(Décimo quarto de uma série de retratos à maneira de Woody Allen, em que se constata quão enganador podem ser os fulgores das ilusórias promoções).
Há
ingratidões que se pagam devagar, e a de António Costa para com Pedro Nuno
Santos foi dessas: o homem que segurara a Geringonça nos anos difíceis, quando
segurá-la exigia mais nervo do que aplauso, viu-se, no Congresso seguinte,
tratado não como herdeiro mas como ameaça, mal ousou dizer em voz alta o que
todos já sabiam — que também ele queria, um dia, suceder. Não faltaram
rasteiras discretas, do tipo que não deixa marca visível mas deixa carreira
manca.
Mas Costa
veio a desistir da política nacional com uma facilidade suspeita, ele que
discutira orçamentos e maiorias com unhas e dentes durante oito anos. Bastou
uma busca à residência oficial, uma conspiração nunca cabalmente explicada, com
Lucília Gago e Marcelo nos papéis principais, para que largasse Lisboa sem
drama excessivo, atraído pelos fulgores de Bruxelas como quem troca subitamente
de amante por uma mais vistosa, sem se dar ao trabalho de disfarçar o
entusiasmo.
Passados dois
anos, a pergunta merece resposta honesta: valeu a pena? Porque o homem que
geria maiorias absolutas em Lisboa geme agora consensos entre vinte e sete, o
que é uma forma elegante de dizer que já não decide nada sozinho, apenas modera
quem decide. É presidente do Conselho Europeu, título sonoro que soa a poder e
significa, na prática, sentar à mesa e sorrir enquanto Macron e Merz discutem
por cima da sua cabeça.
Prova
disso foi o episódio do Kremlin: quis fazer o que a razão mandava, abrir um
canal com Putin, preparar o terreno para uma paz que a guerra na Ucrânia
precisa mais do que de heroísmo continuado — e foi imediatamente chamado à
ordem, como aluno apanhado a passar um bilhete na aula, pelo bloco
franco-alemão que prefere a guerra prolongada à negociação prematura.
Chamaram-lhe "mal orientado", compararam-no ao erro do antecessor, e
Costa, que em Lisboa despachava ministros renitentes num telefonema, teve de
explicar-se em cimeira como quem pede desculpa por bom senso fora de horas.
Fica o
retrato irónico de um homem que trocou o poder de decidir pelo poder de
presidir — dois verbos que parecem primos e são, na prática, opostos. Em Lisboa
mandava e era criticado; em Bruxelas sugere e é repreendido.
Talvez
seja este o destino reservado a quem confunde protagonismo com influência:
descobrir, dois anos depois do desembarque europeu, que trocou uma pátria onde
podia agir por um continente onde apenas lhe é permitido, com sorte, ser
ouvido.



















