segunda-feira, 6 de abril de 2026

Um cowboy desorientado

 

Os fracassos acumulados por Trump no Irão lembram-me a opção que cedo fiz quando, em miúdo, via filmes ou séries de cowboys: tomava invariavelmente o partido dos índios. E isso coincidiu, felizmente, com o aparecimento de filmes vindos de Hollywood em que essa opção também começava a ser assumida — filmes que mostravam os nativos americanos não como selvagens unidimensionais, mas como povos com cultura, dignidade e razão para resistir aos invasores que lhes roubavam terras e vida.

A escolha das trincheiras de esquerda contra as da direita foi-me natural desde sempre por defender os humilhados e ofendidos do sistema capitalista contra os seus exploradores. Daí que, não tendo obviamente nenhuma simpatia pelo regime dos aiatolas — que é teocrático, repressivo e profundamente injusto para a sua população — me dê particular prazer as derrotas sucessivas que Trump vai acumulando na guerra, que começou por instigação dos genocidas sionistas.

Porque Trump é o poltrão arquetípico. Lembra aqueles miúdos corpulentos que, nas escolas, gostavam de dar tareias nos miúdos franganotes, cientes de não esperarem deles grandes capacidades de resistência. Escolhem sempre vítimas que julgam indefesas, atacam quando têm esmagadora superioridade numérica ou física, recuam sempre que encontram quem resista.

Dos iranianos, o ocupante conjuntural da Casa Branca está a descobrir uma realidade muito diferente da que sonhara. Pensou que seria como raptar Maduro — uma operação relâmpago, nenhuma resistência efetiva, vitória fácil para exibir aos apoiantes. Descobriu que o Irão não é a Venezuela empobrecida por anos de sanções. Tem capacidade militar real, mísseis que chegam a todo o território israelita, aliados regionais que podem multiplicar frentes de conflito, controlo sobre o Estreito de Ormuz que pode estrangular a economia global.

E quando Trump percebeu isto — quando lhe explicaram que atacar o Irão não seria passeio militar, mas guerra prolongada com custos humanos, económicos e políticos devastadores — fez o que os poltrões fazem sempre: anseia por recuar. Adiou. Procurou culpar outros. Pediu ajuda aos aliados que tinha insultado. E agora debate-se em palpos de aranha, preso numa guerra que começou, mas não sabe como terminar, descobrindo que afinal precisa de ajuda mas ninguém a quer dar.

É uma lição que a História ensina repetidamente, mas que os poltrões nunca aprendem: bater nos fracos não te torna forte. Apenas te expõe quando finalmente enfrentas quem dá o possível troco. 

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