Chamam-se
Bandidos do Cante, o que constitui, em si mesmo, uma promessa que não
cumpriram. Um bandido tem, ao menos, a virtude do risco. Estes foram a Viena
fazer o que se vai a Viena fazer quando não se tem nada a dizer: cantar bonito
e voltar para casa.
Voltaram.
Sem final. Sem pontos suficientes. Com uma nota de despedida onde garantem ter
dado "tudo de nós" e seguido "o caminho certo". O caminho
certo levou-os à eliminação na primeira semifinal, o que é uma definição de
caminho certo que merece reflexão.
A RTP,
fiel à sua vocação de gastar dinheiro público em aventuras de resultado
previsível, mandou-os representar um país que, na sua maioria, tinha decidido
não ir. Em dezembro, a maior parte dos artistas portugueses anunciou que
recusaria representar Portugal se ganhasse o Festival da Canção, por não querer
emprestar o corpo a um concurso que mantém Israel na lista de participantes
enquanto Gaza é demolida tijolo a tijolo. Os Bandidos do Cante anunciaram o
contrário. Disseram que acreditam "no poder das canções para aproximar
pessoas". Gaza e Tel Aviv, unidas pela melodia. Os mortos de Rafah,
reconciliados com os seus assassinos através do televoto europeu.
Depois
explicaram que têm "sensibilidades e opiniões diferentes" sobre a
questão. É uma formulação elegante para dizer que não têm posição. Num grupo de
cinco pessoas originárias do Alentejo — terra onde o cante nasceu das costas
curvadas sobre o latifúndio, da fome administrada pelos senhores da terra, da
luta que custou sangue antes de custar votos —, não ter posição sobre um
genocídio documentado é, ela própria, uma posição. Chama-se conforto.
O cante
alentejano não nasceu neutro. Nasceu da necessidade de dizer o que não se podia
dizer em voz alta perante o feitor. Era a linguagem cifrada dos que não tinham
outra. Transformá-lo em produto de exportação festivaleiro, embrulhá-lo em
"pop fortemente inspirada" e levá-lo a competir no mesmo palco onde
Israel coleciona apuramento após apuramento — com a ajuda, aliás, de campanhas
de mobilização do próprio governo Netanyahu, como investigou o New York
Times — é uma operação que tem nome: é a domesticação de uma forma de
resistência para uso decorativo.
Saíram de
Viena "tristes". Deram "tudo". Têm "muitos quilómetros
pela frente" e "várias novidades em breve". A autocomiseração,
quando bem gerida, pode ser uma carreira.
O
Alentejo que inventou o cante merecia melhor herdeiros. Ou, pelo menos,
herdeiros que soubessem de onde vêm.

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