terça-feira, 19 de junho de 2018

Sinais de esperança na negra conjuntura internacional


Existem várias razões para crer que este ciclo político, caracterizado pela ascensão de políticos populistas ao poder e o crepúsculo de uma social-democracia incapaz de se adaptar a contingências económicas muito diferentes da época em que as medidas sociais eram possíveis não só como contraponto a uma falsa utopia eventualmente existente para lá da Cortina de Ferro, mas também como resultado dos superavits propiciados pelas inovações nos meios de produção e na energia barata, que o choque petrolífero de 1973 veio pôr em causa.
A incapacidade de ter um discurso atrativo para quem melhor deveria acolher as suas propostas, levou os partidos sociais-democratas e socialistas europeus a verem os seus eleitores fugirem para as extremas-direitas, que já tomaram o poder na Turquia, na Polónia, na Hungria, nos Estados Unidos, na Áustria, na Itália, na Eslováquia, na Rep. Checa e ameaçaram consegui-lo em França, na Alemanha, na Finlândia ou na Suécia.  Ou a deixarem-se seduzir por coisas oportunistas como o foram o Movimento 5  Estrelas em Itália ou o Republique en Marche em França. Ora é nestes últimos, que se está a verificar o desmascaramento muito rápido do que era o seu intento ao surgirem aos eleitores como algo de novo: em Itália, apesar de ser o partido mais votado, o movimento do palhaço Grillo limita-se a ser muleta subserviente de quem verdadeiramente abocanhou o poder, esse partido fascista que demonstrou a verdadeira natureza logo no sua primeira decisão governativa: a rejeição dos náufragos acolhidos no «Aquarius» e, entretanto, recebidos em Valência.
Se quisermos acreditar no primado da decência coletiva sobre a ignomínia de muitos fascistas europeus, a atitude do governo socialista espanhol revela uma superioridade moral, que ecoará nos que olharão para Salvini e seus aliados como os crápulas, que são.
Por outro lado, em França, o partido de Macron ameaça desmembrar-se mostrando o quão frágeis eram os princípios em que se baseava, suficientemente falaciosos para nele se terem reconhecido quem, afinal, lhe desaprova a clara opção direitista. As esquerdas francesas têm a oportunidade de, depois de defenestradas pelo oportunista, que ocupa o Eliseu, encontrar a estratégia capaz de replicar além-Pirenéus o que deste lado vai sucedendo. Tanto mais que a direita sarkozista conhece guerras internas, que a vão fragilizando, esperando-se idêntico cenário com o feudo de Marine Le Pen em vias de ser ameaçado pela ambiciosa, e ainda mais sinistra, sobrinha.
E que dizer do que se passa nos Estados Unidos onde as primárias republicanas para as eleições de novembro vêm sendo ganhas pelos apoiantes de Trump em detrimento das antigas e tradicionais tendências? Prefigura-se um embate entre candidatos democratas, que entre a ala esquerda de Sanders e a mais conservadoras, terão um outro nível de decência, e os defensores de coisas tão horríveis como a separação de crianças dos respetivos pais. Se isso bastar para inverter a relação de forças na Câmara dos Representantes e no Senado, algo poderá mudar quanto às políticas vindas do outro lado do Atlântico. Nomeadamente bloqueando a ação nociva da Casa Branca, impondo-lhe os freis, que outrora os Republicanos impuseram a Obama.
Acresce, enfim, a possibilidade real de, em breve, um dos ditadores chegados ao poder mediante eleições supostamente democráticas - Erdogan - ver-se derrotado pela mesma via num escrutínio antecipado por ele convocado ciente de, quando mais tempo demorar a convocar os eleitores, pior resultado terá, tão nocivos se revelam os efeitos das suas políticas junto de quem o chegou a julgar como um messias vindo á Terra para os salvar...

Já lá vem outro caminho!


