quinta-feira, 14 de maio de 2026

A Rosa e os seus Espinhos

 


Chamam-se Bandidos do Cante, o que constitui, em si mesmo, uma promessa que não cumpriram. Um bandido tem, ao menos, a virtude do risco. Estes foram a Viena fazer o que se vai a Viena fazer quando não se tem nada a dizer: cantar bonito e voltar para casa.

Voltaram. Sem final. Sem pontos suficientes. Com uma nota de despedida onde garantem ter dado "tudo de nós" e seguido "o caminho certo". O caminho certo levou-os à eliminação na primeira semifinal, o que é uma definição de caminho certo que merece reflexão.

A RTP, fiel à sua vocação de gastar dinheiro público em aventuras de resultado previsível, mandou-os representar um país que, na sua maioria, tinha decidido não ir. Em dezembro, a maior parte dos artistas portugueses anunciou que recusaria representar Portugal se ganhasse o Festival da Canção, por não querer emprestar o corpo a um concurso que mantém Israel na lista de participantes enquanto Gaza é demolida tijolo a tijolo. Os Bandidos do Cante anunciaram o contrário. Disseram que acreditam "no poder das canções para aproximar pessoas". Gaza e Tel Aviv, unidas pela melodia. Os mortos de Rafah, reconciliados com os seus assassinos através do televoto europeu.

Depois explicaram que têm "sensibilidades e opiniões diferentes" sobre a questão. É uma formulação elegante para dizer que não têm posição. Num grupo de cinco pessoas originárias do Alentejo — terra onde o cante nasceu das costas curvadas sobre o latifúndio, da fome administrada pelos senhores da terra, da luta que custou sangue antes de custar votos —, não ter posição sobre um genocídio documentado é, ela própria, uma posição. Chama-se conforto.

O cante alentejano não nasceu neutro. Nasceu da necessidade de dizer o que não se podia dizer em voz alta perante o feitor. Era a linguagem cifrada dos que não tinham outra. Transformá-lo em produto de exportação festivaleiro, embrulhá-lo em "pop fortemente inspirada" e levá-lo a competir no mesmo palco onde Israel coleciona apuramento após apuramento — com a ajuda, aliás, de campanhas de mobilização do próprio governo Netanyahu, como investigou o New York Times — é uma operação que tem nome: é a domesticação de uma forma de resistência para uso decorativo.

Saíram de Viena "tristes". Deram "tudo". Têm "muitos quilómetros pela frente" e "várias novidades em breve". A autocomiseração, quando bem gerida, pode ser uma carreira.

O Alentejo que inventou o cante merecia melhor herdeiros. Ou, pelo menos, herdeiros que soubessem de onde vêm.

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