terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

O vencedor improvável que afinal resultou

 

Pronto. António José Seguro ganhou. E ainda bem. Ainda bem mesmo, apesar de nunca ter tido por ele qualquer simpatia política e, militante do PS, ter apoiado a sua substituição como secretário-geral por representar tudo aquilo que de mais conservador e acomodatício existe na dita social-democracia portuguesa.

Mas a realidade obriga a reconhecimentos desconfortáveis. E a posteriori, posso dar alguma razão a Susana Peralta quando afirmou que Seguro foi "afinal o candidato ideal da esquerda". Sem com isso reconhecer que ele se enquadra nesse campo ideológico ao qual nunca o vi pertencer. Porque uma coisa é ser o candidato que a esquerda precisava nestas circunstâncias específicas, outra completamente diferente é ser um candidato de esquerda.

A distinção não é bizantina. É essencial para perceber o que acabou de acontecer e o que pode vir a acontecer.

Seguro foi o candidato ideal não pelas suas convicções políticas — que permanecem firmemente ancoradas no centro-direita do espectro socialista — mas pelas circunstâncias que o rodearam e pela capacidade que demonstrou de agregar muito para além do seu campo natural. Os números falam por si: duplicou os votos da primeira volta, construindo uma coligação eleitoral que foi das forças esquerdistas aos liberais moderados, passando por uma parte significativa do eleitorado tradicional da AD que não se reviu em Ventura.

Do outro lado, Ventura conseguiu apenas um pífio alargamento da sua base de apoio. Entre as duas voltas, apesar de toda a mediatização, de toda a campanha agressiva, de todo o aproveitamento oportunista da tempestade Kristin, Ventura revelou ter um teto eleitoral muito mais baixo do que os seus apoiantes gostam de admitir. E este é um dado fundamental: dois terços dos eleitores portugueses demonstraram de forma inequívoca que não o querem. Dois terços. Quem é que Ventura pensa enganar quando anuncia que chegará em breve ao poder?

Esta derrota pode, aliás, prognosticar a iminente travagem do crescimento contínuo do Chega. O fenómeno, que durante alguns anos pareceu imparável, pode ter atingido o seu pico e começar agora a definhar — como sempre sucedeu historicamente com este tipo de populismos. São movimentos de moda política, alimentados por conjunturas específicas, que crescem rapidamente, mas que também podem desmoronar-se quando confrontados com os limites da sua própria proposta. Ventura oferece indignação, ressentimento, bodes expiatórios — mas não oferece soluções. E quando os eleitores percebem isso, quando o feitiço se desfaz, estes movimentos tendem a implodir com a mesma velocidade com que emergiram.

Claro que seria ingenuidade pensar que o fascismo desaparecerá sozinho. Não desaparecerá. Mas estas eleições demonstram que tem limites eleitorais que Ventura preferiria ignorar. E essa constatação é, em si mesma, importante.

O resultado tem outra consequência política imediata: Seguro chega a Belém com maior legitimidade democrática do que Luís Montenegro tem em São Bento. E isto não é detalhe processual — é facto político com consequências práticas. Montenegro, na sua habitual miopia estratégica, olhava para os dois terços que, somando Chega e IL aos votos da AD, possibilitariam teoricamente a mudança da Constituição. Fazia os seus cálculos, alimentava as suas fantasias de maioria constitucional conservadora, imaginava-se a liderar uma refundação da República à direita.

Terá agora de haver-se com um presidente que tem legitimidade superior à sua e que, apesar de todas as limitações ideológica, quer estabilidade constitucional. Seguro não será o presidente interventivo que questionará sistematicamente as políticas do Governo — não é essa a sua natureza política. Mas também não será o presidente complacente que facilitará aventuras constitucionais ou que tolerará normalizações do Chega. Há limites que, por conservadorismo institucional mais do que por convicção progressista, Seguro não deixará ultrapassar.

E Montenegro, confrontado com estes novos dados da realidade política, reagiu de forma lamentável. O discurso que proferiu na noite da sua nova derrota — porque isto foi derrota de Montenegro tanto quanto de Ventura — foi a reconfirmação do já sabido: é demasiado medíocre para ocupar o cargo de primeiro-ministro. Não teve grandeza para reconhecer o significado da votação, não teve inteligência para perceber as suas implicações, não teve sequer o básico sentido de oportunidade para ajustar o discurso ao momento.