A História tem-nos demonstrado inúmeras vezes que, quando a queda no abismo parece iminente, uma reviravolta vira de pantanas as piores expetativas, que poderíamos ter sobre o futuro próximo, e ele volta a afigurar-se-nos esperançoso como já admitíamos, que o não viesse a ser. Até porque víramos entretanto as vítimas acumuladas como saldo tenebroso do que contra elas se conjugara.
Foi assim com os judeus durante a Segunda Guerra Mundial cujo drama levou alguns deles, ainda que distanciados dos campos de concentração, a porem fim aos seus dias por não poderem suportar uma ameaça, que se lhes tornava mais tangível cada dia que passava. Os nunca por demais citados casos de Virginia Woolf ou de Stefan Zweig, que não puderam acreditar na hipótese de o pesadelo cessar daí a poucos anos com a redução a escombros do Império, que se julgava invencível para os mil anos seguintes.
Olham-se as notícias e é difícil suportar a sucessão de situações, que causam tanta infelicidade a gente indefesa. Mormente às duas mil crianças separadas dos pais na fronteira com o México e engaioladas em centros sórdidos, que estarão a viver traumas psicológicos, que as afetarão por certo para o resto das suas vidas. Ou as atitudes de governantes europeus eivados de uma criminosa indiferença para com os milhares de desesperados, que se vêm afogar no Mediterrâneo sem sequer contarem com o tratamento milenarmente devido aos náufragos no alto mar. Ou as ameaças à paz na Colômbia pela eleição de uma marioneta do assassino, que mais mortandade causou no país, quando ele próprio foi o Presidente. Ou...
E, no entanto, se olharmos para as outras notícias, as que recebem menos atenção, mas comportam sinais de sinal diferente, concluímos ser extemporânea a rendição ao desespero. É que, a exemplo da formiga no carreiro da canção do Zeca Afonso, já lá virá outro caminho!

segunda-feira, 18 de junho de 2018

A galeria de horrores nas bandas de Assunção Cristas


Os tempos não andam a correr de feição para Assunção Cristas, que vê agitarem-se as oposições internas já insatisfeitas com o notório fracasso da agenda populista da líder. Se antes das autárquicas e do anunciado desastre laranja ainda acalentavam a expetativa de crescerem em votos e em cargos públicos à medida das suas desmedidas ambições, a irrelevância prometida pelas sondagens anda a desesperar os mais impacientes, que fazem contas à vida e julgam ser hora de impor mudanças urgentes.
No Porto a contestação sobe de tom, sobretudo porque não conseguindo fazer valer a força dos votos dos militantes na eleição de Cecília Meireles como líder distrital, a presidente tem utilizado todos os recursos, legítimos e ilegítimos, para derrotar o rival que a defronta. Por outro lado, outra tendência anda insatisfeita com o pouco empenho na defesa das touradas e quer impor essa posição troglodita na imediata estratégia política do partido. Que importa a rápida desafeição dos portugueses por um espetáculo degradante e de mais do que justificada proibição?
Não é que esses opositores sejam menos maus do que quem ainda os dirige, mas têm, pelo menos a virtude de não estarem com demagogias primárias, revelando-se sem peias naquilo que são: uns fascistas recauchutados. Ora as últimas semanas têm sido pródigas nalgum aparato mediático para algumas personagens sinistras desta direita encostada á sua extrema malignidade: Machado, o assassino condenado, revelou a vontade de capitanear a turba abrutalhada da Juve Leo; a Vera de Medicina andou a propagar a ideia de se estar na iminência de se matarem os velhinhos. E a brasileira de Pedrógão, provavelmente admiradora de Balsonaro, voltou a viver alguns minutos televisivos de indigna glória, querendo justificar a ambição a um lugar de deputada nas próximas eleições - europeias ou legislativas - mas não conseguindo disfarçar, nem sequer um bocadinho, o nauseabundo oportunismo.
É caso para considerar que nas direitas mais extremadas vigora uma autêntica galeria dos horrores.

