domingo, 30 de agosto de 2026

Contagem Decrescente

 


Há catástrofes que já não surpreendem pela ocorrência, só pela frequência com que ocorrem. No Nepal, o colapso de um glaciar junto à fronteira com o Tibete, na madrugada de 26 de agosto, arrastou água, gelo e lama sobre aldeias inteiras do vale do Himalaia: mais de trezentos mortos confirmados, mais de mil e trezentos desaparecidos, comunidades apagadas do mapa em minutos. Os cientistas do USGS mediram o impacto como quem mede um sismo — magnitude 5,2 —, prova de que a montanha, ao desabar, já fala a linguagem dos terramotos.

Desta vez, note-se a ausência: à exceção de um ou outro conspiracionista bacoco, não apareceram negacionistas apressados a dissociar o desastre das alterações climáticas, a inventar causas alternativas para consolo próprio. Talvez o Himalaia, que aquece mais depressa do que a média global, já não deixe margem confortável para a dúvida performativa. Os investigadores mantêm a cautela científica de sempre, recusam atribuições apressadas a um evento isolado, mas todos apontam para o mesmo padrão: glaciares que já não seguram o que seguravam há uma geração.

Aqui bem perto, o precedente já aconteceu numa aldeia suíça. Em maio de 2025, o glaciar Birch desabou sobre Blatten, no vale de Lötschental, cantão do Valais, e enterrou noventa por cento das casas sob milhões de metros cúbicos de rocha e gelo. Só não houve mais mortos porque as autoridades, avisadas pelo avanço acelerado do glaciar, tinham evacuado a aldeia dias antes; mesmo assim, um pastor que ficara para trás não teve essa sorte. Os glaciólogos foram claros: o degelo do permafrost, esse chão que se pensava eternamente gelado, deixou de segurar a rocha que estabilizava a montanha há séculos.

E é aqui que a tragédia deixa de ser notícia distante para se tornar geografia de família. Portugal tem, no Valais e nos cantões vizinhos, milhares de emigrantes que vivem, trabalham e criam filhos precisamente nos vales que o degelo do permafrost está a tornar instáveis. Não é alarmismo gratuito presumir que Blatten foi o primeiro aviso, não o único: os mesmos mecanismos que destruíram uma aldeia continuam ativos noutras encostas, com outros nomes ainda por anunciar.

Fica, por isso, a contagem decrescente que o título anuncia — não como profecia apocalíptica, mas como leitura sóbria de um padrão que se repete com frequência crescente demais para ser coincidência.

O Nepal chorou os seus mortos esta semana; os vales suíços, esses, ainda têm tempo para adiar o luto, desde que alguém leve a sério o relógio que já está a correr.

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