sexta-feira, 29 de maio de 2026

A Operação e o Calendário

Chama-se Operação Imergente. Quatrocentos inspetores, sete magistrados, 60 mandados de busca domiciliária, 32 não domiciliários, cinco detidos, 37 arguidos. A sede do PS no Largo do Rato foi revistada — pela primeira vez na história do partido, dizem os que contam estas coisas. O epicentro é a Junta de Freguesia de Santa Maria Maior, o nome central é o de Miguel Coelho, os factos investigados situam-se entre 2016 e 2022.

Repare-se bem: entre 2016 e 2022. A investigação existe há anos. A operação acontece quando o PS lidera as sondagens com dez pontos de vantagem sobre a AD e o Chega. A coincidência é, no mínimo, notável.

Não se trata de negar que ajustes diretos irregulares existem, que o favoritismo autárquico existe, que a promiscuidade entre poder local e interesses privados existe — existe em toda a parte e em todos os partidos, o que qualquer inspeção igualmente zelosa às autarquias da AD, do PSD, do CDS ou do Chega confirmaria com a mesma facilidade. Trata-se de perguntar por que razão 400 inspetores convergem sobre o PS no dia em que as sondagens lhe são mais favoráveis, por que razão processos que dormitam durante anos acordam com este estrondo e esta encenação, e por que razão a Unidade Nacional de Combate à Corrupção nunca organizou espetáculo equivalente na direção contrária.

A resposta não é nova. O Ministério Público e a Polícia Judiciária têm uma relação com o PS que não é de equidade — é de hostilidade seletiva. A operação Influencer arrasta-se há anos, mantem o partido sob suspeição permanente e tem a resultados proporcionais ao estardalhaço: escassos ou mesmo nenhuns. O padrão repete-se: a operação é o castigo, o processo é o instrumento, a condenação é dispensável porque o dano já foi feito.

A maior culpa imputável aos governos de António Costa não foi a de ter tolerado irregularidades autárquicas — foi a de ter desperdiçado a disponibilidade, que Rui Rio mostrou, para uma reforma da justiça que a tornasse menos ideologicamente enviesada. Costa preferiu a estabilidade ao confronto. A estabilidade acabou. O enviesamento ficou.

Um deputado socialista disse hoje o que era preciso dizer: "No momento em que o PS aparece a reconquistar alguma confiança, demonstrada em sucessivas sondagens, aparece este tipo de notícias." Não é teoria da conspiração. É observação do calendário.

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