domingo, 31 de maio de 2026

O Luís Não Me Vai Defraudar

 

Luís Montenegro discursou para os militantes do seu partido. Não para todos — para os menos de 30% dos filiados que se deram ao trabalho de validar a recandidatura à presidência do PSD. É uma base de apoio que outros chamariam problema; ele chama mandato.

Do alto dessa legitimidade comprometida, prometeu não defraudar os portugueses. É um compromisso que aceito com a serenidade de quem não tem nada a perder. As expetativas quanto à melhoria da qualidade de vida por efeito das suas políticas não são baixas nem modestas — são inexistentes. Poupo-me assim à deceção, que é um luxo que os otimistas não se podem dar.

As sondagens continuam a fustigá-lo com más notícias. Nalgumas já aparece como terceira força política, atrás do PS e do Chega, o que é uma posição curiosa para um primeiro-ministro: governar o país a partir do terceiro lugar, como quem dirige uma orquestra sem que os músicos saibam que ele existe. O Chega aplaude. O PS espera. Montenegro discursa.

Noutro passo da intervenção prometeu fazer Portugal maior. Aqui, confesso o abandono da serenidade. Portugal tem as dimensões que tem e não me queixo delas — país pequeno, horizontes largos, mar à frente. Para onde pretende o primeiro-ministro aumentá-lo? A única hipótese geograficamente disponível é Olivença, o que remete para o patético ministro da Defesa e seus sonhos irredentistas, que os espanhóis contemplam com a condescendência de quem tem muito mais exército do que nós e muito menos necessidade de o provar.

Fazer Portugal maior pode também ser metáfora. Há quem a use por ser irrefutável — ninguém processa ninguém por país insuficientemente engrandecido. Nesse caso, a promessa vale o que valem todas as outras: o tempo do discurso e o aplauso dos presentes.

No fundo, o Luís continua igual a si mesmo. Primeiro-ministro em forma de assim — assim como assim, assim mais ou menos, assim dependendo do dia, da sondagem e de se a ministra do Trabalho ainda não provocou mais uma greve. Governa sem maioria, lidera o partido com apoio minoritário, promete não defraudar um país que já desistiu de ser defraudado porque desistiu de esperar.

É uma forma de estabilidade. Não é bem a que tínhamos em mente, mas é a que temos.

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