domingo, 12 de julho de 2020

Alguma vez este país deixará de ser para banqueiros controversos?


Em 2007 os irmãos Coen rodaram um filme protagonizado por Javier Bardem cujo título era Este País não é para Velhos. A dupla de realizadores não poderia imaginar que, à data da estreia, começava a crise dos subprimes, que, no caso português, levaria ao descalabro de sucessivos bancos: o BPN em 2008, o BPP em 2009, o BES em 2014 e o Banif em 2015. Igualmente abandonado à sua sorte pelo desgoverno de Passos Coelho para cair em tal insolvência, que a privatização se tornasse inevitável, a Caixa Geral de Depósitos acabou por ser salva in extremis, quando Mário Centeno chegou ao Ministério das Finanças.
Treze anos depois sabe-se na mesma semana que João Rendeiro viu agravada a sentença no recurso apresentado ao Tribunal da Relação e Ricardo Salgado está em vias de ser acusado de associação criminosa.
Quem olhasse para as duas notícias com alguma ingenuidade diria que, pegando no título do filme dos Coen este país deixou de ser para banqueiros, mesmo tendo passado ao lado da devida punição à clique cavaquista do BPN. O problema é que nada mudou de substancial no comportamento do universo financeiro desde aquela crise culminada na falência do Lehman Brothers. Basta olhar para a gestão de António Ramalho à frente do Novo Banco para constatar que a lógica de funcionamento daquela cabeça é a mesma de João Rendeiro que, na própria semana da falência do seu banco, aprestava-se para lançar um livro de autopromoção intitulado Um Toque de Midas, que pretendia convencer os incautos leitores do seu jeito para transformar em ouro tudo quanto lhe passasse pelos dedos. E olhando para a estratégia desesperada de Ricardo Salgado quando, em 2009, já percebia quão insolvente estava o Grupo Espírito Santo, não a vemos muito diferente da que leva a gestão do Novo Banco a encontrar formas habilidosas, mas mais do que duvidosas, para garantir os interesses financeiros da Lone Star à custa dos impostos dos contribuintes portugueses.
Podemos considerar positiva a gestão de Paulo Macedo à frente da CGD, mas quanto aumentaram os serviços proporcionados pelo Banco para que os lucros crescessem na exata dimensão em que diminuíam esses valores nas contas dos seus clientes?
Logo após a crise de 2008 aventou-se a necessidade de segregar definitivamente a banca comercial da de investimentos, de forma a não a contaminar com o inevitável comportamento especulador dos que vivem de criarem e desfazerem bolhas nas Bolsas mundiais. Se, na altura, algumas vozes peregrinas pareceram determinadas a fazê-lo logo a passagem das semanas, dos meses e dos anos, lhes inibiu a coragem. O capitalismo selvagem continua à solta e, cá dentro, os nossos banqueiros só se distinguem dos outros, porque as ambições lhes são tolhidas pela dimensão reduzida dos mercados onde procuram imitá-los.

