segunda-feira, 3 de agosto de 2026

Vidas Improváveis - VI. Pedro, o Aluno Tardio

 


(Sexto de uma série de retratos à maneira de Woody Allen, em que os diplomas chegam sempre atrasados e as certezas sempre a horas.)

 

Pedro Passos Coelho entrou na Juventude Social-Democrata aos catorze anos, por causa de um campeonato de cartas. É um pormenor que explica muito. Há homens que chegam à política pela indignação, pela leitura, pela fome; Pedro chegou pelo baralho, e conservou para sempre a convicção do jogador de que a vida é uma mão que se blefa com cara séria.

Enquanto os colegas se afadigavam com sebentas, Pedro dedicava-se ao essencial: o partido, os cargos, a boémia de Coimbra. O curso de Economia, esse, foi um projeto de longo prazo — muito longo prazo. Tão longo que o concluiu, na Universidade Lusíada, já perto dos quarenta anos, idade a que a generalidade dos economistas já publicou teses, criou filhos e desenvolveu úlceras. Pedro desenvolveu, em vez disso, uma serena indiferença ao calendário académico. O diploma esperaria por ele. E esperou, com a paciência que só os diplomas e os credores muito confiantes conseguem ter.

Foi este homem — o eterno aluno tardio, o campeão da recuperação de época perpétua — que a vida decidiu, com o seu humor característico, transformar em professor. E não um qualquer: em catedrático convidado, escalão de topo, a dar aulas a mestrandos e doutorandos que tinham teses onde ele tinha, sobretudo, experiência de vida partidária.

Foi então que se deu o milagre da conversão. O aluno que levara duas décadas a passar tornou-se o professor mais implacável do hemisfério. Na Lusíada, dos 135 alunos que examinou, reprovou 115. Vinte positivas, cinco delas a rasar o dez. O homem que fora indulgente consigo próprio durante uma vida inteira descobriu, na cadeira do docente, uma severidade que jamais aplicara à própria pauta. É a lógica secreta do convertido: ninguém persegue o pecado com mais fúria do que o pecador reformado. Pedro reprovava nos alunos o estudante que ele próprio fora, e fazia-o com o zelo de quem exorciza uma memória.

Da austeridade, aliás, nunca abdicou. Aplicara-a ao país cortando reformas, pensões e salários; aplicou-a depois aos estudantes cortando notas. Era coerente. Onde outros veem crueldade, Pedro via pedagogia. Onde os reformados viam a fome, Pedro via a inevitabilidade. Nunca lhe passou pela cabeça pedir desculpa por nenhuma das duas coisas — pedir desculpa é para quem duvida, e Pedro, desde o campeonato de cartas, nunca mais duvidou de nada.

O ódio que os reformados lhe dedicaram foi de estimação, cultivado ao longo dos anos com a fidelidade de quem rega uma planta. E o Partido Socialista, observando aquele ódio abundante, cometeu o erro de o julgar combustível eterno. Pensou que bastaria acenar com o espectro de Passos para governar até ao fim dos tempos. "Lembram-se dele?", perguntavam, e o país estremecia, e os votos caíam. Durante anos funcionou. Depois deixou de funcionar, porque até o ódio, como os cursos de Pedro, tem prazo de conclusão — e o eleitorado, ingrato, foi arranjar medos mais recentes.

Hoje Pedro perora. Apresenta livros que os autores escreveram e sobre os quais ele nem se dá ao trabalho de falar, preferindo usar o púlpito para dissertar sobre as reformas de que o país precisa — reformas urgentes, estruturais, dolorosas, sempre para os outros. Fá-lo com a autoridade tranquila de quem já governou e a memória curta de como governou. Senta-se na primeira fila ao lado de quem lhe convém, discursa uma hora, recebe o aplauso e regressa a casa, em Massamá, satisfeito com a sua contribuição para o debate nacional.

Dizem que, às vezes, olha para o próprio diploma na parede — aquele que tanto tardou — e sente uma ponta de orgulho tardio. Levou quase quarenta anos a consegui-lo. Mas, uma vez na mão, serviu-lhe para reprovar toda a gente. É, no fundo, a única lição que Pedro verdadeiramente domina: a de que o mérito é uma coisa que se exige aos outros depois de nos termos dispensado a nós próprios de o ter.

Sem comentários:

Enviar um comentário