Montenegro continua preso à pequena tática, aos cálculos mesquinhos, à incapacidade congénita de ler o que está para além do imediato. Pensou que a equidistância entre Seguro e Ventura lhe traria dividendos. Enganou-se. Pensou que podia cavalgar o tigre do fascismo sem ser devorado. Está a perceber que não pode. Pensou que tinha espaço para manobrar entre a direita moderada e a extrema-direita. Descobriu que esse espaço está a fechar-se rapidamente.

E agora terá pela frente cinco anos de coabitação com um presidente que, sendo conservador, tem legitimidade democrática superior à sua e não estará disponível para as aventuras constitucionais que Montenegro possa imaginar com os parceiros à direita.

Quanto a Seguro, o que fará em Belém? As expectativas não podem ser elevadas para quem esperava uma presidência que contrariasse ativamente a deriva conservadora do país. O mais provável é que seja exatamente aquilo que sempre foi: um moderado institucionalista que privilegia o diálogo sobre o conflito, a estabilidade sobre a mudança, o consenso sobre a rutura.

Não será o presidente que bloqueie sistematicamente iniciativas legislativas regressivas, que force referendos sobre políticas conservadoras, que use o púlpito presidencial para questionar escolhas governamentais que aumentam desigualdades. Será, provavelmente, o presidente que tanto partes do PS como da AD podem acomodar: previsível, não conflituoso, institucionalmente correto.

Isto é uma limitação séria. Porque Portugal precisaria de uma presidência que travasse a normalização do Chega, que defendesse ativamente o Estado social, que usasse a autoridade moral do cargo para questionar políticas que precarizam o trabalho e destroem direitos. Seguro não será esse presidente. Não por má-fé, mas por convicção genuína de que o papel presidencial é o de moderador neutral, não o de ator político interventivo.

Mas — e aqui reside o paradoxo que justifica o "ainda bem" com que comecei — mesmo sendo tudo isto, Seguro continua a ser infinitamente melhor do que a alternativa que enfrentou. Ventura em Belém teria sido catástrofe civilizacional. Seguro em Belém será presidência conservadora e pouco interventiva, mas dentro dos parâmetros democráticos constitucionais.

E talvez seja essa a lição desconfortável destas presidenciais: às vezes, em momentos de perigo extremo, o que se precisa não é do candidato ideal segundo critérios ideológicos puros, mas do candidato capaz de impedir o pior enquanto agrega o suficiente para vencer. Seguro não é de esquerda, mas foi o candidato que conseguiu duplicar votos, demonstrou que Ventura tem teto eleitoral, e impediu a vitória do fascismo. E neste momento histórico específico, isso conta mais do que a pureza programática.

O que não significa que a esquerda deva agora celebrar acriticamente ou iludir-se sobre o que virá. Caberá a elas — dentro e fora do PS — garantir que a contenção do fascismo não se traduza em acomodação total ao status quo. Caberá aos movimentos sociais, aos sindicatos, aos partidos progressistas manter a pressão, exigir mais do que consensos vazios, reclamar políticas que defendam efetivamente quem trabalha.

Seguro ganhou. E ainda bem que ganhou. Mas o reconhecimento desta vitória necessária não pode transformar-se em suspensão da crítica ou em esquecimento de quem ele verdadeiramente é.

Porque uma coisa é certa: António José Seguro não fará por nós o trabalho de transformação social que continua por fazer. Esse trabalho, como sempre, caberá a quem realmente acredita nele. E Seguro, convenhamos, nunca acreditou.

domingo, 8 de fevereiro de 2026

Os patos bravos nunca morreram

 

Estamos num país onde os patos bravos dos anos sessenta não desapareceram. Continuam por cá, prosperando, embolsando todos os subsídios disponíveis, construindo tão barato quanto possível, vendendo tão caro quanto o mercado aguenta, empregando um exército de emigrantes por salários miseráveis associados a nenhuns direitos. Mudaram de geração, talvez de fato, certamente de retórica — mas a lógica é exatamente a mesma: lucro máximo, investimento mínimo, o resto que se lixe.

As consequências das tempestades dos dias mais recentes vieram demonstrar essa situação no seu esplendor. As linhas elétricas e as das comunicações móveis continuam a passar por via aérea em vez de enterrada — porque enterrar custa mais, demora mais, exige mais planeamento. Os materiais de construção revelam-se frágeis para ventos mais fortes — porque materiais resistentes custam mais, reduzem a margem de lucro, complicam a execução rápida. A urbanização em leitos de cheia com impermeabilização dos solos a montante resulta em situações como as de Gaia ou de Alcácer do Sal — porque construir onde não se deve é mais barato do que respeitar condicionantes ambientais, e impermeabilizar é mais rápido do que preservar capacidade de absorção natural.

