sábado, 28 de março de 2026

André Ventura, o sodomita

Na apresentação pública da tradução do mais recente volume da sua monumental versão da Bíblia, o professor Frederico Lourenço abordou um tema pertinente: a adulteração sistemática dos textos originais por uma Igreja Católica apostada em impor a sua agenda ao longo da História da sua implantação.

O caso da destruição de Sodoma é paradigmático dessa manipulação. Durante séculos, a Igreja quis fazer crer que a cidade foi destruída por Deus devido às práticas sexuais dos seus habitantes — especificamente, a sodomia, termo que nem por acaso deriva do nome da cidade. A razão desta insistência era transparentemente instrumental: diabolizar práticas sexuais que limitavam o crescimento demográfico das hostes católicas. Mais fiéis, mais poder. Mais filhos, mais soldados de Cristo. A condenação moral da homossexualidade servia objetivos muito terrenos de expansão institucional.

Mas o texto rigorosamente vertido por Frederico Lourenço a partir do grego original conta história completamente diferente. Fala de anjos que chegaram a Sodoma para testarem o comportamento dos seus habitantes perante os estrangeiros, os diferentes, os que vinham de fora. E depararam com o ostracismo xenófobo de quem não tolerava essa presença, de quem via nos estrangeiros uma ameaça, de quem queria expulsá-los ou violentá-los pela simples razão de serem outros.

A condenação dos sodomitas resultava, afinal, não dos hábitos eventualmente praticados no recato da alcova — isso não interessava a Deus nem aos anjos — mas dessa atitude hostil para com quem vinha de fora ou vivia à margem dos seus usos e costumes. Sodoma foi destruída por xenofobia, não por homossexualidade. Foi punida pela recusa da hospitalidade, pelo ódio ao estrangeiro, pela violência contra os diferentes.

A Igreja adulterou esta mensagem durante séculos porque lhe convinha. Condenar a homossexualidade servia os seus interesses demográficos e de controlo social. Condenar a xenofobia — bem, isso seria inconveniente para uma instituição que tantas vezes praticou e legitimou a exclusão, a perseguição, a violência contra os que não se conformavam à sua norma.

Esta revelação de Frederico Lourenço — sustentada por rigor filológico impecável, não por agenda ideológica — tem consequências que vão muito para além da exegese bíblica. Tem consequências políticas imediatas e diretas.

Porque se a condenação de Sodoma foi motivada pela xenofobia e não pela homossexualidade, se o pecado dos sodomitas foi a hostilidade aos estrangeiros e não as suas práticas sexuais privadas, então temos de concluir o óbvio: na atual política lusa, André Ventura é biblicamente um ostensivo sodomita.

Ventura construiu toda a sua carreira política sobre a hostilidade aos estrangeiros. Os imigrantes são, no seu discurso, a fonte de todos os males: criminosos, parasitas, ameaça civilizacional. Quem vem de fora não merece hospitalidade — merece deportação, prisão, expulsão. Os ciganos, que vivem à margem dos costumes dominantes, não merecem integração — merecem ostracismo, perseguição, eliminação da vida pública.

É exactamente o comportamento que levou à destruição de Sodoma. É precisamente a atitude que os anjos vieram testar e que encontraram de forma tão flagrante que justificou o castigo divino. Ventura, pelos critérios bíblicos autênticos — não pelos adulterados pela Igreja ao longo dos séculos — é sodomita exemplar. Pratica o pecado de Sodoma na sua forma mais pura e mais condenável.

A ironia é deliciosa. Ventura, que tanto gosta de invocar a tradição cristã, que tanto apela aos "valores cristãos", que se apresenta como defensor da civilização judaico-cristã contra a "invasão" de estrangeiros, é afinal o protagonista perfeito do pecado que levou à destruição de Sodoma. Se os anjos viessem hoje testar Portugal, encontrariam em Ventura e nos seus seguidores exatamente aquilo que encontraram nos habitantes de Sodoma: ódio ao estrangeiro, recusa da hospitalidade, violência contra os diferentes.

E não é apenas Ventura. É toda a constelação política que se alimenta da xenofobia: os que querem fechar fronteiras, os que criminalizam a imigração, os que transformam o estrangeiro em bode expiatório, os que praticam a política do medo e do ódio ao outro. Todos eles, pelos critérios bíblicos autênticos, são sodomitas. Todos praticam o pecado que a Igreja passou séculos a esconder atrás de uma cortina de fumo sobre práticas sexuais.

