Há
avanços que se apresentam como destino inevitável, e a inteligência artificial
gosta de se vestir assim: promessa de curas, de descobertas, de saltos que a
ciência sozinha levaria décadas a dar. O problema começa quando o destino
inevitável precisa de terreno, água e eletricidade em quantidades que nenhuma
comunidade real assinou autorizar.
Um artigo
do Público resume bem o preço miúdo desta grandeza: poluição
atmosférica, visual e sonora, falta de água, contas de energia mais pesadas, e
poucos empregos criados por uma indústria que passou os últimos anos a
garantir, com o mesmo entusiasmo, que a IA tornaria os trabalhadores
dispensáveis. Promete substituir quem trabalha e não promete, em troca, emprego
suficiente a quem fica.
É aqui
que a lógica democrática canónica — a que garante a um eleitorado o direito de
recusar o que lhe cai literalmente ao lado de casa — colide com uma tecnologia
que se apresenta como imparável por decreto de mercado. E é também aqui que o
destino inevitável tropeça no obstáculo mais banal de todos: ninguém quer um data
center por vizinho.
Nos
Estados Unidos, a colisão já tem números eleitorais. No Ohio, o candidato
democrata Sherrod Brown transformou o adversário republicano no "rosto dos
data centers", e o Comité Republicano do Senado admitiu, em memorando
interno, que o tema arrasta o partido para a derrota. No Texas, Greg Abbott
suspendeu ligações à rede elétrica para novos projetos, gesto impensável há um
ano num Estado que cortejava a indústria como troféu de crescimento. Por todo o
país multiplicam-se referendos para demitir autarcas que deram luz verde a
estes equipamentos, numa aliança improvável entre eleitores de Trump,
ambientalistas e gente que normalmente nunca vota em nada.
A ironia
maior é esta: os republicanos que hoje recuam fazem-no não por convicção mas
por medo de novembro, contra os mesmos oligarcas do sector que financiam Trump
e que este trata como parceiros naturais do seu projeto. A base revolta-se
antes da doutrina, o eleitorado local desmente o entusiasmo nacional, e o
capital descobre, incomodado, que a democracia ainda tem os mecanismos
rudimentares para travar o que decide sem lhe pedir licença.
Fica a
lição incómoda para quem só vê na IA progresso puro: talvez o primeiro travão a
uma tecnologia que promete reescrever o conhecimento não venha da filosofia nem
da regulação cuidada, mas do reflexo mais primário da política local — o de
recusar, sem grandes teorias, um vizinho que rouba a água, sobe a conta e nada
devolve em troca.

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