Não é incompetência. É escolha. Uma escolha deliberada, sistemática, protegida por décadas de cumplicidade entre quem constrói e quem licencia, entre quem lucra e quem fiscaliza, entre quem faz obra e quem distribui dinheiro público.

Quando as linhas elétricas caem à primeira rajada de vento forte, não é falha técnica — é consequência direta de décadas de opção por soluções baratas em vez de soluções adequadas. Quando as casas ficam sem telhado, não é porque o vento foi excecionalmente forte — é porque os materiais e as técnicas de construção foram excecionalmente medíocres. Quando bairros inteiros ficam inundados, não é porque choveu muito — é porque se construiu onde não se devia e se impermeabilizou o que deveria ter ficado permeável.

E depois vêm as declarações de solidariedade, as promessas de reconstrução, os apoios de emergência. Tudo pago com dinheiro público, naturalmente. Reconstruir o que foi mal construído à primeira, reparar o que nunca deveria ter sido danificado se tivesse sido bem feito, compensar as vítimas de decisões que enriqueceram outros.

É o ciclo perfeito: os patos bravos constroem barato, vendem caro, embolsam os lucros. Quando a construção falha — e falha sempre, mais cedo ou mais tarde — é o Estado que paga a reconstrução. E quem reconstrói? Os mesmos. Com os mesmos métodos. Para os mesmos resultados. Até à próxima tempestade.

Precisávamos de quem pensasse o futuro numa lógica preventiva, mesmo investindo mais do que a cultura dos tais patos bravos pressupõe. Precisávamos de linhas enterradas que não caem com o vento. De materiais de construção que resistem a tempestades previsíveis. De planeamento urbano que respeita leitos de cheia e capacidade de absorção dos solos. De fiscalização que fiscaliza a sério, de licenciamento que condiciona a sério, de penalizações que doem a sério quando se constrói mal.

Mas quem tem o poder e distribui o dinheiro público enjeita o provérbio popular sobre sair caro o que parece ser barato. Porque para eles não sai caro — sai barato e rende muito. E quando finalmente se prova caro, quem paga não são eles. São os que ficam sem luz, sem comunicações, sem casa, sem segurança.

Os patos bravos dos anos sessenta ficaram ricos construindo mal e rápido. Os patos bravos de hoje continuam a ficar ricos exatamente da mesma maneira. A única diferença é que agora têm acesso a fundos europeus, a programas de desenvolvimento regional, a incentivos à construção. Mais dinheiro público para embolsar. Mais oportunidades para construir barato e vender caro. Mais lucros privados extraídos de investimento público.

E quando a tempestade vem — e a tempestade vem sempre — somos nós que pagamos. Duas vezes: primeiro quando financiamos a construção barata através de subsídios e fundos públicos, depois quando financiamos a reparação dos estragos que essa construção barata inevitavelmente provoca.

Os patos bravos nunca morreram. Apenas evoluíram. E enquanto continuarem a ter quem lhes distribui dinheiro público sem exigir qualidade, quem lhes licencia obras sem fiscalizar execução, quem lhes permite construir em leitos de cheia e impermeabilizar à vontade, continuarão a prosperar.

E nós continuaremos a pagar. A conta da ganância alheia. Como sempre. 

terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Trump e o caminho para a decadência imperial

 

Trump deve imaginar-se imperador. Já há quem fale em neorrealeza. As declarações, os gestos, a retórica — tudo aponta para alguém que se vê não como presidente temporário de uma república, mas como monarca absoluto de um império sem limites. E a História está cheia de exemplos do que acontece quando essa ilusão imperial se instala na mente de quem detém poder absoluto.

Trump é, como escreve Amílcar Correia, "o somatório perfeito de autoritarismo e competição". Substituiu deliberadamente a multilateralidade pela multipolaridade, trocou a cooperação pela competição pura. E nesta lógica, como bem nota Correia, "a transação oportuna vale mais do que a defesa do direito internacional". Não há regras, não há princípios, não há limites — apenas oportunidades de negócio e demonstrações de força.

Mas esta mesma lógica, que Trump julga ser prova da sua genialidade, pode ser o caminho para a decadência irreversível do império americano. A História oferece exemplos abundantes de impérios que entraram em colapso precisamente na fase em que eram liderados por figuras mentalmente transtornadas, convencidas da sua omnipotência, incapazes de perceber que estavam a destruir aquilo que pretendiam engrandecer.

