segunda-feira, 20 de janeiro de 2020

A direita portuguesa e os singulares milhões de Isabel dos Santos


O fim-de-semana trouxe como notícia principal - mais do que a reeleição de Rui Rio ou novas manifestações do inchado ego de Joacine - o trabalho de um coletivo de jornalistas internacionais, que investigaram a origem da prodigiosa fortuna de Isabel dos Santos.
Não deixa de ser curioso que tenha sido Ana Gomes a exceção à regra de uma classe política portuguesa acomodada com uma situação, que tinha tudo para ser mais do que suspeita. Porque, por muito que se trabalhe e ainda mais se poupe, quem consegue acumular a fortuna bastante para alcançar o estatuto de «mulher mais rica de África»? Pelo contrário, essa mesma classe política, ora pecou por omissão - foi o caso de toda a esquerda!  - ora atirou os escrúpulos ideológicos às malvas e logo cuidou de se associar ao esbulho do povo angolano. Paulo Portas ou Miguel Relvas que o digam!
Gostaríamos de acreditar que, glosando os versos de uma canção brasileira,  daqui para a frente, tudo vai ser diferente. Mas a História é fértil em exemplos de como assim não é: se a ocasião faz o ladrão, posto um à sombra, logo outro aproveita a oportunidade para encher os bolsos à custa dos incautos, que contra eles não se previnem. Sobretudo se contam com o apoio de uns grandes escritórios de advogados que, em todas as capitais ocidentais, trabalham esforçadamente para que os ricos ainda mais enriqueçam e os demais paguem as contas.

domingo, 19 de janeiro de 2020

A derrota final e definitiva no horizonte de Rui Rio


Não faltam comentadores que hoje aventem a possibilidade de Rui Rio estar fadado a acumular sucessivas vitórias internas até à inevitável derrota final. Mas não se pressentiriam possibilidades mais risonhas para Luís Montenegro se tivesse sido ele o vencedor. Porque o problema maior das direitas portuguesas reside na incapacidade em vislumbrarem estratégias de futuro, presas que estão aos modelos de pensamento do passado.
Esgotada a ideologia democrata-cristã, que está em total divergência com as práticas do capitalismo puro e duro da financeirização vigente - e Andreotti em Itália representou o exemplo maior da adaptabilidade dessa corrente de pensamento à influência crescente das diversas mafias, sejam as relacionadas com o crime organizado, seja com a sua réplica no funcionamento dos bancos! - essas direitas estão condenadas a replicarem as formatações de efémero sucesso no passado, mas retumbantemente derrubadas tão-só demonstrados os becos para que arrastaram quantos lhes sofreram os efeitos. Daí que sobre a assombração fascista do Chega, a fúria privatizadora da Iniciativa Liberal ou as lógicas híbridas constatáveis nas diversas candidaturas às lideranças do CDS ou do PPD.
Se ponderarmos qual o pensamento político de Rui Rio não lhe vislumbramos uma fácil definição. À frente da Câmara do Porto foi um mero tecnocrata, que procurou gerir os recursos com alguma competência, mas tendo culturalmente uma ação devastadora, que a nada reduziu os apoios municipais à criação e aos espetáculos. E tomou decisões desastrosas como as relacionadas com os prédios do Bairro do Aleixo em que ficaram mal esclarecidas as verdadeiras motivações para expulsar a população aí residente numa zona potencialmente interessante para a especulação imobiliária.
Neste dia subsequente à vitória acreditará mesmo na capacidade para unir um partido completamente dividido em dois e em que não se descobrem virtualidades em qualquer desses campos desavindos? Os ressentimentos de parte a parte não tenderão a manter o atual clima de confronto entre quem anseia pelo tal pote, que adivinha cada vez mais distante? É que, ademais, António Costa não lhes promete alimentar as vãs esperanças: a governação competente do país vai prosseguindo e só os ideologicamente cegos teimarão em não reconhecer que a qualidade de vida tenderá a melhorar e as expetativas futuras serão mais animosas. O que, no fim de contas, propicia um clima eleitoral em que as direitas serão obrigadas a venderem a derrota o mais caro possível sem a poderem evitar...

