domingo, 30 de setembro de 2018

Juízes, administradores, televisões e (como não podia deixar de ser) Marcelo!


1. Convenhamos que é grande a expetativa sobre as decisões a serem tomadas pelo juiz Ivo Rosa relativamente às peças entregues pelo Ministério Público para justificar as acusações aos arguidos da Operação Marquês. Mas se  alguns encaram a situação com a curiosidade académica de quem assiste de bancada a uma disputa com grandes motivos de interesse há quem ande particularmente nervoso por arriscar-se a ver esboroada a urdidura construída nos últimos anos com objetivos claramente políticos.

Imagine-se que, replicando o que já decidiu noutros casos, o juiz manda arquivar o caso por terem existido tantas violações dos procuradores em relação aos direitos de quem caíra na sua teia de suspeição, que outra alternativa não lhe merece crédito? Será ruidoso o vendaval, que as direitas “comentadeiras” tratarão de criar para que, no mínimo, ilibados pela Justiça, os arguidos nunca mais se livrem do opróbrio coletivo...
2. Embora tenha o cargo seguro por frágeis cordéis, a presidente do Conselho de Administração de Serralves  conseguiu que alguns desses comentadeiros  direitistas - mormente Miguel Sousa Tavares - viessem em seu socorro dando-lhe razão no caso de censura às obras de Robert Mapplethorpe. Ao trânsfuga da SIC e a Pacheco Pereira gostaria que perguntassem o que acham de, nos últimos dois anos, seis diretores de topo da instituição terem-se demitido por discordâncias com Ana Pinho e nem sequer tenham sido substituídos.
O que se foi sabendo ao longo da semana é que a ainda presidenta de Serralves tem um feitiozinho de ditadora, que poucos se dispõem a suportar. E os resultados estão á vista: abordada na imprensa nacional e estrangeira, a Fundação de Serralves perde o prestígio de uma marca cultural, que já foi admirada no âmbito internacional, e anda agora a transformar-se num caso anedótico...
3. Está, igualmente, na ordem do dia a indignação pública com o comportamento dos juízes chamados a julgar casos de violação. Só entre 2010 e 2016, foram 176 os criminosos mandados em liberdade condicional, apesar de comprovados os seus atos bárbaros. Houve quem perguntasse aos dois juízes se tomariam a mesma decisão se a violada fosse seu próximo familiar. A resposta adivinha-se qual seria, se tivessem um mínimo de honestidade para a emitirem.
4. Na comunicação social há boas e más notícias: que a RTP tenha acabado com esse vómito em forma de programa, que Fátima Campos Ferreira apresentava com a sua indissociável histeria, só nos pode congratular por se tratar de elementar medida de higiene audiovisual. Mas que, em contraponto, Judite de Sousa regresse à RTP ou Manuela Moura Guedes assombre as noites das segundas-feiras  na SIC só nos pode indignar. Todas as três criaturas só mereciam juntar-se ao Mário Crespo na forçada reforma para que foi empurrado.
5. Para os meus camaradas socialistas, que se entusiasmaram apressadamente com a joelhada aplicada por Marcelo a Cavaco, sugiro que atentem no discurso de endeusamento do antecessor, que proferiu nas novas instalações da Universidade Nova.
Ciente de que não pode hostilizar as direitas, sua base política de apoio, Marcelo ora dá um sopapo, ora logo se arrepende. E, quando isso sucede até se disponibiliza a medalhar Passos Coelho como se ele tivesse produzido excelentes políticas para os portugueses. Se existiram compatriotas beneficiados pelas decisões do primeiro-ministro anterior, o prejuízo causado na sua grande maioria, só justificaria que Marcelo nem sequer ponderasse na hipótese quanto mais a transmitisse ao próprio. Que, em inesperado rasgo de lucidez, a recusou!