Nero tocava lira enquanto Roma ardia. Não literalmente, talvez, mas a metáfora persiste porque captura uma verdade: o imperador que perde contacto com a realidade, que se rodeia de aduladores, que confunde capricho pessoal com interesse imperial, que transforma governação em espetáculo grotesco. Nero achava-se artista, poeta, visionário. O Senado achava-o louco. A História deu razão ao Senado. O império sobreviveu a Nero, mas nunca recuperou inteiramente o prestígio e a estabilidade que ele destruiu.

Hitler, nos seus últimos meses no bunker de Berlim, movia exércitos que já não existiam em mapas que já não correspondiam à realidade. Dava ordens a divisões fantasma, planeava contra-ataques impossíveis, recusava-se a aceitar que o Reich de Mil Anos estava a desmoronar-se à sua volta. A combinação de megalomania, paranoia e desligamento total da realidade levou-o a destruir deliberadamente a própria Alemanha numa espécie de suicídio nacional. Se ele não podia vencer, então ninguém merecia sobreviver.

Napoleão, após o desastre da Rússia, continuou a comportar-se como se fosse invencível. Recusou acordos de paz razoáveis porque achava que estava destinado a dominar a Europa. Mobilizou exércitos cada vez maiores para campanhas cada vez mais insensatas. E quando finalmente caiu, a França tinha perdido a hegemonia continental que ele próprio tinha construído. O império que Napoleão criou colapsou precisamente porque ele não soube quando parar, quando consolidar, quando aceitar limites.

A nomenklatura senil da União Soviética nos anos 1980 oferece um exemplo diferente mas igualmente instrutivo. Não era loucura individual, mas loucura sistémica — uma classe dirigente tão desligada da realidade, tão presa à retórica ideológica, tão incapaz de reformar, que continuou a insistir que o sistema funcionava mesmo quando todos os indicadores mostravam o contrário. Quando finalmente caiu, caiu de repente, apanhando toda a gente de surpresa, inclusive os próprios dirigentes soviéticos.

Trump apresenta elementos de todos estes padrões. Como Nero, transforma a governação em espetáculo pessoal, confunde os interesses do império com o seu ego hipertrofiado. Como Hitler, recusa-se a aceitar limites impostos pela realidade e rodeia-se de aduladores que lhe dizem apenas o que ele quer ouvir. Como Napoleão, não sabe quando parar, quando consolidar, quando perceber que mais expansão significa mais vulnerabilidade. Como a nomenklatura soviética, comanda um sistema que mostra sinais evidentes de disfunção mas insiste que está a tornar a América "grande outra vez".

Os sinais de desconexão com a realidade multiplicam-se. O rapto de Maduro foi apresentado como demonstração de força, mas pode acabar por ser demonstração de fraqueza — a incapacidade de conseguir objetivos estratégicos sem recurso a atos de pirataria internacional que destroem qualquer pretensão de liderança moral. O assédio à Gronelândia seguido de recuo tático em Davos mostra um padrão errático de ameaças seguidas de hesitações. O adiamento do ataque ao Irão revela que mesmo Trump percebe que há limites ao que pode fazer impunemente — mas essa perceção não o impede de continuar a fazer ameaças que depois não pode cumprir, minando sistematicamente a credibilidade americana.

E depois há a política interna: as deportações em massa, os ataques às instituições democráticas, a transformação do ICE numa espécie de polícia política, a retórica cada vez mais explicitamente autoritária. Amílcar Correia nota que a oposição ao "kitsch totalitário" está mobilizada, que os democratas ganham eleições, que protestos corajosos tomam as ruas. Mas isto também é padrão histórico: os impérios em declínio radicalizam-se internamente, tornam-se mais repressivos, mais paranoicos, mais dispostos a usar violência contra os próprios cidadãos.

A questão fundamental, como diz Mario Draghi citado por Correia, não é o colapso da ordem mundial — "a ameaça é o que a pode substituir". E aqui reside o verdadeiro perigo da loucura imperial de Trump: ele está a destruir a ordem internacional que garantiu décadas de relativa estabilidade, mas não está a construir nada no seu lugar. Apenas caos, oportunismo transacional, esferas de influência em competição permanente.