sexta-feira, 17 de janeiro de 2020

A Justiça a intrometer-se no que só cabe à Política


Um dos paradoxos do nosso tempo português é o desfasamento significativo entre o comportamento dos eleitores e o das instituições, que se incumbem de algumas das mais importantes missões da nossa cidadania. Sociologicamente o país está tão à esquerda que a soma das direitas mal ultrapassa os 30%, mas existe um explicito cerco à ação do governo com uma intensidade bem maior do que a legitimada pelo voto e expressa na Assembleia da República.
Há, em primeiro lugar, a imprensa, toda ela dominada por quem a utiliza como a principal ferramenta da agenda ideológica da direita, sem que tal levante um justificado repúdio coletivo, apesar dessa manipulação informativa expressar-se quotidianamente na escolha dos assuntos abordados nos telejornais, na forma como eles são enviesados para conterem óbvia censura às eventuais insuficiências da governação e no convite a comentadores, quase todos eles oriundos da mesma trincheira política.
Existem depois coisas esdrúxulas como a UTAO, que vira as contas do avesso para produzir conclusões sem consistente fundamento, ou o Conselho das Finanças Públicas donde já se retirou a aventesma Teodora, mas só justifica a existência ao produzir umas larachas preditivas, que os acontecimentos acabam sempre por desmentir. Não é por acaso que as falácias destas duas entidades ganham maior destaque noticioso do que os sucessivos relatórios do Instituto Nacional de Estatística que, por trazerem a crueza dos números indesmentíveis, se veem frequentemente remetidos para os rodapés informativos.
Ultimamente também a provedora da Justiça decidiu dar prova de vida querendo impor ao Estado a subsidiarização dos manuais escolares nos colégios privados como se estes merecessem as regalias do ensino público consagrado constitucionalmente. Da criatura já se conhecia o pendor para votar à direita quando foi juíza do Constitucional, e agora se confirmam os propósitos com que encara o cargo para que foi incompreensivelmente nomeada pela Assembleia da República.
E temos sobretudo os tribunais, há muito tempo zarolhos na forma como condenam uns por receberem robalos ou prendem-nos sem provas e livram outros das culpas com os seus negócios submarinos, arquivando ou demorando as decisões até se prescreverem as possibilidades de deles derivarem consequências. Da primeira instância à Relação, do Supremo ao Constitucional, sem esquecer os procuradores da República, temos uma Justiça mobilizada para derrubar o governo tão-só encontre motivos para avançar com alguma golpada tipo Lava Jacto.
Agora até o Tribunal de Contas - normalmente alheio de tais estratégias - decidiu nelas alinhar com a produção de uma peça inqualificável onde procura fazer política, ao desdizer-se relativamente a decisões a que dera o devido aval.  Fernando Medina reagiu com contida indignação, mas a bastante para demonstrar que, se para o PS tem havido a preocupação de separar a Política da Justiça, respeitando a autonomia desta última, o inverso tem estado longe de suceder.

quinta-feira, 16 de janeiro de 2020

Um político merecedor da nossa enfática admiração


Tenho aqui, amiudadas vezes, deixado transparecer a simpatia que Pedro Nuno Santos me merece. Na direção do meu partido é aquele com quem mais me identifico por ser óbvia a visão de, entre as diversas alternativas disponíveis para prosseguir a transformação do país, ser a sua a mais realista das que se situam á esquerda, cuidando de melhorar a qualidade de vida da grande maioria dos portugueses e diluindo as mais gritantes desigualdades entre os obscenamente ricos e os não menos obscenamente miseráveis.
Não esqueço ter sido ele o negociador, que garantiu a convergência dos partidos à esquerda quando, em 2015, Passos Coelho ainda pretendia enganar os eleitores dando-se como vencedor de uma disputa, que efetivamente perdera, e havia que encontrar os menores denominadores comuns para encostar as direitas às boxes donde merecidamente não saíram desde então.
Não se pode igualmente olvidar o seu papel na resolução da inqualificável arregimentação dos camionistas de mercadorias pesadas, quando as extremas-direitas pretenderam criar o caos em vésperas de novo ato eleitoral. Quando se tratou de demonstrar que os líderes dessa suspeita luta nada pretendiam negociar, porque era o máximo efeito de desestabilização, que os movia, foi Pedro Nuno Santos a dar a cara para desmascarar esse tumultuoso intuito.
Excelente tribuno parlamentar também o vimos esta semana a desbaratar totalmente a pérfida argumentação do deputado ultraprivatizador da Iniciativa Liberal. Se faz plenamente sentido a máxima de quem se mete com o PS leva, Cotrim de Figueiredo ainda deve andar por esta altura a lamber as feridas da contundente, mas também elegante, resposta de Pedro Nuno Santos ao seu injustificado ataque. É que está a notar-se, de forma substantiva, a mudança qualitativa suscitada por ele no ministério que lhe foi confiado. Perante o estado calamitoso em que a CP ficou depois de sucessivas administrações terem por objetivo degradá-la até ao nível rasteiro que justificasse a definitiva entrega aos interesses privados, ele encontrou arte de relançar as oficinas de reparação dos comboios já dados como sucata e, enquanto não chegam os já encomendados, garantir uma maior capacidade da empresa em corresponder às necessidades dos seus clientes. E, sobretudo, abriu a possibilidade de torná-la na sucessora da Sorefame, que o cavaquismo criminosamente destruiu, devolvendo a Portugal a fileira industrial que, durante décadas, construiu o seu equipamento ferroviário.  A este propósito António Costa revela-se entusiasmado com um sonho prestes a ser tornado realidade.

quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

Quando os jovens morrem e ficam em causa as investigações


A condenação do Estado Português pelo Tribunal Europeu dos Direitos do Homem, que fundamenta o pagamento de uma indemnização aos pais dos que morreram durante uma praxe estúpida e trágica na praia do Meco, suscita-me o desagrado de ter de contribuir com os meus impostos para ressarcir os queixosos do disfuncionamento do ministério público na pessoa do procurador, que terá liderado a investigação do caso. Mas a reação tende a suavizar-se perante a ambígua legitimidade de quem não teve na Justiça a resposta para a necessidade de encontrar alguém a culpabilizar pela morte dos filhos que, em última análise, terão sido os principais responsáveis por aceitarem de bom grado a armadilha para que foram conduzidos.
Reconheço que a Lusófona eximiu-se de quaisquer culpas com alguma agilidade argumentativa, que se assemelhou demais à lógica de “sacudir a água do capote” ou que o tal Dux (nome curioso pela semelhança óbvia com o epíteto escolhido por Mussolini para se autodesignar!) terá para o resto da vida a carga moral dessas seis mortes, só se lhe desejando que a consciência lhe seja pesada, mas nenhuma Justiça conseguirá devolver à vida quem a desperdiçou de forma tão irresponsável.
Se na altura pensei que o caso bastaria para acabar definitivamente com as praxes, é grande a desilusão por constatar que assim não foi. Todos os anos lá vemos cortejos de gente apalhaçada em fardas, que significam a formatação das mentes a formas de pensar abjetas, e uns quantos macaquinhos a sujeitarem-se aos ditames de uns sádicos, deleitados com a sua humilhação.
Contestável tem também sido o comportamento de quem deveria ter começado rápida investigação sobre a morte do jovem cabo-verdiano em Bragança e o não fez. A Polícia Judiciária queixa-se, com inteira razão, de só ter sido incumbida do caso mais de dez dias depois da sua ocorrência, associando-se essa informação à oposição da PSP local a que a família de Giovani formalizasse a queixa no próprio dia, a pretexto de caber ao agredido - mesmo em coma - o exclusivo “direito” de o fazer. E também aos outros jovens, agredidos na ocasião, terá instado a que não o fizessem.
Aí está uma boa matéria, que deveria interessar o ministério público, em vez de continuar cingido à agenda ideológica que tem motivado alguns dos seus membros: clarificar que estranhos interesses justificaram essa escusa a uma investigação que, segundo a crónica de Luís Aguiar-Conraria, hoje no «Público», se limitou  à emissão de “um comunicado cheio de buracos, em que nem ficamos a perceber se mais algum grupo de pessoas foi agredido nessa noite.”