sábado, 29 de setembro de 2018

Uma América medonha


Há meio século, quando frequentava o secundário no barracão do que viria depois a chamar-se Liceu Nacional de Almada, tinha muitos colegas que sentiam particular adoração pela América. Lá ir equivalia à realização de um dos seus maiores sonhos e viver só não era formulado como possibilidade, porque pareceria tão inacessível quanto a Lua onde os primeiros astronautas não haviam ainda pousado.
O sonho americano nunca foi alternativa a considerar exceto numa altura em que a marinha mercante nacional dava já sinais da ruína em que cairia e uma hipótese para trabalhar nos atuneiros de San Diego foi considerada, e quase prontamente descartada. Que a terra do tio Sam estava longe de ser a das oportunidades já o constatara no contacto com os emigrantes de Newark, cujas vidas difíceis conhecera em 1976.
Essa miséria, sofrida por milhões de norte-americanos, viu-se espelhada no Relatório sobre a pobreza extrema e os direitos humanos no país de Trump, que Philip Alston produziu para a ONU no final do ano transato.
No seu demolidor retrato ele constata que:
- viu pessoas no limite da sobrevivência nos arredores de Los Angeles ou polícias em San Francisco a expulsarem sem abrigo dos locais onde pernoitam, escusando-se a arranjar-lhes alternativa;
- identificou pessoas pobres sujeitas a sucessivas multas por pequenos delitos, levando-as a um insuportável endividamento, que as atira para as prisões privadas para serem escravizadas para benefício dos cofres privados e municipais;
- encontrou pessoas a necessitarem de urgentes cuidados dentários para os quais não possuíam recursos, acabando por ficarem desdentadas;
- testemunhou pátios alagados por esgotos domésticos em Estados que se desresponsabilizam de quaisquer serviços sanitários;
- comprovou a existência de famílias e comunidades devastadas pela toxicodependência gerada pelo tráfico ilegal ou pelas receitas subscritas por médicos sem escrúpulos;
Olhando para os indicadores comparativos com outros países, mormente os da OCDE, Alston conclui que nos EUA:
- se gasta o dobro per capita com os cuidados de saúde, apesar de terem menos médicos e camas de hospital;
- a taxa de mortalidade infantil é a mais elevada e a esperança de vida a mais curta;
- se batem records na incidência da obesidade, mas fica em 36º lugar a nível mundial quanto à água e ao saneamento básico;´
- lidera ainda a taxa de encarceramento a nível mundial, a da pobreza nos jovens e a da desigualdade entre os mais ricos e os que nada têm (índice Gini).
Quando Trump exulta com uma América, que apresenta como um paraíso aonde todos os desvalidos querem aportar, bem pode limpar as mãos à parede: os Estados Unidos têm parecenças cada vez mais evidentes com os piores cenários do Terceiro Mundo.

sexta-feira, 28 de setembro de 2018

Sem desculpas para o respeito pelos animais


Nos últimos dias  sucederam-se notícias de crimes revoltantes contra animais: uma manada de elefantes foi exterminada no Botswana, um tigre desmaiou e sofreu convulsões num circo russo e um touro foi morto à punhalada em Reguengos de Monsaraz. Não esquecendo os cães e gatos diariamente abandonados por donos, que os condenam a inevitável e trágica morte ao negarem-lhes a proteção, mesmo que relativa, até então usufruída.
Eu sei que há muitos refugiados por cuja defesa não nos deveremos silenciar. E gente em todos os continentes, que vivem miseravelmente, muito aquém do que ditariam os requisitos mínimos de sobrevivência. Mas a proteção dos animais não pode ser descurada a pretexto de prioridades com os seres humanos, elas também de inequívoca urgência. Não pode, porém, haver complacência com os crimes cometidos para alimentarem tráficos hediondos e absurdos ou satisfazerem o sadismo dos que se divertem com o sofrimento dos bichos. 
Sou pois pelo fim das touradas e de todos os «entretenimentos» baseados no desconcerto ou sofrimento de bovinos, e da utilização de animais selvagens em pistas de circo. E quero ver o ativo cumprimento da legislação sobre os maus tratos aos animais, com as polícias a identificar e levar a tribunal os energúmenos, que deles são responsáveis.