O resultado previsível é uma América que, como a Rússia de Putin hoje, será potência decadente. Ainda terá armas nucleares, ainda terá capacidade militar significativa, ainda poderá causar destruição massiva. Mas já não terá legitimidade, já não será modelo para ninguém, já não liderará através de soft power ou prestígio moral. Será apenas mais uma potência autoritária entre outras, tentando manter pela força aquilo que já não consegue manter pela influência.

Putin construiu essa Rússia — um país com armas de superpotência mas economia de país em desenvolvimento, com retórica imperial mas influência regional declinante, com pretensões globais mas cada vez mais dependente de parceiros menores como a Coreia do Norte e o Irão. É uma potência que inspira medo mas não respeito, que pode destruir mas não construir, que vive de glórias passadas porque já não consegue criar glórias presentes.

Trump está a construir a mesma coisa para os Estados Unidos. A operação na Venezuela pode ter sido militarmente bem-sucedida, mas foi desastre diplomático. A ameaça à Gronelândia pode ter mobilizado a base trumpista, mas alienou aliados europeus. O confronto com a China pode jogar bem internamente, mas está a acelerar a construção de uma ordem multipolar onde os EUA são apenas um pólo entre vários, não o centro indiscutível.

E tal como Nero não percebia que estava a destruir Roma, tal como Hitler não aceitava que estava a arrastar a Alemanha para o abismo, tal como Napoleão se recusava a ver que tinha ultrapassado o ponto de expansão sustentável, tal como a nomenklatura soviética não compreendia que o sistema estava morto — Trump também não parece capaz de perceber que está a transformar a América numa potência decadente.

Muitos temem que Trump esteja num estado de loucura em que tudo lhe parece ser permitido. Esse medo é justificado. Mas talvez o medo maior devesse ser outro: não que Trump seja louco no sentido clínico, mas que seja perfeitamente racional dentro da sua própria lógica — uma lógica que confunde força com poder, que substitui estratégia por táctica, que troca liderança por domínio, que destrói ordem sem criar alternativa.

Porque quando um império colapsa liderado por um louco, ainda há esperança de que a loucura seja temporária e reversível. Mas quando colapsa liderado por alguém que age racionalmente segundo premissas fundamentalmente erradas, então o colapso é estrutural, não conjuntural. Não é acidente que pode ser corrigido — é escolha que se torna destino.

A América prometida a ser "grande outra vez" pode acabar tão decadente quanto a Rússia de Putin. Não porque Trump seja louco, mas porque a sua racionalidade imperial — essa mistura tóxica de megalomania, oportunismo transacional e desprezo absoluto pelas regras — é exatamente a racionalidade que historicamente conduz impérios ao colapso.

E quando esse colapso vier, como veio para Roma depois de Nero, para a Alemanha depois de Hitler, para a França depois de Napoleão, para a União Soviética depois da nomenklatura senil, a pergunta não será "como não vimos isto a chegar?" A pergunta será: "como é que deixámos que acontecesse, quando todos os precedentes históricos nos avisavam exatamente para onde este caminho conduzia?"

A resposta, provavelmente, será a mesma de sempre: porque enquanto o imperador estava nu, toda a gente fingia que ele estava vestido. Até ao dia em que já ninguém conseguia fingir mais.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

A tempestade que desnudou os politiqueiros

 

A tempestade Kristin deixou um rasto de destruição que mede-se em casas inundadas, estradas destruídas, vidas arruinadas. Mas deixou também outro tipo de destroços: a evidência crua de quem são os políticos que nos governam e pretendem governar. Quando a catástrofe obriga à resposta imediata, quando não há tempo para preparar discursos nem afinar estratégias, revela-se o carácter. E o que Kristin revelou não é bonito.

Comecemos por Marcelo Rebelo de Sousa, esse mestre da dualidade que ao longo de dez anos tem praticado dois pesos e duas medidas com a destreza de um prestidigitador. Quando António Costa era primeiro-ministro, cada inundação, cada incêndio, cada catástrofe natural servia de pretexto para Marcelo ir ao terreno numa postura de crítica enfática ao Governo. Visitava as zonas afetadas com ar grave, ouvia as queixas das vítimas com expressão consternada, e depois deixava cair declarações que, sem nunca nomearem Costa diretamente, apontavam inequivocamente para a suposta ineficácia governamental.