terça-feira, 14 de janeiro de 2020

As ambíguas prioridades da Justiça no caso Tancos


O julgamento sobre o armamento furtado nos paióis de Tancos tem sido revelador sobre o estado da Justiça em Portugal, particularmente quanto à prioridade estabelecida pelo ministério público e pelo juiz Carlos Alexandre quanto à meteria de facto. Para o comum dos mortais o que deveria estar em questão era a autoria do planeamento e execução do roubo e ser esse o foco da investigação e condenação. De relevância menor seria a forma como a Polícia Judiciária Militar assegurou a recuperação desse armamento, dando prioridade a esse objetivo, mesmo que utilizando o diálogo com os culpados e a promessa do seu encobrimento como recurso decidido em cima do momento.
É claro que Joana Marques Vidal e os que ela comandava, com continuada intenção ideológica, decidiram virar a questão ao contrário, minimizando a importância do roubo e focalizando-se na estratégia, que pudesse pôr em causa o ministro da Defesa em particular, e o governo no seu todo. Em ano de eleições um caso desta natureza poderia ter o efeito produzido pelos que, a partir de 2013, com o caso Sócrates, garantiu a Passos Coelho um suficiente apoio eleitoral para alegar ter «ganho» as eleições.
Esse grupo que se tem servido do ministério público para combater o governo, de mãos dadas com o grupo Cofina, que lhe vai servindo de altifalante através dos seus pasquins  e canal televisivo, sabia que apostando na possibilidade de ver potenciada a narrativa em causa com algum grande incêndio durante o verão, alcançaria os seus objetivos.  Não o conseguiu, porque as equipas comandadas por Eduardo Cabrita no Ministério e na Proteção Civil lhes sonegaram as fúteis esperanças, mas poderemos sempre conjeturar até que ponto o massacre noticioso sobre o sucedido em Tancos não terá condicionado ainda assim a votação no Partido Socialista, diminuindo-a o suficiente para que não dessem o esforço como inglório.
Por ora passaram o testemunho a Carlos Alexandre na expetativa de o verem a agir de acordo com a sua própria agenda política que, no essencial, coincidirá com os seus propósitos. Por estes dias não faltam emproados farsantes dispostos a manterem em lume brando a questão de verem o poder executivo submetido ao judicial através da inaceitável exigência do testemunho presencial de António Costa no Tribunal de Monsanto. E quase não se ouvem as vozes de quem olha para a Constituição e constata que os três poderes nela consagrados são independentes entre si, não devendo haver de modo algum a submissão de um deles aos outros dois. Muito menos a juízes ou magistrados, que nunca se sujeitaram ao voto popular para exercerem as suas funções e dele recolherem a devida legitimidade...

domingo, 12 de janeiro de 2020

A irrelevância de quem aposta em o ser cada vez mais


Os resultados das eleições internas do PPD não pressagiam nada de bom para o principal partido da oposição, ganhe Rui Rio ou Luís Montenegro. A clivagem entre os apoiantes de um e de outro mantém-se tão acesa, que a definição do vencedor em nada alterará o clima existente.  Nem tão pouco a relação com o governo, porquanto depressa se esvaiu aquela ideia peregrina de ser o antigo autarca do Porto alguém mais capaz de negociar os mínimos denominadores comuns com quem assegura a governação do que persistir na reiterada demonstração de despeito por, há muito, não cheirar o pote. Desde que substituiu Passos Coelho, Rui Rio tem-se equivalido a Luís Montenegro no uso de argumentos intelectualmente desonestos a roçarem o populismo, culminando agora na convergência de pontos de vista relativamente ao grupúsculo neofascista da Assembleia da República com quem conta vir a estabelecer entendimentos futuros. Se compreendia-se em Montenegro essas «venturadas» propensões (no fundo fora o padrinho quem escolhera o candidato à autarquia de Loures nas últimas autárquicas!), Rio desconsiderou-se definitivamente com a escusa em estabelecer uma linha vermelha com quem tão ostensivamente contraria muitos dos princípios consagrados na nossa Constituição.
Estes dias não trazem apenas previsões de dificuldades para os partidos das assumidas direitas.  No Livre a deputada Joacine nem sequer consta da lista de quase setenta nomes de entre os quais será escolhida a próxima direção. Se a gaguez suscitou justificada complacência inicial as sucessivas atitudes, que se lhe vêm conhecendo, confirmam-na como o erro de casting capaz de devolver o partido à merecida irrelevância.
Relativamente ao PAN há a crónica de Miguel Esteves Cardoso a deixar transparecer aquilo que poderá estar  a ser o sentimento de muitos quantos nele votaram nas recentes eleições.  Depois de se confessar arrependido de, por duas vezes, o ter apoiado, compromete-se a evitar uma terceira: “Como outros apoiantes, dispus-me a perdoar uma série de vaidosas estupidezes, pensando ingenuamente que eram vicissitudes de crescimento. Mas o PAN tornou-se megalómano e prepotente, sucumbindo à doença portuguesa do sebastianismo, julgando-se providencial, superior, inevitável, detentor da bondade e do futuro.”
Quantos dos eleitores do PAN poderão estar, por esta altura, a identificar-se com o texto do conhecido cronista, cuja profissão de fé agora conhecida, só confirma que nunca se tratou de uma organização política à esquerda, porque da direita se declaram muitos dos seus (antigos?) apoiantes...

sexta-feira, 10 de janeiro de 2020

Definitivamente, fascismo nunca mais!