domingo, 17 de junho de 2018

Os sinais que Marcelo dá ao PSD quanto às exigências dos professores


Não há que ter ilusões quanto à bondade súbita de Marcelo Rebelo de Sousa quando, pelo «Expresso», dá conta da sua desaprovação á vontade manifestada por algumas figuras gradas do PSD em associarem-se ao Bloco e ao PCP na imposição da contagem total do tempo reivindicado pelos professores no Orçamento de Estado para 2019. Não é que ele queira facilitar a vida ao governo de António Costa que anseia ver pelas costas e substituído por um outro mais conforme com as suas opções ideológicas.
É precisamente por adivinhar possível essa hipótese - sobretudo se os professores, arregimentados pelos seus sindicatos e pelos partidos, que se lhes têm associado - revelem sucesso na repetição da «bela» obra que conseguiram quando, na década transata, cuidaram de fragilizar os governos de José Sócrates de forma a possibilitar-lhe a substituição pelo de Passos Coelho.
Os que agora protestam nada aprenderam com o então sucedido e, como alguém dizia nas redes sociais, se daqui a um par de anos voltarem a recolher os «frutos» que a coligação das direitas lhes proporcionaram entre 2011 e 2015 não terão mais do que aquilo que se esforçam por merecer.
O problema que Marcelo pressente é que, colando-se o PSD oportunisticamente a esta luta insensata, estará a semear as pedras por que terá de passar se voltar a ser governo, porque os encargos futuros do Estado com os encargos agora reivindicados serão incomportáveis e condicionarão esse futuro. Porque só recorrendo ao argumento sólido da demografia, que faz existirem cada vez mais professores para um número de estudantes em clara redução, para impor despedimentos massivos no setor conseguirá conter a despesa do Estado em limites, que não arrastem o país para défices ingeríveis.
Marcelo sabe  que o PCP e o Bloco - agora a demonstrar que cinge a ambição a manter-se partido de protesto e não de governo numa coligação com o PS! - podem tudo exigir, porque nunca terão de se haver com as consequências do seu aproveitamento populista às exigências corporativas inaceitáveis dos professores. Mas o PSD aspira a voltar ao governo e, segundo o seu antigo militante e atual presidente, não poderá criar hoje as dificuldades, que não saberá como resolver amanhã se quiser evitar medidas demasiado impopulares. Porque não tenhamos dúvidas que só com grandes aumentos de impostos de todos os demais contribuintes é que os professores e as outras classes profissionais, que os imitam nas mesmas exigências, poderão vê-las satisfeitas.
Ora, pela parte que me diz respeito, sei que já pago impostos a mais para aquilo que o Estado me propicia em serviços públicos dignos desse nome. E muito menos quero voltar a ver-me espoliado dos milhares de euros que, entre 2011 e 2015, o governo das direitas me roubou como efeito dessa coligação nefasta que professores e partidos à esquerda do PS organizaram para o afastar do poder. Os professores que se cuidem, porque o seu prestígio social - que deveria ser uma das suas preocupações essenciais - vai decaindo mais e mais, à medida que se comportam egoisticamente sem olhar para os interesses de todos os demais cidadãos...