Agora, com Luís Montenegro em São Bento, a tempestade Kristin mereceu de Marcelo uma indulgência comovente. Nada de críticas veladas, nada de visitas ostensivas às zonas destruídas para contrastar com a (in)ação governamental, nada da pressão pública que tantas vezes exerceu sobre executivos de esquerda. Apenas solidariedade institucional, compreensão pelas dificuldades, reconhecimento dos esforços. É a mesma tempestade, são os mesmos destroços, são as mesmas vítimas — mas o primeiro-ministro é diferente, logo a postura presidencial também é.

Já vai sendo tempo de consensualizar uma tese: Marcelo Rebelo de Sousa concorreu a Belém em 2016 porque as esquerdas estavam com uma força notável após a "geringonça" e ele tudo deveria fazer para infletir a relação de forças a nível político. No que, infelizmente para nós, foi bem-sucedido. Durante dez anos, Marcelo usou a presidência não como magistratura de influência equilibrada, mas como contrapeso sistemático às maiorias de esquerda. E agora, perante um Governo de direita que se revela tão ou mais incompetente na gestão de crises do que qualquer outro, Marcelo transforma-se em protetor paternal.

Esta duplicidade não é falha de carácter — é estratégia política. E deveria ser nomeada como tal, em vez de continuarmos a fingir que Marcelo é o presidente consensual e acima das fações que ele próprio se esforça por parecer.

Passemos a André Ventura, que transformou a tragédia de milhares de pessoas numa oportunidade de campanha eleitoral tão grotesca que até o presidente da Câmara de Leiria, Gonçalo Lopes, sentiu necessidade de o criticar publicamente. E Lopes tem razão: é indecoroso o aproveitamento da destruição causada pela Kristin para fazer propaganda política. Ventura percorreu zonas afetadas não para ajudar, não para ouvir, mas para ser filmado. Fez declarações incendiárias sobre a incompetência governamental — ele, que nunca governou nada, que nunca geriu nada, que nunca resolveu problema algum.

O espantoso não é que Ventura seja um oportunista — isso já todos sabíamos. O espantoso é que os seus apoiantes, normalmente tão orgulhosos da sua "chico-espertice", da sua capacidade de "não se deixarem enganar pelos políticos", continuem a não ver a vigarice monumental em que embarcaram. Ventura não tem propostas para prevenir inundações, não tem planos para melhorar a proteção civil, não tem soluções técnicas para nada. Tem apenas a capacidade de aparecer nas tragédias alheias com ar indignado e câmaras atrás.

É o populismo na sua forma mais pura e obscena: transformar o sofrimento real de pessoas reais em combustível para a máquina de propaganda. E os que votam nele, convencidos de que finalmente encontraram alguém que "diz as verdades", não percebem que estão a ser manipulados por alguém que usa essas "verdades" apenas como instrumento de ascensão pessoal.

Mas se Ventura deu um espetáculo lamentável, o ministro da Presidência, António Leitão Amaro, conseguiu a proeza de fazer ainda pior. O vídeo que publicou nas redes sociais — e que entretanto foi apressadamente retirado — revelou uma combinação de insensibilidade e estupidez que até para quem já lhe conhecia as limitações intelectuais causou espanto.

Já tínhamos identificado em Leitão Amaro uma inteligência mais do que deficitária, inversamente proporcional à ilusão que ele próprio alimenta sobre os efeitos da sua bravata oportunista. Mas ver essa evidência exposta de forma tão clara, tão irrefutável, tão documentada em vídeo — convenhamos que não o julgávamos tão mentecapto. Publicar conteúdo promocional do Governo enquanto milhares de pessoas estavam sem casa, sem água, sem eletricidade, é de uma falta de tato político que só pode ser explicada por incompetência ou por desprezo absoluto pela perceção pública. Provavelmente ambos.

Leitão Amaro é o exemplo perfeito do político que confunde habilidade tática com capacidade estratégica, que pensa que pequenos golpes de comunicação substituem governação efetiva, que acredita compensar indefinidamente a ausência de substância. Não pode. E Kristin provou-o de forma brutal.

Pelo contrário, o comportamento de António José Seguro durante estes dias tem sido exemplar. Não fez do sofrimento alheio palanque eleitoral, não instrumentalizou a tragédia para atacar o Governo, não aproveitou a catástrofe para se promover. Limitou-se a fazer o que um futuro Presidente deve fazer: manifestar solidariedade genuína, manter a dignidade institucional, separar a campanha eleitoral da resposta à emergência.

É verdade que não me sobram ilusões quanto ao que será a postura de Seguro em Belém. Não replicará para o lado inverso da balança a bem-sucedida estratégia marcelista de usar a presidência como contrapeso político permanente. Seguro será, previsivelmente, o presidente conciliador, que evita conflitos com o poder executivo mesmo quando seriam necessários. Isso é uma limitação, não uma virtude.

