Há
semanas que os assuntos cruzam-se por puro acaso e ainda assim contam a mesma
história.
Em
Londres, António Guterres exigiu que as gigantes da inteligência artificial
revelem o seu verdadeiro custo ambiental. "Chega de custos
escondidos", disse, lembrando que os centros de dados consumiram 448
terawatts-hora de eletricidade em 2025 — mais do que a maioria dos países do
mundo. O secretário-geral da ONU não pediu caridade. Pediu contabilidade. Quem
promete revolucionar o futuro devia começar por dizer quanto isso custa hoje, e
a quem.
Em
Genebra, a Comissão Internacional Independente de Inquérito da ONU divulgou
novo relatório sobre Gaza: crianças palestinianas têm sido deliberadamente
alvejadas e mortas pelas forças de segurança israelitas, num padrão que
persiste mesmo depois do cessar-fogo de outubro. Pelo menos 20 179 crianças
mortas entre outubro de 2023 e outubro de 2025 — cerca de 30% de todas as
vítimas, proporção superior à de qualquer conflito anterior em Gaza. A comissão
fala de ataques aos serviços de maternidade, de fome usada como arma, de uma
estratégia para destruir a continuidade biológica de um povo. Israel chama-lhe
farsa caluniosa. Os números, voláteis e mortais, não se importam com o nome que
lhes dão.
Em
Lisboa, os dados do Eurostat mostram outra forma de violência, mais lenta mas
igualmente concreta: Portugal é o sétimo país da União Europeia com maior
esforço real das famílias face ao custo dos combustíveis, à frente de
praticamente toda a Europa Ocidental — mais penalizado do que a Espanha, a
França, a Alemanha, a Suécia. Não é fatalidade geográfica. É política fiscal de
um governo que prefere tributar quem enche o depósito a tributar quem acumula
lucros, e que descobre nos impostos sobre combustíveis a receita que falta
noutro lado.
Em Nova
Iorque, as ações da SpaceX perderam 600 mil milhões de dólares de valor em três
sessões, depois de uma estreia em bolsa que tinha feito de Musk o primeiro
bilionário a tornar-se trilionário. A empresa que prometia o maior mercado da
história humana lembrou Wall Street de uma lei mais antiga do que qualquer
foguetão: quem sobe pela euforia desce pela física. Avaliada a 175 vezes os
seus resultados, sem fundamentos que sustentassem a fantasia, a queda não foi
acidente — foi correção.
O que une
estes quatro episódios é a mesma pergunta sem resposta satisfatória: quem paga
a fatura do que outros decidem? As famílias portuguesas pagam a fatura da
política fiscal de Montenegro. As crianças de Gaza pagam a fatura de uma guerra
que escolheram não fazer. O planeta paga a fatura de uma corrida tecnológica
cujos custos ambientais ninguém quer revelar. E os investidores que compraram a
fantasia espacial de Musk pagam, finalmente, a fatura da sua própria euforia —
a única fatura desta lista que tem alguma justiça poética em ser paga por quem
a contraiu.
As outras
três, infelizmente, continuam a ser pagas por quem nunca assinou a conta.



















