domingo, 23 de fevereiro de 2020

Alguma razão nos queixumes de quatro generais


Quatro generais sentiram-se assustados com a irrelevância progressiva das Forças Armadas e encontraram nessa insatisfação um bom argumento para espicaçar a conflitualidade entre Marcelo Rebelo de Sousa e o governo decidindo enviar ao primeiro uma missiva a solicitar-lhe intervenção. Ao mesmo tempo soube-se que os concursos de recrutamento, recentemente abertos, primaram pela indiferença de quantos poderiam estar interessados em vestir a farda.
Quanto aos generais Marcelo passou-lhes ao largo de fininho aludindo a uma atitude coletiva de desinteresse dos portugueses pelos assuntos e oportunidades das carreira militares. E não lhes deu troco relativamente ao ensejo de criticar o governo, tanto mais que sabe importantes os votos dos eleitores socialistas que, hélas!, continuam a considera-lo presidenciável. Mas mais eloquente é essa indiferença dos jovens relativamente às Forças Armadas. Será de estranhar que, depois das notícias sobre a morte de alguns deles em exercícios militares, que relevaram do sadismo dos instrutores, ainda haja quem se arrisque em seguir-lhes as pisadas? E que futuro pode esperar um jovem depois de sucessivas comissões até passar à reserva quando outra alternativa de sustento não encontra que não seja a de integrar as diversas polícias, insuficientemente remuneradas e infiltradas de gente pouco recomendável?
Em tempos idos, e olhando para exemplos como os da Suíça ou Costa Rica, diria que as Forças Armadas são um vertedouro de dinheiro improdutivo, que seria melhor aplicado nos investimentos do Estado na saúde ou na educação. Mas isso seria numa conjuntura ideal, que, atualmente, não justifica rebate pacifista. Hoje há na Espanha um partido fascista, que faz cartazes a nela integrar o território português, demonstrando que as conhecidas ambições expansionistas de Franco continuam a ter inquietantes herdeiros. Há, igualmente, a necessidade de satisfazer as solicitações da comunidade internacional, sobretudo da ONU, para integrar militares portugueses nas suas missões em África ou na Ásia. Importa manter o controlo do espaço aéreo fazendo-o corresponder rigorosamente ao traçado das nossas fronteiras terrestres e marítimas. E há, sobretudo, a relevância estratégica de assegurar uma soberania muito ativa na importante área marítima reconhecida internacionalmente como pertencente a Portugal e onde os recursos naturais, incluindo os piscícolas, têm de ser defendidos da avidez alheia. Todos esses factos legitimam as preocupações dos quatro generais conquanto despojadas da intenção intriguista, que lhes pareceu motivar a tomada de posição. Mas as Forças Armadas, para além de esbanjarem verbas na anacrónica contribuição para a NATO, também devem ser repensadas de forma diversa da tradicional em que cada oficial tem de comandar diversos sargentos, que por seu lado exigem números mais alargados de cabos e ainda maior vastidão de recrutas. Se a realidade já demonstrou a impossibilidade de manter essa visão cristalizada das Forças Armadas importa que elas se dotem, sobretudo de oficiais com especializações consonantes com as importantes missões a serem-lhes confiadas, modernizando-se para constituírem instituições viradas para o futuro.

sábado, 22 de fevereiro de 2020

O nunca por demais denunciado sofrimento infantil


Pode-se escolher esta, mas não faltam outras imagens de crianças a quem são impostas provações, que nunca poderão compreender. Por exemplo as que padecem. por estes dias, as que acompanham os pais na fuga desordenada ditada pelos bombardeamentos do exército de Bashar el Assad ao último recanto de território, que lhe falta conquistar. Há imenso sofrimento infantil por esse mundo e os foto-repórteres vão testemunhando-o sem grande esperança de motivarem os gestos internacionais que os debelassem.
A miúda da foto ao lado trabalha numa mina de carvão na Índia onde, com os colegas - alguns deles com apenas quatro anos! -, carregam cestas ladeira acima até ao topo da colina onde acumulam a montanha de mineral, que os camiões virão buscar. O peso que transportam em cada trajeto é quase o do próprio corpo e nenhuma delas usufruirá dos direitos fundamentais, que lhes deveriam ser reconhecidos, a começar pela saúde e educação. E isso num país onde se albergam algumas das maiores fortunas do mundo e que ambiciona rivalizar com a China no assalto à condição de superpotência rival dos EUA.
A expressão da miúda vale por mil palavras, que utilizássemos para exprimir a nossa indignação com a abjeta injustiça de que é alvo! 

