sofre as consequências — para quem perde direitos laborais, para quem vê o SNS colapsar, para quem enfrenta rendas impossíveis, para quem tenta integrar-se num país que o trata como intruso — tanto faz se é Passos ou Montenegro a governar. O resultado é o mesmo. A dor é idêntica. A política não muda.

E quando Ventura se junta à fotografia — quando o fascista explícito colabora com os fascistas envergonhados, quando o xenófobo declarado vota com os xenófobos dissimulados — já nem sequer se pode fingir que há diferenças que importem.

Dupond, Dupond e Ventura. Um trio de cúmplices que encenam oposições para melhor partilhar o pote enquanto servem a mesma agenda. Hergé ficaria orgulhoso. E nós, que somos obrigados a viver as consequências desta farsa, ficamos com a certeza de que a única oposição real não está entre Passos e Montenegro.

Está entre todos eles — os três, os cúmplices, os encenadores da falsa diferença — e nós, que pagamos o preço da sua identidade essencial disfarçada de pluralismo democrático.

sábado, 28 de março de 2026

André Ventura, o sodomita

Na apresentação pública da tradução do mais recente volume da sua monumental versão da Bíblia, o professor Frederico Lourenço abordou um tema pertinente: a adulteração sistemática dos textos originais por uma Igreja Católica apostada em impor a sua agenda ao longo da História da sua implantação.

O caso da destruição de Sodoma é paradigmático dessa manipulação. Durante séculos, a Igreja quis fazer crer que a cidade foi destruída por Deus devido às práticas sexuais dos seus habitantes — especificamente, a sodomia, termo que nem por acaso deriva do nome da cidade. A razão desta insistência era transparentemente instrumental: diabolizar práticas sexuais que limitavam o crescimento demográfico das hostes católicas. Mais fiéis, mais poder. Mais filhos, mais soldados de Cristo. A condenação moral da homossexualidade servia objetivos muito terrenos de expansão institucional.

Mas o texto rigorosamente vertido por Frederico Lourenço a partir do grego original conta história completamente diferente. Fala de anjos que chegaram a Sodoma para testarem o comportamento dos seus habitantes perante os estrangeiros, os diferentes, os que vinham de fora. E depararam com o ostracismo xenófobo de quem não tolerava essa presença, de quem via nos estrangeiros uma ameaça, de quem queria expulsá-los ou violentá-los pela simples razão de serem outros.

A condenação dos sodomitas resultava, afinal, não dos hábitos eventualmente praticados no recato da alcova — isso não interessava a Deus nem aos anjos — mas dessa atitude hostil para com quem vinha de fora ou vivia à margem dos seus usos e costumes. Sodoma foi destruída por xenofobia, não por homossexualidade. Foi punida pela recusa da hospitalidade, pelo ódio ao estrangeiro, pela violência contra os diferentes.

A Igreja adulterou esta mensagem durante séculos porque lhe convinha. Condenar a homossexualidade servia os seus interesses demográficos e de controlo social. Condenar a xenofobia — bem, isso seria inconveniente para uma instituição que tantas vezes praticou e legitimou a exclusão, a perseguição, a violência contra os que não se conformavam à sua norma.

Esta revelação de Frederico Lourenço — sustentada por rigor filológico impecável, não por agenda ideológica — tem consequências que vão muito para além da exegese bíblica. Tem consequências políticas imediatas e diretas.

Porque se a condenação de Sodoma foi motivada pela xenofobia e não pela homossexualidade, se o pecado dos sodomitas foi a hostilidade aos estrangeiros e não as suas práticas sexuais privadas, então temos de concluir o óbvio: na atual política lusa, André Ventura é biblicamente um ostensivo sodomita.