27-09-2018 - Debate Parlamentar | Natalidade, Família e Demografia | Joã...

quinta-feira, 27 de setembro de 2018

E o António Costa sai invariavelmente vencedor!


A reação mais elucidativa ao Debate Quinzenal de ontem na Assembleia da República foi a da mais do que insuspeita diretora de informação da Rádio Renascença, Graça Franco, que na RTP disse mais ou menos isto: em condições normais um primeiro-ministro a contas com os casos com que o confrontaram (Infarmed, Tancos, taxistas, matrículas no ensino universitário, etc.) estaria em sérias dificuldades para responder às críticas da Oposição. Mas, com António Costa, o resultado é sempre o mesmo: ele sai vencedor de todos os debates parlamentares.
De facto, quem assistiu à pugna viu Negrão embatucar com a alusão a uma resposta por escrito sobre a sua ilegitimidade para o tipo de argumentário, que defendeu, e Assunção Cristas repetiu a já mais do que estafada ladainha a tentar um assassínio de carácter a António Costa que, resguardado com inovador colete de proteção, lhe ricocheteia as balas.
O que de substantivo saiu da sessão foi um conjunto de decisões aprovadas pelo Conselho de Ministros, que prosseguirão o trabalho de recuperação da herança ruinosa do desgoverno de Passos Coelho e uma tácita convergência dos socialistas com os demais partidos da maioria parlamentar, que estão prometidos - vide as palavras de António Costa para João Oliveira, do PCP - a prosseguirem a convergência para a próxima legislatura.

quarta-feira, 26 de setembro de 2018

Hoje haverá debate parlamentar!


Quando hoje chegar ao debate parlamentar António Costa pouca ansiedade sentirá pelas possíveis perguntas sobre a substituição de Joana Marques Vidal na Procuradoria-Geral da República. Derrotadas em toda a linha, as direitas só quererão esquecer a forma como tanto arriscaram, e tão expeditamente se viram reduzidas à merecida irrelevância. O seu desespero está bem patente nas respostas emotivas de Passos Coelho - a quem há que lhe exigem o esclarecimento sobre os alegados «motivos escondidos» de Marcelo para se ter rendido a Costa! - ou de Helena Matos, assumida nostálgica de uma intentona militar, que lhe desse um governo fascista à medida dos seus anseios. Enfim, desabafos no «Observador», publicação que a ninguém engana quanto ao que pretende alcançar.
Apesar de ruidosos no protesto também os taxistas pouco contarão. Embora com alguma razão nalgumas questões de fundo (a uberização das economias e dos mercados de trabalho) cometeram o erro estratégico de hostilizar o governo em geral e o primeiro-ministro em particular. No fundo nada aprenderam com o achincalhamento dos prosélitos de Joana Marques Vidal: frio na reação, António Costa não tardará a dar-lhes o devido troco. Até por serem óbvios os sinais de desgaste de uma luta inábil, que trará zero retorno aos que para ela foram atraídos.
O que causará real embaraço a António Costa é o diz e desdiz relativamente ao Infarmed. Confesso a curiosidade em relação à forma como descalçará tal bota. Tanto mais que a reação mais crítica terá sido a de Manuel Pizarro, que não poupou nas palavras para qualificar negativamente a forma como o governo do seu partido tratou tão desastradamente esse assunto.
Os dias têm-nos também trazido notícias contraditórias a nível internacional: a prisão do filho de José Eduardo dos Santos é elucidativa quanto à inevitável queda em desgraça de todos quantos julgam deter poderes absolutos. Na mesma linha a Igreja Católica alemã andou a investigar os seus podres e concluiu terem existido pelo menos 3677 menores abusados por clérigos seus entre 1946 e 2014, ascendendo a 1670 os criminosos envolvidos. Entre eles o próprio irmão de Bento XVI...
No Brasil outro poder abusador - o de muitos dos seus juízes! - estão em vias de conhecer amarga derrota: se impediram Lula de voltar a ser presidente, quem o substituiu na candidatura ao Palácio do Planalto - Fernando Haddad -  está a conhecer uma subida contínua nas sondagens. Haverá muita gente no Rio, em São Paulo e em Brasília a ficar intimidada com o seu desfasamento em relação à superior vontade dos eleitores.
Falando destes, mas em Itália, será que os votantes no Movimento do palhaço Grillo ainda se reconhecerão num partido, que se limita a ser bengala prestável aos ditames do fascista Salvini, agora ufano pela unanimidade do governo ao pacote de medidas contra os refugiados e os imigrantes? Ainda intocáveis os dois partidos, que partilham o poder em Roma, não imaginam quão rápida e abrupta será s sua queda...