Quando o sofrimento dos galgos prenuncia o fim do dos touros


A explicação aventada por alguns amigos de João Moura para a forma como deixou degradar a condição dos seus galgos levanta uma pertinente questão sobre o futuro das touradas em Portugal: não será o argumento económico a justificar o fim da barbárie, que elas representam?
É certo que os defensores dos espetáculos taurinos vieram congratular-se, há poucas semanas, com o aumento do número dos espectadores nas corridas organizadas durante o ano transato, mas esse comprazimento lembrou a dos familiares dos doentes terminais que facilmente se iludem com aquelas canónicas melhorias em vésperas de lhes ser declarado o óbito. Com o cerco movido pela opinião pública, em grande parte conquistada para a ideia de não se justificar um espetáculo caracterizado por infligir sofrimento aos touros empurrados para a arena, será fatal o desapego dos aficionados a um hábito, que sabem torná-los alvo de censura.
Não sabemos, igualmente, as razões por que João Moura está a passar por apertos financeiros, mas duvido que um cavaleiro ou um toureiro consiga grandes cachets nas poucas corridas para que possam anualmente ser contratados. Daí que o aspeto terrível dos cães postos a salvo dos maus tratos do dono pareça colar-se simbolicamente ao de uma tradição tauromática em vias de deixar definitivamente de ser o que foi... 

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020

O direito fundamental sobre o momento de morrermos dignamente


Neste que será o dia em que muito provavelmente os projetos de lei para a despenalização da morte assistida irão ser aprovados na Assembleia da República podem-se aferir quatro tipos de oposição apostados em, até ao último momento - ou seja quando o diploma final for publicado no Diário da República - travarem essa expressão maioritária da vontade dos portugueses.
As diversas igrejas, com natural destaque para a católica por ainda ser maioritária, contradizem-se nos seus próprios princípios, porque não só foram historicamente os paladinos de mortíferas guerras contra os que consideravam infiéis, mas também nunca enjeitaram servir os exércitos, quando supostamente os acompanhavam a fim de dar consolo espiritual aos que disparavam no gatilho. Quem protagonizou o atear das fogueiras inquisitoriais ou apoiou a cruzada salazarista nas ex-colónias deveria resguardar-se num recato, que infelizmente não condiz com o seu descaramento. As Igrejas, que apoiaram e continuam a apoiar morticínios onde ganham absurda influência - vide a influência evangélica em África, causadora de diversas guerras civis, ou no Brasil onde se calam perante o assassinato dos ameríndios - confirmam a sua condição pestífera, que as sociedades humanas tardam em debelar.
Há também os que se opõem, porque mesmo sem ponderarem nos quês, nem nos porquês, querem que a despenalização não passe porque a sabem apoiada pelas diversas esquerdas. E sendo eles ignaros, que se afirmam de direita, porque se iludem com a ascensão no elevador social, que há muito para eles gripou, permanecem teimosamente sentados à espera de um ausente Godot.
Sobram também outros prosélitos da direita, que trabalhando ou não no setor dos cuidados paliativos, o sabem fonte segura de rendimentos de que não querem por nada prescindir. Acoitados nas Misericórdias e outras instituições de «apoio social», onde tantos se alimentam à conta da falsa caridade para com quantos sofrem, são tão convictos na defesa da privatização da saúde, quanto da criação de milhentas oportunidades nesses tais cuidados que, pudessem escolher, muitos dos que sofrem as dores de males incuráveis (e não apenas os fisiológicos!) declinariam.
Restam, enfim, os comunistas, que me escandalizam ao convergirem com os setores ultramontanos das direitas, e sobretudo com o parasita fascista. Alguém aventou a hipótese da definitiva demonstração da falsidade da lendária injeção dada atrás da orelha dos velhinhos. Mas quem nela acreditou - e vimos uma mentecapta com um cartaz alusivo a essa hipótese numa manifestação dos que contestam a lei! - teimará em manter a estúpida opinião. Porque, infelizmente, questões como esta demonstram à saciedade, que a burrice é mal que facilmente se contamina em contraponto com a inteligência bem mais difícil de prevalecer entre quem se conforma na preguiça das ideias feitas...

