sábado, 1 de agosto de 2026

Vidas Improváveis - IV. Nuno, o Almirante de Terra Firme


(Quarto de uma série de retratos à maneira de Woody Allen, em que a fantasia é apenas a continuação dos factos por outros meios.)

 

Nuno Melo sempre soube que nascera para comandar mares. O pormenor de ter feito carreira em Bruxelas, cidade tristemente desprovida de oceano, nunca o demoveu. Um homem de vocação naval não precisa de água — precisa de convicção, e dessa Nuno tem reservas estratégicas suficientes para abastecer uma esquadra.

Chegou a ministro da Defesa e descobriu, com deleite, que o cargo lhe permitia comprar navios. Não navios quaisquer: fragatas. A palavra sozinha já lhe enchia a boca de sal e de épica. Encomendou três, por 3,9 mil milhões de euros, com a serenidade de quem escolhe fruta ao domingo, e anunciou ao país que estas fragatas eram "um salto verdadeiramente transformador", aptas a "combater em conflitos de alta intensidade" — expressão que proferiu olhando o horizonte de Setúbal como se dele fosse surgir, a qualquer momento, a armada inimiga.

Porque Nuno vive num permanente estado de alerta geopolítico. "Não vivemos em Plutão, nem vivemos em Marte", advertiu, num rasgo de astronomia aplicada que deixou os presentes a confirmar, aliviados, que de facto se encontravam na Terra. O ministro combate ameaças que só ele vê, o que tem a vantagem de as tornar impossíveis de desmentir. Um homem que defende a pátria de perigos invisíveis nunca falha — porque o sucesso se mede pela ausência de um ataque que ninguém mais esperava.

Mas a obra-prima de Nuno não foram as fragatas. Foi a fiscalização das fragatas.

No Dia da Marinha, com a solenidade de quem inaugura uma catedral, proclamou ter criado "o mais ostensivo, o mais eficaz, o mais transparente mecanismo de fiscalização dos investimentos da defesa na história da democracia em Portugal". Convocou o Tribunal de Contas, a Procuradoria-Geral da República, os deputados. "Vistoriem, vejam à lupa tudo", bradou, generoso, oferecendo transparência a rodo como quem distribui rebuçados.

Houve só um pequeno contratempo. Quando se foi verificar, descobriu-se que nem o Tribunal de Contas nem a Procuradoria estavam, afinal, na tal comissão. Nuno explicou então, com a naturalidade de quem corrige uma gralha, que eles tinham o direito de lá estar — desde que escolhessem estar, o que era diferente de estarem, e que ele nunca dissera exatamente que estariam, apenas que poderiam vir a poder. A lupa existia. Faltava apenas alguém autorizado a segurá-la. Detalhe.

Os mais velhos coçaram a memória e recordaram um tal Paulo Portas, que anos atrás comprara submarinos por processos que nenhum tribunal conseguiu jamais fiscalizar até ao fundo. Nuno, herdeiro fiel da casa, aperfeiçoou o método: em vez de esconder as contas, oferece-as ostensivamente a quem não as pode ver. É a transparência levada ao seu paradoxo final — vidro tão espesso que ninguém consegue atravessar com o olhar.

Resta Olivença, claro. Porque Nuno, não contente em defender o mar, decidiu reabrir a questão da terra, reclamando para Portugal a vila que Espanha ocupa desde 1801. Os espanhóis, que têm exército, sorriram. Nuno interpretou o sorriso como recuo diplomático e considerou a batalha meio ganha.

Dizem que, à noite, o almirante de terra firme se debruça sobre mapas antigos e sonha com esquadras. De manhã, acorda ministro de um país com mais fragatas encomendadas do que marinheiros para as tripular, e mais mecanismos de fiscalização anunciados do que fiscais autorizados a usá-los. Mas Nuno não se aflige. Um homem que defende Portugal de Marte, de Plutão e da Espanha de 1801 tem, convenhamos, preocupações grandes demais para se deter em pormenores tão terrenos como as contas.