Luís
Montenegro discursou para os militantes do seu partido. Não para todos — para
os menos de 30% dos filiados que se deram ao trabalho de validar a recandidatura
à presidência do PSD. É uma base de apoio que outros chamariam problema; ele
chama mandato.
Do alto
dessa legitimidade comprometida, prometeu não defraudar os portugueses. É um
compromisso que aceito com a serenidade de quem não tem nada a perder. As expetativas
quanto à melhoria da qualidade de vida por efeito das suas políticas não são
baixas nem modestas — são inexistentes. Poupo-me assim à deceção, que é um luxo
que os otimistas não se podem dar.
As
sondagens continuam a fustigá-lo com más notícias. Nalgumas já aparece como
terceira força política, atrás do PS e do Chega, o que é uma posição curiosa
para um primeiro-ministro: governar o país a partir do terceiro lugar, como
quem dirige uma orquestra sem que os músicos saibam que ele existe. O Chega
aplaude. O PS espera. Montenegro discursa.
Noutro
passo da intervenção prometeu fazer Portugal maior. Aqui, confesso o abandono
da serenidade. Portugal tem as dimensões que tem e não me queixo delas — país
pequeno, horizontes largos, mar à frente. Para onde pretende o
primeiro-ministro aumentá-lo? A única hipótese geograficamente disponível é
Olivença, o que remete para o patético ministro da Defesa e seus sonhos
irredentistas, que os espanhóis contemplam com a condescendência de quem tem
muito mais exército do que nós e muito menos necessidade de o provar.
Fazer
Portugal maior pode também ser metáfora. Há quem a use por ser irrefutável —
ninguém processa ninguém por país insuficientemente engrandecido. Nesse caso, a
promessa vale o que valem todas as outras: o tempo do discurso e o aplauso dos
presentes.
No fundo,
o Luís continua igual a si mesmo. Primeiro-ministro em forma de assim — assim
como assim, assim mais ou menos, assim dependendo do dia, da sondagem e de se a
ministra do Trabalho ainda não provocou mais uma greve. Governa sem maioria,
lidera o partido com apoio minoritário, promete não defraudar um país que já
desistiu de ser defraudado porque desistiu de esperar.
É uma
forma de estabilidade. Não é bem a que tínhamos em mente, mas é a que temos.

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