(Décimo
oitavo de uma série de retratos à maneira de Woody Allen, em que se constata haver
quem melhor lembre Groucho Marx ).
Groucho
Marx dizia-o a rir, num filme, sabendo-se cómico: "Estes são os meus
princípios. Se não gostarem deles, tenho outros." Ventura di-lo a
sério, todos os dias, sem se dar conta de que a piada já estava feita há um
século — e que ele a repete sem pagar direitos de autor a ninguém, nem sequer a
si mesmo.
Aos vinte
e seis anos escreveu um romance sobre Arafat e o confronto entre o
"fundamentalismo" islâmico e o Ocidente, e a editora, invocando
ameaças nunca provadas por ninguém, adiou-lhe a apresentação para as calendas
gregas. Foi a primeira "perseguição" da carreira, e teve a vantagem
rara de ser fabricável por quem dela mais lucrava: um autor sem nome,
subitamente mártir de uma conspiração islâmica, sem ter escrito ainda uma linha
capaz de a merecer. Poucos estreantes têm a sorte de nascer perseguidos antes
de serem lidos.
Anos
depois, já doutorando, escreveu precisamente o oposto do que hoje vocifera: uma
tese que denunciava o "pânico social" do pós-terrorismo por
estigmatizar comunidades inteiras, e alertava para os efeitos
"prejudiciais a longo prazo" do securitarismo. Era o Ventura
humanista, o que os avaliadores exigiam para aprovar a nota — arrumou-o na
gaveta assim que percebeu haver eleitorado maior para o Ventura oposto. É
porventura o único autor português cuja obra mais lida é precisamente aquela de
que mais se envergonha.
Sobre
ciganos não escreveu tese nenhuma, poupou-se ao trabalho e preferiu a multa:
três mil trezentos e setenta euros por discriminação étnica, que se recusou a
pagar, alegando perseguição a um líder político — a mesma palavra
"perseguição" do livro de 2009, reciclada com a eficiência de quem já
sabe que funciona. Freud teria uma palavra pronta para quem projeta nos outros,
com tanta urgência, precisamente aquilo que mais teme reconhecer em si; Ventura
dispensa divãs, prefere palanques, onde a introspeção nunca é exigida e o
aplauso substitui sempre o diagnóstico.
Foi a
Washington na comitiva dos Patriotas pela Europa, não a convite pessoal de
Trump como Meloni, e a diferença notou-se com crueldade de pormenor: enquanto
os líderes verdadeiros festejavam em salões dourados, ele via a festa maior de
um quarto de hotel — primeiro português convidado, garantiu com orgulho, para
coisa nenhuma que verdadeiramente importasse.
Na
reforma laboral, executou a pirueta que os patrocinadores não perdoam a
ninguém: votou contra à última hora, não por convicção súbita, mas por farejar
a opinião maioritária do lado oposto, com o faro apurado de quem despreza o
eleitorado em privado e o adula em público. O mesmo homem que combate "os
tachos" com palavras aprova-os na prática sempre que são para os seus,
acumulando autarquias suficientes para saciar o apetite que jura não ter — um
jejum muito bem alimentado. Não durou a fidelidade dos convertidos: mal
cheiraram vida mais confortável, trocaram-no nalgumas grandes autarquias pelo
PSD, e ele ficou a gerir a sangria com o mesmo à-vontade circense com que gere
as próprias contradições, como quem troca de chapéu sem nunca sair do mesmo
espetáculo.
Fica o
retrato de um homem sem princípio nenhum que resista ao proveito seguinte — o
que Groucho fingiu em comédia, Ventura pratica em política todos os dias úteis,
com o agravante de tratar a plateia, sempre, como se fosse cega ao truque
repetido. A plateia, para desgraça coletiva, tem estado ultimamente mais
distraída do que cega.

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