Fizera-se
acompanhar de Elon Musk, na qualidade ambígua de homem de negócios com fábrica
em Xangai e de conselheiro do presidente que passou meses a chamar à China o
inimigo civilizacional número um. Os dois foram a Pequim como quem vai cobrar
uma dívida e descobriram que o devedor está mais rico do que eles.
Xi
Jinping recebeu-os com a cortesia calculada de quem conhece o valor do
silêncio. Falou da Armadilha de Tucídides. Falou de civilizações que podem
coexistir. Falou para os CEOs — Musk, Tim Cook, Jensen Huang — como quem fala a
homens que ele sabe precisarem mais de Pequim do que Pequim precisa deles. Não
ergueu o punho. Não precisou. Tinha do seu lado, a História, as terras raras, os
chips, o mercado. Deixou o visitante erguer o punho à vontade no topo das
escadas. O punho erguido, quando não tem força por trás, é apenas ginástica.
Trump
voltou convicto de ter ganho. É outra das suas características: a convicção não
depende dos factos.
Enquanto
isto, em Lisboa, o ministro dos Negócios Estrangeiros de Portugal descobria que
tinha um problema. O problema chamava-se Marco Rubio e tinha a língua comprida.
A bordo do Air Force One, a caminho de Pequim, Rubio elogiou Portugal perante
as câmaras da Fox News com o entusiasmo de quem elogia um cão bem-amestrado:
"disseram que sim antes mesmo de perguntarmos." Estava a referir-se à
Base das Lajes e à guerra contra o Irão. Portugal autorizara o uso da base
antes de saber para quê. Ou antes de lhes perguntarem. Dependendo de quem se
acredita — e Rangel, naturalmente, desmentia tudo.
Foi
Eurico Brilhante Dias quem encontrou as palavras certas: "o país viveu,
desde aquele momento, agachado, de cócoras." A imagem é precisa e
implacável. Portugal de cócoras perante Washington é uma postura conhecida —
tem décadas, tem governos, tem partidos. Mas há uma diferença entre a
subordinação discreta, que permite manter alguma dignidade de fachada, e a
subordinação gabada pelo subordinante. Rubio não percebeu que estava a fazer
uma descortesia. Ou percebeu e não lhe importou, que é pior.
Paulo
Rangel desmente. O Ministério dos Negócios Estrangeiros emite comunicado. A
posição oficial é que tudo foi feito segundo os mecanismos legais, que as
condições foram impostas, que o Direito Internacional foi respeitado. Pode ser
verdade. Pode ser mentira. O que é certo é que o secretário de Estado dos
Estados Unidos, num avião presidencial, descreveu Portugal como o país que
disse sim antes de saber a pergunta — e o fez em tom de elogio. Quando o senhor
nos elogia desta maneira, o desmentido chega sempre tarde.
De
cócoras ou de pé, a diferença é visível a olho nu. Rubio viu.

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