O
jovem iraquiano que estuda no ISCTE não tem culpa da precariedade portuguesa.
Não tem culpa de Montenegro ser incompetente. Não tem culpa da crise energética
causada por Trump e Netanyahu. Não tem culpa de Portugal ser o 4.º país da UE
com maior precariedade juvenil.
Mas
foi ele quem apanhou. Porque estava ali. Porque vinha de fora. Porque uma
chusma de jovens cobardes precisava de alguém para agredir e ele estava
disponível.
E os
facínoras que o agrediram também não são responsáveis únicos. São produto de
sistema que os condena a precariedade, de discurso político que normaliza
xenofobia, de desgoverno que ignora realidade, de educação que ensina valores
mas não consegue fazê-los interiorizar.
Não
os desculpa. Mas explica. E compreender a explicação é primeiro passo para
prevenir que se repita.
Porque enquanto houver governos como o de Montenegro — que cantam hinos em vez de responder perguntas, que proclamam investimentos em vez de melhorar vidas, que se comparam a Cavaco em vez de se envergonharem dessa comparação — continuará a haver jovens precários. E alguns desses jovens precários continuarão a transformar frustração legítima em violência ilegítima.
O círculo vicioso só se quebra quando se
quebra a precariedade. E a precariedade só se quebra quando há governos que
governam para as pessoas e não para os powerpoints, que enfrentam realidade em
vez de a ignorar, que combatem xenofobia em vez de a tolerarem.
Não
é este Governo. Não será enquanto Montenegro estiver ao leme. E enquanto assim
for, haverá mais Alamedas, mais violências gratuitas, mais jovens iraquianos
agredidos por chusmas de jovens portugueses que podiam ser melhor e escolheram
ser pior.
Portugal,
4.º na precariedade juvenil. Primeiro na hipocrisia governamental. E no meio
disto tudo, um estudante estrangeiro espancado por quem deveria recebê-lo como
colega, não como inimigo.
Envergonha.
Mas não surpreende. Porque esta é a Portugal que Montenegro constrói enquanto
canta hinos e se compara a Cavaco.
Uma
Portugal onde quase ninguém está bem, e quase todos estão de mal a pior.
Incluindo — especialmente — os jovens que deveriam ser futuro e são apenas
frustração à procura de bodes expiatórios.