Ventura construiu toda a sua carreira política sobre a hostilidade aos estrangeiros. Os imigrantes são, no seu discurso, a fonte de todos os males: criminosos, parasitas, ameaça civilizacional. Quem vem de fora não merece hospitalidade — merece deportação, prisão, expulsão. Os ciganos, que vivem à margem dos costumes dominantes, não merecem integração — merecem ostracismo, perseguição, eliminação da vida pública.

É exactamente o comportamento que levou à destruição de Sodoma. É precisamente a atitude que os anjos vieram testar e que encontraram de forma tão flagrante que justificou o castigo divino. Ventura, pelos critérios bíblicos autênticos — não pelos adulterados pela Igreja ao longo dos séculos — é sodomita exemplar. Pratica o pecado de Sodoma na sua forma mais pura e mais condenável.

A ironia é deliciosa. Ventura, que tanto gosta de invocar a tradição cristã, que tanto apela aos "valores cristãos", que se apresenta como defensor da civilização judaico-cristã contra a "invasão" de estrangeiros, é afinal o protagonista perfeito do pecado que levou à destruição de Sodoma. Se os anjos viessem hoje testar Portugal, encontrariam em Ventura e nos seus seguidores exatamente aquilo que encontraram nos habitantes de Sodoma: ódio ao estrangeiro, recusa da hospitalidade, violência contra os diferentes.

E não é apenas Ventura. É toda a constelação política que se alimenta da xenofobia: os que querem fechar fronteiras, os que criminalizam a imigração, os que transformam o estrangeiro em bode expiatório, os que praticam a política do medo e do ódio ao outro. Todos eles, pelos critérios bíblicos autênticos, são sodomitas. Todos praticam o pecado que a Igreja passou séculos a esconder atrás de uma cortina de fumo sobre práticas sexuais.

Frederico Lourenço, ao restituir o texto bíblico à sua verdade original, fez mais do que trabalho filológico de excelência. Forneceu uma arma argumentativa poderosa contra aqueles que invocam a Bíblia para justificar precisamente aquilo que a Bíblia condena. Demonstrou que a mensagem autêntica das Escrituras não é a que a Igreja vendeu durante séculos, mas outra radicalmente diferente e politicamente inconveniente para os que se dizem seus defensores.

A Bíblia, afinal, não condena quem ama diferentemente. Condena quem odeia os diferentes. Não castiga práticas sexuais privadas. Castiga a violência pública contra estrangeiros. Não pune Sodoma pela homossexualidade, mas pela xenofobia.

E se aplicarmos este critério bíblico autêntico à política portuguesa contemporânea, a conclusão é inescapável: Ventura e os seus são os verdadeiros sodomitas. Não no sentido que a Igreja adulterou e impôs durante séculos, mas no sentido que o texto original sempre teve e que Frederico Lourenço finalmente restituiu.

Pode ser que os anjos não venham. Pode ser que não haja fogo celeste a destruir os xenófobos contemporâneos. Mas pelo menos agora sabemos, graças ao rigor filológico de um helenista português, que quando Ventura invoca os valores cristãos para justificar o seu ódio aos imigrantes, está a invocar precisamente aquilo que a Bíblia condena.

Sodoma foi destruída por gente como Ventura. E essa, convenhamos, é uma ironia que nenhuma adulteração eclesiástica conseguirá apagar.

quinta-feira, 26 de março de 2026

Montenegro em queda livre e o PS a aferir o rumo

 

A sondagem do ISCTE publicada no Expresso de sábado veio confirmar o estado de desgraça em que o governo de Montenegro está a cair. Não é flutuação estatística, não é momento conjuntural difícil, não é azar político, antes a constatação objetiva deste governo não ter competência nem estratégia para responder aos problemas mais candentes para os eleitores: a saúde, a habitação, a qualidade de vida.

Os números são implacáveis. A popularidade de Montenegro desmorona-se. A confiança no Governo evapora-se. E isto acontece não por acidente, mas por incapacidade demonstrada repetidamente. As tempestades Kristin e seguintes expuseram a incompetência na gestão de crises. O pacote laboral revelou o desprezo pelos trabalhadores. O PTRR demonstrou que há muita propaganda, mas pouca execução. E na saúde, na habitação, na contenção da inflação — nos problemas que realmente importam às pessoas — há apenas discursos vazios e promessas incumpridas.