sábado, 11 de julho de 2020

Um branqueador do fascismo no ISCTE


Passou-me ao lado e ainda bem: pelos vistos a RTP2 deu tempo de antena a um professor do ISCTE, que acaba de publicar um livro sobre o Chega onde defende a tese esdrúxula de não se tratar de partido racista, nem de extrema-direita.
Esse Riccardo Marchi, que já era autor de outras ideias absurdas como a de nunca ter havido direita em Portugal, faz os possíveis por declarar Rui Ramos, Helena Matos ou Jaime Nogueira Pinto como historiadores obsoletos no campo da direita na busca de encontrar legitimidade numa certa ideia de passado para justificar a enviesada interpretação ideológica do presente. Os seus argumentos - ao nível do, em tempos incensado, Hermano Saraiva, conhecido pela especialidade de inventar o que fundamentasse as suas tortas elucubrações! -, justificaram uma tomada de posição de dezenas de historiadores, sociólogos e outros investigadores e professores universitários, que num texto intitulado Contra a higienização académica do racismo e fascismo do Chega defendem que “a produção de conhecimento académico não se coaduna com propósitos de normalização, legitimação e branqueamento de um partido racista e com desígnios antidemocráticos. Os métodos científicos remetem para apropriações críticas, não devem servir para disfarçar o viés político sob uma suposta neutralidade científica.”
Pessoalmente custa-me ver a universidade, que me foi tão importante, quando nela cursei Gestão, a servir de guarita a quem se serve do seu prestígio para produzir trabalhos supostamente académicos, que não cumprem as regras exigíveis ao rigor científico de quem deveria assumir a responsabilidade cívica pela defesa de uma sociedade mais decente.
Marchi compraz-se com a ignomínia e encontrou na RTP quem com ele pactuasse, permitindo-lhe enunciar os seus desaforos sem sequer o confrontar com quem o pudesse contradizer. E é assim, com pezinhos de lã, que o fascismo pretende apresentar-se aos olhos dos portugueses como se tivesse a legitimidade indevida aos seus pressupostos xenófobos, racistas e arreigadamente antidemocráticos.
Hoje, como há 46 anos, justifica-se que se mantenha bem viva a frase: Fascismo nunca mais!

sexta-feira, 10 de julho de 2020

Mas que grande entrevista!


Com o atraso explicável de quem tem outros afazeres e reserva para momentos mais propícios o que deve merecer maior atenção, vi a entrevista de Pedro Nuno Santos à RTP, tendo por interlocutor o sobrinho do Dias Loureiro. E foi uma hora bem passada, que deveria merecer da generalidade dos eleitores a maior das disponibilidades, porque só assim encontrariam exemplo lapidar das qualidades exigíveis aos políticos em quem decidam confiar o voto.
Pedro Nuno Santos é taxativo: não contem com ele para um tipo de política, que não tenha por objetivo tudo fazer para que os portugueses vivam melhor e se sujeitem a menos desigualdades. Por isso exclui o apoio a Marcelo nas presidenciais, apostando noutro candidato da esquerda se o Partido Socialista não optar por candidato próprio.
Pode não ser posição simpática para outros dirigentes, que se aprestam a tirar selfies com o atual presidente, quando ele estiver em campanha para novo mandato, mas Pedro Nuno Santos separa as águas tais quais elas devem distanciar-se: as esquerdas têm uma Visão para a sociedade portuguesa, que não se confunde em quase nada com a assumida pelos políticos das direitas. Daí que me custe ler o que alguns socialistas teimam em confiar às redes sociais como se o maniqueísmo anticomunista lhes seja mais apetecível do que descurar do nunca por demais persistente combate contra as direitas.
Há, porém, algo ainda mais admirável no que Pedro Nuno Santos diz: também ninguém conte com ele para abdicar da vocação para sempre falar verdade aos portugueses. Por isso mesmo não escamoteia a probabilidade de virem a acontecer despedimentos na TAP durante o processo de reestruturação, que a redimensionará para as circunstâncias, por ora imprevisíveis, em que operará nos próximos anos. Nem tão pouco considera suficientes os 1200 milhões de euros que o Estado em breve nela investirá, contrapondo o quanto a economia ganha anualmente com o que a companhia aérea compra aos seus fornecedores nacionais ou os empregos gerados, não só nela, mas também em todas as empresas que dela dependem para funcionarem e garantirem o sustento a dezenas de milhares de famílias.
Ouvindo algumas aventesmas, que mentem descaradamente ou revelam uma ignorância crassa mascarada do atrevimento de quem nem se preocupam em informarem-se, porque se contentam com o exercício de maldizer, só poderemos desprezá-las por se fazerem surdos a quem lhes é capaz de explicar o b-a-bá com uma simplicidade e consistência desarmantes.
Por muito que custe a Carlos César, no momento certo, serão muitos os socialistas -  confio que a larga maioria! - que saberão em quem confiar...

