domingo, 9 de agosto de 2026

Vidas Improváveis - XI. Luís, o Triturado por Ter Razão

 


(Décimo primeiro de uma série de retratos à maneira de Woody Allen, em que se tritura quem teve e tem colegas desejosos de o tramarem)

 

Chamam ao cargo "o triturador de ministros", e Luís Neves é já o terceiro a ocupá-lo neste governo, como quem sucede num posto amaldiçoado de tragédia grega, só que com menos coro e mais comissões de inquérito. Engana-se, porém, quem julga ser a pasta a moê-lo. O que o tritura tem nome mais preciso: ter razão em público, repetidamente, diante de gente que preferia vê-lo calado ou, na falta disso, distraído a explicar um atrelado.

Passou oito anos à frente da Judiciária a prender quem havia para prender — Rendeiro, uma célula de extrema-direita dirigida da prisão —, e a repetir, com dados em vez de vísceras, que imigração e criminalidade não são sinónimos. Fê-lo tantas vezes que o Chega passou a tratá-lo como tudo o que não pode desmentir: com uma comissão parlamentar de inquérito, esse instrumento maravilhoso que transforma qualquer incómodo político em espetáculo com direito a plateia e microfones.

Chegou a ministro por decisão rara de um governo que, por uma vez, escolheu quem lhe desmontava a narrativa em vez de quem lha reforçava. E os detratores, apanhados de surpresa, tiveram de reorganizar-se à pressa: já não podiam acusá-lo de branco demais com a imigração, restava-lhes escrutinar-lhe a vida com o zelo forense que nunca dedicaram a ninguém que lhes fosse ideologicamente simpático.

Foi aí que a imprensa descobriu o atrelado. Um atrelado, note-se, não um cofre suíço nem uma ilha nas Caraíbas — um atrelado, deslocado, e transformado em manchete com a mesma solenidade que se reservaria a uma fuga de capitais.

Seguiram-se as declarações de rendimentos em falta há sete anos, sem que o Constitucional se tivesse dado ao trabalho de notificar ninguém nesse tempo todo — a burocracia portuguesa, adormecida sete anos, acorda finalmente para render à ocasião política certa.

Descobriram depois o monte em Odemira, as obras por regularizar, os contratos de uma construtora de Barcelos e cada achado foi anunciado como quem desenterra um Watergate lusitano, quando na verdade desenterrava, quando muito, um vizinho descuidado com o IMI.

Dentro da própria Judiciária, os rivais internos afiam o ofício antigo de todo o aparelho: esperar, sorrir, e entregar aos “jornalistas” do costume o dossier à hora certa. Ninguém assina, todos sabem quem foi — é o desporto nacional dos corredores com crachá, praticado com mais disciplina do que qualquer investigação sobre crime organizado.

Fica o quadro completo: um homem que desmantelou redes de tráfico e células neonazis é agora escrutinado com o rigor que nunca se aplicou a quem espalha mentiras sobre estrangeiros — como se, em Portugal, o pecado maior não fosse mentir ao país, mas esquecer-se de estacionar um atrelado em sítio que agrade aos que o queriam ver cair por qualquer motivo, este importando bem menos do que a queda.

Sem comentários:

Enviar um comentário