Há
catástrofes que já não surpreendem pela ocorrência, só pela frequência com que ocorrem.
No Nepal, o colapso de um glaciar junto à fronteira com o Tibete, na madrugada
de 26 de agosto, arrastou água, gelo e lama sobre aldeias inteiras do vale do
Himalaia: mais de trezentos mortos confirmados, mais de mil e trezentos
desaparecidos, comunidades apagadas do mapa em minutos. Os cientistas do USGS
mediram o impacto como quem mede um sismo — magnitude 5,2 —, prova de que a
montanha, ao desabar, já fala a linguagem dos terramotos.
Desta
vez, note-se a ausência: à exceção de um ou outro conspiracionista bacoco, não
apareceram negacionistas apressados a dissociar o desastre das alterações
climáticas, a inventar causas alternativas para consolo próprio. Talvez o
Himalaia, que aquece mais depressa do que a média global, já não deixe margem
confortável para a dúvida performativa. Os investigadores mantêm a cautela
científica de sempre, recusam atribuições apressadas a um evento isolado, mas
todos apontam para o mesmo padrão: glaciares que já não seguram o que seguravam
há uma geração.
Aqui bem
perto, o precedente já aconteceu numa aldeia suíça. Em maio de 2025, o glaciar
Birch desabou sobre Blatten, no vale de Lötschental, cantão do Valais, e
enterrou noventa por cento das casas sob milhões de metros cúbicos de rocha e
gelo. Só não houve mais mortos porque as autoridades, avisadas pelo avanço
acelerado do glaciar, tinham evacuado a aldeia dias antes; mesmo assim, um
pastor que ficara para trás não teve essa sorte. Os glaciólogos foram claros: o
degelo do permafrost, esse chão que se pensava eternamente gelado, deixou de
segurar a rocha que estabilizava a montanha há séculos.
E é aqui
que a tragédia deixa de ser notícia distante para se tornar geografia de
família. Portugal tem, no Valais e nos cantões vizinhos, milhares de emigrantes
que vivem, trabalham e criam filhos precisamente nos vales que o degelo do
permafrost está a tornar instáveis. Não é alarmismo gratuito presumir que
Blatten foi o primeiro aviso, não o único: os mesmos mecanismos que destruíram
uma aldeia continuam ativos noutras encostas, com outros nomes ainda por
anunciar.
Fica, por
isso, a contagem decrescente que o título anuncia — não como profecia
apocalíptica, mas como leitura sóbria de um padrão que se repete com frequência
crescente demais para ser coincidência.
O Nepal chorou os seus mortos esta semana; os vales suíços, esses, ainda têm tempo para adiar o luto, desde que alguém leve a sério o relógio que já está a correr.

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