Montenegro governa como sempre viveu politicamente: à base de cartadas táticas, de golpes mediáticos, de nomeações salvadoras que afinal nada salvam. Mas tática sem estratégia é apenas improviso desesperado. E o eleitorado começa a perceber isso. A nomeação de Luís Neves foi a última cartada — e já não resultou. As pessoas perceberam que mudar ministros não resolve problemas quando o problema é a ausência total de visão e competência no topo.

Enquanto Montenegro afunda, o Chega continua a somar escândalos que o confirmam como o verdadeiro covil da malfeitores. Depois da namorada do líder do partido na Câmara Municipal de Lisboa andar a alugar tugúrios a emigrantes — explorando-lhes a vulnerabilidade que Ventura quer ainda mais agudizar — é agora o caso do candidato autárquico apanhado em flagrante a abusar da própria filha.

Que o Chega ainda não seja ilegalizado enquanto associação de delinquentes é mistério que não carece de maiores evidências. As provas acumulam-se: ligações a grupos neonazis, membros detidos por violência xenófoba, corrupção, exploração de imigrantes, abuso de menores. Não são casos isolados — é um padrão sistemático. O Chega atrai criminosos porque é essencialmente uma organização mafiosa disfarçada de partido político.

Mas a ilegalização não virá. Porque exigiria coragem política que este regime não tem. Porque beneficia Montenegro ter o Chega como espantalho — enquanto as atenções se focam no fascismo explícito de Ventura, a incompetência devastadora de Montenegro passa mais despercebida. E porque, no fundo, demasiados na direita ainda acham que podem instrumentalizar o Chega para os seus próprios fins. Não podem. Mas só perceberão isso quando for tarde demais.

No PS, para minha grata expectativa, começam a emergir vozes dissonantes desmentindo o suposto unanimismo em torno de José Luís Carneiro. E ainda bem. Não tendo uma direção que corresponda ao que deve ser um verdadeiro Partido Socialista, importa vê-lo a ajustar-se a algo mais conforme com o exemplo vindo dos vizinhos ibéricos.

Em Espanha, o PSOE de Sánchez governa com clareza ideológica, defendendo trabalhadores, investindo em serviços públicos, confrontando a direita e a extrema-direita sem hesitações. Não é perfeito, tem contradições, mas é inequivocamente um partido de esquerda que não tem medo de se assumir como tal. Em Portugal, o PS sob Carneiro parece ainda preso à lógica do consenso centrista, da moderação excessiva, do medo de desagradar ao establishment económico.

As vozes dissonantes que começam a emergir podem ser o sinal de que uma parte do partido percebe que este caminho não leva a lado nenhum. Que o país precisa de uma alternativa clara à direita incompetente de Montenegro e ao fascismo do Chega. Que essa alternativa não pode ser apenas "gestão competente do mesmo modelo" mas tem de ser projeto alternativo de sociedade. Que socialismo não é palavrão nem nostálgica relíquia do século XX, mas resposta necessária e atual aos problemas concretos das pessoas.

Carneiro pode ser o timoneiro de transição que mantenha o barco à tona enquanto essa alternativa se estrutura. Mas não pode ser mais do que isso. E se as vozes dissonantes ganharem força, e conseguirem disputar a direção do partido, se conseguirem puxá-lo para um programa verdadeiramente socialista — então talvez o PS volte a ser relevante como força de transformação social e não apenas como alternativa técnica à incompetência da AD.

E quando, perante este panorama, se proclama ainda faltarem mais de três anos para nos livrarmos de Montenegro, eu não seria tão taxativo. Nem o caso Spinumviva está encerrado — continua por esclarecer, a cheirar mal, a ser potencial bomba política que pode explodir a qualquer momento. Nem se anteveem grãos de asa para implementar as soluções que a inflação galopante criada pelas tontices de Trump criará.