segunda-feira, 24 de setembro de 2018

Perguntas de circunstância


Enquanto vou olhando para as notícias dos últimos dias surgem-me questões, que dificilmente verei respondidas:

1. Agora que o Porto ficou sem o Infarmed, como antes perdera a Agência Europeia do Medicamento, poderá sentir como tendo valido a pena toda a campanha feita pelas suas «forças vivas»? Será que, acaso o Governo tivesse mantido a candidatura inicial de Lisboa, a decisão de quem a transferiu de Londres para Amesterdão teria sido outra? Em suma, o que tem o país a ganhar ou a perder com os complexos de provincianismo de Rui Moreira e de outros críticos da macrocefalia de Lisboa?
2. Tendo em conta que se presume não ter sido apenas Ana Pinho a tomar a decisão de censurar a exposição de Robert Mapplethorpe, que responsabilidade atribuir aos demais administradores da Fundação Serralves? Isabel Pires de Lima já veio à ribalta para lamber as botas à sua Presidente! Mas a maior curiosidade residirá em Pacheco Pereira, habitualmente tão crítico relativamente ao diktat ilegítimo dos poderes absolutos. Ouvi-lo-emos sequer justificar-se por uma decisão, que também o enlameia?
3. Três dias passados sobre a indigitação de Lucília Gago como próxima Procuradora Geral da República, alguém ainda se lembra da atual titular? Depois de tanto alarido o silêncio pesa como enorme pedregulho sobre os supostos méritos de tão ínfima criatura!

A incompatibilidade de dois ministros com os valores fundamentais do Partido Socialista