quinta-feira, 14 de junho de 2018

Do aniversário de Che Guevara à anunciada crise alemã


Acaso Ernesto Che Guevara tivesse escapado à funesta aventura boliviana, e a outras que lhe estimulariam o voluntarismo revolucionário, e comemoraria hoje noventa anos de vida.
Nem vale a pena pensarmos em quem se teria tornado até por termos padrão comparativo com Fidel, cuja velhice  não afetou a coerência com que manteve a firmeza ideológica, por muito que ela possa ser vista com distanciamento face a não ter cumprido grande parte das expetativas criadas aquando da vitória contra a ditadura de Fulgêncio Batista, por muito que tenha usado e abusado dos argumentos relativos aos efeitos do bloqueio norte-americano e das contínuas ações de sabotagem da CIA para justificar os muitos erros da Revolucion.
O próprio Che teve uma vida tão rica, quanto pejada de erros estratégicos. Adivinhamo-lo mais tentado a guiar-se pelas emoções do que pela racionalidade sugerida pela ideologia. Sobretudo porque, tendo ensaiado formas de vencer o imobilismo mental dos explorados a quem pretendera ajudar, quer no Congo, quer na América Latina, nunca encontrou forma de o quebrar e transformá-lo numa dinâmica militante. Se é certo que para a sua morte muito tenha contribuído o boicote sectário dos comunistas bolivianos, ele terá sentido uma enorme solidão nos dias derradeiros, aqueles em que, adoentado, só procurou salvar a sua vida e a dos companheiros. Em vão...
Mas, transformando-se num símbolo, viria a tornar-se historicamente muito mais importante do que se tivesse vencido. Porque significaria doravante o fascínio pela vontade permanente de tudo transformar, de exigir um mundo novo a sério como diria o nosso poeta Aleixo.
Mais realista, mas não menos determinado, parece estar Pedro Sánchez aqui mesmo ao lado. Não só conseguiu formar um governo credível e inovador na clara superioridade da presença feminina, como começa a vê-lo bem avaliado nas sondagens. A desta semana já dá o PSOE à frente de todos os demais partidos se acaso fossem agora organizadas eleições. Ainda que a soma dos votos das direitas (PP + Ciudadanos) ainda lhes permitisse ficar numa situação semelhante à atual de bloqueio sistemático à normalidade governativa. Mas, tal como se revelou hábil na forma como foi vencendo sucessivos desafios, mesmo dentro do seu próprio partido, esperemos que Sanchez se revele uma agradável surpresa. A Europa bem está a precisar de replicar à escala continental as mudanças em curso na Península Ibérica.
Claro que há Trump como fator desestabilizador de tudo quanto se passa à escala global. Mas por muito espavento que tenham as suas ações - e exemplo disso foi o da cimeira de Singapura - o seu saldo poderá ser irrelevante quando sair da Casa Branca. É que a sua futilidade tende a converter em efémero aquilo que gostaria transformar numa permanente contrarrevolução cultural.  Sobretudo, porque contra ela se agitam tantos setores etários, sociais e culturais. Já o que se passa em Itália poderá ter outra durabilidade, porque é mais sólida a substância ideológica dos seus promotores. Embora possamos duvidar da comodidade de muitos quantos se deixaram embalar pelo anarquismo serôdio do palhaço Grillo perante a abjeção da decisão relativa aos refugiados e emigrantes do «Aquarius». Façamos votos para que a esquerda italiana se livre de quem tanto mal lhe tem feito a começar por esse Matteo Renzi por cuja incompetência tantos eleitores italianos se dissociaram de quem melhor os poderia defender.
A curiosidade será acompanhar a evolução da política alemã nos próximos meses, sobretudo se a guerra comercial com a administração norte-americana condicionar seriamente a exportação dos seus automóveis. É que a situação periclitante do seu Deutsche Bank é só o prenuncio de uma crise anunciada, complementada por outra de carácter ambiental, que tem sido escamoteada, mas dificilmente poderá continuar a ser ignorada, tão nefastos têm sido os efeitos da contaminação de solos e recursos aquíferos pelas monoculturas agrícolas e pelas práticas pecuárias.  Depois de ter beneficiado significativamente com a crise dos refugiados, a extrema-direita alemã poderá cavalgar tal situação, mas também será possível o contrário se as esquerdas - a social-democrata, a do Die Linke e os ecologistas - souberem agir com outra argúcia, que até agora lhes tem faltado.

quarta-feira, 13 de junho de 2018

O novo idiota útil que as direitas prometem mimar


A grande vantagem de ter já vivido muitas vidas é que nelas couberam a passagem pela extrema-esquerda logo nos tempos subsequentes ao 25 de abril  e ainda cabe a militância sindical.  Tanto bastou para conhecer muitos lutadores empenhados em conseguirem mudar a sociedade no melhor sentido - o da maior justiça e igualdade entre quem nela vive! - mas também uns quantos oportunistas ali pousados apenas para dar satisfação aos seus inchados egos ou encontrarem forma de ascensão social.
O exemplo mais paradigmático do oportunista, que passou pela primeira daquelas experiências e depois se tornou no que foi e é hoje, chama-se Durão Barroso. Ele é o exemplo do medíocre arrivista capaz de tudo e o seu contrário para alcançar os seus fins, projetando-se muito para além do que justificariam os seus limitados dotes.
Que deixou escola não se duvide. Um outro exemplo bastante elucidativo tem sido o da progressiva deriva de Joana Amaral Dias para a direita, depois de ter sido uma das caras mais conhecidas do Bloco de Esquerda, quando este apareceu. Incapaz de se afirmar nesse partido, dele saiu aproximando-se dos socialistas, onde não encontrou abrigo suficientemente atrativo para as suas ambições. Nas eleições mais recentes vemo-la a concorrer em listas híbridas de coisas dificilmente enquadráveis num posicionamento político claro (o «Nós Cidadãos»). Mais tarde ou mais cedo não nos admiraria que surgisse a abrilhantar alguma coligação de direita de braço dado com a Cristas.
Na mesma linha está André Pestana, uma nova «estrela» do sindicalismo dos professores e a quem as televisões e os jornais têm levado ao colo desde que fundou o 23º sindicato da classe. Incapaz de conquistar um lugar ao sol num dos outros sindicatos existentes ele optou por essa opção divisionista na linha com o que já havia feito por onde passara: no mesmo Bloco da Joana, como ninguém o levou a sério saiu com Gil Garcia na expetativa de ver o MAS ganhar uma relevância, que nunca conheceu. Os eleitores têm olhado para esse arroto esquerdista com o desprezo, que merecem os seus defensores. Razão para o descoroçoado André tentar uma jogada oportunista com maior potencial: ultrapassando todos os demais sindicatos pela esquerda promete não mostrar qualquer transigência na negociação com o governo exigindo para já a contagem do tempo congelado durante a troika. É claro que encontrou uns quantos estarolas dispostos a agarrarem essa reivindicação com a ansia de rapidamente verem aumentados os seus rendimentos haja ou não dinheiro para tal, e independentemente das consequências que essa possibilidade acarretaria, mormente o regresso das direitas ao poder.
O enlevo com que as televisões e os jornais tratam o oportunista tem essa lógica: para as direitas o conflito entre professores e o governo traduz-se no quanto pior melhor. Se já no tempo de Sócrates foi assim que se abriram as avenidas largas para recuperarem o poder, porque não há-de a História repetir-se uma vez mais?
O novo sindicato apostou fortemente na inviabilização da avaliação dos estudantes antes dos exames explorando a regra de ela não acontecer mediante a falta de um dos professores em cada uma dessas reuniões. Um número mínimo de grevistas poderia assim bloquear todo esse processo e adiar os exames em todo o território nacional. Não contava com a resposta do governo, que encontrou inteligente forma de lhe frustrar os intentos. Claro que o Pestana veio mostrar a sua irritação para o espaço mediático prometendo ripostar. É de temer que, já não bastando o Nogueira para, de vez em quando, servir de idiota útil às direitas, estas encontrem nesta nova «estrela» vinda do tonto esquerdismo, o seu joker de estimação.