Frederico Lourenço, ao restituir o texto bíblico à sua verdade original, fez mais do que trabalho filológico de excelência. Forneceu uma arma argumentativa poderosa contra aqueles que invocam a Bíblia para justificar precisamente aquilo que a Bíblia condena. Demonstrou que a mensagem autêntica das Escrituras não é a que a Igreja vendeu durante séculos, mas outra radicalmente diferente e politicamente inconveniente para os que se dizem seus defensores.

A Bíblia, afinal, não condena quem ama diferentemente. Condena quem odeia os diferentes. Não castiga práticas sexuais privadas. Castiga a violência pública contra estrangeiros. Não pune Sodoma pela homossexualidade, mas pela xenofobia.

E se aplicarmos este critério bíblico autêntico à política portuguesa contemporânea, a conclusão é inescapável: Ventura e os seus são os verdadeiros sodomitas. Não no sentido que a Igreja adulterou e impôs durante séculos, mas no sentido que o texto original sempre teve e que Frederico Lourenço finalmente restituiu.

Pode ser que os anjos não venham. Pode ser que não haja fogo celeste a destruir os xenófobos contemporâneos. Mas pelo menos agora sabemos, graças ao rigor filológico de um helenista português, que quando Ventura invoca os valores cristãos para justificar o seu ódio aos imigrantes, está a invocar precisamente aquilo que a Bíblia condena.

Sodoma foi destruída por gente como Ventura. E essa, convenhamos, é uma ironia que nenhuma adulteração eclesiástica conseguirá apagar.

quinta-feira, 26 de março de 2026

Montenegro em queda livre e o PS a aferir o rumo

 

A sondagem do ISCTE publicada no Expresso de sábado veio confirmar o estado de desgraça em que o governo de Montenegro está a cair. Não é flutuação estatística, não é momento conjuntural difícil, não é azar político, antes a constatação objetiva deste governo não ter competência nem estratégia para responder aos problemas mais candentes para os eleitores: a saúde, a habitação, a qualidade de vida.

Os números são implacáveis. A popularidade de Montenegro desmorona-se. A confiança no Governo evapora-se. E isto acontece não por acidente, mas por incapacidade demonstrada repetidamente. As tempestades Kristin e seguintes expuseram a incompetência na gestão de crises. O pacote laboral revelou o desprezo pelos trabalhadores. O PTRR demonstrou que há muita propaganda, mas pouca execução. E na saúde, na habitação, na contenção da inflação — nos problemas que realmente importam às pessoas — há apenas discursos vazios e promessas incumpridas.

Montenegro governa como sempre viveu politicamente: à base de cartadas táticas, de golpes mediáticos, de nomeações salvadoras que afinal nada salvam. Mas tática sem estratégia é apenas improviso desesperado. E o eleitorado começa a perceber isso. A nomeação de Luís Neves foi a última cartada — e já não resultou. As pessoas perceberam que mudar ministros não resolve problemas quando o problema é a ausência total de visão e competência no topo.

Enquanto Montenegro afunda, o Chega continua a somar escândalos que o confirmam como o verdadeiro covil da malfeitores. Depois da namorada do líder do partido na Câmara Municipal de Lisboa andar a alugar tugúrios a emigrantes — explorando-lhes a vulnerabilidade que Ventura quer ainda mais agudizar — é agora o caso do candidato autárquico apanhado em flagrante a abusar da própria filha.

Que o Chega ainda não seja ilegalizado enquanto associação de delinquentes é mistério que não carece de maiores evidências. As provas acumulam-se: ligações a grupos neonazis, membros detidos por violência xenófoba, corrupção, exploração de imigrantes, abuso de menores. Não são casos isolados — é um padrão sistemático. O Chega atrai criminosos porque é essencialmente uma organização mafiosa disfarçada de partido político.

Mas a ilegalização não virá. Porque exigiria coragem política que este regime não tem. Porque beneficia Montenegro ter o Chega como espantalho — enquanto as atenções se focam no fascismo explícito de Ventura, a incompetência devastadora de Montenegro passa mais despercebida. E porque, no fundo, demasiados na direita ainda acham que podem instrumentalizar o Chega para os seus próprios fins. Não podem. Mas só perceberão isso quando for tarde demais.

