(Décimo
primeiro de uma série de retratos à maneira de Woody Allen, em que se tritura
quem teve e tem colegas desejosos de o tramarem)
Chamam ao
cargo "o triturador de ministros", e Luís Neves é já o terceiro a
ocupá-lo neste governo, como quem sucede num posto amaldiçoado de tragédia
grega, só que com menos coro e mais comissões de inquérito. Engana-se, porém,
quem julga ser a pasta a moê-lo. O que o tritura tem nome mais preciso: ter
razão em público, repetidamente, diante de gente que preferia vê-lo calado ou,
na falta disso, distraído a explicar um atrelado.
Passou
oito anos à frente da Judiciária a prender quem havia para prender — Rendeiro,
uma célula de extrema-direita dirigida da prisão —, e a repetir, com dados em
vez de vísceras, que imigração e criminalidade não são sinónimos. Fê-lo tantas
vezes que o Chega passou a tratá-lo como tudo o que não pode desmentir: com uma
comissão parlamentar de inquérito, esse instrumento maravilhoso que transforma
qualquer incómodo político em espetáculo com direito a plateia e microfones.
Chegou a
ministro por decisão rara de um governo que, por uma vez, escolheu quem lhe
desmontava a narrativa em vez de quem lha reforçava. E os detratores, apanhados
de surpresa, tiveram de reorganizar-se à pressa: já não podiam acusá-lo de
branco demais com a imigração, restava-lhes escrutinar-lhe a vida com o zelo
forense que nunca dedicaram a ninguém que lhes fosse ideologicamente simpático.
Foi aí
que a imprensa descobriu o atrelado. Um atrelado, note-se, não um cofre suíço
nem uma ilha nas Caraíbas — um atrelado, deslocado, e transformado em manchete
com a mesma solenidade que se reservaria a uma fuga de capitais.
Seguiram-se
as declarações de rendimentos em falta há sete anos, sem que o Constitucional
se tivesse dado ao trabalho de notificar ninguém nesse tempo todo — a
burocracia portuguesa, adormecida sete anos, acorda finalmente para render à
ocasião política certa.
Descobriram
depois o monte em Odemira, as obras por regularizar, os contratos de uma
construtora de Barcelos e cada achado foi anunciado como quem desenterra um
Watergate lusitano, quando na verdade desenterrava, quando muito, um vizinho
descuidado com o IMI.
Dentro da
própria Judiciária, os rivais internos afiam o ofício antigo de todo o
aparelho: esperar, sorrir, e entregar aos “jornalistas” do costume o dossier à
hora certa. Ninguém assina, todos sabem quem foi — é o desporto nacional dos
corredores com crachá, praticado com mais disciplina do que qualquer
investigação sobre crime organizado.
Fica o
quadro completo: um homem que desmantelou redes de tráfico e células neonazis é
agora escrutinado com o rigor que nunca se aplicou a quem espalha mentiras
sobre estrangeiros — como se, em Portugal, o pecado maior não fosse mentir ao
país, mas esquecer-se de estacionar um atrelado em sítio que agrade aos que o
queriam ver cair por qualquer motivo, este importando bem menos do que a queda.

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