quarta-feira, 29 de abril de 2026

O ridículo que não mata (mas deveria)

 

Se o ridículo matasse, hoje teríamos acordado sem governo. Tão letais teriam sido as consequências da espalhafatosa conferência de imprensa de ontem para apresentar o dito PTRR que Montenegro, os seus ministros e toda a parafernália governamental teriam sucumbido ali mesmo, fulminados pelo peso da sua própria má figura.

Mas o ridículo não mata. Apenas humilha. E mesmo a humilhação parece já não ter efeito sobre quem perdeu há muito qualquer sentido de vergonha política.

A operação foi de propaganda primária, daquelas que insultam a inteligência de quem assiste. Montenegro apresentou como novidade aquilo que já fora anunciado tantas vezes desde os efeitos das tempestades de há dois meses. Prometeu apoios, proclamou investimentos, garantiu transformações. Tudo muito bonito em powerpoint, tudo muito convincente em slides bem desenhados, tudo muito impressionante em gráficos coloridos. E tudo completamente desligado da realidade que as pessoas vivem.

Porque na realidade — essa que não cabe em powerpoints nem se deixa impressionar por conferências de imprensa — não há nenhuns apoios efetivos às pessoas e às empresas para reerguerem as suas vidas. Os que perderam casas continuam sem saber como as reconstruir. Os que viram negócios destruídos continuam sem apoio concreto. Os que ficaram sem nada continuam com nada.

E as seguradoras fazem aquilo que muito bem sabem: rápidas a cobrarem os prémios dos seguros, especialistas em encontrar cláusulas que lhes permitem escusar-se a indemnizar os clientes quando estes se veem sinistrados

Montenegro promete milhões. As pessoas continuam a receber zeros. E a distância entre o que se anuncia em conferências de imprensa e o que se executa na realidade mede-se em anos-luz de incompetência e má-fé.

Mas o cúmulo da desfaçatez — aquilo que transformou conferência de imprensa em farsa inqualificável — foi Montenegro recusar-se a responder a qualquer pergunta dos jornalistas. Fez o discurso preparado, leu os papéis escritos pelos assessores, proclamou as maravilhas do PTRR. E depois, quando chegou o momento de responder a questões, de esclarecer dúvidas, de prestar contas — fugiu.

Chamou os ministros. E ali, perante jornalistas atónitos e uma nação que assistia incrédula, obrigou-os a cantar em coro o hino nacional.

Coisa nunca vista. Nunca. Em décadas de democracia portuguesa, em centenas de conferências de imprensa, em milhares de momentos de comunicação governamental — nunca se tinha visto tamanha instrumentalização patética de um símbolo nacional para fugir a perguntas incómodas.

É a expressão de um nacionalismo serôdio que, como bem se sabe desde Samuel Johnson, costuma ser o último refúgio dos canalhas. Quando não tens argumentos, agitas a bandeira. Quando não tens respostas, cantas o hino. Quando não tens competência para governar, escondes-te atrás de símbolos pátrios como se isso compensasse a tua mediocridade.

Montenegro não é o primeiro nem será o último a usar patriotismo barato para encobrir incompetência real. É tática antiga, testada, eficaz junto dos mais distraídos. Mas é também reveladora. Porque quando um primeiro-ministro precisa de transformar conferência de imprensa em número de circo, quando tem de obrigar ministros a cantar o hino para evitar responder a jornalistas, quando substitui prestação de contas por teatralização patriótica — é porque já não tem nada de substancial para dizer.


É patético. Mas é também perigoso. Porque este tipo de nacionalismo performativo — esse que substitui governação por símbolos, que troca políticas por folclore, que esconde incompetência atrás de pátria — é o mesmo que historicamente sempre antecedeu derivas autoritárias.

Não que Montenegro seja fascista. Não é. É apenas incompetente e desesperado. Mas a incompetência desesperada que recorre a nacionalismo barato para se legitimar cria condições para que verdadeiros autoritários — esses sim, como Ventura — se apresentem como alternativa credível.

E assim vai Portugal. Quase ninguém bem, quase todos de mal a pior.

O ridículo não mata. Mas a incompetência mata — mata esperanças, mata perspetivas, mata a confiança de que é possível ter governantes à altura dos problemas que o país enfrenta.

Montenegro descobrirá, mais cedo do que imagina, que não basta cantar o hino. É preciso governar. E governar exige competência, transparência, capacidade de prestar contas, coragem para responder a perguntas incómodas.

Tudo aquilo que ontem ficou claro que a este Governo falta por completo.

O ridículo não mata. Mas expõe. E ontem, perante uma nação atónita, Montenegro expôs-se completamente. Resta saber se ainda lhe resta alguma vergonha para reconhecer o que todos já perceberam: que aquilo não foi conferência de imprensa de um Governo que governa. Foi o canto do cisne de quem já sabe que está a afundar-se e tenta disfarçar o naufrágio com hinos e bandeiras.

Não resultará. Nunca resulta. Mas pelo menos ficará registado para a História: o dia em que um primeiro-ministro português, incapaz de responder a jornalistas, transformou uma conferência de imprensa em sessão de karaoke patriótico.

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