No PS, para minha grata expectativa, começam a emergir vozes dissonantes desmentindo o suposto unanimismo em torno de José Luís Carneiro. E ainda bem. Não tendo uma direção que corresponda ao que deve ser um verdadeiro Partido Socialista, importa vê-lo a ajustar-se a algo mais conforme com o exemplo vindo dos vizinhos ibéricos.

Em Espanha, o PSOE de Sánchez governa com clareza ideológica, defendendo trabalhadores, investindo em serviços públicos, confrontando a direita e a extrema-direita sem hesitações. Não é perfeito, tem contradições, mas é inequivocamente um partido de esquerda que não tem medo de se assumir como tal. Em Portugal, o PS sob Carneiro parece ainda preso à lógica do consenso centrista, da moderação excessiva, do medo de desagradar ao establishment económico.

As vozes dissonantes que começam a emergir podem ser o sinal de que uma parte do partido percebe que este caminho não leva a lado nenhum. Que o país precisa de uma alternativa clara à direita incompetente de Montenegro e ao fascismo do Chega. Que essa alternativa não pode ser apenas "gestão competente do mesmo modelo" mas tem de ser projeto alternativo de sociedade. Que socialismo não é palavrão nem nostálgica relíquia do século XX, mas resposta necessária e atual aos problemas concretos das pessoas.

Carneiro pode ser o timoneiro de transição que mantenha o barco à tona enquanto essa alternativa se estrutura. Mas não pode ser mais do que isso. E se as vozes dissonantes ganharem força, e conseguirem disputar a direção do partido, se conseguirem puxá-lo para um programa verdadeiramente socialista — então talvez o PS volte a ser relevante como força de transformação social e não apenas como alternativa técnica à incompetência da AD.

E quando, perante este panorama, se proclama ainda faltarem mais de três anos para nos livrarmos de Montenegro, eu não seria tão taxativo. Nem o caso Spinumviva está encerrado — continua por esclarecer, a cheirar mal, a ser potencial bomba política que pode explodir a qualquer momento. Nem se anteveem grãos de asa para implementar as soluções que a inflação galopante criada pelas tontices de Trump criará.

Porque Trump, na guerra errática contra o Irão, no fecho do Estreito de Ormuz, na política económica caótica, está a criar as condições para um choque inflacionista global que fará parecer pálida a inflação pós-pandemia. Quando os preços da energia dispararem, quando o custo de vida se tornar insustentável para a maioria das famílias, quando a recessão bater à porta — Montenegro não terá respostas. Não tem competência técnica para gerir crise económica dessa magnitude. Não tem legitimidade política para pedir sacrifícios. Não tem estratégia para proteger os mais vulneráveis.

E quando isso acontecer o governo cairá. Por moção de censura, por implosão interna da AD, ou simplesmente porque se torna insustentável continuar a fingir que governa quando só está a afundar o país.

Três anos parece muito tempo. Mas em política, três anos pode ser uma eternidade ou pode ser três meses quando as circunstâncias mudam abruptamente. E as circunstâncias estão a mudar. A sondagem do ISCTE é apenas o primeiro sinal visível de uma tendência que se acelera. Montenegro em queda livre, o Chega exposto como organização criminosa, o PS à procura de um rumo que o volte a tornar relevante.

O que acontecerá a seguir depende de muita coisa. Mas uma certeza já existe: este governo não durará os três anos que alguns lhe profetizam. Ou porque cai politicamente antes disso, ou porque quando chegar o momento das próximas eleições já estará tão desacreditado que a derrota será monumental.

E talvez essa seja a única boa notícia num panorama político tão desolador: a incompetência também tem limites. E Montenegro está rapidamente a aproximar-se deles.

terça-feira, 17 de março de 2026

A Guerra dos Megalómanos

 

Não fosse trágica em várias dimensões e a guerra lançada por Trump e Netanyahu contra o Irão seria cómica pelos palpos de aranha em que se debatem. Ali está Trump a pedir apoio aos aliados para reabrir o Estreito de Ormuz e a embater sistematicamente na recusa desses mesmos aliados. Entre o poltrão que proclama não precisar de ninguém porque tem "o exército mais forte do mundo" e o mendigo diplomático que implora ajuda à NATO que acabou de ameaçar, ele ciranda numa inconstância que melhor denuncia o caso patológico que dará matéria de estudo para gerações de historiadores.

