Desde que Paulo Portas trocou o Independente pela liderança do CDS, depois de empurrado Manuel Monteiro para a valeta sem grandes delicadezas, a estratégia do partido mais à direita do espetro parlamentar tem assentado na criação de soundbytes mais ou menos vistosos, que podem nada significar, mas parecem suficientemente fortes para ficarem nos ouvidos de quem passivamente os escuta. Há muito que as direitas criaram a moda dos spin doctors, apostados em cuidar das mensagens políticas com os truques da publicidade, sem lhes importar verdadeiramente o conteúdo do que inventam. Consigam aparentar que quem lhes paga lava mais branco do que a concorrência e são-lhes indiferentes os danos suscitados pelas práticas, que caucionam.
Na última semana temos sido matraqueados com a «taxa Robles» como se a proposta do Bloco de Esquerda deva ser desqualificada pela imagem exageradamente negativa, que a imprensa colou ao antigo autarca de Lisboa. Lançado por um deputado do CDS o soundbyte foi adotado por toda a comunicação social como expressão aceitável no que deve ser o tratamento objetivo das notícias, quando de facto insere-se numa intencional estratégia de propaganda política. Ao adotá-la os jornais, as rádios e as televisões assumem-se como altifalantes desse marketing político sem o questionarem, nem desestruturarem. Pior ainda, têm-no agitado em sucessivos debates dentro da lógica de possibilitar uma execução eficaz do dividir para reinar contra a maioria parlamentar, que anseiam derrubar aproveitando, ao mesmo tempo, para alimentar quem, dentro do PSD, tudo faz para atirar Rui Rio ao tapete. Porque a malta do Observador, da SIC ou da RTP já demonstraram que anseiam por um Passos Coelho recauchutado - assuma o fácies de Montenegro ou Hugo Soares - para voltarem ao neoliberalismo puro e duro de que foram fiéis marionetas.
Infelizmente, como socialista, não gostei da forma como António Costa e Carlos César reagiram à proposta, amesquinhando-a a tratos de polé. Não contesto que tenham razão no fundamental, mas o pequeno detalhe da sobranceria com que a aniquilaram dá razão a Daniel Oliveira, quando prevê o termo próximo desta convergência entre as esquerdas por não coincidirem verdadeiramente com o efetivo sentimento da atual liderança socialista. Nesse sentido preocupa-me o afastamento de João Galamba de porta-voz do partido, substituído por quem começou por descrer dos benefícios desta solução política, ou a reação nada subtil de António Costa no Congresso, quando se intimidou com o sucesso do discurso de Pedro Nuno Santos.
A cumprir-se a previsão de Daniel Oliveira será chegada a altura de novo redefinir de águas entre quem no Partido o quer devolver à cinzentude do centrão e quem deseja retomar a sua matriz original, definida pelos fundadores em 1973, e que o dão como orgulhosamente Socialista (com um S bem grande).
Quero confiar que, no momento próprio, uma grande maioria de socialistas, que se têm reconhecido nesta solução governativa, não deixarão de expressar a sua opção.

«Soundbytes» ou «sound bites»?
ResponderEliminarEste vai parecer um artigo mesquinho, mas como este blogue é pessoal decidi conceder-me um momento de irritação pura com um erro de ortografia muito comum.
Alguns indivíduos da nossa praça pública escrevem correntemente, há cerca de dez anos, «soundbyte» quando se querem referir a um comentário rápido e mordaz feito por um político. Não se trata de mais do que uma tendência muito contemporânea para querer parecer sofisticado inserindo palavras inglesas em textos escritos por portugueses e destinados a portugueses. O cómico é que «soundbyte» (com y) contém um erro de ortografia e induz um significado distinto. «Soundbyte» (com y) é um volume de som embalado ou transportado electronicamente. Em tradução livre, um «soundbyte» é um volume de som, um «byte» de informação sonora. O que eles querem dizer escreve-se «sound bite», e traduz-se literalmente como «mordidela» (do verbo to bite) sonora (poderia usar-se também bitaite). É assim que a imprensa de língua inglesa escreve, mas os tais que puseram o termo a circular em Portugal, dada a sua cultura anglófona eminentemente televisiva, nunca viram a diferença escrita.
O erro propagou-se e é agora muito comum, aparentemente como símbolo de anglofilia e elevação cultural. Na realidade é o seu contrário. O que é divertido.
(Quem não acredita que consulte o Dicionário.)