(Décimo
segundo de uma série de retratos à maneira de Woody Allen, em que se revela o
paradoxo de quem combate o algoritmo que substitui a razão pelo primado da atenção).
Partidos nasceram
a ensinar o país a dizer sim a coisas que ainda não tinha coragem de nomear: o
casamento entre iguais, a despenalização das drogas, o direito a morrer com
dignidade. O Bloco de Esquerda foi, durante duas décadas, a escola vanguardista
de uma geração inteira — e José Manuel Pureza herdou-a precisamente quando a
sala ficou vazia.
Catedrático
de Relações Internacionais em Coimbra, católico praticante num partido de ateus
convictos, com a reserva de quem prefere o seminário à claque, Pureza chega à
coordenação depois de Mariana Mortágua — que partira num barco rumo a Gaza
quando ainda meio país tapava o sol com a peneira, fingindo não ver o que os
exércitos israelitas faziam à vista de todos, e foi detida em alto mar por
dizer, com o corpo, o que a diplomacia oficial recusava dizer com palavras. Foi
o gesto mais nítido do Bloco em anos: coragem sem desconto, no momento exato em
que ela custava caro.
E, no
entanto, nada disto trouxe de volta os jovens. É este o paradoxo que Pureza
herda como quem recebe uma cátedra vazia: o partido que ensinou uma geração a
dizer sim às causas fraturantes perdeu a geração seguinte para o algoritmo, que
ensina outra fratura — a da masculinidade agredida, a do inimigo com nome de
vizinho ou de estrangeiro, a da raiva embrulhada em vídeos de quinze segundos.
Contra isto, Pureza oferece seminários, seriedade, seis parágrafos onde
bastaria um meme.
É
catedrático a vida toda, e é como catedrático que combate: com bibliografia,
com nuance, com o hábito antigo de responder a uma frase com um argumento em
vez de um insulto. A geração que devia convencer já não lê parágrafos — desliza
ecrãs, e, cada vez mais depressa, para a direita, atraída por vozes que
prometem certezas rápidas onde ele oferece apenas dúvidas bem fundamentadas.
Há
qualquer coisa de paradoxal nesta desadequação: o homem que passou a vida a
explicar o mundo às claras luzes da razão descobre, tarde, que ela deixou de
ser o produto mais vendido no mercado da atenção. Explica bem, e ninguém, exatamente
por isso, o segue até ao fim do vídeo.
Fica o
retrato de um professor sem turma, à frente de um partido que teve razão sobre
Gaza antes de a ter o resto do país, e que continua sem saber recuperar quem já
não frequenta escola nenhuma — nem a dele, nem, receia-se, nenhuma outra que
não caiba num ecrã de telemóvel.



