Quando queremos Justiça só é fiável a que vem de fora!


Fiquei naturalmente satisfeito com a vitória obtida por Paulo Pedroso no Tribunal Internacional dos Direitos do Homem, com a condenação, sem apelo nem agravo, da magistratura nacional, declarada incompetente (no mínimo, porque podemos intuir acusação implícita bem mais grave!) não só por ter dado cobertura a um notório fascista convencido de alcançar a glória com a injustificada prisão de um dos mais promissores políticos da sua geração, mas também pelas instâncias superiores, que terão recusado o merecido ressarcimento da vítima de tão grosseira violação das mais elementares regras da Justiça.
Rui Teixeira, o ignominioso juiz, que obteve na época o tal quarto de hora de (má) fama de que costumava falar Andy Warhol, voltaria depois a estar nas notícias pelos piores motivos, ao querer impor aos funcionários judiciais sob a sua alçada, e aos advogados dos processos que lhe eram distribuídos, o antigo Acordo Ortográfico, comportando-se na linha dos mais acintosos tiranetes que o defendem. Mas não esqueçamos, também, Souto Moura, esse antecessor à (baixa) altura de Joana Marques Vidal, ambos unidos no esforço de imporem a agenda política das direitas através da judicialização da investigação judicial e criminal, empolando casos ou inventando-os sempre que decidiam incidir as suas atenções sobre políticos socialistas.
Mantém-se uma fachada de normalidade numa realidade, que está longe de o ser: apesar da tentativa de, com Pinto Monteiro, ser restabelecido algum controle sobre os procuradores do ministério público, há muito que neles existe um permanente clima conspirativo destinado a afastar o PS da governação, de modo a dar espaço amplo de atuação aos dois partidos das direitas.
Rui Teixeira tentou o mesmo que Sergio Moro no Brasil mas, porque inábil e com menos meios à sua disposição, não conseguiu ir além dessa desprezível bravata contra Paulo Pedroso. Mas onde ele claudicou, logo a equipa de Rosário Teixeira em cumplicidade com Carlos Alexandre, lhe empunharam o testemunho e avançaram para a Operação Marquês, depois de terem deixado passar sem ondas todo o nebuloso processo de compra dos submarinos ou manifestando um tal laxismo sobre a corja cavaquista do BPN, que se saldará por elucidativa isenção de quaisquer custos em indemnizações ou anos de prisão para os seus responsáveis.
Acresce, porém, outro motivo para nos indignarmos: em vez de serem os contribuintes portugueses a pagarem as dezenas de milhares de euros, que agora cabem a Paulo Pedroso, porque não hão-de Rui Teixeira e Souto Moura a ressarci-lo? Porque devem os meus impostos servir para colmatar as criminosas decisões de ambos?
Perspetivando-se futuramente uma decisão semelhante a respeito da Operação Marquês seria bom que o governo legislasse no sentido de transferir as suas futuras responsabilidades indemnizatórias impostas pelos Tribunais Internacionais aos juízes e procuradores, que agem como autocratas e negam aos que acusam os direitos mais elementares da presunção da inocência e do bom nome. Talvez assim se possa evitar esse ameaçador projeto, anunciado por um azougado vilão, que prometia conseguir para os juízes do século XXI a tomada do poder em detrimento dos que só o voto nas urnas legitima.