Porque Trump, na guerra errática contra o Irão, no fecho do Estreito de Ormuz, na política económica caótica, está a criar as condições para um choque inflacionista global que fará parecer pálida a inflação pós-pandemia. Quando os preços da energia dispararem, quando o custo de vida se tornar insustentável para a maioria das famílias, quando a recessão bater à porta — Montenegro não terá respostas. Não tem competência técnica para gerir crise económica dessa magnitude. Não tem legitimidade política para pedir sacrifícios. Não tem estratégia para proteger os mais vulneráveis.

E quando isso acontecer o governo cairá. Por moção de censura, por implosão interna da AD, ou simplesmente porque se torna insustentável continuar a fingir que governa quando só está a afundar o país.

Três anos parece muito tempo. Mas em política, três anos pode ser uma eternidade ou pode ser três meses quando as circunstâncias mudam abruptamente. E as circunstâncias estão a mudar. A sondagem do ISCTE é apenas o primeiro sinal visível de uma tendência que se acelera. Montenegro em queda livre, o Chega exposto como organização criminosa, o PS à procura de um rumo que o volte a tornar relevante.

O que acontecerá a seguir depende de muita coisa. Mas uma certeza já existe: este governo não durará os três anos que alguns lhe profetizam. Ou porque cai politicamente antes disso, ou porque quando chegar o momento das próximas eleições já estará tão desacreditado que a derrota será monumental.

E talvez essa seja a única boa notícia num panorama político tão desolador: a incompetência também tem limites. E Montenegro está rapidamente a aproximar-se deles.

terça-feira, 17 de março de 2026

A Guerra dos Megalómanos

 

Não fosse trágica em várias dimensões e a guerra lançada por Trump e Netanyahu contra o Irão seria cómica pelos palpos de aranha em que se debatem. Ali está Trump a pedir apoio aos aliados para reabrir o Estreito de Ormuz e a embater sistematicamente na recusa desses mesmos aliados. Entre o poltrão que proclama não precisar de ninguém porque tem "o exército mais forte do mundo" e o mendigo diplomático que implora ajuda à NATO que acabou de ameaçar, ele ciranda numa inconstância que melhor denuncia o caso patológico que dará matéria de estudo para gerações de historiadores.

A sequência dos acontecimentos tem algo de farsa. Trump rapta Maduro, bombardeia a Venezuela, apodera-se do seu petróleo, proclama o regresso da América imperial. Sente-se invencível. Ameaça a Gronelândia, intimida a Dinamarca, desdenha dos europeus. Depois recua em Davos. Adia o ataque ao Irão. Volta a ameaçar. Volta a recuar. E agora, depois de finalmente ter lançado a operação militar contra o Irão — em conjunto com Netanyahu, esse outro megalómano em fuga permanente para a frente — descobre que fechar o Estreito de Ormuz tem consequências que nem todo o poderio militar americano consegue resolver sozinho.

O Estreito de Ormuz não é a Venezuela. Não é um país empobrecido por anos de sanções, com infraestruturas militares degradadas, isolado diplomaticamente. É o ponto de estrangulamento por onde passa cerca de um quinto do petróleo mundial. Fechá-lo — ou pior, vê-lo fechado pelo Irão em retaliação — significa colapso energético global, preços do crude estratosféricos, recessão mundial. E reabri-lo à força, contra a resistência iraniana, exige não apenas poder militar, mas capacidade logística, apoio regional e coordenação internacional que Trump

simplesmente não tem.

Daí as súplicas aos aliados europeus com a tentativa desesperada de mobilizar a NATO para uma guerra que esta nunca quis, numa região que não está coberta pelo Tratado do Atlântico Norte, contra um adversário que não ameaça diretamente território algum dos membros da Aliança.

