(Décimo
sexto de uma série de retratos à maneira de Woody Allen, em que se constata
quanto a arruaça e a mentira se misturam com os preconceitos evangélicos ).
Há
fotografias que valem por aquilo que anunciam sem precisarem de legenda. A
tirada em Sintra, no Palácio Valenças, é uma delas: Rita Matias ladeada de
deputadas do Chega, de uma deputada federal brasileira ligada ao clã Bolsonaro
e de dirigentes de fundações evangélicas, todas reunidas para lançar um
movimento de "mulheres conservadoras" contra o aborto e contra o
feminismo que lhes pariu, ironicamente, o direito de estar ali a discursar. É o
trumpismo com sotaque de missa, chegado a Portugal por via do Brasil, com a
data do batismo marcada para o final do ano.
Falta-lhe,
no entanto, a virtude mais básica de qualquer cruzada: a verdade do testemunho.
Em agosto, partilhou um vídeo de "imigrantes ilegais" a saltar de um
camião no Algarve — só que o camião nunca saiu de Essex, e os homens nunca
pisaram Portugal. Não foi lapso isolado, foi hábito: mentira inventada para
celebrar a "invasão" da Europa, coluna fantasma de cem mil migrantes
a caminho de Marrocos, tudo desmentido, mas repetido semanas depois com outro
rótulo, como quem tem fé inabalável na mentira mesmo depois dela ter sido
publicamente enterrada.
Também na
Faculdade de Letras a fé na exceção pessoal se revelou maior do que o respeito
pelas regras alheias: recusado o encontro com o diretor, Matias forçou a
entrada, exibiu o cartão de deputada como quem exibe uma relíquia sagrada, e
arrastou consigo uma colega de bancada para a mesma reprimenda. O Parlamento,
por ampla maioria, achou a cena "estranha ao exercício do mandato" —
eufemismo generoso para o que qualquer outro cidadão chamaria de arruaça com
credencial.
E porque
a devoção cristã, na versão parlamentar, nem sempre se traduz em caridade,
restou o episódio com Isabel Moreira, chamada "assassina" no plenário
por associação a abortos que a deputada socialista nunca praticou nem decretou
— insulto grave que valeu nova censura da Comissão de Transparência, a segunda
no mesmo mês, prova de que a régua moral que Matias aplica às outras raramente
regressa para se medir a si própria.
Fica o
retrato de uma missionária sem paróquia fixa, peregrina entre Sintra e o
Algarve, entre Essex e o hemiciclo, pregando verdades emprestadas com a mesma
convicção com que nega as mentiras próprias — como se a fé, para lhe servir de
escudo, dispensasse por completo o incómodo dos factos.

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