sexta-feira, 29 de maio de 2026

O Velho do Restelo e o “Catedrático” de Massamá

 


Hoje as direitas extremas suspiram pelo golpe que deu origem a quarenta e oito anos de ditadura. O 28 de maio é uma data que não precisa de comentário — precisa de memória. E a memória, neste país, tem o feitio conveniente de encurtar quando incomoda.

O Velho do Restelo, na epopeia de Camões, tinha razão na substância: via partir os compatriotas em detrimento da terra pobre em que viviam, para irem buscar riquezas além-mar que redundariam no infame tráfico negreiro. Era uma voz incómoda porque era uma voz certa. O que nos chegou esta semana da Faculdade de Direito de Lisboa tem a forma mas não o conteúdo.

Pedro Passos Coelho apresentou um livro. A assistir, com a satisfação de quem reconhece o território, estava André Ventura. O antigo primeiro-ministro falou durante quase uma hora, sem nomear ninguém, sobre políticos que para agradar a todos se tornam "postiços" — "prostitutos sem carácter", disse, com a palavra intacta. O seu frankenstein aplaudiu e foi para Belém contar aos jornalistas que Passos se estava a referir ao Governo. Claro que sim. Tudo é sempre sobre o Governo. O auditório era o acessório.

A questão não é o que Passos disse. A questão é onde o disse e para quem o disse. Há uma diferença entre criticar o poder e fazê-lo sentado ao lado de quem quer substituí-lo pelos piores métodos. Passos sabe disso. Escolheu o auditório, escolheu a primeira fila, escolheu o silêncio sobre o que ainda o separa de Ventura — que é, ou era, bastante. Francisco Mendes da Silva observa que ele adotou o tom cada vez mais dececionado de quem acreditou que o caso Spinumviva era a rampa de lançamento para o poder, e vê os meses a passar, os amigos "escritores" a minguar nas apresentações de livros e se sente reduzido à condição de voz que clama do deserto. Para uma corte de fiéis desnorteados pelo insucesso do seu proselitismo.

O Velho do Restelo falava sozinho no cais. Estes falam em conjunto, com microfone e câmaras, e chamam-lhe democracia.

A democracia que se comemora — a de abril, não a de maio de 1926 — custou o suficiente para não ser confundida com isto.

28 de maio de 2026

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