quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

O mesmo querer por caminhos diferentes


O post intitulado «Quod erat demonstrandum!» suscitou um comentário do nosso leitor Jaime Santos que, há há alguns meses que não nos privilegiava com a sua opinião crítica. É claro que, embora sejamos ambos apoiantes da atual solução governativa, há um enorme abismo entre a sua posição social-democrata e o meu reiterado pendor socialista. Por isso mesmo a questão que aqui se coloca é entre a impossibilidade constitucional de renacionalizar empresas, que nunca deveriam ter sido privatizadas ou a exequibilidade de o vir a fazer num novo quadro político, que torne exequível tal mudança. Imaginemos, por exemplo, que os indicadores continuamente positivos da economia e a crise das direitas reduzem-nas a menos de 1/3 dos deputados. Quem impediria essa Assembleia da República de alterar o articulado constitucional?
Claro que o Jaime Santos andará nesta altura a dizer algo do género «in your dreams, buddy!». Certo! Mas como diria o outro, eu sei que sou um “dreamer, but I’m not the only one!”. A História dos homens está recheada de muitos exemplos de sonhos, que vieram a converter-se em realidades. E, ao contrário do nosso estimado leitor, não me admiro nada com a forte probabilidade de ver Corbyn como próximo ocupante do 10 da Downing Street.
Aqui fica, pois, o comentário discordante do Jaime Santos, com um abraço sincero:
Há um pequeno problema, levantado pelo insuspeito Larry Elliot no Guardian, na última campanha eleitoral. Elliot, que apoia Corbyn, chamou-lhe 'a sleight of hand' (um truque de prestidigitação), eu chamo-lhe outra coisa, demagogia pura e simples. É que Corbyn não consignou um penny para as privatizações, que só no caso das utilities (águas e eletricidade) custariam, estimava Elliot, 50 mil milhões de libras.
Quero lá saber que isto seja popular, se a demagogia não fosse popular, os demagogos não recorreriam a ela. Quero é saber como Mariana Mortágua tenciona pagar as nacionalizações que defende, se não alinha, como eu espero que não alinhe, na demagogia de Corbyn. Não será com certeza recorrendo aos lucros das empresas, como defendeu Catarina Martins no debate com Costa em 2015, porque levaria muitos anos até conseguir-se isso.
Eu gostaria de lembrar às pessoas de Esquerda que a CRP, que tanto gostam de invocar, proíbe o confisco, pelo que não haverá expropriações como em 1975... A não ser que, claro, defendam a subversão da ordem constitucional... Portanto, ou mostram o jogo, ou tenho que concluir que isto não passa de mais um fogacho retórico para o BE se demarcar do Governo e parecer que não votou a favor, sem exceção, de todos os orçamentos de um Governo com um programa absolutamente centrista (nem sequer é social-democrata, como Mortágua bem frisa).
A diferença entre Costa e Centeno por um lado e Corbyn pelo outro é que os primeiros sabem bem que não podem recorrer a esta espécie de argumentos. Corbyn pode fazê-lo porque provavelmente nunca será eleito para implementar o seu programa e se o for, não o fará…
Já agora, quanto à crise do SPD que abordou noutro sítio, a Esquerda está em minoria na Alemanha pelo que não se coloca a questão do SPD governar com os Verdes e o Linke. E depois, as baixas intenções de voto refletem mais o caos interno que a coligação com a CDU... Uma casa dividida cai…!

1 comentário:

  1. A CRP não proíbe, contrariamente ao que diz, as nacionalizações. O meu caro interpreta-me mal. O que ela exige é que os proprietários sejam indemnizados em tal caso. Ou seja proíbe, e bem, o confisco. E no dia em que o PS alinhasse numa alteração constitucional dessa natureza (pôr em causa o direito á propriedade) eu ia votar na Direita, mal por mal...

    Convença-se, Jorge Rocha, duma coisa. Uma boa parte dos votantes do PS, nos quais eu me incluo, são originários do chamado centro político. Não queremos nacionalizações em massa (mas eu renacionalizaria, se pudesse, a REN, os CTT e a ANA, mas não há dinheiro para isso). E sem essas pessoas, a Esquerda nunca mais ganhará uma eleição que seja...

    Os partidos de Poder, como o PS, dependem de coligações de votantes, que não querem todos a mesma coisa. Por isso, o programa de Governo é sempre um mínimo denominador comum. O que a Geringonça demonstra é que todos são suficientemente pragmáticos e inteligentes para alinhar nesse programa e deixar a Direita fora do Poder.

    Por isso, Mortágua não tem razão quando diz que antes o PS escolheu sempre governar com a Direita. Não, a Esquerda antes é que quis sempre impor um programa que o PS só podia rejeitar, porque se o aceitasse não alienaria só os investidores e a Europa, mas também uma boa parte da sua base eleitoral.

    Sabe o que dizia Helmut Schmidt? Quem tem uma visão, faria melhor em ir ao médico... Sem ofensa. E calho de lhe lembrar que no último ano, o meu caro previu uma série de benesses para a Esquerda e a mais das vezes falhou as suas previsões. Não é nada de admirar, eu também falhei muitas, incluindo a de que a eleição britânica representaria o enterro político de Corbyn...

    O programa político que Mortágua propõe foi tentado recentemente, por via democrática, e falhou. E o resultado é a Venezuela à beira do despotismo e da miséria absoluta. Para soberania e melhoria das condições de vida dos mais desfavorecidos, estamos conversados...

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