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2020

A inominável e parasitária criatura


Há muitas formas de abordar o debate quinzenal de ontem na Assembleia da República, mas uma sobrepõe-se a todas as demais: enquanto as esquerdas mostraram-se veementes com o episódio criminoso de Guimarães, quando um bando de energúmenos manifestou o ignóbil racismo, que lhes vai nas turvas mentes, as direitas, pelo contrário, quedaram-se no silencioso comprometimento de quem se sabem confrontadas com assunto capaz de lhes estragar as estratégias futuras. Porque estas carecem de um imaginário coletivo analfabeto e emocionalmente orientado para as distrações suscitadas pelos preconceitos como forma de imporem opções ideológicas consonantes com os interesses de quem, na retaguarda, as financia. Por isso, quando sentem um enorme clamor a levantar-se em prol de um valor que lhes é estranho - a dignidade dos humilhados e ofendidos - sabem instável a estrutura de segmentação da sociedade em classes desiguais tão do seu agrado. Por isso silenciaram-se, acoitando-se na cobarde retirada de um  campo de batalha onde se sabiam em risco de um resultado hostil.
Houve, porém, o breve, mas elucidativo, momento de confronto entre António Costa e a inominável criatura, cuja presença no hemiciclo é, por si só, uma ofensa aos valores contidos no texto constitucional. Que aquele a quem Rui Tavares designa como “parasita” na sua crónica de hoje não tem a mínima pinga de decoro viu-se nas suas palavras, mas, sobretudo, na atitude corporal. Porque António Costa confrontou-o com o ter-se eximido em ali, cara-a-cara, afirmar aquilo que vem repetindo nas redes sociais nos dias mais recentes mas, em vez de o fazer, trouxe mais uma fatura que, por certo, teria o mesmo destino das anteriormente apresentadas em arruaça similar e depois rapidamente desmascaradas quanto á sua veracidade. Costa aceitou-lhe a oferta de receber de bom grado essa «prova», mas decerto pode sentar-se à espera, não só porque o tratante não quererá ver.se novamente desmascarado como trapaceiro, mas sobretudo por facilmente se vir a identificar a «mão amiga», que lho terá facultado.
Rapidamente posto em xeque ao primeiro movimento no tabuleiro retórico logo escolheu colar-se ao seu émulo no TIC, pondo em causa a legalidade da publicação da resposta ao famoso documento das cem perguntas. E aí ouviu o que nem ele, nem o conjuntural aliado, gostariam de ouvir: as provas de quem começou por violar o segredo de justiça são tão óbvias, que implicam eloquente ricochete. E ambos terão esquecido que António Costa foi eminente jurista antes de aceder às mais significativas responsabilidades políticas. O facto do segredo de justiça deixar de existir quando se conclui a fase de inquérito num processo demonstra que as provocações do justiceiro de Mação saldar-se-ão numa mão cheia de nada, outra de coisa nenhuma.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2020

Urubus a planarem por aí...


Na Natureza os urubus desempenham uma função imprescindível por se incumbirem dos despojos remanescentes das carcaças animais, mortas por doença ou nas garras de um qualquer predador. Daí que, olhando-os a planar nas alturas donde inspecionam as redondezas, só possamos congratularmo-nos por existirem e prevenirem os perigos das moléstias disseminadas a partir da carne putrefacta.
No universo da imprensa os urubus são de natureza oposta. Planam, igualmente, nas alturas a aferir se alguma morte lhes aprouverá, mas os objetivos são outros que não só os da exclusiva alimentação. Pelo contrário: enquanto na natureza previnem doenças, na imprensa criam condições propícias a uma cultura contrária ao interesse público.
Vem isto a propósito da manchete do covil de necrófagos acoitado no grupo Cofina: que comprazimento mostram quando morre alguém no Serviço Nacional de Saúde e podem zurzir com deleite contra as políticas governamentais! No caso em apreço a vítima, um homem que terá chegado ao hospital de Beja sem que um médico lhe tenha atempadamente constatado o estado terminal, não importa que situações dessas sejam frequentes nas ambulâncias antes sequer da chegada ao hospital, ou que lá chegados, consultados e internados logo morram porque o corpo já não resiste à doença. Ou, sobretudo, quantas notícias advém de casos similares nos hospitais privados? Para os urubus do «Correio da Manhã» e seus altifalantes nos demais órgãos de comunicação social, importa fomentar o epidémico descontentamento público calando todas as notícias positivas - e são muitas! - que diariamente confirmam a justeza das políticas governamentais. Por exemplo a que hoje se soube e à qual esses urubus tapam as orelhas para não ouvirem: que a promessa de contratação de cinco mil doutorados durante a legislatura anterior se cumpriu, isentando-os da precarização a que, até então, estavam sujeitos. E essa é realidade muito mais determinante do que a trágica morte de uma pessoa doente em Beja: porque o emprego científico contribui para a alteração estrutural da economia portuguesa, cada vez menos dependente da mão-de-obra não qualificada e potenciada na que lhe acrescenta valor e aumenta o PIB.
Mas não são os urubus da Cofina os paladinos daquele país no diminutivo referido por Alexandre O’Neil em que juizinho é que era preciso?

