quinta-feira, 26 de março de 2026

Montenegro em queda livre e o PS a aferir o rumo

 

A sondagem do ISCTE publicada no Expresso de sábado veio confirmar o estado de desgraça em que o governo de Montenegro está a cair. Não é flutuação estatística, não é momento conjuntural difícil, não é azar político, antes a constatação objetiva deste governo não ter competência nem estratégia para responder aos problemas mais candentes para os eleitores: a saúde, a habitação, a qualidade de vida.

Os números são implacáveis. A popularidade de Montenegro desmorona-se. A confiança no Governo evapora-se. E isto acontece não por acidente, mas por incapacidade demonstrada repetidamente. As tempestades Kristin e seguintes expuseram a incompetência na gestão de crises. O pacote laboral revelou o desprezo pelos trabalhadores. O PTRR demonstrou que há muita propaganda, mas pouca execução. E na saúde, na habitação, na contenção da inflação — nos problemas que realmente importam às pessoas — há apenas discursos vazios e promessas incumpridas.

Montenegro governa como sempre viveu politicamente: à base de cartadas táticas, de golpes mediáticos, de nomeações salvadoras que afinal nada salvam. Mas tática sem estratégia é apenas improviso desesperado. E o eleitorado começa a perceber isso. A nomeação de Luís Neves foi a última cartada — e já não resultou. As pessoas perceberam que mudar ministros não resolve problemas quando o problema é a ausência total de visão e competência no topo.

Enquanto Montenegro afunda, o Chega continua a somar escândalos que o confirmam como o verdadeiro covil da malfeitores. Depois da namorada do líder do partido na Câmara Municipal de Lisboa andar a alugar tugúrios a emigrantes — explorando-lhes a vulnerabilidade que Ventura quer ainda mais agudizar — é agora o caso do candidato autárquico apanhado em flagrante a abusar da própria filha.

Que o Chega ainda não seja ilegalizado enquanto associação de delinquentes é mistério que não carece de maiores evidências. As provas acumulam-se: ligações a grupos neonazis, membros detidos por violência xenófoba, corrupção, exploração de imigrantes, abuso de menores. Não são casos isolados — é um padrão sistemático. O Chega atrai criminosos porque é essencialmente uma organização mafiosa disfarçada de partido político.

Mas a ilegalização não virá. Porque exigiria coragem política que este regime não tem. Porque beneficia Montenegro ter o Chega como espantalho — enquanto as atenções se focam no fascismo explícito de Ventura, a incompetência devastadora de Montenegro passa mais despercebida. E porque, no fundo, demasiados na direita ainda acham que podem instrumentalizar o Chega para os seus próprios fins. Não podem. Mas só perceberão isso quando for tarde demais.

No PS, para minha grata expectativa, começam a emergir vozes dissonantes desmentindo o suposto unanimismo em torno de José Luís Carneiro. E ainda bem. Não tendo uma direção que corresponda ao que deve ser um verdadeiro Partido Socialista, importa vê-lo a ajustar-se a algo mais conforme com o exemplo vindo dos vizinhos ibéricos.

Em Espanha, o PSOE de Sánchez governa com clareza ideológica, defendendo trabalhadores, investindo em serviços públicos, confrontando a direita e a extrema-direita sem hesitações. Não é perfeito, tem contradições, mas é inequivocamente um partido de esquerda que não tem medo de se assumir como tal. Em Portugal, o PS sob Carneiro parece ainda preso à lógica do consenso centrista, da moderação excessiva, do medo de desagradar ao establishment económico.

As vozes dissonantes que começam a emergir podem ser o sinal de que uma parte do partido percebe que este caminho não leva a lado nenhum. Que o país precisa de uma alternativa clara à direita incompetente de Montenegro e ao fascismo do Chega. Que essa alternativa não pode ser apenas "gestão competente do mesmo modelo" mas tem de ser projeto alternativo de sociedade. Que socialismo não é palavrão nem nostálgica relíquia do século XX, mas resposta necessária e atual aos problemas concretos das pessoas.

Carneiro pode ser o timoneiro de transição que mantenha o barco à tona enquanto essa alternativa se estrutura. Mas não pode ser mais do que isso. E se as vozes dissonantes ganharem força, e conseguirem disputar a direção do partido, se conseguirem puxá-lo para um programa verdadeiramente socialista — então talvez o PS volte a ser relevante como força de transformação social e não apenas como alternativa técnica à incompetência da AD.

E quando, perante este panorama, se proclama ainda faltarem mais de três anos para nos livrarmos de Montenegro, eu não seria tão taxativo. Nem o caso Spinumviva está encerrado — continua por esclarecer, a cheirar mal, a ser potencial bomba política que pode explodir a qualquer momento. Nem se anteveem grãos de asa para implementar as soluções que a inflação galopante criada pelas tontices de Trump criará.

Porque Trump, na guerra errática contra o Irão, no fecho do Estreito de Ormuz, na política económica caótica, está a criar as condições para um choque inflacionista global que fará parecer pálida a inflação pós-pandemia. Quando os preços da energia dispararem, quando o custo de vida se tornar insustentável para a maioria das famílias, quando a recessão bater à porta — Montenegro não terá respostas. Não tem competência técnica para gerir crise económica dessa magnitude. Não tem legitimidade política para pedir sacrifícios. Não tem estratégia para proteger os mais vulneráveis.

E quando isso acontecer o governo cairá. Por moção de censura, por implosão interna da AD, ou simplesmente porque se torna insustentável continuar a fingir que governa quando só está a afundar o país.

Três anos parece muito tempo. Mas em política, três anos pode ser uma eternidade ou pode ser três meses quando as circunstâncias mudam abruptamente. E as circunstâncias estão a mudar. A sondagem do ISCTE é apenas o primeiro sinal visível de uma tendência que se acelera. Montenegro em queda livre, o Chega exposto como organização criminosa, o PS à procura de um rumo que o volte a tornar relevante.

O que acontecerá a seguir depende de muita coisa. Mas uma certeza já existe: este governo não durará os três anos que alguns lhe profetizam. Ou porque cai politicamente antes disso, ou porque quando chegar o momento das próximas eleições já estará tão desacreditado que a derrota será monumental.

E talvez essa seja a única boa notícia num panorama político tão desolador: a incompetência também tem limites. E Montenegro está rapidamente a aproximar-se deles.

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