quarta-feira, 27 de maio de 2026

A Pedra e os Mortos por Baixo

 

A "Linha da Frente" desta semana voltou ao que a Igreja Católica portuguesa preferia que ficasse em silêncio. Os casos documentados pelas comissões de recolha de testemunhos de vítimas de abuso sexual — documentados, sublinhe-se, não alegados — continuam a ser tratados pela hierarquia com a técnica apurada ao longo de séculos: empurrar para debaixo do tapete, minimizar as indemnizações, classificar as vítimas como difamadores. A instituição que construiu a sua autoridade moral sobre o sofrimento alheio gere agora o seu próprio sofrimento causado com a frieza de um departamento jurídico.

Não é surpresa. É coerência.

A Igreja portuguesa tem um passivo que não cabe num sermão. Começou pela Inquisição, que queimou pessoas em nome de Deus com a bênção do Estado e o aplauso do povo. Atravessou a monarquia, onde detinha o monopólio do registo civil e do pensamento legítimo. Resistiu à Primeira República, que a laicizou à força porque de outra forma ela não se laicizava. Sobreviveu ao Estado Novo — sobreviveu-lhe bem, diga-se, porque foi seu pilar ideológico durante quarenta anos. E chegou à democracia com o mesmo catálogo de proibições: o divórcio, que as pessoas não podiam pedir antes do 25 de Abril sem que a Igreja os condenasse ao inferno social; os direitos de quem escolhe o seu género e o seu amor, que a instituição continua a tratar como desvio a corrigir em nome de dogmas que a ciência desmentiu há décadas.

Passo todos os dias pela Igreja do meu bairro. Olho para quem entra com a curiosidade genuína de quem tenta perceber como se mantém a fé numa instituição criminosa — não no sentido retórico, mas no sentido penal do termo: crimes cometidos, documentados, sistematicamente encobertos. Olho com inquietação para as crianças que entram atrás dos adultos, para os escuteiros em fila, para os que ainda não têm idade para saber que a instituição que lhes ensina o bem tem um arquivo de mal que nenhum tapete consegue cobrir inteiramente.

A Igreja sobreviveu a tudo porque soube sempre adaptar o discurso sem tocar na estrutura. Fala agora em escuta, em acolhimento, em caminho sinodal. As vítimas continuam a esperar as indemnizações. Os processos continuam a prescrever. O tapete continua no mesmo sítio.

Há uma pergunta que fica no ar quando se olha para os rostos que entram pela porta da igreja: não a pergunta da fé, que é assunto de cada um, mas a da cumplicidade. Porque continuar a financiar, a legitimar e a encher os bancos de uma instituição que encobriu sistematicamente a violação de crianças não é apenas um ato de crença. É um ato político. E tem consequências para quem não tem voz para o dizer — a começar pelas crianças que entram atrás de quem as leva, sem escolha nem aviso.

Sem comentários:

Enviar um comentário