A
"Linha da Frente" desta semana voltou ao que a Igreja Católica
portuguesa preferia que ficasse em silêncio. Os casos documentados pelas
comissões de recolha de testemunhos de vítimas de abuso sexual — documentados,
sublinhe-se, não alegados — continuam a ser tratados pela hierarquia com a
técnica apurada ao longo de séculos: empurrar para debaixo do tapete, minimizar
as indemnizações, classificar as vítimas como difamadores. A instituição que
construiu a sua autoridade moral sobre o sofrimento alheio gere agora o seu
próprio sofrimento causado com a frieza de um departamento jurídico.
Não é
surpresa. É coerência.
A Igreja
portuguesa tem um passivo que não cabe num sermão. Começou pela Inquisição, que
queimou pessoas em nome de Deus com a bênção do Estado e o aplauso do povo.
Atravessou a monarquia, onde detinha o monopólio do registo civil e do
pensamento legítimo. Resistiu à Primeira República, que a laicizou à força
porque de outra forma ela não se laicizava. Sobreviveu ao Estado Novo —
sobreviveu-lhe bem, diga-se, porque foi seu pilar ideológico durante quarenta
anos. E chegou à democracia com o mesmo catálogo de proibições: o divórcio, que
as pessoas não podiam pedir antes do 25 de Abril sem que a Igreja os condenasse
ao inferno social; os direitos de quem escolhe o seu género e o seu amor, que a
instituição continua a tratar como desvio a corrigir em nome de dogmas que a
ciência desmentiu há décadas.
Passo
todos os dias pela Igreja do meu bairro. Olho para quem entra com a curiosidade
genuína de quem tenta perceber como se mantém a fé numa instituição criminosa —
não no sentido retórico, mas no sentido penal do termo: crimes cometidos,
documentados, sistematicamente encobertos. Olho com inquietação para as
crianças que entram atrás dos adultos, para os escuteiros em fila, para os que
ainda não têm idade para saber que a instituição que lhes ensina o bem tem um
arquivo de mal que nenhum tapete consegue cobrir inteiramente.
A Igreja
sobreviveu a tudo porque soube sempre adaptar o discurso sem tocar na
estrutura. Fala agora em escuta, em acolhimento, em caminho sinodal. As vítimas
continuam a esperar as indemnizações. Os processos continuam a prescrever. O
tapete continua no mesmo sítio.
Há uma
pergunta que fica no ar quando se olha para os rostos que entram pela porta da
igreja: não a pergunta da fé, que é assunto de cada um, mas a da cumplicidade.
Porque continuar a financiar, a legitimar e a encher os bancos de uma
instituição que encobriu sistematicamente a violação de crianças não é apenas
um ato de crença. É um ato político. E tem consequências para quem não tem voz
para o dizer — a começar pelas crianças que entram atrás de quem as leva, sem
escolha nem aviso.

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