(Décimo de uma série de retratos à
maneira de Woody Allen sobre quem sobra em ira o que lhe falta em notoriedade)
Há
políticos que se reconhecem de costas, só pela silhueta. Mariana Leitão não:
aparece na televisão, indignada, articulada e o país inteiro pergunta ao lado
do sofá quem é aquela senhora. É um mistério que a notoriedade recusa resolver,
por mais convenções que ganhe com 73% dos votos.
A
indignação, essa, nunca falta — é o seu registo permanente, a expressão fixa
que traz para qualquer plateia, câmara, microfone estendido. Falta-lhe só, por
vezes, a causa à altura do gesto, o que não a demove: indigna-se na mesma, com
a mesma convicção, à espera de que o país eventualmente reconheça o rosto antes
do brado.
Assim se
explica a cena do Marquês de Pombal, num 25 de Abril entre bandeiras vermelhas
e cravos: o partido de Leitão entoa "comunismo nunca mais" rodeado de
gente que ali está precisamente para celebrar a liberdade que o comunismo
ajudou a surgir. É um exercício de pontaria invertida — apontar ao fantasma
errado no funeral errado, indignar-se com o público trocado, como quem vai a um
casamento gritar contra o divórcio.
Também na
candidatura presidencial se repete o enredo da ausência. Foi escolhida por Rui
Rocha, anunciada ao país, candidata oficial da IL a Belém — até Cotrim de
Figueiredo, ex-líder saudoso do protagonismo, decidir que também lhe apetecia a
corrida. Leitão retirou-se sem drama visível, cedendo o lugar com a elegância
de quem já se habituara a ser substituível. Não houve queixa pública, nem
amargura declarada — apenas o vazio de mais uma vez o nome dela ceder ao de
outro, como se a notoriedade fosse um recurso finito, e a ela coubesse sempre a
fatia mais pequena.
Fica por
isso a personagem de contornos difíceis, quase de propósito: uma presidente de
partido que ninguém identifica na rua, indignada contra inimigos de outra
década, sedenta de protagonismos que nunca chegou a ocupar por inteiro. Nos
filmes de Woody Allen, seria a figurante ideal, a que aparece em todas as cenas
importantes sem que o público, à saída, se lembre do nome — e que continua,
ainda assim, a aparecer, com a dignidade tranquila de quem sabe que o
protagonismo pode nunca mais voltar.

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