quinta-feira, 9 de julho de 2020

Vivemos numa época em que não sabemos


A frase disse-a José Eduardo Agualusa numa das recentes entrevistas em que apresentou o mais recente romance: esta é, de facto, uma época em que não sabemos. Por isso o escritor não arrisca voltar tão cedo à ilha de Moçambique, que escolhera por morada nos anos mais recentes. Para nós são os Países Baixos a ficarem a uma distância incomensurável, que seria tentação vencer num sentido ou outro, mas se adiam porque, lá e cá, o vírus continua presente e existem riscos demasiado grandes para os ousarmos enfrentar.
Os próprios cientistas parecem não se libertar da bipolaridade: se num dia uns anunciam-se prestes a inventar a almejada vacina capaz de nos aliviar, logo no outro colegas seus demonstram a forte possibilidade da transmissão oral para a qual o incensado distanciamento social não bastará.
No entretanto os números do desemprego desatinam, as previsões económicas reveem-se em baixa e até os mais otimistas - o meu caso! - se intimidam com a possibilidade de, por esta vez, os factos não lhes darem razão. Até porque nada comprova a possibilidade de podermos descansar, quando houver cura para o mal, ou vacina que o previna: nas florestas derrubadas diariamente nos vários continentes ou na intrínseca sujidade dos mercados de rua asiáticos, outros coronavírus preparam novos ataques possivelmente mais letais do que este, sobre o qual afinal tão pouco se conhece.
Agualusa tem, de facto, razão: vivemos mesmo numa época em que nada sabemos.
Talvez por isso deixámos de ter tanta dificuldade em contornar o trânsito junto à igreja mais próxima da nossa casa quando, aos domingos, decidimos sair quando os crentes acorrem à missa. Parece que, nesta altura, os tementes a deus ganharam maior medo ao vírus do que anseiam pela redenção para os seus pecados. Provavelmente angustiado com a defeção das ovelhas o padre mantém aberta a porta do redil à espera que as almas solitárias compareçam em busca de consolo: nunca vimos a porta do edifício tão frequentemente aberta quanto agora e ninguém a nela entrar ou sair!
Por curiosidade indago junto de familiar rendido a um dos muitos cultos evangélicos como decorrem os cultos na sua igreja. E a resposta não me surpreende: também nela a debandada é quase geral. Da última vez que lá fora restavam dois pastores e três crentes para iludir o silêncio de um espaço fácil de transbordar até há pouco tempo.
Será porventura um dos benefícios da crise atual: devolver à realidade, quem dantes a complementava com rendições transcendentais que, em época de aperto, não asseguram qualquer consolo...

domingo, 5 de julho de 2020

Exceção à regra, hoje sou maledicente para com socialistas


Talvez esteja errado naquela aceção muito tradicional em como se devem resolver dentro de casa as questões, que possam associar-se ao conceito de «roupa suja». Por isso não compreendo, e muito menos aceito, que Fernando Medina e Ascenso Simões andem por estes dias a carregar espingardas para darem tiros nos pés do Partido em que têm conhecido alguma notoriedade. Sobretudo por possibilitarem que as direitas logo invoquem o alibi de «se dentro do próprio partido assim o dizem...».
No caso de Fernando Medina até poderia empatizar com a contestação ao Ministério da Saúde. Afinal é a ministra e os seus secretários de Estado, quem estão a pactuar com a grassa incompetência do diretor clínico do Hospital Garcia da Orta que está em vias de o tornar mais disfuncional do que já se revelou com o lamentável caso do serviço de Pediatria. A prossecução do seu estilo autoritário resultou na demissão do diretor do serviço de Ginecologia e Obstetrícia o que faz prever o pior para o tipo de cuidados que as grávidas  ou os casos oncológicos aí conhecerão no curto-médio prazo.
O problema é que Medina não escolheu uma fundamentação substantiva para se pôr em bicos dos pés, parecendo muito mais interessado em morder as canelas a Duarte Cordeiro, que sabe próximo de Pedro Nuno Santos com quem julga ter confronto marcado para daqui a alguns anos. E é injusto o reparo feito às debilidades de quem enfrenta a pandemia com assinalável empenho e competência, quando sabe que a persistência do traçado da curva de infetados pelo vírus na área metropolitana de Lisboa muito deve a uma realidade que não há quem possa alterá-la: a existência de muitos imigrantes não europeus, em grande parte indocumentados, que dão nomes e moradas falsas, quando lhes identificam a doença. Em concelhos do interior do país, onde todos se conhecem, não é difícil, rastrear as cadeias de transmissão. Mas numa enorme extensão urbana constituída por Lisboa e seus subúrbios que alternativa há para que a epidemia seja melhor controlada? Só o esforço coletivo no acatamento das regras ditadas pela DGS poderá produzir efetivos resultados.
Quanto a Ascenso Simões o caso é ainda mais fácil de verberar: o artigo do «Público» em que critica a intervenção do Estado na TAP lembra aquela fronteira que separa os audazes dos timoratos, aqueles que ousam atuar por ser essa a única forma de enfrentarem e vencerem as dificuldades ou os que se acoitam num refúgio à espera que a tormenta passe e voltem então a sair dessa zona de conforto. Normalmente costuma dizer-se que quem tem medo compra um cão. Parece conselho avisado para quem se dissocia tão absurdamente do que na TAP está verdadeiramente em causa...

