sexta-feira, 1 de maio de 2026

Precário deverá ser este desgoverno

 

O jovem iraquiano que estuda no ISCTE não tem culpa da precariedade portuguesa. Não tem culpa de Montenegro ser incompetente. Não tem culpa da crise energética causada por Trump e Netanyahu. Não tem culpa de Portugal ser o 4.º país da UE com maior precariedade juvenil.

Mas foi ele quem apanhou. Porque estava ali. Porque vinha de fora. Porque uma chusma de jovens cobardes precisava de alguém para agredir e ele estava disponível.

E os facínoras que o agrediram também não são responsáveis únicos. São produto de sistema que os condena a precariedade, de discurso político que normaliza xenofobia, de desgoverno que ignora realidade, de educação que ensina valores mas não consegue fazê-los interiorizar.

Não os desculpa. Mas explica. E compreender a explicação é primeiro passo para prevenir que se repita.

Porque enquanto houver governos como o de Montenegro — que cantam hinos em vez de responder perguntas, que proclamam investimentos em vez de melhorar vidas, que se comparam a Cavaco em vez de se envergonharem dessa comparação — continuará a haver jovens precários. E alguns desses jovens precários continuarão a transformar frustração legítima em violência ilegítima.

O círculo vicioso só se quebra quando se quebra a precariedade. E a precariedade só se quebra quando há governos que governam para as pessoas e não para os powerpoints, que enfrentam realidade em vez de a ignorar, que combatem xenofobia em vez de a tolerarem.

Não é este Governo. Não será enquanto Montenegro estiver ao leme. E enquanto assim for, haverá mais Alamedas, mais violências gratuitas, mais jovens iraquianos agredidos por chusmas de jovens portugueses que podiam ser melhor e escolheram ser pior.

Portugal, 4.º na precariedade juvenil. Primeiro na hipocrisia governamental. E no meio disto tudo, um estudante estrangeiro espancado por quem deveria recebê-lo como colega, não como inimigo.

Envergonha. Mas não surpreende. Porque esta é a Portugal que Montenegro constrói enquanto canta hinos e se compara a Cavaco.

Uma Portugal onde quase ninguém está bem, e quase todos estão de mal a pior. Incluindo — especialmente — os jovens que deveriam ser futuro e são apenas frustração à procura de bodes expiatórios. 

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