Não
foi confronto entre grupos rivais, não foi disputa territorial, não foi sequer
crime com motivação económica primária. Foi pura violência gratuita, xenofobia
em grupo, cobardia de quem só ataca quando tem superioridade numérica
esmagadora.
Vinte
contra um. Ou trinta. Os relatos variam, mas a essência permanece: uma alcateia
de jovens portugueses — bem vestidos, bem alimentados, com acesso a educação
que milhões não têm — decidiu que um estudante estrangeiro merecia ser
humilhado, espancado, roubado. Porque vinha de fora. Porque era diferente.
Porque podiam.
E
depois veio a revelação que ainda mais perturba: alguns dos facínoras foram
identificados como alunos do Colégio Moderno. Aquele que pertence à família de
Mário Soares, e nos habituámos a associar a valores de tolerância, de abertura
ao mundo, de humanismo. E descobrimos que afinal também ali se cultivam — ou
pelo menos não se combatem eficazmente — jovens capazes desta violência.
Não
é o colégio que causa a violência, obviamente. Mas a expectativa era que uma
instituição com aquela história, com aquele legado, fosse particularmente
vigilante contra comportamentos xenófobos, particularmente ativa na educação
para a cidadania, particularmente intolerante com alunos que demonstrassem este
tipo de desvios. Aparentemente, não foi suficiente. Ou então foi, e os miúdos
fizeram na mesma — o que seria ainda mais perturbador, porque significaria que
valores ensinados não se traduzem em comportamentos praticados.
Mas
seria demasiado fácil — e intelectualmente desonesto — atribuir esta violência
apenas a falhas educativas familiares ou escolares. Há contexto social mais
amplo que a alimenta. E esse contexto tem nome: precariedade.
Portugal
é o 4.º país da União Europeia com maior precariedade entre os jovens. Lê-se a
notícia e percebe-se subitamente muito mais sobre a violência gratuita, sobre o
niilismo destrutivo, sobre a raiva mal dirigida que explode em agressões como a
da Alameda.
Porque
estes jovens — mesmo os que frequentam colégios privados, mesmo os que vêm de
famílias com alguns recursos — sabem perfeitamente que o futuro que os espera é
precário. Sabem que dificilmente terão casa própria. Sabem que os empregos
disponíveis são instáveis, mal pagos, sem perspetivas de progressão. Sabem que
a ascensão social que as gerações anteriores conheceram está fechada para eles.
E
este conhecimento — esta certeza de futuro bloqueado, de expectativas
frustradas, de promessas não cumpridas — pode alimentar um niilismo destrutivo
que, nas suas expressões mais gravosas, se manifesta precisamente neste tipo de
violência. Se não há futuro para mim, se não há esperança, se tudo está
bloqueado — então porque não destruir? Porque não agredir? Porque não
descarregar a frustração em quem está ainda mais vulnerável, em quem vem de
fora, em quem pode ser transformado em bode expiatório?
Não
estou a justificar. Estou a explicar. São coisas diferentes. A violência
xenófoba é injustificável sempre, independentemente das circunstâncias
socioeconómicas de quem a pratica. Mas compreender as condições que a tornam
mais provável não é desculpá-la — é tentar preveni-la.

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