A sequência dos acontecimentos tem algo de farsa. Trump rapta Maduro, bombardeia a Venezuela, apodera-se do seu petróleo, proclama o regresso da América imperial. Sente-se invencível. Ameaça a Gronelândia, intimida a Dinamarca, desdenha dos europeus. Depois recua em Davos. Adia o ataque ao Irão. Volta a ameaçar. Volta a recuar. E agora, depois de finalmente ter lançado a operação militar contra o Irão — em conjunto com Netanyahu, esse outro megalómano em fuga permanente para a frente — descobre que fechar o Estreito de Ormuz tem consequências que nem todo o poderio militar americano consegue resolver sozinho.

O Estreito de Ormuz não é a Venezuela. Não é um país empobrecido por anos de sanções, com infraestruturas militares degradadas, isolado diplomaticamente. É o ponto de estrangulamento por onde passa cerca de um quinto do petróleo mundial. Fechá-lo — ou pior, vê-lo fechado pelo Irão em retaliação — significa colapso energético global, preços do crude estratosféricos, recessão mundial. E reabri-lo à força, contra a resistência iraniana, exige não apenas poder militar, mas capacidade logística, apoio regional e coordenação internacional que Trump

simplesmente não tem.

Daí as súplicas aos aliados europeus com a tentativa desesperada de mobilizar a NATO para uma guerra que esta nunca quis, numa região que não está coberta pelo Tratado do Atlântico Norte, contra um adversário que não ameaça diretamente território algum dos membros da Aliança.

E os aliados dizem não. A França diz não. A Alemanha diz não. O Reino Unido hesita mas também diz não. A Espanha, a Itália, até a Polónia — todos dizem não. Porque perceberam, mesmo que tardiamente, que esta guerra não é sobre segurança internacional, não é sobre defender a ordem mundial, não é sequer sobre conter uma ameaça real. É sobre a sobrevivência política pessoal de dois homens: Trump, que precisa de cortinas de fumo sobre os ficheiros Epstein e o colapso da credibilidade americana; Netanyahu, que precisa de guerra permanente para evitar o tribunal que o espera quando a paz chegar.

A recusa europeia expõe a nudez do imperador. Trump que dizia não precisar de aliados, que ameaçava abandonar a NATO, que insultava os europeus chamando-lhes parasitas do sistema de segurança americano, descobre agora que afinal precisa deles, dos seus navios, bases, legitimação política, e apoio logístico. E descobre também que queimar pontes tem consequências — quando se precisa atravessar o rio, já não há ponte disponível.

Netanyahu, esse, sempre soube que precisava dos americanos. Nunca teve ilusões de autonomia estratégica. Mas contava que Trump arrastasse os europeus, como tantas vezes aconteceu no passado. Contava que a pressão americana sobre Bruxelas, Paris, Berlim acabaria por forçar a participação europeia, ainda que relutante. Enganou-se. Desta vez os europeus perceberam que seguir Trump para mais esta guerra seria suicídio político interno e desastre estratégico externo.

E assim temos o espetáculo grotesco de Trump a cirandar entre a arrogância e a súplica. Num dia proclama que a América não precisa de ninguém, que tem o exército mais poderoso da história, que pode fazer o que quiser quando quiser. No dia seguinte telefona a líderes europeus pedindo navios, bases, apoio político. Volta a ameaçar — se não ajudarem, sairá da NATO, abandonará a Europa à própria sorte. Volta a suplicar — por favor, precisamos de vós, não podemos fazer isto sozinhos.

É a inconstância patológica de quem perdeu completamente o controlo da narrativa e da estratégia. É o comportamento errático de quem age por impulso, não por planeamento. É a evidência clara de deterioração cognitiva ou, na melhor das hipóteses, de total inadequação para o cargo que ocupa.

Os historiadores do futuro — se houver futuro, se esta guerra não escalar para catástrofe civilizacional — estudarão este episódio como caso paradigmático de liderança disfuncional em momento crítico. Estudarão como foi possível que o homem mais poderoso do mundo, comandante do arsenal militar mais formidável alguma vez reunido, se tenha metido numa guerra que não sabe como vencer, que não consegue justificar aos aliados, que não tem apoio interno sustentável, que pode colapsar a economia global.

