sexta-feira, 27 de julho de 2018

Ai desconfio, desconfio...


Vai por aí grande gritaria a propósito dos novos programas escolares, surgindo vozes desatinadas a emitirem prognósticos apocalíticos. Não bastando os maledicentes do costume, também Manuel Alegre se junta ao festim confirmando a propensão para, em alturas inconvenientes, dar força a quem faz da guerrilha ao governo uma profissão de fé constante.
Já se disse e redisse que nunca «Os Maias» foi obra de leitura obrigatória, antes constituindo um cânone que, dentro da regra de se dar a conhecer a obra de Eça de Queirós, era tradicionalmente escolhida. Mas, mesmo que assim fosse, iria algum mal ao mundo por transitar para o leque das obras facultativas, que os alunos do secundário poderiam ou não ler de acordo com a sua liberdade de escolha? Eu pertenci a uma geração que não foi obrigada a ler essa obra, optando por outras que então me motivassem, e não foi por isso que julgo ter ficado mais burro. Até posso considerar, tantos anos passados, que tive maior prazer com «A Cidade e as Serras» do que com tal romance.
Ora o propósito do ensino do português não deveria ser balizado pela possibilidade de os alunos terem efetivo prazer na leitura das obras que pudessem escolher de acordo com as orientações dos professores e com as suas próprias apetências?
Manuel Alegre também diz cobras e lagartos de quem possa secundarizar Camões, considerando crime de lesa majestade o poupar-se aos petizes a obra do nosso consagrado poeta. Mais uma vez tenho de desacordar do vate de Águeda, causando decerto um coro de indignados com o que irei dizer com todas as letras: mesmo apreciando os sonetos, mesmo admirando o engenho de decassilabar a história da viagem à Índia e tudo quanto com ela se encadeia, nunca mais tive paciência para pegar n’«Os Lusíadas» desde que, nos bancos da escola, fui obrigado a dividir silabicamente os seus versos. A forma como a escola nos obrigava a «analisar» a obra, que os poderes políticos insistem em considerar a mais representativa da nossa Literatura, serviu-me de vacina para a colocar no meu índex pessoal. Decora-me a biblioteca, é certo, mas dificilmente, lhe voltarei a folhear as páginas.
Há, de facto, um debate por fazer sobre como se criarão hábitos de leitura desde o parque infantil, sobretudo em concorrência com a bulimia visual dada pelas televisões e pelos computadores. Por isso mesmo tenho grandes dúvidas sobre se se justifica a inoculação de novas imunizações à força de impor cânones desatualizados a quem tem mundividências totalmente diferentes da dos que hoje se exasperam com os novos programas escolares.
Nem sequer me disponho a defender estes últimos com grandes certezas quanto à sua bondade, mas quando servem de arma de arremesso contra o Governo, ai desconfio, desconfio... 

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