Há homens
a quem a razão nunca chega a tempo. José Luís Carneiro é um deles, e a culpa
não é da razão.
Passou
pelo Ministério da Administração Interna com a descrição de quem arruma uma
gaveta enquanto a casa arde ao lado. Geriu incêndios, policias descontentes, até
uma cimeira de juventude papal sem que Portugal reparasse verdadeiramente na
sua presença. Fez tudo certo. É esse o problema.
Porque a
competência de Carneiro tem a textura do papel químico: regista tudo, mas
ninguém guarda a cópia. Enquanto outros erram com estrondo e ficam célebres
pelo estrondo, ele acerta em silêncio e fica esquecido pelo silêncio. Há uma
injustiça cósmica nisto, à qual ele próprio não reage — limita-se a anotá-la,
discretamente, num caderno que ninguém lê.
Candidatou-se
à liderança do PS demasiado cedo para ninguém notar, e perdeu para um homem com
o dobro do carisma e metade da paciência. Pedro Nuno Santos tinha o projeto de
país; Carneiro tinha as atas das reuniões preparatórias. Perdeu, sentou-se,
esperou. A espera, aliás, é a sua disciplina olímpica: se houvesse medalha para
persistência sem aplauso, teria armário cheio.
Quando
Pedro Nuno Santos caiu — porque os homens com projeto de país tendem a cair de
alturas maiores —, restava a liderança do PS como um lugar vago numa festa a
que ninguém quer ir buscar o casaco. Carneiro foi e vestiu-o. Ninguém festejou,
mas também ninguém se opôs: é este o segredo do seu triunfo, conquistar por
ausência de concorrência, como quem ganha a lotaria por ser o único a comprar
bilhete.
Reza a
lenda — e Carneiro nunca a desmentiu, por excesso de educação — que passa as
noites a rever discursos alheios à procura da frase que o tornaria memorável, e
que a encontra sempre, mas tarde de mais, já o jornalista foi para casa. Há
quem garanta tê-lo visto, em Baião, a ensaiar entoações de indignação em frente
ao espelho, sem nunca conseguir a de Sócrates nem o desprezo de Passos. Sai-lhe
sempre um tom de quem pede desculpa por estar certo.
E no
entanto está certo, quase sempre. Sobre Montenegro, sobre Neves, sobre o
desgaste dos casos e casinhos — tem razão, tem sempre razão, com a mesma
pontualidade britânica com que a razão o ignora de volta. Talvez seja este o
seu destino final: morrer com toda a razão do mundo e nenhuma testemunha a
validá-la, suplente eterno da própria biografia, à espera de que alguém repare
que estava, desde sempre, certo.

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