Nestes últimos dias o «Público» tem-se juntado à estratégia da extrema-direita em torno do inqualificável juiz Carlos Alexandre querendo forçar António Costa a comparecer presencialmente em tribunal para dar testemunho do que sabe ou não sobre a Operação Tancos.
O amigo de Marcelo com poiso certo na última página do jornal - João Miguel Tavares - já aí lavrou odiosa diatribe, bem à medida da agenda política para que concorre (quererá vir a ser deputado do Chega de braço dado com o referido juiz?) e hoje acompanha-o o editorialista Amílcar Correia embora com prosa menos alarve.
Todos sabemos da intenção peregrina dos magistrados em ganharem superior relevância em relação aos outros dois poderes constitucionalmente consagrados, o legislativo e o executivo. Proclamaram-no em alto e bom som num nunca por demais lembrado Congresso onde tiveram o alto patrocínio dos bancos, cujos responsáveis se têm eximido de punir, não tendo conhecido a merecida penalização das grades carcerais, ou aí passando uma brevíssima temporada.
O que Carlos Alexandre pretenderia era a afirmação simbólica dessa superioridade judicial sobre o poder político, ganhando assim uma espécie de imagem impoluta como julga ter sido a do nefando Sérgio Moro antes deste ser merecidamente desmascarado pelas gravações entretanto vindas a público. Se para as eleições anteriores ainda terá estado em equação a sua candidatura a deputado pelo grupúsculo de Paulo Morais, a expetativa de se ver achincalhado pelo voto dos eleitores, como se verificou com o já esquecido Pardal Henriques, podemos conjeturar que esperará por oportunidade mais risonha, assim o pasquim da Cofina o continue a levar nas palminhas.
O que o Conselho de Estado decidiu faz todo o sentido: subscrever a intenção de António Costa em prestar testemunho por escrito tal qual a lei lhe possibilita perante as Comissões de Inquérito parlamentares. Ir mais além do que isso seria premiar quem, criminosamente quer subverter a ordem constitucional dando provimento á ilegítima intenção dos magistrados.
Definitivamente não poderemos aceitar que surjam fotografias mais ou menos trabalhadas por Photoshop em que um feroz Carlos Alexandre pareça crescer para um intimidado primeiro-ministro. Essa hipótese constituiria mais uma peça de propaganda para a extrema-direita que se anda a atiçar a multiplica-las no desejo de alcançar os seus fins. Ora a maioria dos portugueses continua por certo a defender que fascismo nunca mais.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2020

Y el mundo sigue girando...


