domingo, 10 de maio de 2026

Quando só vemos as sombras

 


Tenho amigos que nas redes sociais carpem o facto de não se vislumbrarem sinais de esperança. Olham a realidade interna, veem Montenegro a cantar hinos enquanto o país afunda. Olham a externa, veem Trump e Netanyahu a incendiar o Médio Oriente. Concluem que não há saída.

Compreendo o desânimo. Partilho-o frequentemente. Mas há precedente histórico que convém lembrar.

Walter Benjamin suicidou-se em 1940 na fronteira entre França e Espanha, convencido de que os nazis o apanhariam, de que não havia fuga, de que o fascismo vencera definitivamente. Morreu sem saber que passaria a fronteira no dia seguinte, que os que vinham atrás dele conseguiram, que o Reich que julgava eterno duraria apenas mais cinco anos. Escreveu nas Teses sobre a História que cada geração tem pequena força messiânica sobre a qual o passado reclama direitos. Não viveu para ver essa força manifestar-se.

Stefan Zweig matou-se com a mulher no Brasil em 1942. Escreveu na carta de despedida que o seu mundo, o da cultura europeia humanista, morrera e que ele não tinha forças para reconstruir a vida noutra língua, noutro continente. Não viu a Alemanha derrotada dois anos depois, não viu a Europa reconstruída, não viu os valores que julgava mortos ressurgirem nas constituições democráticas do pós-guerra.

Virginia Woolf encheu os bolsos de pedras e afogou-se no rio Ouse em 1941. Depressão clínica, a guerra a aproximar-se de Inglaterra, o medo de novo colapso mental que não conseguiria suportar. Deixou cartas a dizer que já não aguentava. Morreu sem saber que as suas obras atravessariam o século, que o feminismo encontraria nela voz essencial, que Um Quarto que Seja Seu se tornaria manifesto lido por milhões.

Três suicídios. Três pessoas brilhantes que olharam para a realidade do seu tempo e viram apenas sombras. Concluíram que não havia esperança. Tinham razões objetivas para o pensar. Enganaram-se quanto ao futuro porque o futuro é por definição imprevisível.

Mais depressa do que se pode esperar irradiam motivos luminosos donde hoje só parecem vir sombras. Benjamin não viu os nazis derrotados. Zweig não viu a Europa renascer. Woolf não viu o feminismo triunfar. Mas tudo isso aconteceu.

Não sei se Montenegro cairá amanhã ou daqui a três anos. Não sei se Trump se afundará no Irão ou sobreviverá ao atoleiro. Não sei se o genocídio em Gaza terminará ou piorará. Não vislumbro sinais claros de esperança que possa apontar aos amigos desesperançados.

Mas sei que Benjamin, Zweig e Woolf também não vislumbravam. E sei que o futuro desmentiu o desespero deles. Não a tempo de os salvar, infelizmente. Mas desmentiu.

Vale a pena resistir não porque a vitória seja certa mas porque a derrota nunca é definitiva enquanto houver quem resista. Benjamin resistiu escrevendo até ao último dia. Zweig resistiu documentando o mundo que julgava perdido. Woolf resistiu criando a literatura que sobreviveu à guerra que a matou.

A resistência não garante vitória. Garante apenas que a luta continua, que a memória persiste, que as sombras não são absolutas porque alguém teima em acender a vela.

Os amigos desesperançados têm razão em constatar que a realidade é sombria. Enganam-se se concluem que por isso devem desistir. Porque mais depressa do que esperamos a luz pode vir donde hoje só vemos escuridão.

Não por milagre. Por resistência acumulada de quem não desistiu quando tudo parecia perdido.

Benjamin, Zweig e Woolf desistiram demasiado cedo. Nós ainda estamos vivos. Ainda podemos resistir. Ainda vale a pena.

Mesmo quando só vemos sombras.

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