Pedro
Candeias escreve hoje no Público sobre os planos da SpaceX para entrar
em Wall Street e o que revelam sobre as ambições de Elon Musk: um mercado
potencial avaliado em 28,5 biliões de dólares, abrangendo satélites,
inteligência artificial, mineração espacial e colonização de outros planetas —
com os maiores bancos do mundo a subscrever. Candeias pergunta, no final, quem
regula isto. É a pergunta certa. A resposta, por enquanto, é ninguém.
Não
estamos perante um delírio. Estamos perante um plano.
Musk está
na órbita com o Starlink, na superfície com a Tesla, nas redes sociais com o X,
dentro das cabeças com a Neuralink, e na inteligência artificial com o Grok —
calibrado segundo os seus critérios editoriais, que são os da extrema-direita
global. Um homem, uma infraestrutura, um ecossistema fechado onde informação e
desinformação circulam sob a mesma gestão. O Papa Francisco, antes de morrer,
avisou que a concentração da IA nas mãos de poucos era o maior perigo
civilizacional do século. Tinha razão, como costumava ter quando não estava a
falar de mulheres ou de preservativos.
O que
assusta não é Musk. Os megalómanos existiram sempre e a história tratou da
maioria com a indiferença que mereciam. O que assusta é a adesão. Há gente
inteligente — não ignorantes, não desesperados, gente com educação e capacidade
crítica — que foi migrando para o X, adotou o Grok como oráculo e foi sendo
reorientada pelos algoritmos para um mundo onde o genocídio em Gaza é narrativa
de segurança nacional, Telavive tem sempre razão e a extrema-direita europeia é
apenas bom senso popular mal compreendido pela esquerda caviar. O algoritmo não
convence por argumentos — convence por repetição, por seleção, por aquecimento
gradual até que a temperatura do fanatismo pareça temperatura ambiente.
É uma
operação de engenharia social à escala planetária. Os estados nacionais chegam
tarde, as instâncias multilaterais chegam mais tarde ainda, e a União Europeia
descobre que regular plataformas de um homem com o ouvido do presidente dos
Estados Unidos é um exercício de soberania com prazo de validade incerto.
Talvez
este mundo ainda não seja de Elon Musk. Mas a distância entre o que é e o que
ele quer que seja está a encolher — e há trezentos milhões de utilizadores do X
a ajudá-lo, sem o saber, a encurtá-la.

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