(Quarto de uma série de retratos à maneira de Woody Allen, em que a fantasia é apenas a continuação dos factos por outros meios.)
Nuno Melo
sempre soube que nascera para comandar mares. O pormenor de ter feito carreira
em Bruxelas, cidade tristemente desprovida de oceano, nunca o demoveu. Um homem
de vocação naval não precisa de água — precisa de convicção, e dessa Nuno tem
reservas estratégicas suficientes para abastecer uma esquadra.
Chegou a
ministro da Defesa e descobriu, com deleite, que o cargo lhe permitia comprar
navios. Não navios quaisquer: fragatas. A palavra sozinha já lhe enchia a boca
de sal e de épica. Encomendou três, por 3,9 mil milhões de euros, com a
serenidade de quem escolhe fruta ao domingo, e anunciou ao país que estas
fragatas eram "um salto verdadeiramente transformador", aptas a
"combater em conflitos de alta intensidade" — expressão que proferiu
olhando o horizonte de Setúbal como se dele fosse surgir, a qualquer momento, a
armada inimiga.
Porque
Nuno vive num permanente estado de alerta geopolítico. "Não vivemos em
Plutão, nem vivemos em Marte", advertiu, num rasgo de astronomia aplicada
que deixou os presentes a confirmar, aliviados, que de facto se encontravam na
Terra. O ministro combate ameaças que só ele vê, o que tem a vantagem de as
tornar impossíveis de desmentir. Um homem que defende a pátria de perigos
invisíveis nunca falha — porque o sucesso se mede pela ausência de um ataque
que ninguém mais esperava.
Mas a
obra-prima de Nuno não foram as fragatas. Foi a fiscalização das fragatas.
No Dia da
Marinha, com a solenidade de quem inaugura uma catedral, proclamou ter criado
"o mais ostensivo, o mais eficaz, o mais transparente mecanismo de
fiscalização dos investimentos da defesa na história da democracia em
Portugal". Convocou o Tribunal de Contas, a Procuradoria-Geral da
República, os deputados. "Vistoriem, vejam à lupa tudo", bradou,
generoso, oferecendo transparência a rodo como quem distribui rebuçados.
Houve só
um pequeno contratempo. Quando se foi verificar, descobriu-se que nem o
Tribunal de Contas nem a Procuradoria estavam, afinal, na tal comissão. Nuno
explicou então, com a naturalidade de quem corrige uma gralha, que eles tinham
o direito de lá estar — desde que escolhessem estar, o que era diferente
de estarem, e que ele nunca dissera exatamente que estariam, apenas que
poderiam vir a poder. A lupa existia. Faltava apenas alguém autorizado a
segurá-la. Detalhe.
Os mais
velhos coçaram a memória e recordaram um tal Paulo Portas, que anos atrás
comprara submarinos por processos que nenhum tribunal conseguiu jamais
fiscalizar até ao fundo. Nuno, herdeiro fiel da casa, aperfeiçoou o método: em
vez de esconder as contas, oferece-as ostensivamente a quem não as pode ver. É
a transparência levada ao seu paradoxo final — vidro tão espesso que ninguém
consegue atravessar com o olhar.
Resta
Olivença, claro. Porque Nuno, não contente em defender o mar, decidiu reabrir a
questão da terra, reclamando para Portugal a vila que Espanha ocupa desde 1801.
Os espanhóis, que têm exército, sorriram. Nuno interpretou o sorriso como recuo
diplomático e considerou a batalha meio ganha.