E os aliados dizem não. A França diz não. A Alemanha diz não. O Reino Unido hesita mas também diz não. A Espanha, a Itália, até a Polónia — todos dizem não. Porque perceberam, mesmo que tardiamente, que esta guerra não é sobre segurança internacional, não é sobre defender a ordem mundial, não é sequer sobre conter uma ameaça real. É sobre a sobrevivência política pessoal de dois homens: Trump, que precisa de cortinas de fumo sobre os ficheiros Epstein e o colapso da credibilidade americana; Netanyahu, que precisa de guerra permanente para evitar o tribunal que o espera quando a paz chegar.

A recusa europeia expõe a nudez do imperador. Trump que dizia não precisar de aliados, que ameaçava abandonar a NATO, que insultava os europeus chamando-lhes parasitas do sistema de segurança americano, descobre agora que afinal precisa deles, dos seus navios, bases, legitimação política, e apoio logístico. E descobre também que queimar pontes tem consequências — quando se precisa atravessar o rio, já não há ponte disponível.

Netanyahu, esse, sempre soube que precisava dos americanos. Nunca teve ilusões de autonomia estratégica. Mas contava que Trump arrastasse os europeus, como tantas vezes aconteceu no passado. Contava que a pressão americana sobre Bruxelas, Paris, Berlim acabaria por forçar a participação europeia, ainda que relutante. Enganou-se. Desta vez os europeus perceberam que seguir Trump para mais esta guerra seria suicídio político interno e desastre estratégico externo.

E assim temos o espetáculo grotesco de Trump a cirandar entre a arrogância e a súplica. Num dia proclama que a América não precisa de ninguém, que tem o exército mais poderoso da história, que pode fazer o que quiser quando quiser. No dia seguinte telefona a líderes europeus pedindo navios, bases, apoio político. Volta a ameaçar — se não ajudarem, sairá da NATO, abandonará a Europa à própria sorte. Volta a suplicar — por favor, precisamos de vós, não podemos fazer isto sozinhos.

É a inconstância patológica de quem perdeu completamente o controlo da narrativa e da estratégia. É o comportamento errático de quem age por impulso, não por planeamento. É a evidência clara de deterioração cognitiva ou, na melhor das hipóteses, de total inadequação para o cargo que ocupa.

Os historiadores do futuro — se houver futuro, se esta guerra não escalar para catástrofe civilizacional — estudarão este episódio como caso paradigmático de liderança disfuncional em momento crítico. Estudarão como foi possível que o homem mais poderoso do mundo, comandante do arsenal militar mais formidável alguma vez reunido, se tenha metido numa guerra que não sabe como vencer, que não consegue justificar aos aliados, que não tem apoio interno sustentável, que pode colapsar a economia global.

Estudarão também como Netanyahu, político astuto e experiente, se deixou arrastar para uma escalada que pode destruir Israel enquanto projeto nacional. Porque esta guerra contra o Irão não é como as operações em Gaza ou no Líbano. É guerra contra potência regional com capacidade de retaliação efetiva, com mísseis que chegam a todo o território israelita, com aliados que podem abrir múltiplas frentes simultaneamente. E se Israel ficar isolado — se os americanos não conseguirem manter o Estreito aberto, se os europeus se recusarem a participar, se a opinião pública global se virar definitivamente contra a operação — Netanyahu pode ter finalmente conduzido o país ao desastre que sempre temeu.

Esta guerra é trágica para os iranianos que morrem sob os bombardeamentos, para os israelitas que vivem sob ameaça de retaliação, para a economia global que pode colapsar se o Estreito permanecer fechado e para a ordem internacional, já de si moribunda, que recebe mais este golpe mortal.

E no centro desta tragédia, dois homens arrastam o mundo para uma guerra que não conseguem vencer, não sabem como terminar e pode destruir muito mais do que imaginam.

