sexta-feira, 1 de maio de 2026

Desatinado desgoverno

 

Montenegro equipara-se a Cavaco Silva — exemplo pífio entre os pífios — para enaltecer a sua alegada "capacidade" em investir milhões na economia e manter as miríficas contas certas. Em contraponto José Luís Carneiro constata o óbvio: temos um desgoverno que é completamente avesso a querer entender a realidade em que vivem os portugueses.

Porque a realidade é esta: o custo de vida aumenta vertiginosamente a um ritmo que é bem pior que o da média das economias europeias. E se essas economias também estão acossadas pelos efeitos da crise energética causada pela agressão trumpista-sionista ao Irão —em Portugal o impacto é mais brutal porque partimos de rendimentos mais baixos, de menor capacidade de poupança, de redes de proteção social mais frágeis.

Montenegro faz conferências de imprensa espalhafatosas onde proclama investimentos e apresenta gráficos coloridos. Obriga ministros a cantar o hino nacional para evitar responder a perguntas. Compara-se a Cavaco como se isso fosse elogio e não insulto à inteligência de quem se lembra do que foi esse Portugal cavaquista de desigualdades crescentes e de privatizações ruinosas.

E enquanto isto, as famílias portuguesas veem o poder de compra evaporar-se, os jovens enfrentam precariedade estrutural, a habitação torna-se inacessível, os serviços públicos colapsam. E alguns desses jovens — frustrados, sem perspetivas, alimentados por discurso xenófobo que Ventura normaliza e que Montenegro não combate — descarregam a raiva em estudantes estrangeiros na Alameda. 

Há uma linha de ligação direta entre tudo isto. Entre o desgoverno de Montenegro que ignora as condições reais de vida das pessoas. Entre a precariedade estrutural que condena uma geração inteira a futuro bloqueado. Entre o discurso xenófobo que o Chega promove e que a AD tolera. Entre a violência gratuita que explode na Alameda.

Não é relação de causa única e efeito direto. É teia complexa de fatores que se reforçam mutuamente. E um Governo que recusa-se a encarar esta realidade, prefere cantar hinos a responder perguntas, se compara a Cavaco como se isso fosse virtude, e anuncia investimentos mirabolantes enquanto o custo de vida dispara, Um Governo que não está apenas a ser incompetente, mas também a criar condições para que a violência se normalize, a xenofobia se banalize e jovens frustrados escolham bodes expiatórios em vez de identificarem verdadeiros responsáveis.

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