Mas nestes dias de tempestade, Seguro mostrou a Ventura algo que este, nem que se esforçasse por mil anos, seria capaz de aprender e replicar: sentido ético. A capacidade de perceber que há momentos em que a decência humana deve sobrepor-se ao cálculo político. Que há limites que não se ultrapassam, mesmo quando poderia obter vantagens eleitorais. Que a dignidade institucional não é apenas uma pose, mas um dever.

Ventura não tem este sentido porque não tem ética — tem apenas ambição. E a diferença entre os dois ficou ainda melhor espelhada durante a passagem da Kristin. Um candidato presidencial comportou-se como estadista, ainda que moderado em excesso. O outro comportou-se como abutre eleitoral, à espera que a tragédia lhe trouxesse mais votos.

A tempestade passou. Os destroços materiais levarão meses, talvez anos, a ser reparados. Mas os destroços políticos — a evidência de quem é Marcelo, de quem é Ventura, de quem é Leitão Amaro, de quem é Seguro — esses ficam registados. E na segunda volta das presidenciais, quando os eleitores tiverem de escolher entre um homem que demonstrou ter limites éticos e outro que demonstrou não ter limite algum, talvez se lembrem de como cada um se comportou quando a água destruía casas e vidas.

Ou talvez não. Talvez a memória seja curta, talvez a indignação passe, talvez o oportunismo continue a vencer. Mas pelo menos ficará registado, para quem quiser ver, que quando a tempestade desnudou os políticos, alguns revelaram-se exatamente como sempre foram. E isso, por si só, já devia bastar para uma escolha informada.

terça-feira, 27 de janeiro de 2026

Este é o tempo dos cobardolas: 4 - o Tempo da Resistência ao Bully

 

Donald Trump apresenta-se como a encarnação da força sem limites. Rapta chefes de Estado, ameaça invasões, desafia o direito internacional, proclama o regresso da "diplomacia da canhoneira". Toda esta retórica assenta numa premissa: Trump não recua, não hesita, não tem medo.

Os factos contradizem a retórica. Em Davos, recuou — ainda que de forma malcriada — quando lhe explicaram as consequências económicas de uma eventual resposta europeia ao assédio à Gronelândia. Adiou sine die o ataque ao Irão quando lhe previram dificuldades militares incomparavelmente maiores do que as do rapto de Maduro.

O padrão é claro: Trump ataca quando o risco de retaliação é mínimo, recua quando o custo potencial é alto. Bombardeia a Venezuela porque sabe que não haverá resposta militar significativa. Ameaça a Gronelândia mas recua perante a possibilidade de resposta económica europeia. Planeia atacar o Irão mas adia quando percebe que não será como raptar Maduro numa operação relâmpago.

É a mesma lógica dos "valentes" de Aveiras: violência exercida apenas quando a superioridade é esmagadora, prudência quando existe possibilidade de resistência efetiva. A diferença é de escala, não de natureza. Trinta neonazis contra um emigrante. A maior potência militar do mundo contra um país empobrecido por anos de sanções. Em ambos os casos, a "coragem" depende da certeza da impunidade.

Esta constatação tem consequências políticas diretas. Os cobardolas — desde os fascistas de rua até aos líderes imperiais — só precisam de resistência para recuar. Não é necessária força equivalente, não é preciso vencer militarmente. Basta demonstrar capacidade e vontade de impor custos.

Montenegro recuará quando perceber que a equidistância perante o fascismo tem custos eleitorais superiores aos benefícios táticos. Rangel mudará de discurso quando a subserviência deixar de ser politicamente sustentável. Macron endurecerá quando a capitulação começar a ter consequências internas graves. Trump recua sempre que encontra resistência credível.

Este é o tempo dos cobardolas porque é o tempo em que a cobardia se tornou estratégia política viável — desde as ruas até aos gabinetes governamentais, desde os grupos de WhatsApp até aos salões de Davos. Mas pode ser também o tempo da sua derrota, se houver quem se recuse a capitular, quem demonstre que a resistência é possível, quem prove que a força dos cobardes é ilusória.

