Na apresentação pública da tradução do mais recente volume da sua monumental versão da Bíblia, o professor Frederico Lourenço abordou um tema pertinente: a adulteração sistemática dos textos originais por uma Igreja Católica apostada em impor a sua agenda ao longo da História da sua implantação.
O
caso da destruição de Sodoma é paradigmático dessa manipulação. Durante
séculos, a Igreja quis fazer crer que a cidade foi destruída por Deus devido às
práticas sexuais dos seus habitantes — especificamente, a sodomia, termo que
nem por acaso deriva do nome da cidade. A razão desta insistência era
transparentemente instrumental: diabolizar práticas sexuais que limitavam o
crescimento demográfico das hostes católicas. Mais fiéis, mais poder. Mais
filhos, mais soldados de Cristo. A condenação moral da homossexualidade servia
objetivos muito terrenos de expansão institucional.
Mas
o texto rigorosamente vertido por Frederico Lourenço a partir do grego original
conta história completamente diferente. Fala de anjos que chegaram a Sodoma
para testarem o comportamento dos seus habitantes perante os estrangeiros, os
diferentes, os que vinham de fora. E depararam com o ostracismo xenófobo de
quem não tolerava essa presença, de quem via nos estrangeiros uma ameaça, de
quem queria expulsá-los ou violentá-los pela simples razão de serem outros.
A
condenação dos sodomitas resultava, afinal, não dos hábitos eventualmente
praticados no recato da alcova — isso não interessava a Deus nem aos anjos —
mas dessa atitude hostil para com quem vinha de fora ou vivia à margem dos seus
usos e costumes. Sodoma foi destruída por xenofobia, não por homossexualidade.
Foi punida pela recusa da hospitalidade, pelo ódio ao estrangeiro, pela
violência contra os diferentes.
A
Igreja adulterou esta mensagem durante séculos porque lhe convinha. Condenar a
homossexualidade servia os seus interesses demográficos e de controlo social.
Condenar a xenofobia — bem, isso seria inconveniente para uma instituição que
tantas vezes praticou e legitimou a exclusão, a perseguição, a violência contra
os que não se conformavam à sua norma.
Esta
revelação de Frederico Lourenço — sustentada por rigor filológico impecável,
não por agenda ideológica — tem consequências que vão muito para além da
exegese bíblica. Tem consequências políticas imediatas e diretas.
Porque
se a condenação de Sodoma foi motivada pela xenofobia e não pela
homossexualidade, se o pecado dos sodomitas foi a hostilidade aos estrangeiros
e não as suas práticas sexuais privadas, então temos de concluir o óbvio: na
atual política lusa, André Ventura é biblicamente um ostensivo sodomita.
Ventura
construiu toda a sua carreira política sobre a hostilidade aos estrangeiros. Os
imigrantes são, no seu discurso, a fonte de todos os males: criminosos,
parasitas, ameaça civilizacional. Quem vem de fora não merece hospitalidade —
merece deportação, prisão, expulsão. Os ciganos, que vivem à margem dos
costumes dominantes, não merecem integração — merecem ostracismo, perseguição,
eliminação da vida pública.
É
exactamente o comportamento que levou à destruição de Sodoma. É precisamente a
atitude que os anjos vieram testar e que encontraram de forma tão flagrante que
justificou o castigo divino. Ventura, pelos critérios bíblicos autênticos — não
pelos adulterados pela Igreja ao longo dos séculos — é sodomita exemplar.
Pratica o pecado de Sodoma na sua forma mais pura e mais condenável.
A
ironia é deliciosa. Ventura, que tanto gosta de invocar a tradição cristã, que
tanto apela aos "valores cristãos", que se apresenta como defensor da
civilização judaico-cristã contra a "invasão" de estrangeiros, é
afinal o protagonista perfeito do pecado que levou à destruição de Sodoma. Se
os anjos viessem hoje testar Portugal, encontrariam em Ventura e nos seus
seguidores exatamente aquilo que encontraram nos habitantes de Sodoma: ódio ao
estrangeiro, recusa da hospitalidade, violência contra os diferentes.
E
não é apenas Ventura. É toda a constelação política que se alimenta da
xenofobia: os que querem fechar fronteiras, os que criminalizam a imigração, os
que transformam o estrangeiro em bode expiatório, os que praticam a política do
medo e do ódio ao outro. Todos eles, pelos critérios bíblicos autênticos, são
sodomitas. Todos praticam o pecado que a Igreja passou séculos a esconder atrás
de uma cortina de fumo sobre práticas sexuais.
Frederico
Lourenço, ao restituir o texto bíblico à sua verdade original, fez mais do que
trabalho filológico de excelência. Forneceu uma arma argumentativa poderosa
contra aqueles que invocam a Bíblia para justificar precisamente aquilo que a
Bíblia condena. Demonstrou que a mensagem autêntica das Escrituras não é a que
a Igreja vendeu durante séculos, mas outra radicalmente diferente e
politicamente inconveniente para os que se dizem seus defensores.
A
Bíblia, afinal, não condena quem ama diferentemente. Condena quem odeia os
diferentes. Não castiga práticas sexuais privadas. Castiga a violência pública
contra estrangeiros. Não pune Sodoma pela homossexualidade, mas pela xenofobia.
E se
aplicarmos este critério bíblico autêntico à política portuguesa contemporânea,
a conclusão é inescapável: Ventura e os seus são os verdadeiros sodomitas. Não
no sentido que a Igreja adulterou e impôs durante séculos, mas no sentido que o
texto original sempre teve e que Frederico Lourenço finalmente restituiu.
Pode
ser que os anjos não venham. Pode ser que não haja fogo celeste a destruir os
xenófobos contemporâneos. Mas pelo menos agora sabemos, graças ao rigor
filológico de um helenista português, que quando Ventura invoca os valores
cristãos para justificar o seu ódio aos imigrantes, está a invocar precisamente
aquilo que a Bíblia condena.
Sodoma
foi destruída por gente como Ventura. E essa, convenhamos, é uma ironia que
nenhuma adulteração eclesiástica conseguirá apagar.







