Há vidas
que se contam por profissões, como se cada emprego fosse um capítulo. A de
Paulo Raimundo lê-se assim: carpinteiro, padeiro, animador cultural,
sindicalista, secretário-geral do PCP. Falta só uma linha, a mais dolorosa de
todas: a de já não saber a quem se dirige.
Fala aos
trabalhadores desde os vinte anos, com a fidelidade de quem nunca mudou de
tema, apenas o mundo se recusou a continuar a ouvi-lo pelo nome certo. Porque o
proletariado que Raimundo evoca — consciente de si, unido pela fábrica ou pela
lavoura, disposto à greve como quem cumpre um dever — foi substituído por uma
criatura nova, envergonhada da própria etiqueta. Já ninguém se apresenta como
trabalhador; apresentam-se como "colaboradores", palavra macia
inventada por quem lhes paga o suficiente para calarem a consciência de classe
e não o bastante para a dispensarem de todo.
É esta a
comédia amarga do seu ofício: discursar sobre exploração a uma audiência
distraída pelo futebol, entretida por religiões de conforto, esfomeada de
consumo e sem meio de o saciar. Raimundo sobe à tribuna com a mesma dicção de
sempre, e o público, esse, está algures entre o telemóvel e a prestação do
carro, a sonhar com bens que não pode comprar e a culpar, por indicação alheia,
não quem lhos nega, mas quem por acaso está ao lado na fila do subsídio.
Assim se
explica o desvio maior do século: o ressentimento que devia caber ao comunismo,
por ser este quem sempre nomeou o adversário certo, migrou para o Chega, que
não oferece luta nenhuma, apenas um culpado mais fácil de apontar — o
imigrante, o vizinho, o estranho. Raimundo continua a indicar o patrão; Ventura
aponta o pobre do lado. E ganha quem exige menos esforço interpretativo.
Há nele,
por isso, qualquer coisa de pescador em rio seco: lança a rede com a técnica
impecável de sempre, no sítio exato onde o peixe costumava passar, sem que o
rio tenha avisado que mudou de curso. Não é ingenuidade — é fidelidade a uma
cartografia que a realidade abandonou sem aviso prévio, deixando-o a discursar
num auditório cada vez mais vazio de proletários e cada vez mais cheio de gente
que jura não o ser.
Fica a
pergunta: quem explicará ao rebanho disperso, entre o jogo do domingo e a
igreja evangélica de quinta-feira, que a fome de posses que sentem tem nome,
tem causa e teve sempre quem a combatesse — sem exigir em troca a devoção que
hoje reservam a outros pastores, esses sim bem menos exigentes com a verdade?

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