No futuro perguntar-se-á como é que deixámos que isto acontecesse, quando todos os sinais estavam lá e sobravam vozes a alertar para quão mal poderia acabar?

A resposta, provavelmente, será a mesma de sempre: porque enquanto os megalómanos cirandavam na sua inconstância patológica, o resto do mundo preferiu fingir que estava tudo bem. Até ao dia em que já não estava.

domingo, 15 de março de 2026

Ambições Desmedidas e Cometas Moribundos

 

A História tem uma forma peculiar de ensinar sempre a mesma lição aos que se recusam a aprendê-la: quando a ambição é desmedida e o poder se julga ilimitado, o ricochete pode ser devastador. Napoleão marchou sobre Moscovo convencido da sua invencibilidade. Regressou com os destroços de um exército fantasma, arrastando atrás de si o princípio do fim do império que construíra. Hitler lançou-se sobre a União Soviética certo de que o Reich duraria mil anos. Durou doze, e os últimos foram uma agonia sangrenta que terminou num bunker em Berlim.

Hoje assistimos a dois megalómanos que parecem determinados a replicar estes padrões históricos com uma fidelidade quase obscena. Trump e Netanyahu, cada um à sua maneira, cada um com as suas motivações particulares, estão a lançar-se em aventuras militares que podem acabar por os destruir — e arrastar muita gente com eles no processo.

Trump rapta presidentes, ameaça países, proclama a reconquista imperial da América. Mas cada ação errática, cada ameaça não cumprida, cada recuo tático disfarçado de vitória estratégica mina a credibilidade do poder americano. A operação na Venezuela pode ter sido militarmente bem-sucedida, mas foi desastre diplomático. O assédio à Gronelândia acabou em recuo. O ataque ao Irão continua adiado sine die. Trump descobre, lentamente, que raptar Maduro não é o mesmo que enfrentar potências que podem ripostar. E enquanto isso, os ficheiros Epstein continuam a ser revelados, mostrando ligações que Trump preferiria manter enterradas. A nuvem de poeira que tenta levantar com guerras e ameaças pode não ser suficiente para encobrir o que está a ser exposto.

Netanyahu, por seu lado, multiplica frentes de guerra — Gaza, Líbano, Síria, Irão por procuração — numa fuga permanente para a frente que tem um objetivo claro: adiar indefinidamente a condenação judicial que o espera quando a guerra acabar. Cada nova operação militar é também uma operação de sobrevivência política pessoal. Cada escalada é também um adiamento do dia em que terá de responder em tribunal. Mas as guerras não duram eternamente, e quando esta acabar — e acabará — Netanyahu descobrirá que apenas adiou o inevitável enquanto destruía o que restava da reputação internacional de Israel.

A ambição desmedida não é exclusivo de megalómanos imperiais. Também a tiveram a ministra do Trabalho, Rosário Palma Ramalho, e o chefe da CIP ao tentarem impor uma lei laboral que esmaga direitos conquistados ao longo de décadas. Julgavam-se intocáveis, achavam que podiam fazer passar o que quisessem, confiavam que a fragmentação sindical e a passividade social lhes dariam margem para destruir o que restava de proteção aos trabalhadores.

Enganaram-se. A dimensão da greve geral travou-os. E a eleição de António José Seguro para Belém — por muito pouco que dele espere em termos de intervenção ativa — pode ter o efeito adicional de refrear os ímpetos de quem percebeu que a correlação de forças mudou. Seguro não será o presidente interventivo que bloqueará sistematicamente legislação regressiva, mas também não será o Marcelo que facilitou tudo à direita. E essa diferença, ainda que pequena, ainda que insuficiente, pode ser suficiente para tornar mais difícil a passagem de leis como esta.

O recuo tático sobre a lei laboral não significa vitória definitiva — significa apenas que perceberam que não tinham força para impor neste momento aquilo que pretendiam. Voltarão à carga, com outras formulações, outros timings, outras estratégias. Mas a greve demonstrou que há limites. E isso, por si só, já é algo.