Estudarão também como Netanyahu, político astuto e experiente, se deixou arrastar para uma escalada que pode destruir Israel enquanto projeto nacional. Porque esta guerra contra o Irão não é como as operações em Gaza ou no Líbano. É guerra contra potência regional com capacidade de retaliação efetiva, com mísseis que chegam a todo o território israelita, com aliados que podem abrir múltiplas frentes simultaneamente. E se Israel ficar isolado — se os americanos não conseguirem manter o Estreito aberto, se os europeus se recusarem a participar, se a opinião pública global se virar definitivamente contra a operação — Netanyahu pode ter finalmente conduzido o país ao desastre que sempre temeu.

Esta guerra é trágica para os iranianos que morrem sob os bombardeamentos, para os israelitas que vivem sob ameaça de retaliação, para a economia global que pode colapsar se o Estreito permanecer fechado e para a ordem internacional, já de si moribunda, que recebe mais este golpe mortal.

E no centro desta tragédia, dois homens arrastam o mundo para uma guerra que não conseguem vencer, não sabem como terminar e pode destruir muito mais do que imaginam.

No futuro perguntar-se-á como é que deixámos que isto acontecesse, quando todos os sinais estavam lá e sobravam vozes a alertar para quão mal poderia acabar?

A resposta, provavelmente, será a mesma de sempre: porque enquanto os megalómanos cirandavam na sua inconstância patológica, o resto do mundo preferiu fingir que estava tudo bem. Até ao dia em que já não estava.

domingo, 15 de março de 2026

Ambições Desmedidas e Cometas Moribundos

 

A História tem uma forma peculiar de ensinar sempre a mesma lição aos que se recusam a aprendê-la: quando a ambição é desmedida e o poder se julga ilimitado, o ricochete pode ser devastador. Napoleão marchou sobre Moscovo convencido da sua invencibilidade. Regressou com os destroços de um exército fantasma, arrastando atrás de si o princípio do fim do império que construíra. Hitler lançou-se sobre a União Soviética certo de que o Reich duraria mil anos. Durou doze, e os últimos foram uma agonia sangrenta que terminou num bunker em Berlim.

Hoje assistimos a dois megalómanos que parecem determinados a replicar estes padrões históricos com uma fidelidade quase obscena. Trump e Netanyahu, cada um à sua maneira, cada um com as suas motivações particulares, estão a lançar-se em aventuras militares que podem acabar por os destruir — e arrastar muita gente com eles no processo.

Trump rapta presidentes, ameaça países, proclama a reconquista imperial da América. Mas cada ação errática, cada ameaça não cumprida, cada recuo tático disfarçado de vitória estratégica mina a credibilidade do poder americano. A operação na Venezuela pode ter sido militarmente bem-sucedida, mas foi desastre diplomático. O assédio à Gronelândia acabou em recuo. O ataque ao Irão continua adiado sine die. Trump descobre, lentamente, que raptar Maduro não é o mesmo que enfrentar potências que podem ripostar. E enquanto isso, os ficheiros Epstein continuam a ser revelados, mostrando ligações que Trump preferiria manter enterradas. A nuvem de poeira que tenta levantar com guerras e ameaças pode não ser suficiente para encobrir o que está a ser exposto.

Netanyahu, por seu lado, multiplica frentes de guerra — Gaza, Líbano, Síria, Irão por procuração — numa fuga permanente para a frente que tem um objetivo claro: adiar indefinidamente a condenação judicial que o espera quando a guerra acabar. Cada nova operação militar é também uma operação de sobrevivência política pessoal. Cada escalada é também um adiamento do dia em que terá de responder em tribunal. Mas as guerras não duram eternamente, e quando esta acabar — e acabará — Netanyahu descobrirá que apenas adiou o inevitável enquanto destruía o que restava da reputação internacional de Israel.

A ambição desmedida não é exclusivo de megalómanos imperiais. Também a tiveram a ministra do Trabalho, Rosário Palma Ramalho, e o chefe da CIP ao tentarem impor uma lei laboral que esmaga direitos conquistados ao longo de décadas. Julgavam-se intocáveis, achavam que podiam fazer passar o que quisessem, confiavam que a fragmentação sindical e a passividade social lhes dariam margem para destruir o que restava de proteção aos trabalhadores.

Enganaram-se. A dimensão da greve geral travou-os. E a eleição de António José Seguro para Belém — por muito pouco que dele espere em termos de intervenção ativa — pode ter o efeito adicional de refrear os ímpetos de quem percebeu que a correlação de forças mudou. Seguro não será o presidente interventivo que bloqueará sistematicamente legislação regressiva, mas também não será o Marcelo que facilitou tudo à direita. E essa diferença, ainda que pequena, ainda que insuficiente, pode ser suficiente para tornar mais difícil a passagem de leis como esta.

