O país
está num limbo. Não é uma novidade — o limbo português tem décadas de prática
—, mas há momentos em que a contradição entre o que se faz e o que seria
necessário fazer atinge uma clareza quase pedagógica.
A
ministra do Trabalho, Maria do Rosário Palma Ramalho, insiste no pacote
"Trabalho XXI" como quem defende uma fortaleza. A proposta facilita
os despedimentos, alarga o outsourcing após despedimentos coletivos,
permite ao empregador pedir ao tribunal que bloqueie a reintegração de
trabalhadores ilegalmente despedidos. A UGT, que não é exatamente um ninho de
jacobinos, identificou estas matérias como linhas vermelhas e manteve-se disponível
para negociar com quem não tem a mínima vontade de o fazer. A CGTP chama-lhe
aquilo que é: um ataque. O Governo chama-lhe modernização. A diferença entre
modernização e retrocesso depende, como sempre, de quem paga a conta.
Luís
Montenegro apresentou, entretanto, a moção de estratégia ao congresso com a
solenidade de quem inaugura um monumento. Tem a maioria absoluta "na
mira". É uma mira sem bala, porque as eleições não estão à vista, mas a
retórica serve para animar o evento da Anadia e para sinalizar a direção. A que
se conhece: reformar o Estado, transformar a estabilidade em ambição, a ambição
em reformas. O que fica por dizer é a favor de quem.
Mais à
direita, onde o apetite raramente fica saciado, já se sonha com mexidas na
Constituição. É o horizonte lógico de quem governa sem maioria e quer governar
como se a tivesse.
Em
contraponto, no dia 3 de junho, a CGTP convoca greve geral. Sem a UGT, que
continua a negociar — o que o secretário-geral da CGTP, Tiago Oliveira,
descreveu com precisão: não é depois de assaltarem a casa que se põem os
cadeados. A ausência da UGT é a ausência de sempre, a dos que preferem a mesa
às ruas enquanto a mesa ainda tem cadeiras. A greve será menor do que poderia
ser e maior do que o Governo desejaria.
As
sondagens indicam uma lenta correção da relação de forças a favor da esquerda.
Lenta, diga-se, como quem não tem pressa de chegar. O eleitorado que quis punir
quem não resolvia a saúde e a habitação vê hoje a situação agravada, com a
inflação a tornar mais exíguos os rendimentos de quem já não tinha muito onde
cortar. Melhores só os mais ricos — que é, rigorosamente, o único resultado
garantido por uma política que chama modernização ao que é transferência.
O limbo
não é neutro. Tem donos.

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