(Quinto
de uma série de retratos à maneira de Woody Allen, em que a realidade colabora
de bom grado com a caricatura.)
Rui
Tavares fez-se político da forma mais elegante que há: à boleia. Em 2009, o
Bloco de Esquerda ofereceu-lhe um lugar de eurodeputado, na simpática qualidade
de independente — essa figura curiosa que aceita o carro, o motorista e o
destino, mas insiste que não pertence à viagem. Rui foi a Bruxelas pela mão de
Francisco Louçã e, mal chegou, começou a jantar com ele "para lhe dizer
umas verdades". É um traço de carácter: Rui gosta de dizer verdades a quem
lhe paga o bilhete.
Dois anos
depois, incompatibilizou-se com a casa que o elegera — as boleias, sabe-se,
geram sempre discussões sobre quem escolhe a estação de rádio — e saiu para
fundar coisa sua. Nasceu assim o Livre, partido cujo nome descreve, acima de
tudo, a relação de Rui com qualquer estrutura que não tenha criado ele próprio.
O Livre
foi concebido, no papel, como o mais horizontal dos partidos. Direção coletiva,
primárias para tudo, líder nenhum, decisões partilhadas, poder difuso como
perfume numa sala. Na prática, foi durante uma década aquilo a que os jornais,
com crueldade botânica, chamaram "o partido de um homem só". A
horizontalidade tinha uma particularidade geométrica: por mais que se
estendesse em todas as direções, o centro levava sempre a Rui. Podia haver mil
pontos na circunferência, mas o compasso era um.
Isto
colocava a Rui um problema filosófico delicado. Como liderar um partido que,
por princípio ideológico, não deve ter líder? A solução foi de uma subtileza
admirável: não ser líder, ser fundador. O líder pode ser deposto, substituído,
votado contra. O fundador é eterno, como as nascentes e os pecados originais.
Rui compreendeu cedo que quem funda nunca tem de ser reeleito — está lá desde a
origem, como a gravidade.
E porque
nenhuma horizontalidade sobrevive à presença de um segundo homem alto, Rui
geriu o pomar com mão de jardineiro cuidadoso: onde despontava uma árvore capaz
de lhe fazer sombra, havia sempre uma primária, uma reorganização, uma nova
porta-voz bicéfala que dividia por dois qualquer estatura emergente. O Livre
teve muitos rostos ao lado de Rui. Nenhum ao mesmo nível. Era a democracia
interna levada à perfeição: todos podiam subir, desde que não chegassem acima
do fundador.
Em 2026,
num gesto que os incautos tomaram por retirada, Rui deixou finalmente a
liderança. O Livre passou a ser dirigido por outros, e os jornais escreveram
que o homem só, enfim, se multiplicara. Mas Rui não saiu — recuou. Permaneceu
na direção, na sombra fresca de onde as eminências pardas melhor operam, aquele
lugar discreto de onde se continua a decidir sem o incómodo de ter de responder
por isso. Deixou o palco e ficou com o teatro. É o sonho de todo o fundador:
tornar-se invisível sem deixar de ser indispensável.
Dizem
que, nas assembleias do partido, quando alguém pergunta quem decide, se instala
um silêncio breve e todos os olhos deslizam, sem querer, para a cadeira recuada
onde Rui sorri, ecológico e livre, tocando distraidamente o trombone que consta
entre os seus interesses declarados. Porque um homem que fundou um partido para
não ter chefe descobriu, ao fim de doze anos, a única forma de nunca ter
nenhum: ser, para sempre e por baixo do pano, o chefe que oficialmente não
existe.



