O recuo tático sobre a lei laboral não significa vitória definitiva — significa apenas que perceberam que não tinham força para impor neste momento aquilo que pretendiam. Voltarão à carga, com outras formulações, outros timings, outras estratégias. Mas a greve demonstrou que há limites. E isso, por si só, já é algo.

No PS, a recondução de José Luís Carneiro como líder com uma votação ao estilo norte-coreano não me entusiasma. Estas unanimidades fabricadas, estas votações sem contestação aparente, estas coroações sem debate são sempre suspeitas. Mas reconheço a lógica conjuntural: numa altura de transição para uma agudização previsível das lutas sociais — propiciada pelos efeitos danosos da guerra no Médio Oriente na qualidade de vida da generalidade da população, pela inflação persistente, pela precarização crescente — justifica-se ter um timoneiro que mantenha a proa em direção à vaga.

Não é a liderança ideal. Não é sequer a liderança que eu desejaria. Mas é a que dá estabilidade num momento em que o PS precisa de espaço para que outra liderança, mais conforme com os objetivos programáticos de um partido verdadeiramente socialista, se possa afirmar. José Luís Carneiro não é essa liderança — mas pode ser a ponte para que ela emerja. E isso, neste momento, pode ser suficiente.

E depois há o regresso do cometa Passos Coelho. Como todos os cometas que regularmente vêm pretender dar conta de que ainda estão vivos, Passos ressurgiu da sua toca para causar algum estardalhaço junto dos que o veem como uma espécie de Sebastião regressado do deserto de Alcácer Quibir para salvar a pátria. Esquecem-se, esses sebastianistas tardios, que o rasto de cada cometa vai diminuindo-lhe a expressão sempre que se aproxima do sol em redor do qual roda.

Passos Coelho deixou o país arrasado, a economia destroçada, a sociedade empobrecida, os serviços públicos demolidos. Foi derrotado eleitoralmente, afastou-se, e agora regressa como se tivesse algo de novo a oferecer. Não tem. É apenas mais um apaniguado do mesmo campo entrincheirado — a exemplo de Portas, de Durão Barroso, de todos os outros que se julgaram indispensáveis e descobriram que não eram.

Passos está fadado a ficar como a esperança moribunda de uma ideologia que se vai exprimindo cada vez mais caricaturalmente. E a melhor demonstração dessa caricatura é a forma como Carlos Moedas exerce o seu pífio poder em Lisboa: muita propaganda, pouca execução; muitos powerpoints, poucos resultados; muita pose, pouca substância; umas quantas nomeações escandalosas e uns não menos impactantes saneamentos. Moedas é o que Passos representou levado ao paroxismo — a direita tecnocrata que se julga moderna mas é apenas incompetente vestida de fato caro.

O regresso de Passos não assusta. Incomoda, talvez. Mas sobretudo revela a pobreza intelectual e política de uma direita que, não tendo figuras novas nem ideias renovadas, tem de reciclar os destroços do passado e apresentá-los como futuro. É patético, mais do que perigoso.

Ambições desmedidas, cometas moribundos, guerras como fuga para a frente, leis laborais como assalto a direitos conquistados — tudo isto faz parte do mesmo padrão: um sistema em crise que se radicaliza, que ataca os mais fracos, que multiplica conflitos externos para esconder contradições internas, que recicla fracassos passados porque não tem futuro para oferecer.

A História ensina que estes processos terminam sempre mal para quem os protagoniza. Napoleão acabou exilado. Hitler suicidou-se no bunker. Trump e Netanyahu podem ainda achar que são diferentes, que a História não se aplica a eles, que desta vez será diferente. Não será. A ambição desmedida sempre teve o mesmo destino. E quando o ricochete vier — e virá — descobrirão que afinal não eram tão poderosos quanto imaginavam.

Quanto a Passos Coelho e aos seus epígonos lisboetas, o destino será mais banal, mas igualmente definitivo: o esquecimento. Porque os cometas, por mais brilhantes que pareçam quando regressam, vão perdendo massa a cada órbita. E quando finalmente se desintegram, ninguém se lembra que um dia pareceram importantes.