sexta-feira, 1 de maio de 2026

A Violência da Alameda

 



A perplexidade perante a falta de valores de uma certa juventude — cobarde e estúpida — foi o sentimento quando soube o que aconteceu na zona da Alameda. Uma chusma de rapazes e raparigas insultou, agrediu e roubou um jovem iraquiano atualmente a estudar em Portugal no ISCTE.

Não foi confronto entre grupos rivais, não foi disputa territorial, não foi sequer crime com motivação económica primária. Foi pura violência gratuita, xenofobia em grupo, cobardia de quem só ataca quando tem superioridade numérica esmagadora.

Vinte contra um. Ou trinta. Os relatos variam, mas a essência permanece: uma alcateia de jovens portugueses — bem vestidos, bem alimentados, com acesso a educação que milhões não têm — decidiu que um estudante estrangeiro merecia ser humilhado, espancado, roubado. Porque vinha de fora. Porque era diferente. Porque podiam.

E depois veio a revelação que ainda mais perturba: alguns dos facínoras foram identificados como alunos do Colégio Moderno. Aquele que pertence à família de Mário Soares, e nos habituámos a associar a valores de tolerância, de abertura ao mundo, de humanismo. E descobrimos que afinal também ali se cultivam — ou pelo menos não se combatem eficazmente — jovens capazes desta violência.

Não é o colégio que causa a violência, obviamente. Mas a expectativa era que uma instituição com aquela história, com aquele legado, fosse particularmente vigilante contra comportamentos xenófobos, particularmente ativa na educação para a cidadania, particularmente intolerante com alunos que demonstrassem este tipo de desvios. Aparentemente, não foi suficiente. Ou então foi, e os miúdos fizeram na mesma — o que seria ainda mais perturbador, porque significaria que valores ensinados não se traduzem em comportamentos praticados.

Mas seria demasiado fácil — e intelectualmente desonesto — atribuir esta violência apenas a falhas educativas familiares ou escolares. Há contexto social mais amplo que a alimenta. E esse contexto tem nome: precariedade.

Portugal é o 4.º país da União Europeia com maior precariedade entre os jovens. Lê-se a notícia e percebe-se subitamente muito mais sobre a violência gratuita, sobre o niilismo destrutivo, sobre a raiva mal dirigida que explode em agressões como a da Alameda.

Porque estes jovens — mesmo os que frequentam colégios privados, mesmo os que vêm de famílias com alguns recursos — sabem perfeitamente que o futuro que os espera é precário. Sabem que dificilmente terão casa própria. Sabem que os empregos disponíveis são instáveis, mal pagos, sem perspetivas de progressão. Sabem que a ascensão social que as gerações anteriores conheceram está fechada para eles.

E este conhecimento — esta certeza de futuro bloqueado, de expectativas frustradas, de promessas não cumpridas — pode alimentar um niilismo destrutivo que, nas suas expressões mais gravosas, se manifesta precisamente neste tipo de violência. Se não há futuro para mim, se não há esperança, se tudo está bloqueado — então porque não destruir? Porque não agredir? Porque não descarregar a frustração em quem está ainda mais vulnerável, em quem vem de fora, em quem pode ser transformado em bode expiatório?

Não estou a justificar. Estou a explicar. São coisas diferentes. A violência xenófoba é injustificável sempre, independentemente das circunstâncias socioeconómicas de quem a pratica. Mas compreender as condições que a tornam mais provável não é desculpá-la — é tentar preveni-la.

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