domingo, 2 de agosto de 2026

Vidas Improváveis - V. Rui, o Fundador Perpétuo

 


(Quinto de uma série de retratos à maneira de Woody Allen, em que a realidade colabora de bom grado com a caricatura.)

 

Rui Tavares fez-se político da forma mais elegante que há: à boleia. Em 2009, o Bloco de Esquerda ofereceu-lhe um lugar de eurodeputado, na simpática qualidade de independente — essa figura curiosa que aceita o carro, o motorista e o destino, mas insiste que não pertence à viagem. Rui foi a Bruxelas pela mão de Francisco Louçã e, mal chegou, começou a jantar com ele "para lhe dizer umas verdades". É um traço de carácter: Rui gosta de dizer verdades a quem lhe paga o bilhete.

Dois anos depois, incompatibilizou-se com a casa que o elegera — as boleias, sabe-se, geram sempre discussões sobre quem escolhe a estação de rádio — e saiu para fundar coisa sua. Nasceu assim o Livre, partido cujo nome descreve, acima de tudo, a relação de Rui com qualquer estrutura que não tenha criado ele próprio.

O Livre foi concebido, no papel, como o mais horizontal dos partidos. Direção coletiva, primárias para tudo, líder nenhum, decisões partilhadas, poder difuso como perfume numa sala. Na prática, foi durante uma década aquilo a que os jornais, com crueldade botânica, chamaram "o partido de um homem só". A horizontalidade tinha uma particularidade geométrica: por mais que se estendesse em todas as direções, o centro levava sempre a Rui. Podia haver mil pontos na circunferência, mas o compasso era um.

Isto colocava a Rui um problema filosófico delicado. Como liderar um partido que, por princípio ideológico, não deve ter líder? A solução foi de uma subtileza admirável: não ser líder, ser fundador. O líder pode ser deposto, substituído, votado contra. O fundador é eterno, como as nascentes e os pecados originais. Rui compreendeu cedo que quem funda nunca tem de ser reeleito — está lá desde a origem, como a gravidade.

E porque nenhuma horizontalidade sobrevive à presença de um segundo homem alto, Rui geriu o pomar com mão de jardineiro cuidadoso: onde despontava uma árvore capaz de lhe fazer sombra, havia sempre uma primária, uma reorganização, uma nova porta-voz bicéfala que dividia por dois qualquer estatura emergente. O Livre teve muitos rostos ao lado de Rui. Nenhum ao mesmo nível. Era a democracia interna levada à perfeição: todos podiam subir, desde que não chegassem acima do fundador.

Em 2026, num gesto que os incautos tomaram por retirada, Rui deixou finalmente a liderança. O Livre passou a ser dirigido por outros, e os jornais escreveram que o homem só, enfim, se multiplicara. Mas Rui não saiu — recuou. Permaneceu na direção, na sombra fresca de onde as eminências pardas melhor operam, aquele lugar discreto de onde se continua a decidir sem o incómodo de ter de responder por isso. Deixou o palco e ficou com o teatro. É o sonho de todo o fundador: tornar-se invisível sem deixar de ser indispensável.

Dizem que, nas assembleias do partido, quando alguém pergunta quem decide, se instala um silêncio breve e todos os olhos deslizam, sem querer, para a cadeira recuada onde Rui sorri, ecológico e livre, tocando distraidamente o trombone que consta entre os seus interesses declarados. Porque um homem que fundou um partido para não ter chefe descobriu, ao fim de doze anos, a única forma de nunca ter nenhum: ser, para sempre e por baixo do pano, o chefe que oficialmente não existe.

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