A
reforma laboral está moribunda. Quase ninguém acredita na sua viabilização. E
os poucos que ainda fingem acreditar fazem-no por teimosia, por orgulho ferido,
por incapacidade de reconhecer a derrota que se avizinha.
Com
o chumbo da UGT — essa central sindical habitualmente tão disponível para
acordos com governos de direita — e a renitência do Chega — que adivinha
perfeitamente o quanto lhe custaria eleitoralmente apoiar a "reforma"
perante os que lhe chegaram a partir das esquerdas desiludidas — a teimosia da
ministra Rosário Palma Ramalho, acolitada na ambição maximalista do patrão da
CIP, parece destinada a resultar numa derrota significativa do Governo.
E
essa derrota tem um sabor particularmente doce. Porque representa o momento em
que Luís Montenegro e os seus lugares-tenentes começam finalmente a sentir na
pele que uma coisa foi chegarem ao poder, outra completamente diferente é
exercê-lo a seu bel-prazer.
A
reforma laboral — chamemos-lhe pelo nome real: destruição organizada de
direitos dos trabalhadores — nasceu da arrogância de quem se julgava intocável.
Montenegro chegou ao governo convencido de que podia fazer o que quisesse.
Tinha maioria relativa, tinha o Chega disponível para viabilizar o que fosse
preciso, tinha a comunicação social maioritariamente favorável, tinha o
patronato a empurrá-lo.
A
ministra Rosário Palma Ramalho, académica sem experiência política relevante
mas com ideias muito claras sobre o quanto os trabalhadores portugueses têm
demasiados direitos, apresentou um pacote legislativo que integrava o
pensamento mágico do patronato: facilitação de despedimentos, precarização do
vínculo laboral, redução de compensações, flexibilização de horários que na
prática significa disponibilidade total do trabalhador para as necessidades da
empresa.
O
presidente da CIP aplaudiu entusiasticamente. Era tudo o que sempre quisera e
mais alguma coisa. Esticava-se a corda ao máximo — não era só retirar alguns
direitos, mas refundar por completo a relação laboral numa lógica em que o
trabalhador é mercadoria descartável e o empregador senhor absoluto.
E
julgavam que a fragmentação sindical, a passividade social, o medo do
desemprego criariam as condições para impor o que quisessem. Enganaram-se.
A
greve geral foi o primeiro sinal de que tinham ido longe demais. A dimensão da
paralisação, a adesão transversal, a capacidade de mobilização que a CGTP
demonstrou — tudo isto revelou que havia limite para o que os trabalhadores
portugueses estavam dispostos a engolir.
Mas
Montenegro e Palma Ramalho fingiram não ver. Continuaram a insistir, a fazer
ajustes cosméticos ao pacote, a tentar vender como "diálogo social" o
que era imposição mal disfarçada. A CIP continuou a pressionar — não queria
menos do que tinha pedido inicialmente.
Depois veio o chumbo da UGT. E isto é particularmente revelador. A UGT, historicamente aliada dos governos de direita, disponível para acordos que a CGTP rejeita, moderada nas reivindicações e nos métodos — até a UGT disse não ao conjunto do pacote, à filosofia que o sustenta, à visão de relações laborais que representa. Quando até os teus amigos te abandonam, é porque foste verdadeiramente longe demais.
E depois há o Chega. Ventura descobriu
que não pode simplesmente votar tudo o que a direita propõe sem pagar custos
eleitorais. Uma parte significativa do seu eleitorado vem das esquerdas
desiludidas — trabalhadores precarizados, gente que perdeu fé no PS e no
sistema, pessoas que votam Chega não por ideologia fascista, mas por desespero
e raiva.
Se
Ventura aprovar uma reforma laboral que piora objetivamente as condições de
vida desses trabalhadores, como se explicará aos seus eleitores? Como
continuará a vender-se como defensor do "povo" contra as
"elites" se vota com o patronato contra os trabalhadores?
Ventura
não tem princípios — isso ficou abundantemente demonstrado. Mas tem instinto de
sobrevivência política. E o instinto diz-lhe que aprovar esta reforma seria
suicídio eleitoral. Daí a renitência, as hesitações, as exigências de
alterações que sabe que o Governo não pode aceitar sem esvaziar o pacote de
sentido.
É
cinismo puro. Ventura não se opõe à reforma porque defende os trabalhadores —
opõe-se porque obceca-o a preservação do seu eleitorado. Mas o resultado
prático é o mesmo: mais um voto que falta para fazer passar a legislação.
Montenegro
está encurralado. Não tem votos à direita — o Chega hesita, a IL quer mas não
basta. Não tem votos ao centro — o PS obviamente opõe-se. Não tem apoio
sindical — nem da CGTP nem da UGT. Não tem sequer consenso patronal — há
sectores empresariais que percebem que relações laborais demasiado conflituais
são más para os negócios.
E,
no entanto, continua a insistir, só agravando a derrota que se avizinha. Cada
dia que passa sem consenso é mais um dia em que fica claro que este Governo não
consegue aprovar aquilo que queria aprovar, não consegue impor aquilo que
queria impor, não tem a força que julgava ter.
Esta
não é apenas derrota de uma lei específica. É derrota de uma visão de
governação. Montenegro chegou ao poder julgando que podia governar como quem
gere uma empresa privada — decide no topo, executa abaixo, ignora oposição.
Está a descobrir que governar país democrático é outra coisa.
Exige
negociação. Exige compromisso. Exige capacidade de perceber quando se foi longe
demais e é preciso recuar. Exige humildade para reconhecer que há limites ao
que se pode impor mesmo quando se tem maioria parlamentar.
Montenegro
não tem nenhuma destas qualidades. É gestor tático habituado a cartadas de
curto prazo, não é estadista com visão de longo prazo. E está a pagar o preço
dessa limitação.
A
reforma laboral morrerá. Talvez não formalmente — talvez aprovem versão tão
mutilada que já não serve os objetivos iniciais. Talvez a adiem sine die,
fingindo que é para "aprofundar diálogo social". Talvez a retirem
discretamente, enterrando-a em alguma gaveta ministerial.
Mas
morrerá. E com ela morre um bocado da ilusão de Montenegro de que chegara ao
poder para fazer o que quisesse. Uma coisa foi lá chegar. Outra é exercê-lo.
Montenegro está a aprender a diferença. E a lição está a ser dolorosa.
Para
nós, que vemos os direitos laborais defendidos por resistência dos
trabalhadores, a lição é diferente: vale a pena lutar. Vale a pena fazer greve.
Vale a pena resistir.
Porque
às vezes — não sempre, mas às vezes — os poderosos recuam. E quando recuam, não
é por generosidade. É porque encontraram força que não esperavam, resistência
que não anteciparam, limites que julgavam não existir.
A
reforma laboral ensinou isso a Montenegro. E ensinou-nos a nós que ainda não
estamos tão derrotados quanto ele gostaria que estivéssemos.

Sem comentários:
Enviar um comentário