Os 37 detidos do grupo 1143 não foram apanhados porque a polícia se tornou subitamente mais eficaz mas porque houve vontade política para agir sobre provas que existiam há anos. A mudança não foi técnica — foi política. E o que se aplica ao grupo 1143 aplica-se a todas as outras manifestações de cobardia organizada: só precisam de ser confrontadas para desmoronar.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

Este é o tempo dos cobardolas: 3 - O Cobarde de Óculos Escuros

 

Emmanuel Macron aperfeiçoou a técnica da cobardia performativa. Em Paris, faz discursos sobre autonomia estratégica europeia e resistência ao unilateralismo americano. Apresenta-se como o líder que ousa desafiar Washington, que defende a soberania europeia, que não se curva perante Trump.

Depois envia mensagens privadas conciliatórias, faz gestos diplomáticos de apaziguamento, assegura que as declarações públicas são apenas retórica para consumo interno. Trump, que reconhece imediatamente este jogo, responde com desdém público. Macron engole a humilhação e continua.

Esta duplicidade não é uma falha de carácter pessoal — é a expressão política da condição europeia contemporânea. A Europa ainda precisa de fingir dignidade para a sua própria população, mas já não tem poder suficiente para transformar essa dignidade em atos. Resulta numa política externa esquizofrénica: palavras duras, atos suaves. Retórica de resistência, prática de submissão.

Os óculos escuros que Macron usou recentemente nas suas aparições públicas — essa estética emprestada do cinema de ação americano — simbolizam perfeitamente a farsa. Um líder europeu que precisa de parecer-se com Tom Cruise para projetar força já admitiu implicitamente que não a tem. A pose substitui a substância. A imagem compensa a impotência.

Macron não é uma exceção europeia — é a norma. Representa a classe política continental que ainda usa a linguagem da soberania mas já interiorizou a vassalagem. Que ainda faz discursos sobre valores europeus mas já aceitou que esses valores cedem perante os interesses americanos. Que ainda se apresenta eleitoralmente como independente mas governa como dependente.

domingo, 25 de janeiro de 2026

Este é o tempo dos cobardolas 2 - A Cobardia no Poder

 

A cobardia não se esgota nas milícias de rua. Manifesta-se também, com consequências potencialmente mais graves, no topo do poder político.

Luís Montenegro decidiu não tomar posição sobre a segunda volta das presidenciais. Nem apoia Seguro, nem condena Ventura. A justificação oficial é a neutralidade institucional. A realidade é o cálculo político: Montenegro não quer alienar os eleitores do PSD que estão disponíveis para votar em Ventura, mas também não quer assumir publicamente essa cedência ao fascismo. O resultado é a equidistância — essa forma particularmente insidiosa de cumplicidade que se disfarça de prudência.

Esta não-decisão tem efeitos concretos. Normaliza Ventura como opção democrática legítima. Dá cobertura moral aos eleitores da AD que hesitam. Aprofunda o processo de arrastamento da direita moderada para o radicalismo que Pedro Adão e Silva identifica corretamente: em poucos anos, o eleitorado que outrora rejeitava liminarmente a extrema-direita passou a considerá-la uma opção possível.

Montenegro julga-se hábil. Pensa que pode gerir esta ambiguidade sem custos, que pode beneficiar eleitoralmente da aproximação ao Chega sem se comprometer publicamente com ele. É a mesma ilusão que levou tantos políticos europeus ao desastre: a ideia de que se pode instrumentalizar o fascismo para fins próprios. A História documenta exaustivamente o resultado dessa ilusão. Montenegro terá o seu momento de aprendizagem.

Paulo Rangel representa a mesma lógica aplicada à política externa. Quando Trump rapta Maduro e anuncia a apropriação do petróleo venezuelano, seis países — Brasil, Chile, Colômbia, México, Uruguai e Espanha — emitem um comunicado conjunto de condenação. Portugal, que partilha língua e história colonial com vários desses países, que experimentou décadas de ditadura, fica de fora.

Rangel não protestou, não condenou, não se juntou aos que manifestaram indignação. Escolheu o silêncio atlantista, a submissão automática a Washington, a genuflexão preventiva perante o poder imperial. É a mesma lógica de Montenegro aplicada a outra escala: não tomar posição clara porque isso poderia ter custos, fingir que a neutralidade é uma virtude quando é apenas cobardia calculada.

A diferença entre prudência diplomática e capitulação moral mede-se precisamente aqui: na capacidade de reconhecer quando uma violação do direito internacional é tão flagrante que o silêncio se torna cumplicidade. Rangel falhou esse teste. E ao falhar, transformou Portugal num país vassalo que abdica de voz própria para não desagradar ao império.