(Sexto
de uma série de retratos à maneira de Woody Allen, em que os diplomas chegam
sempre atrasados e as certezas sempre a horas.)
Pedro
Passos Coelho entrou na Juventude Social-Democrata aos catorze anos, por causa
de um campeonato de cartas. É um pormenor que explica muito. Há homens que
chegam à política pela indignação, pela leitura, pela fome; Pedro chegou pelo
baralho, e conservou para sempre a convicção do jogador de que a vida é uma mão
que se blefa com cara séria.
Enquanto
os colegas se afadigavam com sebentas, Pedro dedicava-se ao essencial: o
partido, os cargos, a boémia de Coimbra. O curso de Economia, esse, foi um
projeto de longo prazo — muito longo prazo. Tão longo que o concluiu, na
Universidade Lusíada, já perto dos quarenta anos, idade a que a generalidade
dos economistas já publicou teses, criou filhos e desenvolveu úlceras. Pedro
desenvolveu, em vez disso, uma serena indiferença ao calendário académico. O
diploma esperaria por ele. E esperou, com a paciência que só os diplomas e os
credores muito confiantes conseguem ter.
Foi este
homem — o eterno aluno tardio, o campeão da recuperação de época perpétua — que
a vida decidiu, com o seu humor característico, transformar em professor. E não
um qualquer: em catedrático convidado, escalão de topo, a dar aulas a
mestrandos e doutorandos que tinham teses onde ele tinha, sobretudo,
experiência de vida partidária.
Foi então
que se deu o milagre da conversão. O aluno que levara duas décadas a passar
tornou-se o professor mais implacável do hemisfério. Na Lusíada, dos 135 alunos
que examinou, reprovou 115. Vinte positivas, cinco delas a rasar o dez. O homem
que fora indulgente consigo próprio durante uma vida inteira descobriu, na
cadeira do docente, uma severidade que jamais aplicara à própria pauta. É a
lógica secreta do convertido: ninguém persegue o pecado com mais fúria do que o
pecador reformado. Pedro reprovava nos alunos o estudante que ele próprio fora,
e fazia-o com o zelo de quem exorciza uma memória.
Da
austeridade, aliás, nunca abdicou. Aplicara-a ao país cortando reformas,
pensões e salários; aplicou-a depois aos estudantes cortando notas. Era
coerente. Onde outros veem crueldade, Pedro via pedagogia. Onde os reformados
viam a fome, Pedro via a inevitabilidade. Nunca lhe passou pela cabeça pedir
desculpa por nenhuma das duas coisas — pedir desculpa é para quem duvida, e
Pedro, desde o campeonato de cartas, nunca mais duvidou de nada.
O ódio
que os reformados lhe dedicaram foi de estimação, cultivado ao longo dos anos
com a fidelidade de quem rega uma planta. E o Partido Socialista, observando
aquele ódio abundante, cometeu o erro de o julgar combustível eterno. Pensou
que bastaria acenar com o espectro de Passos para governar até ao fim dos
tempos. "Lembram-se dele?", perguntavam, e o país estremecia, e os
votos caíam. Durante anos funcionou. Depois deixou de funcionar, porque até o
ódio, como os cursos de Pedro, tem prazo de conclusão — e o eleitorado,
ingrato, foi arranjar medos mais recentes.
Hoje
Pedro perora. Apresenta livros que os autores escreveram e sobre os quais ele
nem se dá ao trabalho de falar, preferindo usar o púlpito para dissertar sobre
as reformas de que o país precisa — reformas urgentes, estruturais, dolorosas,
sempre para os outros. Fá-lo com a autoridade tranquila de quem já governou e a
memória curta de como governou. Senta-se na primeira fila ao lado de quem lhe
convém, discursa uma hora, recebe o aplauso e regressa a casa, em Massamá,
satisfeito com a sua contribuição para o debate nacional.
Dizem
que, às vezes, olha para o próprio diploma na parede — aquele que tanto tardou
— e sente uma ponta de orgulho tardio. Levou quase quarenta anos a consegui-lo.
Mas, uma vez na mão, serviu-lhe para reprovar toda a gente. É, no fundo, a
única lição que Pedro verdadeiramente domina: a de que o mérito é uma coisa que
se exige aos outros depois de nos termos dispensado a nós próprios de o ter.

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