Em junho
de 2016, um autocarro vermelho percorreu a Inglaterra com uma promessa pintada
na lateral: sair da União Europeia libertaria 350 milhões de libras por semana
para o Serviço Nacional de Saúde. Era falso, e Nigel Farage admitiu que era
falso na manhã seguinte ao referendo, quando o estrago já estava feito e o
Brexit ganho. A mentira cumprira a sua função. Não precisava de ser verdadeira
— precisava apenas de chegar primeiro.
É este o
mecanismo. O populismo não oferece soluções, oferece culpados, e o culpado tem
sempre a mesma vantagem sobre a solução: é mais simples, mais rápido e mais
reconfortante. A solução exige compreender cadeias causais complexas — porque
fechou a fábrica, porque subiu a renda, porque falta médico de família. O
culpado dispensa tudo isso.
A fábrica
fechou por causa do imigrante. A renda subiu por causa do estrangeiro. O médico
falta porque o atendem a eles primeiro. Mentira, mentira, mentira — mas mentira
que cabe numa frase e não obriga ninguém a pensar contra os próprios
preconceitos.
Em
Portugal vimos o ensaio na Figueira da Foz, onde a extrema-direita
internacional reuniu para falar de "remigração" — a palavra asséptica
que embrulha a deportação em massa. O imigrante que constrói as casas, que
colhe a fruta, que cuida dos velhos nos lares, esse mesmo imigrante é
apresentado como a causa de todos os males de quem precisa dele para viver. E
quando os imigrantes começam de facto a partir, expulsos pelos preços e pela
hostilidade, os empresários que financiaram o discurso descobrem que não têm
quem lhes faça o trabalho. A mentira volta-se contra quem a contou — mas demora,
e entretanto rende votos.
O mais
notável é a resistência da mentira à evidência. Trump governa há anos e os seus
eleitores continuam mais pobres, com a indústria que não voltou, com os campos
sem braços depois das deportações, com uma guerra perdida no Estreito de Ormuz.
E ainda assim muitos persistem. Porque admitir o erro custa demasiado: implica
reconhecer que se foi enganado, que o desprezo dos doutores afinal tinha um
fundo de razão, e isso o orgulho não permite. Mais fácil é dobrar a aposta e
culpar, outra vez, quem sempre se culpou.
É aqui
que a mentira se torna prisão. Não a prisão de quem não sabe — a de quem sabe e
não pode dar o braço a torcer sem sentir-se humilhado. O populismo construiu
uma fortaleza emocional onde a realidade bate e não entra.
Como se
sai de uma fortaleza assim? Não pela porta da razão, que está trancada por
dentro. Por outra via, mais lenta e mais concreta, que a última crónica tentará
nomear.



















