sábado, 29 de agosto de 2026

O vizinho incómodo

 


Há avanços que se apresentam como destino inevitável, e a inteligência artificial gosta de se vestir assim: promessa de curas, de descobertas, de saltos que a ciência sozinha levaria décadas a dar. O problema começa quando o destino inevitável precisa de terreno, água e eletricidade em quantidades que nenhuma comunidade real assinou autorizar.

Um artigo do Público resume bem o preço miúdo desta grandeza: poluição atmosférica, visual e sonora, falta de água, contas de energia mais pesadas, e poucos empregos criados por uma indústria que passou os últimos anos a garantir, com o mesmo entusiasmo, que a IA tornaria os trabalhadores dispensáveis. Promete substituir quem trabalha e não promete, em troca, emprego suficiente a quem fica.

É aqui que a lógica democrática canónica — a que garante a um eleitorado o direito de recusar o que lhe cai literalmente ao lado de casa — colide com uma tecnologia que se apresenta como imparável por decreto de mercado. E é também aqui que o destino inevitável tropeça no obstáculo mais banal de todos: ninguém quer um data center por vizinho.

Nos Estados Unidos, a colisão já tem números eleitorais. No Ohio, o candidato democrata Sherrod Brown transformou o adversário republicano no "rosto dos data centers", e o Comité Republicano do Senado admitiu, em memorando interno, que o tema arrasta o partido para a derrota. No Texas, Greg Abbott suspendeu ligações à rede elétrica para novos projetos, gesto impensável há um ano num Estado que cortejava a indústria como troféu de crescimento. Por todo o país multiplicam-se referendos para demitir autarcas que deram luz verde a estes equipamentos, numa aliança improvável entre eleitores de Trump, ambientalistas e gente que normalmente nunca vota em nada.

A ironia maior é esta: os republicanos que hoje recuam fazem-no não por convicção mas por medo de novembro, contra os mesmos oligarcas do sector que financiam Trump e que este trata como parceiros naturais do seu projeto. A base revolta-se antes da doutrina, o eleitorado local desmente o entusiasmo nacional, e o capital descobre, incomodado, que a democracia ainda tem os mecanismos rudimentares para travar o que decide sem lhe pedir licença.

Fica a lição incómoda para quem só vê na IA progresso puro: talvez o primeiro travão a uma tecnologia que promete reescrever o conhecimento não venha da filosofia nem da regulação cuidada, mas do reflexo mais primário da política local — o de recusar, sem grandes teorias, um vizinho que rouba a água, sobe a conta e nada devolve em troca.

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