Há
pecados que a Bíblia não cataloga com nome próprio, mas a consciência comum
reconhece sem hesitar. Este governo cultiva dois com particular esmero: a
bufaria e o sacudir a água do capote.
A bufaria
apareceu, na forma mais crua, na Prestação Social Única. Estava lá, escrito, um
canal de denúncias — o convite formal a que cada português vigiasse o vizinho e
reportasse quem, na sua opinião, usufruísse de rendimentos ilegítimos.
Não
importava se a suspeita tinha fundamento. Importava mobilizar a coscuvilhice e
a inveja, transformar a vizinhança num posto avançado da fiscalização social e
estigmatizar ainda mais os pobres, os imigrantes, os que dependem de apoios
para sobreviver.
O PS
conseguiu retirar essa aberração do diploma, mas a intenção ficou registada. Um
governo que apela à delação entre pobres revela o que deles pensa — e de si
mesmo.
O segundo
pecado tem cara e currículo. Fernando Alexandre, nos tempos da troika, já
propusera que os reformados perdessem definitivamente o direito ao décimo
quarto mês. Não uma suspensão de emergência — uma perda definitiva, ferida
permanente inscrita na lei. É o retrato antecipado do homem: para o economista,
o idoso que trabalhou a vida inteira é uma rubrica a cortar, não uma pessoa a
respeitar.
A
promoção a ministro parece ter-lhe estimulado o ego sem lhe aumentar a
estatura. Porque um ministro digno do cargo entende uma coisa simples: tudo o
que acontece na área que tutela é da sua responsabilidade, o bom e o mau, o
êxito e o fracasso. É a essência do lugar.
Fernando
Alexandre entende o contrário. Perante o caos nos exames nacionais, atirou as
culpas para os diretores das escolas, os professores, os serviços
administrativos, os agrafadores, o código QR, António Costa — para toda a gente
menos para quem assinava os despachos.
Sacudir a
água do capote é isto: molhar-se e garantir que a poça fica aos pés dos outros.
É cómodo, é cobarde e é, sobretudo, revelador. Quem não retira consequências
dos próprios fracassos demonstra não ter a envergadura moral que o cargo exige.
A demissão, que noutro país seria automática, aqui nem sequer se pondera —
porque assumir seria admitir, precisamente o que este homem não sabe fazer.
Os dois
pecados têm a mesma raiz: a fuga à responsabilidade. Quem apela à delação foge
da responsabilidade de combater a pobreza pelas causas e prefere caçar os
pobres um a um. Quem culpa os subordinados foge da responsabilidade de gerir e
prefere encontrar bodes expiatórios. Num caso e noutro, a vileza é a mesma.
Muda apenas a escala.
A Bíblia
não os nomeia. Mas tinha razão o povo quando dizia que a cara é o espelho da
alma — e há almas que os exames, esses, retratam sem margem para revisão de
nota.



