sábado, 4 de julho de 2020

Os estéreis tacticismos de quem olha para o curto prazo


Não me surpreende a notícia em como o governo gastou menos com a crise do covid do que estimara inicialmente: em vez de um impacto de 2,5% no PIB ele fica-se pelos 1,7%. Na realidade isso confirma o que foi a prática imposta por Mário Centeno desde que assumiu o cargo de ministro das Finanças: enquanto diversas instituições nacionais e internacionais faziam contas à economia portuguesa e arriscavam previsões pouco abonatórias para o que proviesse das politicas do governo socialista, sempre se verificou terem feito contas erradas em anos sucessivos, enquanto as da equipa do ex-ministro resultavam invariavelmente certas por defeito.
João Leão, que teve papel determinante no sucesso dessa equipa mantém a lógica: daí que, contra as expetativas dos que salivam perante a ansiada queda em desgraça do governo de António Costa, nunca os factos contradizem aquilo com que se compromete.
Essa é a prática de quem considera fundamental manter as contas certas para que a justiça social se torne mais exequível. Nesse sentido António Costa tem razão em criticar o Bloco de Esquerda, o PCP e o PEV por insistirem num tacticismo, que privilegia os objetivos de curto prazo e subalterniza os que melhor defenderiam aqueles que supostamente defendem. Mas as direitas escusam de se iludir: apenas porque sabiam de antemão o voto do PSD é que puderam arriscar o sentido daquele com que reagiram ao Orçamento Suplementar. Soubessem que elas fariam coligação no voto contra, logo alinhariam ao lado do governo. Porque acaso o fizessem cair, boa parte do seu eleitorado não lhes perdoaria a tentação de voltarem a unir-se ao campo contrário para derrubarem quem apresenta resultados muito positivos. 

quinta-feira, 2 de julho de 2020

O homem certo no lugar certo!


