terça-feira, 4 de agosto de 2026

Vidas Improváveis - VII. José Luís, o Suplente Eterno

 


Há homens a quem a razão nunca chega a tempo. José Luís Carneiro é um deles, e a culpa não é da razão.

Passou pelo Ministério da Administração Interna com a descrição de quem arruma uma gaveta enquanto a casa arde ao lado. Geriu incêndios, policias descontentes, até uma cimeira de juventude papal sem que Portugal reparasse verdadeiramente na sua presença. Fez tudo certo. É esse o problema.

Porque a competência de Carneiro tem a textura do papel químico: regista tudo, mas ninguém guarda a cópia. Enquanto outros erram com estrondo e ficam célebres pelo estrondo, ele acerta em silêncio e fica esquecido pelo silêncio. Há uma injustiça cósmica nisto, à qual ele próprio não reage — limita-se a anotá-la, discretamente, num caderno que ninguém lê.

Candidatou-se à liderança do PS demasiado cedo para ninguém notar, e perdeu para um homem com o dobro do carisma e metade da paciência. Pedro Nuno Santos tinha o projeto de país; Carneiro tinha as atas das reuniões preparatórias. Perdeu, sentou-se, esperou. A espera, aliás, é a sua disciplina olímpica: se houvesse medalha para persistência sem aplauso, teria armário cheio.

Quando Pedro Nuno Santos caiu — porque os homens com projeto de país tendem a cair de alturas maiores —, restava a liderança do PS como um lugar vago numa festa a que ninguém quer ir buscar o casaco. Carneiro foi e vestiu-o. Ninguém festejou, mas também ninguém se opôs: é este o segredo do seu triunfo, conquistar por ausência de concorrência, como quem ganha a lotaria por ser o único a comprar bilhete.

Reza a lenda — e Carneiro nunca a desmentiu, por excesso de educação — que passa as noites a rever discursos alheios à procura da frase que o tornaria memorável, e que a encontra sempre, mas tarde de mais, já o jornalista foi para casa. Há quem garanta tê-lo visto, em Baião, a ensaiar entoações de indignação em frente ao espelho, sem nunca conseguir a de Sócrates nem o desprezo de Passos. Sai-lhe sempre um tom de quem pede desculpa por estar certo.

E no entanto está certo, quase sempre. Sobre Montenegro, sobre Neves, sobre o desgaste dos casos e casinhos — tem razão, tem sempre razão, com a mesma pontualidade britânica com que a razão o ignora de volta. Talvez seja este o seu destino final: morrer com toda a razão do mundo e nenhuma testemunha a validá-la, suplente eterno da própria biografia, à espera de que alguém repare que estava, desde sempre, certo.

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