domingo, 17 de maio de 2026

O punho e as cócoras

 

Em Pequim, Donald Trump despediu-se do topo das escadas do Air Force One com o gesto que o define: o punho erguido para as câmaras antes de entrar no avião. É o seu sinal de vitória, de desafio, de comunhão com as massas — um gesto que a história associa a quem luta contra o poder, e que ele usa para comunicar que é o poder. A ironia não o atinge. A ironia nunca atinge quem não lê.

Fizera-se acompanhar de Elon Musk, na qualidade ambígua de homem de negócios com fábrica em Xangai e de conselheiro do presidente que passou meses a chamar à China o inimigo civilizacional número um. Os dois foram a Pequim como quem vai cobrar uma dívida e descobriram que o devedor está mais rico do que eles.

Xi Jinping recebeu-os com a cortesia calculada de quem conhece o valor do silêncio. Falou da Armadilha de Tucídides. Falou de civilizações que podem coexistir. Falou para os CEOs — Musk, Tim Cook, Jensen Huang — como quem fala a homens que ele sabe precisarem mais de Pequim do que Pequim precisa deles. Não ergueu o punho. Não precisou. Tinha do seu lado, a História, as terras raras, os chips, o mercado. Deixou o visitante erguer o punho à vontade no topo das escadas. O punho erguido, quando não tem força por trás, é apenas ginástica.

Trump voltou convicto de ter ganho. É outra das suas características: a convicção não depende dos factos.

Enquanto isto, em Lisboa, o ministro dos Negócios Estrangeiros de Portugal descobria que tinha um problema. O problema chamava-se Marco Rubio e tinha a língua comprida. A bordo do Air Force One, a caminho de Pequim, Rubio elogiou Portugal perante as câmaras da Fox News com o entusiasmo de quem elogia um cão bem-amestrado: "disseram que sim antes mesmo de perguntarmos." Estava a referir-se à Base das Lajes e à guerra contra o Irão. Portugal autorizara o uso da base antes de saber para quê. Ou antes de lhes perguntarem. Dependendo de quem se acredita — e Rangel, naturalmente, desmentia tudo.

Foi Eurico Brilhante Dias quem encontrou as palavras certas: "o país viveu, desde aquele momento, agachado, de cócoras." A imagem é precisa e implacável. Portugal de cócoras perante Washington é uma postura conhecida — tem décadas, tem governos, tem partidos. Mas há uma diferença entre a subordinação discreta, que permite manter alguma dignidade de fachada, e a subordinação gabada pelo subordinante. Rubio não percebeu que estava a fazer uma descortesia. Ou percebeu e não lhe importou, que é pior.

Paulo Rangel desmente. O Ministério dos Negócios Estrangeiros emite comunicado. A posição oficial é que tudo foi feito segundo os mecanismos legais, que as condições foram impostas, que o Direito Internacional foi respeitado. Pode ser verdade. Pode ser mentira. O que é certo é que o secretário de Estado dos Estados Unidos, num avião presidencial, descreveu Portugal como o país que disse sim antes de saber a pergunta — e o fez em tom de elogio. Quando o senhor nos elogia desta maneira, o desmentido chega sempre tarde.

De cócoras ou de pé, a diferença é visível a olho nu. Rubio viu.

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