quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

Cordialidade, lobbying e números elucidativos

1. Pode-se dizer que sabe a pouco, mas constitui mudança assinalável a boa educação, que volta a vigorar entre os líderes dos dois principais partidos nacionais, capazes de dialogarem sem arrogâncias nem despeitos, apenas pensando no que melhor poderá servir o interesse dos cidadãos. E dada como definitivamente morta e enterrada a malfadada fórmula do «arco da governação» torna-se natural que acordos alargados de regime interessem a todos os partidos e não apenas aos que costumavam ser tidos como os que neles deveriam ser implicados. Algo que Marcelo Rebelo de Sousa parece ainda não ter intuído, porque preocupado em apenas comprometer o do governo (hélas!) e o da sua particular estimação. Mas há coisas que nem com milhentos abraços ou selfies lhe conseguem traduzir os desejos em realidade...
2. Um dos antecessores de Rio na presidência do PSD - Durão Barroso - anda agora nas bocas do mundo por causa do efetivo lobbying em Bruxelas, junto da Comissão Europeia a quem prometera nunca tal vir a fazer. Mas, sendo exemplo típico do medíocre que, à custa de inesgotável arrivismo, conseguiu alcandorar-se muitos patamares acima do que justificavam os talentos, em que poderia justificar o ordenado da Goldman Sachs senão fazendo render a sua agenda de conhecimentos? Como comentava Rui Tavares no «Público» de hoje, essa sensação de nada de melhor ter a dar ao patrão senão o exercício da «cunha», mesmo que mais sofisticada, “ o mínimo que podemos dizer é que foi mais forte do que ele. Com Durão Barroso, é sempre mais forte do que ele.”
3. Um estudo da OCDE, citado por Nuno Serra no blogue «Ladrões de Bicicletas», mostra que, entre 2013 e 2015, Portugal era um dos piores países para trabalhar, tão elevada era a insegurança do mercado do trabalho e tão parcas as remunerações. O documento revela-se particularmente pertinente por responder eloquentemente aos insultos de Ferraz da Costa, quando se andou a carpir de sermos um país de madraços em que os pobres patrões se esforçam por encontrar alguém de jeito para trabalhar nas suas empresas.
Redarguia Marco Capitão Ferreira no «Expresso»: “os nossos trabalhadores são reconhecidos quando emigram, contratados cá pelas melhores empresas do Mundo. E não somos, não somos mesmo, um povo de pessoas que não querem trabalhar. Faltam-nos é patrões de jeito.”
O referido Nuno Serra não deixou de prever o conteúdo da próxima intervenção do antigo patrão da CIP, hoje à frente de um forum injustificadamente apaparicado pela imprensa e pelo inquilino de Belém: “perorar, muito preocupado, sobre o declínio demográfico e a quebra da natalidade em Portugal, apontando desta vez o dedo aos jovens casais pelo facto de não quererem ter filhos e, com o seu egoísmo, se recusarem a contribuir para a disponibilidade de mão-de-obra (de preferência barata), numa Europa demograficamente cada vez mais competitiva.”

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