Nos trinta e tal anos de militante socialista têm sido muitas as ocasiões em que o desconforto muito justificadamente se instalou. Basta olhar para o concelho onde moro, o Seixal, e ver mais do que justificada a decisão de em nada colaborar com a atual Concelhia, dominada por quem não desmerece qualquer afinidade, sobretudo não esquecendo a forma como os apoiantes de António Costa aqui foram tratados no período anterior à sua vitória nas Primárias contra António José Seguro, quando esses supostos «camaradas» utilizaram os mais insidiosos meios para fazerem prevalecer no cargo o anterior secretário-geral. Socialismo nada tem a ver com tais comportamentos e, por isso mesmo, nas mais recentes autárquicas militei ativamente no concelho de Almada para que a Inês Medeiros ganhasse a Cãmara, o José Ricardo a Costa de Caparica e a Sandra Chaíça a União das Freguesias de Caparica e da Trafaria.
Ansio, porém, pelo momento em que novamente possa dar o contributo militante na área de residência onde continuarei a habitar. Tendo em conta a pobreza franciscana da atividade local, não duvido que outra dinâmica se justifica.
Mas, a nível nacional, depois de António Costa e Francisca Van Dunem me oferecerem a alegria de terem despachado Joana Marques Vidal da forma como o fizeram, dois ministros são motivo do meu justificado desagrado. Um e outro estão a fragilizar um governo que, na reta final da legislatura, não pode ficar sujeito a tão óbvias fragilidades.
O primeiro é o titular da Saúde, Adalberto Campos Fernandes, que andou a dar sucessivos tiros nos pés com a mudança do Infarmed para o Porto, até decidir que deixa tudo na mesma. Mas se esse caso indicia inépcia, já a Lei de Bases da Saúde, que pretende levar a Conselho de Ministros tendo por articulado o trabalho que a Comissão de Maria de Belém preparou, tudo se torna mais grave. Esse texto, que será lamentável se vier a ser assumido pelo Partido Socialista, constitui uma desautorização póstuma a António Arnaut, que a enormíssima maioria dos socialistas tanto admirou e cujo legado a lobista dos dos hospitais privados pretende sabotar. Todas as notícias dos últimos meses sobre os problemas nos hospitais e centros de saúde do setor público, embora com algum quê de verdade, foram enfatizadas para fundamentar a proposta do PSD e de Maria de Belém sobre a possibilidade de se tornarem concessões privadas. A tal acontecer teríamos a vitória definitiva dos que anseiam fazer da Saúde um lucrativo negócio dos grupos privados e da Igreja Católica, através das Misericórdias, escusando-se a entendê-la como um serviço público, do qual se reconheça a obscenidade de se retirar lucro.
Tendo em conta que a conspiração contra o SNS inclui representantes sindicais e das ordens dos médicos e enfermeiros, só um ministro com suficiente determinação para não ceder aos grupos económicos, que têm manipulado a opinião pública, com injustificado alarmismo sobre a eficiência dos cuidados de saúde facultados aos cidadãos, poderá derrota-los. Ora Adalberto Campos Fernandes não tem estado à altura dos desafios, que deveria vencer.
O outro exemplo tem a ver com o clima intimidatório e totalitarista, que a Administração da Fundação de Serralves, liderada por Ana Pinho, tem imposto contra o diretor artístico e quase todos os colaboradores da instituição, muitos deles demissionários das suas funções. O ministro da Cultura poderá alegar não ter condições para contrariar a conduta fascizante de quem ainda ali manda a pretexto de se tratar de entidade privada, mas os dinheiros públicos ali investidos deveriam dar a Luís Filipe de Castro Mendes a legitimidade para travar o escândalo suscitado por quem possui uma perspetiva ultrapuritana perante a obra notável do fotógrafo Robert Maplethorpe. O prestígio internacional que Serralves muito merecidamente conheceu até há pouco tempo está em vias de se perder com a divulgação das práticas censórias agora trazidas a público.