Na semana passada havia-o aqui escrito e assim o vi confirmado: a aprovação do Orçamento Geral do Estado para este ano de 2020 constituirá uma mera formalidade, porque, mesmo através das abstenções, as esquerdas sabem ponderar definitivamente o que têm a ganhar ou a perder se não se concertarem com o governo para prosseguir a caminhada conjunta iniciada no final de 2015. É que, quatro anos passados, e mesmo em aparente crise nas suas representações políticas, as direitas não perderam a sua carga virulenta: perante a ineficiência do PPD ou do CDS têm sempre a seu favor a maior parte da imprensa e das redes sociais, os juízes e os magistrados do ministério público, as ordens profissionais e até a provedora da Justiça que, por estes dias, apareceu com a ideia peregrina de haver manuais escolares gratuitos no ensino privado. A referida criatura reconhece não ter razão para, constitucionalmente, exigir essa benesse a quem mete os filhos no ensino privado, mas procura abrir uma pequena nesga pela qual volte o forrobodó de ter o Orçamento a financiar os colégios religiosos e os pertencentes a quem considera a educação um bom negócio para encher os cofres.
Felizmente que, aqui ao lado, os espanhóis passaram a ter aquilo que, ainda há poucos meses se afigurava impossível: um governo de coligação com as esquerdas a dividirem as pastas ministeriais entre si. Depois de ter-se esfumado a esperança de Portugal dar o exemplo a ser seguido pelos demais governos europeus, é a vez de Pedro Sanchez e Pablo Iglésias demonstrarem os benefícios de se ter finalmente dobrado um cabo das Tormentas. Acaso vençam todos os escolhos metidos por uma direita radicada ideologicamente no golpismo franquista, poderão mostrar à generalidade dos partidos socialistas e sociais-democratas europeus qual a melhor estratégia a assumir para reduzir as extremas-direitas às suas merecidas irrelevâncias.
E continuamos com Trump a assombrar-nos os dias não havendo grandes dúvidas quanto ao verdadeiro objetivo do assassinato de Qasem Soleimani: se Clinton disparava mísseis sobre Belgrado para atirar uma cortina de fumo sobre o impeachment, que ameaçava expulsá-lo da Sala Oval, o pato-bravo de Queens repete-lhe a estratégia. Daí ter vindo, com a maior das canduras, propor que o processo fosse arquivado para lhe dar tempo para melhor «defender os interesses da América» contra os terríveis aiatolas.  Tivemos, pois, uma repetição da matéria há muito dada e, infelizmente para ele, não esquecida entretanto. Mas até às eleições de novembro estamos fadados para lhe aturar os perigosos disparates...

quarta-feira, 8 de janeiro de 2020

Auditórios: A Melodia Sentimental de Heitor Villa Lobos

O execrável populismo de Marcelo


Bem gostaria de me livrar de Marcelo como quase constante alvo das minhas críticas, mas como evitá-lo se ele me dá sobejas razões para que tal continue a acontecer? Agora foi na cerimónia de início do ano judicial, quando fez uma declaração do mais soez populismo:  “Alguns espíritos chocaram-se com o ser possível a magistrados terem estatuto remuneratório superior ao de primeiro-ministro e mais próximo do estatuto do Presidente da República. Não consegui compreender o racional - como se diz agora - de tais perplexidades”
Um Presidente com sentido de Estado  porfiaria em combater os populismos, que fazem dos políticos os bombos de uma festa em que o objetivo é apenas substituírem-se a eles, mantendo ou mesmo aumentando então as respetivas mordomias, tão-só estejam em condições de imporem pela força a agenda em prol dos suspeitos do costume, ou seja, desses patrões que lhes financiam lautamente os cartazes e demais instrumentos de manipulação coletiva sem que os tais magistrados os investiguem rigorosamente conforme deveria ser o seu imperativo. Será por terem eles quem afinal lhes garantem uma posição injustificada de privilégio em relação aos políticos relativamente aos quais sempre ganharam menos ou aos militares que se lhes equiparavam? Se as coisas não são assim, pelo menos parecem...
Para que não fiquem dúvidas sou dos que defendem que as remunerações atribuídas a partir do Orçamento Geral do Estado devem ter no topo da hierarquia o Presidente da República, seguido do Presidente da Assembleia da República e do Primeiro-ministro. Só depois faz sentido que venham os juízes, os militares, os professores, os médicos e outras carreiras, que merecem equiparar-se em importância. Porque qual a razão para um juiz do Supremo ou do Tribunal Constitucional ganhar mais do que um general, um professor catedrático ou um médico especialista? Pegando na expressão de Marcelo qual é o racional de não ser assim a partir de agora?
Ouvir Marcelo dizer que o aumento dos políticos fica para depois pode ser do agrado das manchetes dos pasquins da Cofina mas em nada contribui para que o governo da nação ou a Assembleia da República sejam constituídos pelos cidadãos mais qualificados porque, perante as condições remuneratórias oferecidas para o exercício de funções oficiais, sempre preferirão a comodidade de optar pelo setor privado, onde ademais se poupam ao fácil achincalhamento que os meios de comunicação e as redes sociais, infestadas por biltres direitistas, se esforçam por disseminar. Como é exemplo lapidar esse Tavares, dileto amigo de Marcelo, que se serve da última página do jornal da Sonae para desconsiderar quem a dormir sabe mais da política ou da gestão do que ele com os olhos todos abertos, ainda por cima convencido de ter alguma razão nas atoardas que derrama no papel...