Wagner
Moura esteve em Lisboa com a peça "Um Julgamento", no CCB, e vi-o
antes em "O Agente Secreto", de Kleber Mendonça Filho, onde compõe um
homem acossado pela ditadura cujas preocupações eram sobretudo pessoais, nunca
coletivas.
O ator,
porém, não se confunde com o personagem: assume-se de esquerda, considera Lula
o maior brasileiro do seu tempo e vê como tragédia a hipótese de os Bolsonaro
regressarem ao poder em outubro. Até aqui, nenhuma surpresa desagradável.
O que me
chamou a atenção foi outra coisa. Moura declarou interessar-se por uma pergunta
que atribui à "direita civilizada": vocês de esquerda querem
segurança social para todos, hospitais, cultura, acesso a tudo — mas quem paga?
Acha a pergunta ótima e lamenta que o bolsonarismo, tornando a direita
brasileira "intelectualmente desonesta", tenha inviabilizado esse
debate.
Concedo-lhe
a boa-fé. A pergunta é, de facto, legítima. O problema é que tem resposta — e a
resposta é tão simples que raramente convém a quem faz a pergunta ouvi-la.
Quem
paga? Pagam os mais ricos. Pagam os que hoje não pagam o que deveriam,
protegidos por sistemas fiscais desenhados para os poupar. Pagam as grandes
fortunas que se movem entre jurisdições para não contribuir, os lucros que
escapam à tributação, o património que cresce sem esforço e é taxado menos do
que o salário de quem trabalha. A riqueza existe, é abundante e está
concentrada como nunca esteve na história. O que falta não é dinheiro — é
vontade política de o ir buscar onde ele está.
A
pergunta "quem paga?", quando formulada pela direita, não é um pedido
honesto de informação. É um artifício retórico que pressupõe a resposta que lhe
convém: ninguém pode pagar, logo não se faça. Serve para transformar a justiça
social numa fantasia contabilística e para naturalizar a ideia de que os
serviços públicos são um luxo insustentável, quando são, na verdade, uma
escolha de prioridades. A mesma direita que pergunta quem paga a saúde nunca
pergunta quem paga os benefícios fiscais aos grandes grupos, as parcerias
público-privadas ruinosas, os resgates bancários.
Moura tem
razão em querer o debate. Só lhe falta notar que o debate já foi feito e ganho,
vezes sem conta, sempre que alguém teve a coragem de responder à pergunta em
vez de a contemplar. Os mais ricos pagam. Falta apenas obrigá-los — e é
justamente para impedir essa obrigação que a pergunta é feita com ar de quem
não tem resposta.



















