domingo, 31 de maio de 2026

O Mundo Segundo Elon

 

Pedro Candeias escreve hoje no Público sobre os planos da SpaceX para entrar em Wall Street e o que revelam sobre as ambições de Elon Musk: um mercado potencial avaliado em 28,5 biliões de dólares, abrangendo satélites, inteligência artificial, mineração espacial e colonização de outros planetas — com os maiores bancos do mundo a subscrever. Candeias pergunta, no final, quem regula isto. É a pergunta certa. A resposta, por enquanto, é ninguém.

Não estamos perante um delírio. Estamos perante um plano.

Musk está na órbita com o Starlink, na superfície com a Tesla, nas redes sociais com o X, dentro das cabeças com a Neuralink, e na inteligência artificial com o Grok — calibrado segundo os seus critérios editoriais, que são os da extrema-direita global. Um homem, uma infraestrutura, um ecossistema fechado onde informação e desinformação circulam sob a mesma gestão. O Papa Francisco, antes de morrer, avisou que a concentração da IA nas mãos de poucos era o maior perigo civilizacional do século. Tinha razão, como costumava ter quando não estava a falar de mulheres ou de preservativos.

O que assusta não é Musk. Os megalómanos existiram sempre e a história tratou da maioria com a indiferença que mereciam. O que assusta é a adesão. Há gente inteligente — não ignorantes, não desesperados, gente com educação e capacidade crítica — que foi migrando para o X, adotou o Grok como oráculo e foi sendo reorientada pelos algoritmos para um mundo onde o genocídio em Gaza é narrativa de segurança nacional, Telavive tem sempre razão e a extrema-direita europeia é apenas bom senso popular mal compreendido pela esquerda caviar. O algoritmo não convence por argumentos — convence por repetição, por seleção, por aquecimento gradual até que a temperatura do fanatismo pareça temperatura ambiente.

É uma operação de engenharia social à escala planetária. Os estados nacionais chegam tarde, as instâncias multilaterais chegam mais tarde ainda, e a União Europeia descobre que regular plataformas de um homem com o ouvido do presidente dos Estados Unidos é um exercício de soberania com prazo de validade incerto.

Talvez este mundo ainda não seja de Elon Musk. Mas a distância entre o que é e o que ele quer que seja está a encolher — e há trezentos milhões de utilizadores do X a ajudá-lo, sem o saber, a encurtá-la.

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