O Público
cita um dado que vale toda uma análise geopolítica: sessenta por cento dos
norte-americanos têm agora opinião desfavorável de Israel e apenas trinta e
sete por cento a mantêm positiva. Em 2022 era ao contrário — cinquenta e cinco
por cento de opinião favorável, quarenta e dois de negativa. Uma inversão de
quase vinte pontos em quatro anos, medida pelo Pew Research Center. A
percentagem dos que veem Israel de forma "muito desfavorável"
triplicou no mesmo período.
O número
não caiu do céu. Traduz dois processos que convém ler em conjunto.
O
primeiro é interno e atinge o próprio eleitorado de Trump. O homem que prometeu
tirar a América das guerras alheias meteu-a numa nova — a campanha militar
contra o Irão, lançada em fevereiro ao lado de Israel. Boa parte do eleitorado
MAGA votou nele precisamente para o contrário: para não ver os Estados Unidos a
enterrar-se noutro pântano do Médio Oriente. O banho de realidade foi duplo.
Viram a qualidade de vida piorar, os preços dos combustíveis dispararem — a
principal preocupação dos americanos durante a guerra, segundo o mesmo Pew —, e
viram-se traídos na única promessa que lhes importava: a de ficar em casa. Os
corpos de soldados que regressam agora discretamente, sem honras nem câmaras,
vão dando o sinal fúnebre dessa traição. Nada corrói mais depressa a fé de um
eleitorado nacionalista do que caixões que ninguém quer mostrar.
O segundo
processo é global e mais profundo. O isolamento de Israel deixou de ser causa
de minorias militantes para se tornar sentimento maioritário. Não apenas nos
Estados Unidos: numa sondagem do Pew em trinta e seis países, a opinião
desfavorável atinge uma mediana de sessenta e sete por cento. A tese do
genocídio em Gaza, que há dois anos era denunciada como exagero de ativistas,
consolida-se hoje no discurso de organizações internacionais, de tribunais, de
governos. A causa palestiniana ganha apoiantes onde antes só encontrava
indiferença. Entre os democratas americanos, oitenta por cento veem Israel
desfavoravelmente. Entre os jovens de ambos os partidos, a maioria condena
Netanyahu.
É uma
mudança de época. Durante décadas, criticar Israel nos Estados Unidos era
suicídio político e o lobby pró-israelita ditava os limites do dizível. Esses
limites ruíram. A juventude não os reconhece, e a juventude é o futuro do
eleitorado.
Israel,
por seu lado, parece não se importar — os seus dirigentes repetem que os de
fora não podem compreender. É a arrogância do costume, a mesma que confunde
impunidade com força. Mas a história mostra que o pária que despreza a opinião
do mundo apenas adia o momento em que a conta chega. E chega sempre.
O banho
de realidade tem esta virtude: é frio, é desconfortável, mas acorda. Uma parte
da América começa a acordar. O mundo, esse, já está de olhos bem abertos — e o
que vê em Gaza não o deixará voltar a adormecer tão cedo.



