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020

A cobardia e a incoerência dos fascistas


Sabe-se que Benito Mussolini era um cobarde: quando mandou invadir a Etiópia, para alimentar uma campanha de propaganda capaz de iludir milhões de italianos, enviou tanques, aviões e armas químicas contra um exército cujos meios defensivos não admitiam a mais pequena comparação. E, no entanto, na impressionante manifestação de 18 de setembro de 1938 em  Trieste, centenas de milhares de seus admiradores celebraram-no como grande herói nacional. (Quantos deles celebrariam menos de seis anos depois a macabra exposição do seu cadáver, quando essas ilusões se haviam convertido em terrível pesadelo?)
No discurso desse dia, o ditador italiano decidiu dar mais uma guinada nas suas incoerentes opiniões. Embora assumidamente racista, pois fora sob a alegação «científica» da inferioridade dos negros que, às suas custas, quis fundar o império em África, ele não se virara até então contra os judeus. Pelo contrário até lhes endereçara palavras simpáticas quando, de alguns deles, colhera elogios pela «obra« em curso. Mas, nesse dia, anunciou as leis racistas que, aprovadas dois meses depois, condenaram os judeus italianos ao mais rigoroso ostracismo, levando os que podiam a rapidamente atravessarem o oceano para juntarem-se aos familiares acoitados em território norte-americano e os outros a optarem pelo suicídio ou a desesperarem na expetativa do momento em que se se veriam enfileirados e enviados para um destino desconhecido, depois crismado com os nomes de alguns dos mais horrendos campos de morte. De um momento para o outro, e para agradar a Hitler de quem pretendia obter proveitosa boleia e colher as sobras do banquete expansionista, Mussolini acabou com a proteção da Casa de Saboia aos judeus italianos e que lhes valera, no século anterior, a saída definitiva dos guetos a que estavam cingidos.
Cobardia de quem se julga forte e se dispõe a espezinhar os mais fracos é o que se viu ontem em Guimarães com uma turba fascista a invetivar um futebolista só por ser negro. Uma vez mais demonstra-se a urgência de se proibirem as claques de futebol tão evidente é o caldo de cultura, que lhes potencia o arreigado racismo dos seus apaniguados. Nesse comportamento de seita convencida de tudo poder por ser menor a força de quem toma por ódio de estimação, está escarrapachada a essência do fascismo mais primário.
 Mas desconfio que, nos próximos dias, também o candidato a duce lusitano sentirá a urgência de ler o clima criado à volta deste caso e imite Mussolini no oportunismo com que mudava de opinião: sendo tão veemente a condenação pública do comportamento ultrajante dos adeptos vimaranenses, o tratante deverá engolir as palavras de apoio a eles endereçadas apressadamente e que arriscam a deixá-lo isolado no Parlamento onde este assunto não deixará de ser abordado. Ora já vimos que os fascistas adoram agredir em grupo, mas fazem tudo por escapar com o rabo entre as pernas, quando se sentem sós. E com Marcelo e António Costa a juntarem-se ao ruidoso coro de personalidades e de gente anónima, que se envergonha com a imagem do país dada pelos criminosos de Guimarães, será provável ver o seu defensor a arranjar uma desculpa esfarrapada para se ausentar da previsível condenação. Para ele a coerência com o que pensa não bastará para que a ela se agarre quando os ventos lhe não sopram de feição...