domingo, 23 de setembro de 2018

Lamúrias, conspirações e fascismo à moda do Porto


Neste fim-de semana ainda nos poderemos deliciar com as lamúrias de alguns desanimados admiradores de Joana Marques Vidal, expeditamente afastada sem outra vã glória, que não essas compungidas desilusões de quem dava por garantida a sua continuidade. Inconformada, restou à enjeitada o queixume de não ter sido sequer questionada por Marcelo ou Costa sobre a vontade em continuar.
Dá gozo a leitura da crónica de João Miguel Tavares no «Público» sob o título «Aprende Joana: em Portugal manda o PS», procurando criar nova inventona, associando Costa a Sócrates e Marcelo a Ricardo Salgado para demonstrar que os políticos (supostamente sempre corruptos!) quiseram dar uma prova de força sobre os («impolutos») representantes da Justiça.
Constata-se, assim, que para este prosélito das direitas, nem o inquilino de Belém se safa, citando, quase no final, a célebre história da «vichyssoise» com que, em 91 ou 92, Paulo Portas se estampou. Para o Tavares fica a lição de ter em Marcelo alguém pouco fiável para os lugares-tenentes do seu campo político.
A têmpera de escorpião para com alguns parceiros da direita não nos deve iludir: nada querendo ter com Santana e percecionando o flop, que Rio irá protagonizar, já está a impulsionar o seu diretor de campanha, Pedro Duarte, decidido a lançar um tal Manifesto X, com que pretende fundamentar o golpe dentro do PSD contando para tal com a colaboração do ex-Pingo Doce Nuno Garoupa, com o filho de Ramalho Eanes, com o encenador Ricardo Pais e com a ex-segurista Glória Rebelo. Para assim vindimar, Duarte promete muita parra. Desconfia-se, porém, que recolherá pouca uva.
A conspirar está também Pedro Passos Coelho que, segundo outro homónimo, (Marques Lopes), anda numa azáfama a mendigar apoios para recuperar o antigo cargo partidário. Mais uma oportunidade para, porventura, confirmarmos a tal tese sobre a História repetir-se sempre duas vezes, a primeira como tragédia e a segunda como farsa.
Como desconfia que nem com as atuais lideranças, nem com as que se propõem derrubá-las, serão bem sucedidas, quer o Negrão do PSD, quer Cristas, voltam a apostar numa carta mais do que esgotada: a revisão constitucional, que lhes facilitaria o retorno ao poder - mormente através dos círculos uninominais tão do agrado dos caciques locais! - mesmo que a pretexto da definição da possibilidade ou não da renovação do cargo do titular da Procuradoria Geral da República.
Tiques fascistas vão-se, entretanto, revelando na segunda cidade do país com a Administração de Serralves a impor critérios censórios à exposição de Robert Mapplethorpe, suscitando a demissão do seu diretor. Os Diáconos Remédios, que imperam na Fundação, nada aprenderam com tantos exemplos de censores execrados por, em sucessivos séculos da História da Arte, sempre terem tentado - em vão! - opor-se ao que viriam a ser consagradas como obras-primas da criatividade humana. Quando convocados ao Parlamento pelo Bloco de Esquerda para se explicarem, gostaremos de assistir sobre as razões  para um tão repugnante crime contra a liberdade artística.
Igualmente no Porto está em causa a perseguição política a que um dos braços-direitos de Rui Moreira anda a impor a  Célia de Carvalho, presidente da Comissão de Proteção de Crianças e Jovens, eleita por unanimidade para tal cargo, mas caída em desgraça, porque está casada com um assistente social de Campanhã, particularmente enfático na forma como vem criticando a inação da Câmara para contrariar as revoltantes desigualdades sociais na cidade. A prepotência fascista desse vereador não espanta se soubermos que Moreira foi busca-lo à equipa de colaboradores de Valentim Loureiro.

