O
professor Arlindo Oliveira regressou recentemente de uma viagem por alguns
países asiáticos e aterrou na Europa com a sensação de vir do futuro. Porque a
aplicação da tecnologia no quotidiano dos cidadãos comuns, sobretudo na China,
é tal que o nosso atraso tecnológico cresce abissalmente a cada ano que passa.
Diariamente
leio e ouço opinadores que expressam o seu terror perante a ameaça chinesa. Não
lhes faltam loas à nossa "democracia liberal" perante a perversidade
da "ditadura comunista". Invocam os direitos humanos, a liberdade de
expressão, a superioridade moral do Ocidente. E usam tudo isto para esconder
uma verdade que os aterroriza: estamos a ficar para trás. Tecnologicamente,
economicamente, infraestruturalmente — estamos a perder a corrida.
Mas,
tal como vi quando por razões profissionais estive na China em estadias ora
curtas, ora prolongadas por várias semanas, não faltam testemunhos como o do
professor do Técnico: quem lá vai surpreende-se com a rapidez com que o futuro
ali se vai materializando. Pagamentos digitais universais que tornaram o
dinheiro físico obsoleto. Transportes públicos integrados com eficiência que as
nossas cidades nem sonham alcançar. Infraestruturas de telecomunicações que
fazem parecer primitivo o que temos na Europa. Aplicação massiva de
inteligência artificial em serviços públicos, saúde, educação.
Enquanto
o nosso capitalismo serôdio nos vai conduzindo em lentíssima velocidade —
eternamente adiando investimentos, privatizando lucros e socializando
prejuízos, subfinanciando infraestruturas — a China avança a uma velocidade que
nos deixa cada vez mais para trás. E ainda assim, trazendo consequências em
desemprego decorrente da automação e da inteligência artificial que não parecem
assustar tanto os chineses.
Porquê?
Porque têm planeamento de longo prazo. Porque o Estado pode investir
maciçamente sem depender de ciclos eleitorais de quatro anos. Porque a
implementação tecnológica não fica refém de lobbies corporativos que lucram com
a ineficiência. Porque há coordenação entre investigação académica, aplicação
industrial e serviços públicos que no nosso sistema fragmentado e privatizado é
impossível replicar.
Isto
não significa que a China seja modelo a seguir acriticamente. O regime é
autoritário, a vigilância é omnipresente, a repressão política é real. Mas
fingir que estas limitações democráticas explicam ou justificam o nosso atraso
tecnológico é exercício de autoilusão confortável.
A
verdade desconfortável é que o nosso sistema — a “democracia liberal” combinada
com capitalismo neoliberal — está a revelar-se incapaz de planear e executar
investimento tecnológico à escala e velocidade necessárias para competir com
economias que operam sob lógicas diferentes. E quanto mais tempo passarmos a
cantar loas à nossa superioridade moral em vez de reconhecer a inferioridade
executiva, mais irrecuperável se torna o fosso.
O
professor Arlindo Oliveira voltou do futuro. E o futuro, pelos vistos, não fala
a nossa língua nem partilha o nosso sistema político. Podemos continuar a
fingir que a nossa “democracia liberal” nos salvará automaticamente. Ou podemos
acordar para a realidade: estamos a ficar para trás, e rápido. E nenhuma
quantidade de retórica sobre valores ocidentais mudará esse facto.

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