Se o
ridículo matasse, hoje teríamos acordado sem governo. Tão letais teriam sido as
consequências da espalhafatosa conferência de imprensa de ontem para apresentar
o dito PTRR que Montenegro, os seus ministros e toda a parafernália
governamental teriam sucumbido ali mesmo, fulminados pelo peso da sua própria má
figura.
Mas
o ridículo não mata. Apenas humilha. E mesmo a humilhação parece já não ter
efeito sobre quem perdeu há muito qualquer sentido de vergonha política.
A
operação foi de propaganda primária, daquelas que insultam a inteligência de
quem assiste. Montenegro apresentou como novidade aquilo que já fora anunciado
tantas vezes desde os efeitos das tempestades de há dois meses. Prometeu
apoios, proclamou investimentos, garantiu transformações. Tudo muito bonito em
powerpoint, tudo muito convincente em slides bem desenhados, tudo muito
impressionante em gráficos coloridos. E tudo completamente desligado da
realidade que as pessoas vivem.
Porque
na realidade — essa que não cabe em powerpoints nem se deixa impressionar por
conferências de imprensa — não há nenhuns apoios efetivos às pessoas e às
empresas para reerguerem as suas vidas. Os que perderam casas continuam sem
saber como as reconstruir. Os que viram negócios destruídos continuam sem apoio
concreto. Os que ficaram sem nada continuam com nada.
E as
seguradoras fazem aquilo que muito bem sabem: rápidas a cobrarem os prémios dos
seguros, especialistas em encontrar cláusulas que lhes permitem escusar-se a
indemnizar os clientes quando estes se veem sinistrados
Montenegro
promete milhões. As pessoas continuam a receber zeros. E a distância entre o
que se anuncia em conferências de imprensa e o que se executa na realidade
mede-se em anos-luz de incompetência e má-fé.
Mas
o cúmulo da desfaçatez — aquilo que transformou conferência de imprensa em
farsa inqualificável — foi Montenegro recusar-se a responder a qualquer
pergunta dos jornalistas. Fez o discurso preparado, leu os papéis escritos
pelos assessores, proclamou as maravilhas do PTRR. E depois, quando chegou o
momento de responder a questões, de esclarecer dúvidas, de prestar contas —
fugiu.
Chamou
os ministros. E ali, perante jornalistas atónitos e uma nação que assistia
incrédula, obrigou-os a cantar em coro o hino nacional.
Coisa
nunca vista. Nunca. Em décadas de democracia portuguesa, em centenas de
conferências de imprensa, em milhares de momentos de comunicação governamental
— nunca se tinha visto tamanha instrumentalização patética de um símbolo
nacional para fugir a perguntas incómodas.
É a
expressão de um nacionalismo serôdio que, como bem se sabe desde Samuel
Johnson, costuma ser o último refúgio dos canalhas. Quando não tens argumentos,
agitas a bandeira. Quando não tens respostas, cantas o hino. Quando não tens
competência para governar, escondes-te atrás de símbolos pátrios como se isso
compensasse a tua mediocridade.
Montenegro
não é o primeiro nem será o último a usar patriotismo barato para encobrir
incompetência real. É tática antiga, testada, eficaz junto dos mais distraídos.
Mas é também reveladora. Porque quando um primeiro-ministro precisa de
transformar conferência de imprensa em número de circo, quando tem de obrigar
ministros a cantar o hino para evitar responder a jornalistas, quando substitui
prestação de contas por teatralização patriótica — é porque já não tem nada de
substancial para dizer.
Não que
Montenegro seja fascista. Não é. É apenas incompetente e desesperado. Mas a
incompetência desesperada que recorre a nacionalismo barato para se legitimar
cria condições para que verdadeiros autoritários — esses sim, como Ventura — se
apresentem como alternativa credível.
E
assim vai Portugal. Quase ninguém bem, quase todos de mal a pior.
O
ridículo não mata. Mas a incompetência mata — mata esperanças, mata
perspetivas, mata a confiança de que é possível ter governantes à altura dos
problemas que o país enfrenta.
Montenegro
descobrirá, mais cedo do que imagina, que não basta cantar o hino. É preciso
governar. E governar exige competência, transparência, capacidade de prestar
contas, coragem para responder a perguntas incómodas.
Tudo
aquilo que ontem ficou claro que a este Governo falta por completo.
O
ridículo não mata. Mas expõe. E ontem, perante uma nação atónita, Montenegro
expôs-se completamente. Resta saber se ainda lhe resta alguma vergonha para
reconhecer o que todos já perceberam: que aquilo não foi conferência de
imprensa de um Governo que governa. Foi o canto do cisne de quem já sabe que
está a afundar-se e tenta disfarçar o naufrágio com hinos e bandeiras.
Não
resultará. Nunca resulta. Mas pelo menos ficará registado para a História: o
dia em que um primeiro-ministro português, incapaz de responder a jornalistas,
transformou uma conferência de imprensa em sessão de karaoke patriótico.

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