segunda-feira, 25 de maio de 2026

O Limbo e os que Nele Habitam

 

O país está num limbo. Não é uma novidade — o limbo português tem décadas de prática —, mas há momentos em que a contradição entre o que se faz e o que seria necessário fazer atinge uma clareza quase pedagógica.

A ministra do Trabalho, Maria do Rosário Palma Ramalho, insiste no pacote "Trabalho XXI" como quem defende uma fortaleza. A proposta facilita os despedimentos, alarga o outsourcing após despedimentos coletivos, permite ao empregador pedir ao tribunal que bloqueie a reintegração de trabalhadores ilegalmente despedidos. A UGT, que não é exatamente um ninho de jacobinos, identificou estas matérias como linhas vermelhas e manteve-se disponível para negociar com quem não tem a mínima vontade de o fazer. A CGTP chama-lhe aquilo que é: um ataque. O Governo chama-lhe modernização. A diferença entre modernização e retrocesso depende, como sempre, de quem paga a conta.

Luís Montenegro apresentou, entretanto, a moção de estratégia ao congresso com a solenidade de quem inaugura um monumento. Tem a maioria absoluta "na mira". É uma mira sem bala, porque as eleições não estão à vista, mas a retórica serve para animar o evento da Anadia e para sinalizar a direção. A que se conhece: reformar o Estado, transformar a estabilidade em ambição, a ambição em reformas. O que fica por dizer é a favor de quem.

Mais à direita, onde o apetite raramente fica saciado, já se sonha com mexidas na Constituição. É o horizonte lógico de quem governa sem maioria e quer governar como se a tivesse.

Em contraponto, no dia 3 de junho, a CGTP convoca greve geral. Sem a UGT, que continua a negociar — o que o secretário-geral da CGTP, Tiago Oliveira, descreveu com precisão: não é depois de assaltarem a casa que se põem os cadeados. A ausência da UGT é a ausência de sempre, a dos que preferem a mesa às ruas enquanto a mesa ainda tem cadeiras. A greve será menor do que poderia ser e maior do que o Governo desejaria.

As sondagens indicam uma lenta correção da relação de forças a favor da esquerda. Lenta, diga-se, como quem não tem pressa de chegar. O eleitorado que quis punir quem não resolvia a saúde e a habitação vê hoje a situação agravada, com a inflação a tornar mais exíguos os rendimentos de quem já não tinha muito onde cortar. Melhores só os mais ricos — que é, rigorosamente, o único resultado garantido por uma política que chama modernização ao que é transferência.

O limbo não é neutro. Tem donos.

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