A propósito da aquisição pelo Estado de uma posição maioritária no capital da TAP não resisto a contar uma história pessoal. Durante anos geri uma empresa de manutenção, que passou da lógica de pequenina e honrada, para uma maior ambição, que a tornou prestadora de serviços nalgumas das maiores marcas presentes no mercado, daquelas que todos conhecem por serem referências maiores quanto ao seu peso no PIB nacional.
Habituados ao contexto anterior muitos dos colaboradores - sobretudo a nível de encarregados gerais - vinham intimidados questionar-me como seria possível corresponderem a desafios novos tornados possíveis por ganharmos concursos, que obrigavam a sempre se contratar mais gente e subcontratar algumas competências de que ainda não dispúnhamos.
A minha reação era invariavelmente a mesma:
- Sei que não vai ser fácil, mas se o fosse não se justificaria que aqui estivéssemos! É por se tratar de desafio difícil, que somos nós a assumi-lo!
Felizmente a realidade deu-me razão: nos anos seguintes o volume de vendas esteve sempre a crescer e os critérios quantitativos e qualitativos dos clientes para apreciarem o nosso desempenho foram sempre positivos. Muitas vezes a considerarem-nos próximos da excelência.
Quando me reformei foi essa a herança, que passei a quem me sucedeu.
Vem isto a propósito de Pedro Nuno Santos que, merece da imprensa em geral uma permanente contestação. José Miguel Júdice fala dele como se fosse o Diabo em pessoa, o mano Costa da SIC tem de se conter para aceitar um tão flagrante ataque ao endeusamento que faz da «superior gestão das empresas pelos privados», para não falar de um tal Pedro Cruz, que diz o ministro desastrado, quando explica tim-tim por tim-tim o que os portugueses devem saber sobre a decisão agora tomada.
As direitas têm um ódio visceral contra quem sabem ser hábil negociador e o garante de que o interesse nacional sempre se sobreporá ao dos interesses ocultos de que os seus cabeças de cartaz servem de palavrosas marionetas.
De Pedro Nuno Santos sabe-se a importância que teve no acordo que, em novembro de 2015, possibilitou a formação de um governo socialista com apoio parlamentar das outras forças de esquerda. Enquanto secretário dos Assuntos Parlamentares desse governo garantiu que os quatro anos da legislatura fossem cumpridos. Coube-lhe, igualmente, enfrentar a mais do que duvidosa greve dos camionistas, capazes paralisarem o país e darem efémero palco a um já esquecido Pardal. O resultado foi negociar com eles uma saída airosa, que devolveu a tranquilidade aos portugueses e tirou de cena quem nela entrara para cumprir agendas pessoais, senão mesmo de mais abrangentes intenções.
E porque lá diz o ditado que não há duas sem três, tivemo-lo a concluir o trabalho iniciado quando houve que reverter a criminosa privatização decidida por Passos Coelho quando se sabia de malas aviadas para o caixote do lixo onde promete morrer. Os senhores das direitas podem não gostar do tom do ministro, quando em praça pública, ameaça com nacionalizações ou insolvências, mas a negociação é mesmo assim: em tempo de guerra não se limpam armas e justificam-se as estratégias mais adequadas para dobrar as intenções dos que afundaram a TAP e ainda se pretenderiam recompensados por isso. Apareceu até um anónimo deputado do CDS que até se mostrava disposto a dar o dito cujo e cinco tostões só para que a TAP não deixasse de ter o controle maioritário dos privados na Comissão Executiva, achando bem que o Estado lá metesse o dinheiro e nada controlasse sobre o seu uso.
Se confio em Pedro Nuno Santos como ministro incumbido deste dossier e merecerá o meu apoio em combates prometidos para o futuro - sobretudo contra quem, internamente, começa a sair da toca com medo de nela ficar retido no momento decisivo! - é porque corresponde àquilo que costumava dizer aos meus encarregados: se viabilizar a TAP e reestruturá-la de forma a dar resposta ao que o país dela precisa, fosse tarefa fácil, um qualquer José Gomes Ferreira podia ser para lá chamado e poderia mostrar na prática o «brilhantismo» das suas análises. Mas como se trata de desafio de enorme exigência para o qual importa criar todas as condições para o levar de vencida, Pedro Nuno Santos é o homem certo no lugar certo!

