quarta-feira, 8 de abril de 2026

A China que vai lá muito à frente

 

O professor Arlindo Oliveira regressou recentemente de uma viagem por alguns países asiáticos e aterrou na Europa com a sensação de vir do futuro. Porque a aplicação da tecnologia no quotidiano dos cidadãos comuns, sobretudo na China, é tal que o nosso atraso tecnológico cresce abissalmente a cada ano que passa.

Diariamente leio e ouço opinadores que expressam o seu terror perante a ameaça chinesa. Não lhes faltam loas à nossa "democracia liberal" perante a perversidade da "ditadura comunista". Invocam os direitos humanos, a liberdade de expressão, a superioridade moral do Ocidente. E usam tudo isto para esconder uma verdade que os aterroriza: estamos a ficar para trás. Tecnologicamente, economicamente, infraestruturalmente — estamos a perder a corrida.

Mas, tal como vi quando por razões profissionais estive na China em estadias ora curtas, ora prolongadas por várias semanas, não faltam testemunhos como o do professor do Técnico: quem lá vai surpreende-se com a rapidez com que o futuro ali se vai materializando. Pagamentos digitais universais que tornaram o dinheiro físico obsoleto. Transportes públicos integrados com eficiência que as nossas cidades nem sonham alcançar. Infraestruturas de telecomunicações que fazem parecer primitivo o que temos na Europa. Aplicação massiva de inteligência artificial em serviços públicos, saúde, educação.

Isto não é propaganda do Partido Comunista Chinês. É constatação factual de quem lá esteve e viu. E levanta questões desconfortáveis que os nossos opinadores preferem ignorar.

Enquanto o nosso capitalismo serôdio nos vai conduzindo em lentíssima velocidade — eternamente adiando investimentos, privatizando lucros e socializando prejuízos, subfinanciando infraestruturas — a China avança a uma velocidade que nos deixa cada vez mais para trás. E ainda assim, trazendo consequências em desemprego decorrente da automação e da inteligência artificial que não parecem assustar tanto os chineses.

Porquê? Porque têm planeamento de longo prazo. Porque o Estado pode investir maciçamente sem depender de ciclos eleitorais de quatro anos. Porque a implementação tecnológica não fica refém de lobbies corporativos que lucram com a ineficiência. Porque há coordenação entre investigação académica, aplicação industrial e serviços públicos que no nosso sistema fragmentado e privatizado é impossível replicar.

Isto não significa que a China seja modelo a seguir acriticamente. O regime é autoritário, a vigilância é omnipresente, a repressão política é real. Mas fingir que estas limitações democráticas explicam ou justificam o nosso atraso tecnológico é exercício de autoilusão confortável.

A verdade desconfortável é que o nosso sistema — a “democracia liberal” combinada com capitalismo neoliberal — está a revelar-se incapaz de planear e executar investimento tecnológico à escala e velocidade necessárias para competir com economias que operam sob lógicas diferentes. E quanto mais tempo passarmos a cantar loas à nossa superioridade moral em vez de reconhecer a inferioridade executiva, mais irrecuperável se torna o fosso.

O professor Arlindo Oliveira voltou do futuro. E o futuro, pelos vistos, não fala a nossa língua nem partilha o nosso sistema político. Podemos continuar a fingir que a nossa “democracia liberal” nos salvará automaticamente. Ou podemos acordar para a realidade: estamos a ficar para trás, e rápido. E nenhuma quantidade de retórica sobre valores ocidentais mudará esse facto.

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