No PS, a recondução de José Luís Carneiro como líder com uma votação ao estilo norte-coreano não me entusiasma. Estas unanimidades fabricadas, estas votações sem contestação aparente, estas coroações sem debate são sempre suspeitas. Mas reconheço a lógica conjuntural: numa altura de transição para uma agudização previsível das lutas sociais — propiciada pelos efeitos danosos da guerra no Médio Oriente na qualidade de vida da generalidade da população, pela inflação persistente, pela precarização crescente — justifica-se ter um timoneiro que mantenha a proa em direção à vaga.

Não é a liderança ideal. Não é sequer a liderança que eu desejaria. Mas é a que dá estabilidade num momento em que o PS precisa de espaço para que outra liderança, mais conforme com os objetivos programáticos de um partido verdadeiramente socialista, se possa afirmar. José Luís Carneiro não é essa liderança — mas pode ser a ponte para que ela emerja. E isso, neste momento, pode ser suficiente.

E depois há o regresso do cometa Passos Coelho. Como todos os cometas que regularmente vêm pretender dar conta de que ainda estão vivos, Passos ressurgiu da sua toca para causar algum estardalhaço junto dos que o veem como uma espécie de Sebastião regressado do deserto de Alcácer Quibir para salvar a pátria. Esquecem-se, esses sebastianistas tardios, que o rasto de cada cometa vai diminuindo-lhe a expressão sempre que se aproxima do sol em redor do qual roda.

Passos Coelho deixou o país arrasado, a economia destroçada, a sociedade empobrecida, os serviços públicos demolidos. Foi derrotado eleitoralmente, afastou-se, e agora regressa como se tivesse algo de novo a oferecer. Não tem. É apenas mais um apaniguado do mesmo campo entrincheirado — a exemplo de Portas, de Durão Barroso, de todos os outros que se julgaram indispensáveis e descobriram que não eram.

Passos está fadado a ficar como a esperança moribunda de uma ideologia que se vai exprimindo cada vez mais caricaturalmente. E a melhor demonstração dessa caricatura é a forma como Carlos Moedas exerce o seu pífio poder em Lisboa: muita propaganda, pouca execução; muitos powerpoints, poucos resultados; muita pose, pouca substância; umas quantas nomeações escandalosas e uns não menos impactantes saneamentos. Moedas é o que Passos representou levado ao paroxismo — a direita tecnocrata que se julga moderna mas é apenas incompetente vestida de fato caro.

O regresso de Passos não assusta. Incomoda, talvez. Mas sobretudo revela a pobreza intelectual e política de uma direita que, não tendo figuras novas nem ideias renovadas, tem de reciclar os destroços do passado e apresentá-los como futuro. É patético, mais do que perigoso.

Ambições desmedidas, cometas moribundos, guerras como fuga para a frente, leis laborais como assalto a direitos conquistados — tudo isto faz parte do mesmo padrão: um sistema em crise que se radicaliza, que ataca os mais fracos, que multiplica conflitos externos para esconder contradições internas, que recicla fracassos passados porque não tem futuro para oferecer.

A História ensina que estes processos terminam sempre mal para quem os protagoniza. Napoleão acabou exilado. Hitler suicidou-se no bunker. Trump e Netanyahu podem ainda achar que são diferentes, que a História não se aplica a eles, que desta vez será diferente. Não será. A ambição desmedida sempre teve o mesmo destino. E quando o ricochete vier — e virá — descobrirão que afinal não eram tão poderosos quanto imaginavam.

Quanto a Passos Coelho e aos seus epígonos lisboetas, o destino será mais banal, mas igualmente definitivo: o esquecimento. Porque os cometas, por mais brilhantes que pareçam quando regressam, vão perdendo massa a cada órbita. E quando finalmente se desintegram, ninguém se lembra que um dia pareceram importantes.