segunda-feira, 11 de junho de 2018

Contra as volúpias atarantadas urge impor um mínimo de sensatez


As volúpias com que Marcelo anda a adornar os seus discursos vêm confirmar a intenção de nada dizer de substantivo embora queira parece-lo fazer por subentendidos. É que emitindo polissemias ele pretenderá evitar confrontos diretos com quem mais desejaria - António Costa - ciente deste lhe ser capaz de responder com o instinto assassino, que têm valido aos deputados do PSD e do CDS alguns enxovalhos difíceis de digerir. Quem esquece a humilhação sofrida por Fernando Negrão na semana passada quando perorou sobre os maus resultados nas avaliações dos estudantes portugueses, que refletiriam as más políticas do Ministério da Educação deste governo, e se viu encostado à parede com a revelação delas corresponderem aos testes de 2016, ainda fruto dos efeitos do vendaval Nuno Crato pelo setor.
Há quem ganhe significativamente com os floreados discursivos de Marcelo: os «comentadeiros«, dos jornais e das televisões logo prontos a consultarem os respetivos oráculos para que lhes decifrem a mirabolante retórica presidencial para dela darem fundamento acrescido aos seus preconceituosos argumentos anti governo.
Mas volúpia, ainda que atarantada, parece também possuir o presidente do Sporting, que vai vendo os ativos de que dispunha a romperem o vínculo contratual com o clube. Se o que ali se passa me tem deixado indiferente, por não ser aquele com que simpatizo, não deixo de olhar objetivamente para o caso nas suas duas vertentes básicas: todo o comportamento de Bruno de Carvalho é um bom exemplo de como se processa a ascensão, o auge e a abrupta queda de um ditador. Por outro lado a manifesta falta de consciência do próprio, que não vê estar num Titanic atingido por um icebergue, já com a água a irromper por todos os compartimentos inferiores, e disposto a obrigar os instrumentistas da sua orquestra a manterem a atuação até ao derradeiro momento, aquele em que com ele se afundarão nas profundezas do olvido. Porque, trinta anos depois de ter conhecido um percurso excêntrico algo semelhante com o atual, quem ainda recorda no Sporting o presidente conhecido pelos seus vistosos bigodes? Tratando-se de um epifenómeno conjuntural, o protagonista de tantas notícias de abertura de recentes telejornais, depressa voltará ao anonimato donde nunca teria merecido emergir. A não ser que a sua nefasta ação se prolongue o suficiente para destruir de vez o clube de Alvalade.
Mas num presente em que vemos a realidade assombrada por Trumps e gente que recusa abrigo a quem, de barco, requer atracação aos seus portos, convenhamos que a loucura parece andar à solta, necessitando-se da urgente imposição de um mínimo de sensatez.