sexta-feira, 21 de setembro de 2018

Cabazada à portuguesa


Há dias, ao folhear o Libération, surgiu-me a notícia de a equipa do Benfica ter ganho à do Ponte de Frielas por 28-0, logo na primeira jornada da 2ª divisão do Campeonato Nacional feminino de futebol. Notícia suficientemente apelativa para até chegar à imprensa francesa e nos qualificar como país de grandes cabazadas. Comparativamente essa terá sido ainda maior do que a sofrida por uma equipa de râguebi a que pertenci na adolescência ao ter perdido por 64-4 com outra adversária, sendo inesquecível o nosso entusiasmo ao conseguirmos o ensaio, que nos deu os 4 pontos e nos fizeram esquecer os dezasseis que haviam propiciado os 64 aos outros.
No entanto, se pensarmos em termos de cabazadas, a que as direitas acabaram de sofrer com a não recondução de Joana Marques Vidal, ainda é bastante maior. Porque, semanas a fio foram tantas as pressões nas televisões e nos jornais, tanta a abundância de fake news a dá-la como reempossada, que a forma como António Costa tratou de as vencer foi tão cartesiana quanto taxativa.
Se há dias atrás expressava a esperança em como Costa não se deveria deixar vencer por tais manipulações - considerava que ele só tinha de ser como sempre nos habituara na frieza com que costuma corresponder a este tipo de desafios! - confesso-me encantado com o desiderato.
Ouvir as reações dos derrotados tem sido um enorme prazer, porque dificilmente conseguem dourar a pílula de uma afronta contra a qual nada podem fazer. E Rui Rio, que se intimidou com as reações dos parceiros do partido, desviando-se das primeiras declarações que o davam de acordo com a não recondução de Joana Marques Vidal, voltou a perder uma nova oportunidade para se colar a António Costa como um dos vencedores. Merecidamente acabou por se juntar ao coro dos derrotados.
Não admira que um dos primeiros indignados a reagir tenha sido Passos Coelho. Pudera! Não podia ele agradecer à agora afastada procuradora o favor de não ter ido por diante a investigação sobre a Tecnoforma? Não foi ele um dos muitos políticos laranjas a escapar ao veredito da Justiça por decisão partidarizada da instituição, que só os opinadores das direitas afiançam - sem se rirem! -, ter sido «independente»?
Prudente mostra-se Portas, que ainda não deu ar da sua (des)graça. Porque, sempre que o virmos a abitaitar sobre as questões da Justiça logo a associação de ideias nos põe reluzentes submarinos a emergirem na mente.
António Costa e Francisca Van Dunem conseguiram uma brilhante vitória política com a indigitação de Lucília Gago. E agora ficamos à espera que os pasquins da Cofina façam parangonas com a «violação» à Democracia inerente a terem deixado de fluir para os seus cabeçalhos as habituais assopradelas oriundas do edifício da Rua da Escola Politécnica.

quinta-feira, 20 de setembro de 2018

As dificuldades de desfranquizar a Espanha


Um fascista é por natureza um crápula. Não há nada que possa suavizar o epíteto. Mas se chega ao poder e consegue impor uma ditadura, que reprima qualquer contestação, ainda se torna mais odioso. Nesta altura temos exemplos elucidativos em gente como Orban ou Erdogan, e noutros que, mesmo não tendo ainda chegado ao poder absoluto - Salvini ou Balsonaro - já exibem todas as características, que justificam o expedito afastamento de prosseguirem a maligna  atividade.
A História dá-nos demonstrações  de quanto podem fazer para prejudicarem os compatriotas. E o que se está a passar no país vizinho com a desfranquização acelerada promovida pelo primeiro-ministro Pedro Sanchez  constitui exemplo eloquente, mesmo que esteja a custar-lhe uma feroz campanha de tentativa de assassinato de carácter nos meios de «comunicação» social. Depois de decidir a exumação do cadáver desse sinistro espaço, que constituiu o monumento fascista à glória dos vencedores, há agora uma corrida contra o tempo, porque o Estado Espanhol pretende pôr em causa a grande parcela do património multimilionário acumulado pelo ditador, através da extorsão e corrupção, durante os  trinta e muitos anos de exercício brutal da governação e os herdeiros tentam-no vender apressadamente para impedirem essa justiça tardia, mas inquestionável.
O que se vai sabendo é o expectável numa criatura tão maldosa: tão só ele e a mulher viam algo que lhes acicatasse a cobiça e logo avançavam com persuasivas pressões para que viessem a incluir-se nas suas posses. Razão para que haja do Estado Espanhol essa intenção de espoliar tais propriedades, que nunca  alguma vez estariam ao alcance de um modesto militar, que de seu pouco mais tinha do que a farda, quando decidiu pôr fim à legítima República de que deveria ter sido fiel defensor.

