sábado, 28 de março de 2026

André Ventura, o sodomita

Na apresentação pública da tradução do mais recente volume da sua monumental versão da Bíblia, o professor Frederico Lourenço abordou um tema pertinente: a adulteração sistemática dos textos originais por uma Igreja Católica apostada em impor a sua agenda ao longo da História da sua implantação.

O caso da destruição de Sodoma é paradigmático dessa manipulação. Durante séculos, a Igreja quis fazer crer que a cidade foi destruída por Deus devido às práticas sexuais dos seus habitantes — especificamente, a sodomia, termo que nem por acaso deriva do nome da cidade. A razão desta insistência era transparentemente instrumental: diabolizar práticas sexuais que limitavam o crescimento demográfico das hostes católicas. Mais fiéis, mais poder. Mais filhos, mais soldados de Cristo. A condenação moral da homossexualidade servia objetivos muito terrenos de expansão institucional.

Mas o texto rigorosamente vertido por Frederico Lourenço a partir do grego original conta história completamente diferente. Fala de anjos que chegaram a Sodoma para testarem o comportamento dos seus habitantes perante os estrangeiros, os diferentes, os que vinham de fora. E depararam com o ostracismo xenófobo de quem não tolerava essa presença, de quem via nos estrangeiros uma ameaça, de quem queria expulsá-los ou violentá-los pela simples razão de serem outros.

A condenação dos sodomitas resultava, afinal, não dos hábitos eventualmente praticados no recato da alcova — isso não interessava a Deus nem aos anjos — mas dessa atitude hostil para com quem vinha de fora ou vivia à margem dos seus usos e costumes. Sodoma foi destruída por xenofobia, não por homossexualidade. Foi punida pela recusa da hospitalidade, pelo ódio ao estrangeiro, pela violência contra os diferentes.

A Igreja adulterou esta mensagem durante séculos porque lhe convinha. Condenar a homossexualidade servia os seus interesses demográficos e de controlo social. Condenar a xenofobia — bem, isso seria inconveniente para uma instituição que tantas vezes praticou e legitimou a exclusão, a perseguição, a violência contra os que não se conformavam à sua norma.

Esta revelação de Frederico Lourenço — sustentada por rigor filológico impecável, não por agenda ideológica — tem consequências que vão muito para além da exegese bíblica. Tem consequências políticas imediatas e diretas.

Porque se a condenação de Sodoma foi motivada pela xenofobia e não pela homossexualidade, se o pecado dos sodomitas foi a hostilidade aos estrangeiros e não as suas práticas sexuais privadas, então temos de concluir o óbvio: na atual política lusa, André Ventura é biblicamente um ostensivo sodomita.

Ventura construiu toda a sua carreira política sobre a hostilidade aos estrangeiros. Os imigrantes são, no seu discurso, a fonte de todos os males: criminosos, parasitas, ameaça civilizacional. Quem vem de fora não merece hospitalidade — merece deportação, prisão, expulsão. Os ciganos, que vivem à margem dos costumes dominantes, não merecem integração — merecem ostracismo, perseguição, eliminação da vida pública.

É exactamente o comportamento que levou à destruição de Sodoma. É precisamente a atitude que os anjos vieram testar e que encontraram de forma tão flagrante que justificou o castigo divino. Ventura, pelos critérios bíblicos autênticos — não pelos adulterados pela Igreja ao longo dos séculos — é sodomita exemplar. Pratica o pecado de Sodoma na sua forma mais pura e mais condenável.

A ironia é deliciosa. Ventura, que tanto gosta de invocar a tradição cristã, que tanto apela aos "valores cristãos", que se apresenta como defensor da civilização judaico-cristã contra a "invasão" de estrangeiros, é afinal o protagonista perfeito do pecado que levou à destruição de Sodoma. Se os anjos viessem hoje testar Portugal, encontrariam em Ventura e nos seus seguidores exatamente aquilo que encontraram nos habitantes de Sodoma: ódio ao estrangeiro, recusa da hospitalidade, violência contra os diferentes.

E não é apenas Ventura. É toda a constelação política que se alimenta da xenofobia: os que querem fechar fronteiras, os que criminalizam a imigração, os que transformam o estrangeiro em bode expiatório, os que praticam a política do medo e do ódio ao outro. Todos eles, pelos critérios bíblicos autênticos, são sodomitas. Todos praticam o pecado que a Igreja passou séculos a esconder atrás de uma cortina de fumo sobre práticas sexuais.

Frederico Lourenço, ao restituir o texto bíblico à sua verdade original, fez mais do que trabalho filológico de excelência. Forneceu uma arma argumentativa poderosa contra aqueles que invocam a Bíblia para justificar precisamente aquilo que a Bíblia condena. Demonstrou que a mensagem autêntica das Escrituras não é a que a Igreja vendeu durante séculos, mas outra radicalmente diferente e politicamente inconveniente para os que se dizem seus defensores.

A Bíblia, afinal, não condena quem ama diferentemente. Condena quem odeia os diferentes. Não castiga práticas sexuais privadas. Castiga a violência pública contra estrangeiros. Não pune Sodoma pela homossexualidade, mas pela xenofobia.

E se aplicarmos este critério bíblico autêntico à política portuguesa contemporânea, a conclusão é inescapável: Ventura e os seus são os verdadeiros sodomitas. Não no sentido que a Igreja adulterou e impôs durante séculos, mas no sentido que o texto original sempre teve e que Frederico Lourenço finalmente restituiu.

Pode ser que os anjos não venham. Pode ser que não haja fogo celeste a destruir os xenófobos contemporâneos. Mas pelo menos agora sabemos, graças ao rigor filológico de um helenista português, que quando Ventura invoca os valores cristãos para justificar o seu ódio aos imigrantes, está a invocar precisamente aquilo que a Bíblia condena.

Sodoma foi destruída por gente como Ventura. E essa, convenhamos, é uma ironia que nenhuma adulteração eclesiástica conseguirá apagar.

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