terça-feira, 30 de junho de 2020

Batidas as asas de uma borboleta


Nunca ninguém conseguiu provar que o bater de asas de uma borboleta no continente americano possa provocar um tufão no mar da China, mas a metáfora funciona bem para múltiplas situações em que um acontecimento localizado suscite reações exponencialmente detetáveis.
O hediondo crime cometido contra George Floyd alterou a tal ponto a realidade norte-americana, que Trump deverá, nesta altura, estar a pôr os poucos neurónios a fazerem horas extraordinárias a fim de procurarem alguma saída airosa, que venha a explicar o seu previsível desaire de novembro. Em poucos dias um dos estados onde maior peso têm os republicanos - o Mississipi - legislou de forma a alterar a bandeira onde ainda constava a reprodução da assumida pelos racistas do Sul durante a Guerra da Secessão. No Supremo Tribunal Trump julgava já ter maioria a favor da sua agenda e duas semanas bastaram para compreender o  engano: votação favorável à comunidade LGBT, aos dreamers  e ao direito a abortar puseram em estado de choque os seus atoleimados apoiantes. E Mark Zuckerberg teve de vir, em pânico, comunicar que ia impor avisos a mensagens de ódio espalhadas na sua rede, quando as ações do Facebook tiveram quebra significativa por se multiplicarem os anunciantes dispostos a cortarem-lhe as receitas por nada fazer contra quem visa sabotar a onda antirracista em curso no país.
Cá dentro o Aldrabão terá já pressentido que os tempos correm em seu desfavor. O primeiro sinal terá dado por quem julgava fiel aliado - o grupo Cofina - e levou-o a pretender-se mais moderado do que o seu discurso extremista pressupunha. Por isso, depois da retórica de ódio contra comunidades étnicas especificas decidiu organizar a manifestação de sábado, à qual apenas compareceram os prosélitos espalhados pelo país, normalmente aquele tipo de oportunistas, que falharam a possibilidade de serem alguém nos partidos tradicionais e buscaram alternativa neste que prometia ascensões fáceis tão só debitassem os preconceitos até então guardados no seu íntimo.
O flop foi indisfarçável. O tal sapo que queria inchar até parecer um boi ameaça não passar da dimensão de um texugo por não lhe sobrar fôlego para muito mais. E se a meia dúzia de pontos percentuais a colher nas presidenciais o poderão iludir, eles significarão para Ventura os oito conseguidos por Tino de Rans em 2016: uma mão cheia de nada.
Daí que justifique associar-me a Miguel Pompeia quando, nas redes sociais, questiona se o partido do Aldrabão chegará sequer às próximas legislativas. E para isso decerto contribuirá o responsável da tutela, que promete reprimir todos os polícias - alguns dos principais apoiantes do Chega - que dentro ou fora do Movimento Zero fazem política contrária ao ditado pela Constituição de que devem ser incondicionais zeladores. Para eles a morte de George Floyd também terá significado o dobre de finados sobre as suas práticas protoneofascistas.

segunda-feira, 29 de junho de 2020

Os prometedores sinais que vêm d’além-Pirenéus


A imprensa francesa dá os ecologistas como os grandes vencedores da segunda volta nas eleições municipais de ontem, mas prefiro realçar o sucesso dos socialistas, porque foram particularmente saborosas as vitórias de Anne Hidalgo em Paris e de Martine Aubry em Lille ou a humilhante derrota de Gérard Collomb em Lyon.
As duas primeiras mantiveram-se no partido, quando Macron fez sobre ele uma OPA agressiva após o desastre Hollande e viram confirmada a coerência e competência com o apoio dos seus munícipes. Quanto a Collomb, um dos trânsfugas para o reduto presidencial - sendo então premiado com o influente ministério do Interior -, de nada valeu aliar-se, em desespero de causa, a toda a direita, porque os leoneses cuidaram de o despachar para o merecido caixote do lixo onde cabem os oportunistas impossíveis de reciclar.
Para quem dava o partido de Mitterrand como moribundo com prognóstico de vida muito reservado, o resultado foi animador. A recuperação ainda demorará, mas está em curso, tanto mais que o partido de Macron conhecerá destino semelhante ao, entre nós, verificado com o eanista PRD e os Verdes assemelham-se ao nosso PAN: tão comuns são as divisões no seu seio, fruto da total indefinição programática, que vá além dos seus slogans de protesto. Tudo se conjuga para que os socialistas recuperem a histórica relevância, tanto mais que, em muitas autarquias foi possível unir todas as esquerdas numa demonstração plena das vantagens de se esquecerem as estéreis divisões, que as vinham dividindo. A União da Esquerda, que valeu a vitória da força tranquila em 1981, poderá estar a germinar para os combates seguintes.
Uma última constatação, igualmente, interessante, terá sido a quase ausência da extrema-direita dos Le Pen, mesmo com a exceção de Perpignan. Se o Aldrabão luso espera ganhar alento nos sucessos dos congéneres além-fronteiras, bem pode esperar sentado, porque eles vão de derrota em derrota até ao final definhamento.