Vazio de substância, mas útil idiota para quem o promove


Daqui a umas décadas , quando os historiadores olharem para o que era a vida política portuguesa deste primeiro quarto de século, depararão com o nome de Santana Lopes e questionar-se-ão sobre quem terá sido tal personagem, já que fazendo grande alarido na imprensa escrita e audiovisual, não vislumbrarão nada de substantivo sobre essa ocupação do espaço mediático. Por comparação equivalerá ao de inúmeros nomes de políticos da I República que, há cem anos, davam-se ares de importantes adornados de jaqueta e cartola, azucrinavam os colegas parlamentares com epítetos pouco dignos e acabaram condenados a justo olvido.
Porque nada de substantivo agita aquelas meninges, a não ser a satisfação do inebriado ego, Santana Lopes está destinado a falhar. Mas traz para as direitas uma enorme vantagem para os próximos meses: para silenciar tanto quanto possível o que dizem socialistas, bloquistas ou comunistas, as televisões passam a contar com a sobriedade de Rio, a desfaçatez de Marques Mendes,  a chico-espertice de Montenegro, mas, sobretudo, as peixeiradas de Cristas e a falsa modernice do recauchutador do termo «Aliança».
Perante um bombardeamento constante de atoardas dos seus protegidos, que melhor alibi calha às televisões para pretextarem a falta de meios e de disponibilidade para ouvirem o que têm a dizer quem pelas esquerdas discursa? 

quarta-feira, 19 de setembro de 2018

Até o zodiaco lhes serve como esperança no milagre!


Quando pensamos que o «Expresso» já desceu até aos patamares mais baixos da desonestidade intelectual - mesmo sabendo-o desde a sua origem enfeudado aos interesses da grande burguesia e, como tal, assumido porta-voz das direitas! - ele não cessa de nos espantar. É que, se julgávamos já ter visto tudo, ainda faltava encontrar uma abordagem da voz oficiosa de Marcelo nas suas páginas (Ângela Silva) a analisar a apresentação do partido de Santana Lopes sob a égide das previsões de uma astróloga da SIC.
A princípio ainda julguei que se tratasse de uma farsa pela qual a ironia decorreria do paralelismo entre a vacuidade dos signos «lidos» pela sucessora do Zandinga e a inconsistência ideológica do trânsfuga do PSD. Mas não: a «jornalista» dava conta de levar a sério as indicações do zodíaco, promovendo dessa forma a nova estratégia da direita para mudar o rumo do país, dando-a como potencialmente esperançosa.
Se se imaginava que o apreciador das «sinfonias de Chopin» seria uma emanação dos neandertais do «Observador» e do pasquim da Cofina ficámos elucidados: também no reino de Balsemão se promove a queda em desgraça de Rui Rio para que as direitas das direitas consigam animar as desanimadas hostes de quantos rezam piamente para que a maioria das esquerdas não se renove em 2019.

terça-feira, 18 de setembro de 2018

António Costa 1 - Joana Marques Vidal 0


A visita oficial de António Costa a Angola está a constituir um enorme sucesso, que muito agrada à grande maioria dos portugueses. Daí que as direitas soubessem bem quão útil seria impedi-la, porque não só estariam a concretizar a estratégia do “quanto pior melhor”, quer a nível económico, quer político, como poderiam sempre manter a narrativa de um agravamento das relações entre os dois países sempre que Lisboa conta com um governo socialista. No momento certo lá tratariam de lembrar as relações privilegiadas de Paulo Portas e Miguel Relvas com as autoridades luandenses, de que se constituíram indecorosos lobistas.
Terá sido essa a razão do «irritante», que teve como grande responsável Joana Marques Vidal. Sendo o caso Manuel Vicente um mero detalhe, de importância infinitamente menor do que o superior interesse de desenvolver o relacionamento bilateral, a ainda procuradora-geral tudo fez para o alimentar até mais não lhe ser possível, demonstrando o que lhe estava realmente nas intenções.
É por isso que o sucesso desta visita constitui uma derrota inegável do que tal protagonista tanto  porfiou. E espero que as alusões frequentes de António Costa a esse mesmo «irritante» signifique que, não tendo esquecido a afronta, retire dela a devida ilação: a devolução da mesma à procedência acautelando a possibilidade em que não volte a causar danos de maior na vida de quem intervém, como sucedeu na forma como facilitou à IURD a adoção de crianças retiradas às mães sem que estas o pudessem evitar.