domingo, 10 de junho de 2018

As inquietações de um apoiante desta maioria parlamentar


Não andam fáceis os dias para os que, a meu exemplo, acreditaram nas potencialidades da atual maioria parlamentar e anseiam vê-la replicada por muitos e longos anos de forma a evitar que as direitas austeritárias possam retomar o leme dos nossos destinos.
Seja nos jornais ou nas televisões, seja dentro do próprio Partido, parecem levantar-se forças dispostas a travar os perigos que a afirmação política dos «jovens turcos» poderá representar para os novos candidatos a serem os «donos disto tudo». A luta ideológica entre quem vê o futuro como espaço de afirmação dos valores socialistas e os defensores das falaciosas propostas da «Terceira Via», definirá muito do que será o futuro dos portugueses no seu todo. Ganhando os primeiros, criam-se condições para que as desigualdades diminuam e a precariedade seja eficientemente combatida. Ganhando os segundos eis-nos condenados ao percurso das pedras, que já conhecemos entre 2011 e 2015. Tanto mais que as condições externas andam a agravar-se a olhos vistos aumentando os juros com que o país se possa financiar nos mercados e ficando em perigo as exportações no contexto da guerra comercial entre Trump e o resto do mundo.
Ao contrário do que sugerem Louçã ou Jerónimo de Sousa não será a vontade de se libertar dos parceiros à esquerda, que motiva a António Costa quando se escusa a dar satisfação às reivindicações dos sindicatos dos professores. Acredito que ele veja como inevitável a sensata prudência perante um futuro próximo toldado de nuvens tormentosas.
Perder o equilíbrio nas contas públicas para dar satisfação aos interesses corporativos de uma classe profissional equivaleria a pôr um laço ao pescoço só esperando pelo momento em que as circunstâncias o viessem a apertar. E o próprio primeiro-ministro terá mais do que consciência do fundamento da tese há dias apresentado por Daniel Oliveira numa das suas crónicas do «Expresso»: enquanto o Bloco e o PCP podem fazer acordos com os socialistas para que estes governem, conquanto satisfaçam alguns requisitos de favorecimento das classes trabalhadoras, e sem nunca aspirarem a substitui-los no poder, o mesmo não se passa com o PSD, que facilitará algumas convergências como estratégia para ganhar tempo até os poderem derrubar. Daí que faça mais sentido a expressão de António Costa sobre evitarem-se mexedelas em equipa que ganha do que a lógica de um Francisco Assis, que causaria um suicídio político muito semelhante ao verificado noutros partidos socialistas ou sociais-democratas do espaço europeu.
A outra face do problema é o infantilismo esquerdista do Bloco ou a ilusória sensação comunista de conseguirem motivar as ruas em seu apoio. A manifestação deste sábado em Lisboa deverá ter causado séria apreensão em Arménio Carlos e nos que dela esperavam ter alavanca para forçar o governo a render-se às absurdas reivindicações dos últimos tempos. Porque, tendo sido um flop mal disfarçado, obrigará os  organizadores a equacionarem a oportunidade de repetirem iniciativas, que acabem por demonstrar o alheamento dos seus supostos apoiantes ao proporem a agudização do relacionamento com o governo.
Somos muitos os que pedem inteligência emocional a socialistas, comunistas e bloquistas, arrefecendo os ânimos mais exaltados e exigindo negociações de parte-a-parte que todos beneficiem, sobretudo os eleitores que neles se reconheçam e todos os outros que, ainda atraídos por discursos enganadores, resistam a render-se-lhes às virtualidades. O que equivalerá a, de um lado, ser realista nas reivindicações e, no outro, menos subserviente aos bancos do que se tem sido. Porque foi assustador ouvir um secretário de Estado pregar sobre a importância dos bancos invocando os impostos, que entregam ao Estado, afinal maioritariamente constituídos pelo IRS dos seus funcionários, ou a passividade com que se vê o Novo Banco transferir para a Lone Star a propriedade de milhares de imóveis muito mais valiosos do que a ninharia negociada por Sérgio Monteiro.
Se não se pode dar tudo às classes profissionais com maior poder reivindicativo, também não se se aceita que se olhe para o lado quando o fundo abutre apadrinhado pelo Banco de Portugal confirma os piores receios relativamente à última das operações financeiras, que caracterizaram a desgovernação de Passos Coelho como um autêntico «bodo aos muito ricos».
Cinco breves notas finais:
 - curioso o apagamento da notícia do roubo da medalha no Museu da Presidência da República, que mereceu da comunicação social muito menos relevância do que o das armas em Tancos. Se em relação a este último a imprensa pedia ostensivamente a cabeça do ministro da Defesa por não passar os tempos livres a fazer turnos ininterruptos de guarda ao paiol em causa, parece que nenhuma responsabilidade se imputa a um Marcelo, que vive ali paredes meias com o espólio roubado.
 - o aeroporto de Lisboa está a rebentar pelas costuras causando sérios danos de imagem junto dos turistas, que nos visitam e sofrem com os incómodos ali impostos. E, no entanto, andam caladinhos como ratos os que, no tempo do governo de Sócrates, diabolizavam a simples ideia de se construir um novo aeroporto. Não mereceriam que se lhes enviasse a fatura por todos os danos que andam a causar com tão criminosa campanha antinacional?
 - detesto a caridadezinha propiciada por Misericórdias e instituições afins, que servem de tropa fandanga a interesses eclesiásticos ou caciquistas. Mas a antipatia ainda mais se consolida, quando ficamos a saber que elas preparam-se para promover ativamente essa coisa execrável, que é a tourada!